domingo, 31 de maio de 2009

Domingo

Um domingo inspirado, porque no sábado teve La Strada (1954), primeiro grande filme de Federico Fellini, numa sessão inesquecível lá na Galeria Olido, na Avenida São João, pouco antes da Ipiranga, no centro de São Paulo, bem ao lado do Bar Brahma e do Ponto Chic.

O filme é, antes de mais nada, música.


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A menina que toca a melodia no trompete é Gelsomina, interpretada por Giuletta Masina, esposa de Fellini. O personagem mal-encarado, que dá mais importância a seu prato de comida que à música de Gelsomina é Zampanó, interpretado com maestria por Anthony Quinn. A música, que traspassa e transcende o filme, ora levada pelo equilibrista interpretado por Richard Basehart, depois incorporada por Gelsomina e finalmente cantada pela senhora que pendura roupas na cena final do filme, é obra de Nino Rota, um dos maiores compositores italianos de todo o século XX. Nino Rota foi o compositor da trilha musical de dois outros filmes seminais da história do cinema: Rocco e seus Irmãos (Rocco e i suoi Fratelli, 1960, Luchino Visconti) e O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972 e 1974, Francis Ford Coppola).

Para começar junho com a corda toda. Vamo que vamo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

De resenhas e práticas

Já me perguntaram, mais de uma vez, porque só escrevo resenhas elogiosas no Blog. Ouço muita coisa ruim no dia a dia, é claro. Também tem filmes horrorosos. Mas não perco meu tempo com estes. As (poucas) resenhas de discos, shows, cinema ou teatro que aqui publico são todas elogiosas simplesmente porque só perco meu tempo escrevendo sobre coisas boas.

De coisa ruim o mundo artístico está cheio. Nas artes e na crítica de arte. Tem muito pilantra se aproveitando do passado para escrever coluna em jornal. Muito ex-cineasta, ex-artista plástico, ex-produtor cultural enchendo páginas e páginas com inutilidades. Na cultura também estamos fartos de coisa ruim. É só acompanhar o colunista de rodapé das quartas-feiras do caderno cultural da Folha para saber do que estou falando: o colunista é horrível e o objeto a que analisa, os artistas, são todos péssimos. E não estou generalizando, basta seguir os links que sugeri nesse parágrafo que vocês (leitores deste Blog) entenderão o que digo.

Tem muita barbeiragem sendo feita na economia, muita má fé na política, disputas sujas no Judiciário, conflitos étnicos e religiosos no Oriente Médio, acirramento bélico na Ásia e uma baita crise econômica mundial. Tudo isso é (largamente) trabalhado aqui no Blog e, ao menos para mim, já é suficiente para suprir a cota de análises e relfexões sobre atos humanos ruins.

Dito isso...

... faço uma pré-resenha de um curta-metragem que não vejo a hora de assistir. Como ainda não assisti, considero uma pré-resenha, uma vez que minhas anotações e expectativas acerca do objeto analisado podem ou não serem cumpridas.

Trata-se do documentário "Nós somos um Poema", da dupla Sergio Sbragia e Beth Formaggini. O documentário gira em torno da parceria entre o eterno poeta das palavras Vinícius de Moraes e de nosso maior poeta musical, Pixinguinha.

O mito que recobre esta parceria é dos mais incríveis de nossa música popular. E, por isso, aguardo com enorme ansiedade o documentário.

Entre o final de 1962 e o início de 1963, o cineasta Alex Viany - que foi um dos primeiros brasileiros à se envolver com teoria do cinema - resolveu unir Vinicius e Pixinguinha para formarem a trilha sonora de seu filme "Sol Sobre a Lama". Não foi propriamente ideia do Viany, diga-se. Mas seu desejo casou simpaticamente com o anseio dos dois compositores de unirem poesias naquele momento.

Uniram-se, pois.

A gravação da trilha sonora de um filme, nos idos dos anos 60, nada tem a ver com a trilha sonora de um filme hoje. Agora, há uma miscelânea de músicas - normalmente, pop - que servem às diferentes cenas, que depois são empacotadas e vendidas em forma de disco (nem isso mais, com o advento da internet). Esse modelo hegemônico de trilhas sonoras foi totalmente importado dos Estados Unidos a partir da segunda metade dos anos 70, tendo um boom com o liberalismo americano dos 80.

Por aqui a gravadora Som Livre fez muito disso ao lançar em LP, e posteriormente em CD, as trilhas sonoras de novelas exibidas na televisão.

Mas até aquele momento, início dos anos 60, o negócio era outro. Os cineastas exibiam cenas decupadas, algumas já montadas, em sessões fechadas aos artistas, que compunham inspirados nas imagens e, por vezes, no roteiro. Era normal isso.

Só as sessões de gravação do "Sol Sobre a Lama" de Alex Viany foram cobertas de causos. E não apenas pela mágica união do poeta com Pixinguinha.

Durante o processo, quatro cantoras iniciantes se apresentaram para fazer coro e mesmo liderar algumas canções vocais. Mais tarde, as quatro se chamariam Quarteto em Cy.

Uma das atrizes do filme de Viany era Gessy Gessi. Assim que a viu, Vinicius se apaixonou. Se casaram pouco depois. Gessy foi uma das nove esposas da vida de Vinicius de Moraes.

E finalmente, o filme contou com uma valsa linda, chamada Seule, cantada em francês por uma namorada de Baden Powell, um dos maiores violonistas da música brasileira. Pouco depois, Baden e Vinicius se uniriam para compor os afro-sambas, cruciais na evolução musical nacional, compostos a partir de 1965.

Isso tudo sem entrar nos méritos do filme de Viany, que não é o alvo do documentário de Sergio Sbragia e Beth Formaggini. Sobre a produção do filme, vale a pena ler o divertido e analítico texto do André Setaro.

Assim que conseguir assistir ao "Nós Somos um Poema", coloco uma resenha aqui. Mas só se eu gostar ;D

O fim da Gazeta Mercantil...?

A edição que sai hoje do jornal Gazeta Mercantil pode ter sido a última. O jornal foi fundado em 1920 e chegou a ser o maior jornal de economia do Brasil, nas décadas de 70 e 80. Desde o fim da década de 90 vive problemas financeiros, com dívidas trabalhistas acumuladas. Trocou de dono em 2003 e o atual controlador avisou que vai largar o barco a partir de segunda-feira, 01 de junho.

Como o jornal não circula aos fins de semana, a edição de hoje, feita ontem, pode ter sido a última.

Mais informações: aqui, aqui e por aqui também.

De Luiz Antonio Magalhães: "É possível que a Gazeta Mercantil não feche as portas no dia 1º de junho, mas a verdade é que nunca esta situação esteve tão perto de se concretizar. Se deixar de circular na próxima segunda-feira, cada dia sem jornal nas bancas (e nas mãos dos assinantes) representará uma dificuldade a mais para o jornal se reerguer". A íntegra do artigo está no Observatório da Imprensa.

O IOF sobre o investidor estrangeiro

A área econômica do governo federal está certa de baixar nova medida: voltará a cobrar IOF nas aplicações em títulos públicos por investidores externos. A ideia é usar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para segurar a queda na cotação do real - que está beirando a barreira dos R$ 2,00 por dólar - e, ainda, aproveitar a arrecadação extra.

Já era hora.

O Brasil tem uma das maiores taxas do mundo (por mais de quinze anos foi campeão mundial no quesito). Nossas contas são fortes, nossa situação interna é estável e nossa taxa de câmbio está sempre apta a se valorizar. Esse cenário é tudo de bom para o investidor (especulador) financeiro: lucro na certa. E, como se não bastasse isso tudo, desde 2006 o Brasil deixou de cobrar Imposto de Renda sobre o lucro que o investidor internacional obtinha após aplicação em título público. Já não cobrava IOF. A situação estava boa demais, uma vez que, mesmo com toda a farra promovida pelos juros altos, ao menos os investidores nacionais recolhiam imposto.

Agora não está tão fácil ganhar dinheiro. Está mais ou menos fácil.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A aventura dos sons misturados


Nossa, essa do Caderno 2 da edição de hoje do Estadão foi genial: um produtor suiço descobriu uma gravação master, sem qualquer informação, do gênio do trompete, Dizzy Gillespie. Foi atrás de quem poderia tê-lo acompanhado naquele som, misto do jazz que Dizzy fazia nos anos 50 e 60 (o bebop) com o samba afro-brasileiro e matou a dúvida. Tratava-se do registro de uma seção única que juntou Dizzy Gillespie e o Trio Mocotó (aquele mesmo, que acompanhava o Jorge Ben) num estúdio em São Paulo, em agosto de 1974.
O resultado é maravilhoso. As fitas, que ficaram esquecidas por 35 anos, demonstram uma mistura pouco usual entre sons e ritmos razoavelmente complementares. Dizzy Gillespie era um gênio do trompete e do jazz bebop e os caras do Trio Mocotó estavam com a corda toda, reverenciados no país inteiro pelos arranjos de acompanhamento do samba-festa do Jorge Ben, que já era o xodó do Brasil naquele ano de 74, plena ditadura militar, no período de troca de Médici para Geisel.

Para ouvir esse achado maravilhoso, basta clicar aqui

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A burrada dos livros didáticos de SP

Na semana passada uma reportagem da Folha registrou que a Secretaria da Educação do governo do Estado de São Paulo distribuiu livros didáticos a alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa etária de nove anos) contendo palavrões.


O governador José Serra reconheceu o erro na distribuição dos 1.216 exemplares e determinou o recolhimento das obras. Para ler a reportagem clique aqui.


Muita coisa pode ser dita sobre esse caso. Os aspectos político-midiático são os mais evidentes. Imagine, caro leitor, se, por exemplo, fosse alguém do PT o chefe do governo que fez essa burrada. Imagine o que faria a revista Veja com uma história dessas. Apenas lembrando aquela famigerada capa da revista, de uns dois anos atrás, que dizia "O PT emburrece o Brasil?", dá para imaginar o carnaval que seria feito.


Enfim, muito poderia ser dito sobre esse caso. Mas vou me ater a uma charge, que é auto explicativa desse exemplo de gestão pública eficiente.



A charge é de Claudio Oliveira, do jornal Agora São Paulo, e foi arranjada no A Volta dos que não foram

***

E como se não bastasse o erro gerencial na escolha dos livros didáticos, há uma decisão francamente policialesca do governo paulista de estimular a figura do dedo-duro na lei anti-fumo aprovada à pouco por Serra. As pessoas serão incentivadas pelo "civismo" e pela "moralidade" a dedurar quem ousar quebrar a lei. Não acredita? Veja aqui e aqui.

Atualização de 01/06/2009, às 11:32

O cineasta Jorge Furtado deu seu pitaco sobre essa discussão. Achei relevante e, por isso, trago para o post, por evidenciar uma critica que divido quanto ao posicionamento ideológico da esquerda: o do moralismo exacerbado.

Por Jorge Furtado (aqui)
"Não engulo esta onda moralista sobre a suposta “pornografia” dos textos dos livros didáticos paulistas. Já li um abobado chamando Manoel de Barros de pornográfico, cruzes.
Episódio semelhante aconteceu em Porto Alegre, na primeira prefeitura petista, que apoiou a publicação de uma excelente revista em quadrinhos (Dum-Dum) e levou pau da direita que julgava a revista indecente.
Agora é a esquerda que bate em Serra por causa de uma frase de um poema de um livro “não ame, estupre”. Não li o livro mas me parece que o contexto da frase era o da ironia. Frases pinçadas de Hamlet ou Macbeth podem parecem pornografia ou incitação ao crime.
Este discurso moralista é assustador, é o que a esquerda tem de pior."

terça-feira, 26 de maio de 2009

O controle do Ipea

Na sua edição de segunda-feira, o Estadão publicou editorial que trata de tema batido: "O controle do Ipea". No editorial, o jornal traz todos os preceitos enraizados em ideologia. Trata-se disso: ideologia pura e simples.


Demonstro abaixo como funciona esse jogo, com comentários meus reforçados em vermelho.

O Estado de S.Paulo
OPINIÃO
O controle do Ipea

Com a conclusão do concurso para a contratação de 62 técnicos de planejamento e pesquisa e mais 18 funcionários estáveis - o maior de toda a história da instituição -, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avança mais no processo de "padronização ideológica" iniciado quando passou do Ministério do Planejamento para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, chefiada pelo ministro Roberto Mangabeira Unger. É o que mostra o levantamento feito pela repórter Julia Duailibi do currículo dos aprovados no concurso, publicado há dias pelo Estado.


Aqui é apresentada a tese que será defendida ao longo do editorial: a de que o Ipea passa por uma "padronização ideológica". Acompanhem com atenção porque o que virá pela frente é justamente o que o jornal critica: ideologia.

A "padronização ideológica" do Ipea vem sendo denunciada pelos pesquisadores independentes e pela imprensa desde abril de 2007, quando a instituição passou para a Secretaria criada especificamente para abrigar, no governo do PT,o polêmico filósofo Mangabeira Unger, que pouco antes chegara a pedir o impeachment do presidente da República.
Logo no segundo parágrafo dois apontamentos. Um deles é sofisma, o outro ideologia pura. O sofisma está em dizer que "pesquisadores independentes" denunciaram a "padronização ideológica" do Ipea. Os pesquisadores independentes têm RG, telefone e pensamento político e, surpresa, são todos afinados com o pensamento ortodoxo de economia. Ou seja, criticam o Ipea porque hoje ele dá mais atenção a seus rivais políticos. Não são nem de longe "pesquisadores independentes", mas parte interessada no assunto. Desbaratado o sofisma vamos à ideologia. Quando o jornal separa entre vírgulas "no governo do PT" está, obviamente, caracterizando que a tal da "padronização ideológica" se dá "no governo do PT". Isso nunca aconteceria com o PSDB, faz crer uma leitura tendenciosa. Sutil, mas ideológico.


Ela se intensificou com a nomeação, em agosto daquele ano, do economista Márcio Pochmann para a presidência da instituição. Uma das primeiras decisões da nova diretoria foi suspender a publicação da Carta de Conjuntura, que publicava análises isentas dos problemas conjunturais baseadas em dados do conhecimento geral, pois esse tipo de análise poderia criar constrangimentos para o governo, visto que, naquele momento, havia pressões inflacionárias fortes. Em seguida, a diretoria determinou o afastamento de quatro dos mais respeitados pesquisadores, mas críticos da política do PT.
Peraí, pressões inflacionárias?! Em 2007?!? Só se foi na Turquia. Fechamos 2006 com 3,1% de inflação e 2007 com 4,5%. Essa é a "pressão inflacionária" a que o Estadão se refere? Imagine então nos tempos gloriosos de Maílson da Nóbrega quando a inflação batia nos 95% mensais o que diria o jornal: "apocalipse inflacionário". O engraçado é que o Maílson é um dos "pesquisadores independentes" que criticam a tal da "padronização ideológica". Imaginem o Ipea na mão do homem!


Reconhecido até há pouco como um dos mais importantes centros de discussão e de formulação de políticas públicas e respeitado pela diversidade de pensamento de seus pesquisadores e pelos trabalhos que publicou desde sua criação em 1964, o Ipea foi transformado num centro de legitimação das políticas do grupo mais estatizante do PT. Para isso, sua diretoria vem reduzindo o espaço para a divulgação do trabalho dos pesquisadores que discordam da visão desse grupo petista.
Isso não é inteiramente verdade, o jornal sabe disso. O Ipea continua sendo "um dos mais importantes centros de discussão e de formulação de políticas públicas", tanto é que muitos trabalhos dão partida a discussões e análises sérias no governo e fora dele, na mídia inclusive. Há sim certa legitimação das políticas do governo, mas a diversidade permanece lá.
No início, o governo Lula respeitou o Ipea. No primeiro concurso na gestão do governo Lula para a contratação de pesquisadores - realizado em 2004, quando o Ipea era presidido por Glauco Arbix -, por exemplo, dos 44 aprovados, 26 tinham pós-graduação em economia. Dez candidatos eram pós-graduados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela PUC-RJ, instituições criticadas por boa parte dos economistas de linha "desenvolvimentista" do PT - entre os quais Pochmann -, que as considera neoliberais e responsáveis pela formulação das principais políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Apenas um era pós-graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da qual o atual presidente é professor e na qual fez seu doutorado. No concurso mais recente, dos 62 aprovados, apenas 21 têm pós-graduação em economia. Dos pós-graduados em economia, não há nenhum da FGV e apenas um da PUC-RJ, mas nada menos do que 10 são originários da Unicamp. Considerados todos os pós-graduados aprovados (as áreas de conhecimentos vão da
economia à ciência política e à química), a Unicamp volta a predominar, com 12 candidatos, seguida pela Universidade de São Paulo (com 8) e universidades estrangeiras (com 7). A diferença em relação ao concurso anterior é notável.
Inacreditável! O jornal critica a "padronização ideológica" mas para isso faz exatamente a mesma coisa! Diz que antes tinham muitos aprovados da FGV e da PUC-RJ e que isso era bom. Agora, há mais aprovados da Unicamp, e isso é ruim. PeloamordeDeusamado! A ideologia corre solta aí. Sabem porque a PUC-RJ é considerada tão boa pelo Estadão? Acompanhem uma rápida lista, formada pela memória deste blogueiro, de quem é professor na PUC-RJ: Ilan Goldfajn, Gustavo Franco, Marcelo de Paiva Abreu, José Márcio A. G. de Camargo, Rogério Ladeira Furquim Werneck e Afonso Sant'Anna Bevilaqua. Todos antenados com a ortodoxia do monetarismo e livre-cambismo na economia, fora que grande parte deles é (ou foi) colunista do jornal. Mas isso é coincidência.


O lançamento do concurso, em setembro, foi motivo de muitas críticas, inclusive de pesquisadores do Ipea, pois os critérios então apresentados indicavam a busca de "padronização ideológica", o que os resultados finais parecem confirmar. Para, como alegou a direção na época, "mudar o perfil" dos pesquisadores, o Ipea criou sete áreas de especialização.

A prova - elaborada pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos, ligado à Fundação Universidade de Brasília e que se encontra sob fiscalização e auditoria do Ministério Público Federal e da Controladoria-Geral da União - tinha perguntas sobre comércio legal de veneno de cobra e sobre cavalos marinhos, na especialidade de sustentabilidade ambiental. No geral, foi considerada de nível baixo, sem a exigência de nenhum conhecimento aprofundado, de acordo com o professor de economia da PUC-RJ Joaquim Guilhoto. Na sua opinião, "foi uma prova muito rasteira".
As críticas quanto ao concurso são um pouco mais procedentes, uma vez que a prova foi considerada como mais simples que a média. O que não deixa de ser curioso se perguntar: se ela estava mais fácil, porque é então que o pessoal bonzão da PUC-RJ ficou de fora? Padronização ideológica não parece ser a resposta correta.

O terceiro mandato e o interessado intrometido



A história de permitir um terceiro mandato ao presidente Lula vem causando bafafá, como era de se esperar, é claro, em todo o meio político-midiático. Existem dois grupos de parlamentares que giram em torno de duas propostas acerca disso:

1) O primeiro grupo segue a proposta que prevê a possibilidade de um terceiro mandato, tornando constitucional uma terceira candidatura de Lula à presidência, nas eleições de 2010.

2) O segundo grupo defende a prorrogação por mais dois anos dos atuais mandatos de presidente, governadores, deputados e senadores.

Sobre isso, o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes disse o seguinte:

"Acho extremamente difícil fazer essa compatibilização com o princípio republicano. As duas medidas têm muitas características de casuísmo e, por isso, vejo que elas dificilmente serão referendadas ou ratificadas pelo STF."

Ou seja, Mendes diz que a primeira proposta é incompatível com o princípio republicano, e a segunda é casuística. E já adianta: elas dificilmente serão referendadas pelo Supremo.

Legal que nada disso foi problema em 1997, quando o Congresso de então aprovou a medida que alterava a Constituição e autorizava o então presidente Fernando Henrique Cardoso à disputar um segundo mandato. Até aquele ano aquilo era proibido - portanto, era incompatível com o princípio republicano - e a emenda também foi casuística, uma vez que todos os governadores e prefeitos no poder adoraram a nova ideia e, por isso, apoiaram.

Meu médico receitou exercitar a memória porque assim retardo o envelhecimento cerebral e ajudo na agilidade do pensamento. Então, e apenas por isso, gostaria de lembrá-los do seguinte: no governo FHC, o advogado-geral da União era Gilmar Mendes. No apagar das luzes (não confundir com o apagão de 2001) do governo FHC, em 2002, Gilmar Mendes foi escolhido para ser ministro do STF.

Mas isso é coincidência, evidentemente.

Como magistrado experiente, ministro do Supremo a sete anos, Gilmar Mendes deveria saber que ele pode ter a opinião que quiser sobre o que for, mas deve se pronunciar apenas nos autos - ao menos em assuntos que são de sua alçada jurídica. Ou seja, se ele quiser falar abertamente que acredita numa vitória do Vasco amanhã, ele está livre. Mas dar palpite sobre temas que, oportunamente, poderão recair em votação pelo plenário do STF, Gilmar Mendes está antecipando julgamento.

E antecipar voto em questões da República é algo altamente incompatível. Para não dizer casuístico.
***
Este artigo foi também publicado no Óleo do Diabo. Para ler por lá, clique aqui.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

É hoje

Caros,

Ocorre hoje o debate sobre Jornalismo e crise econômica mundial, parte da Semana de Jornalismo de 2009, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo (SP). Começa às 19 horas, na sala-auditório 239 do prédio novo da PUC. Estão todos convidados. É de graça.

O que:
Crise Econômica e a mídia

Quem:
Luis Nassif, jornalista, titular do blog Luis Nassif Online
Antônio Corrêa de Lacerda, economista, professor-doutor do Departamento de Economia da PUC-SP, conselheiro da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização)
Paulo Totti, jornalista, repórter especial do jornal Valor Econômico

Mediadores:
Hamilton Octávio de Souza, chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP
João Villaverde, estudante de Jornalismo pela PUC-SP, membro do Centro Acadêmico Benevides Paixão, e titular deste blog que vos fala.

Quando:
Hoje, das 19hrs às 23hrs

Onde:
Auditório - Sala 239 - Prédio Novo da PUC, entre as ruas Ministro de Godoy e Monte Alegre

domingo, 24 de maio de 2009

Domingo

"Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios. Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que além das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza. Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso. Peço parcimônia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”
Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto. Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um gardne introitopara a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz doInferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar latenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQpor toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Mnha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR,VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo músicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte."

Zé Rodrix, músico e compositor, em texto de 2004. Zé Rodrix faleceu esta semana, na madrugada de sexta-feira.


Sá, Rodrix & Guarabyra - Sobradinho (ao vivo)

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O homem chega já desfaz a natureza
tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
o São Francisco la pra cima da Bahia diz que dia menos dia vai sumir bem devagar
e passo a passo vai comprindo a professia do
beato que dizia que o sertão ia alagar

o sertão vai virar mar, dá no coração
o medo que algum dia o mar também vire sertão

Adeus remanso, casa nova, Sento-Séa
deus pilão Arcado vem o rio te engolir
debaixo d'água la se vai a vida inteira
por cima da cachoeira o gaiola vai subir
vai ter barragem no salto do Sobradinho
o povo vai-se embora com medo de se afogar

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Frase da semana que termina

"O povo vai aplaudir a ideia de terceiro mandato, já que Lula não está fazendo um mau governo e que tem altíssima aprovação."

De Vitor Penido, deputado federal pelo DEM de Minas Gerais.

Não, não se trata de uma piadinha de sexta-feira. O deputado que disse isso pertence mesmo ao DEM.

Não sei se destaco com tanta ênfase o fato do autor dessa frase ser filiado ao DEM devido ao excesso de barbeiragem política a que estamos acostumados a ver oriundos da oposição, ou se acredito que o deputado está jogando politicamente, aguardando afagos (leia-se, cargos) do governo, ou ainda essa ideia de permitir terceiro mandato.

Seja o que for, foram apenas péssimas razões que motivaram este blogueiro a chamar atenção para a frase e o autor da mesma.

O combate aos torturadores

"A lei diz que se alguém for preso debaixo d'água persistentemente, até o momento em que essa pessoa considera estar se afogando, ou simplesmente torturada em diferentes maneiras, as pessoas responsáveis, que mandaram fazer ou que fizeram, devem ser presas, acusadas, julgadas e mandadas para a cadeia. E mesmo que, digamos, 40% do país considera justo quebrar a lei, eles devem ao menos se resignar em ver os que quebraram pagar pelo que fizeram. Não consigo ver isso como um debate de direita/esquerda. Aliás, não consigo ver isso como um debate em si."

Quem diz isso é John Cusack, ator e também blogueiro do Huffington Post.

Cusack se refere às práticas de tortura realizadas pelos militares norte-americanos durante o governo George W. Bush (2001-2009). Como se sabe, a tortura foi uma prática institucional do governo anterior. Fazia parte da estratégia de guerra do grupo que cercava o presidente, desde o vice-presidente Dick Cheney, até os comandantes de operações militares, passando pelo estrategista chefe, Donald Rumsfeld. Todos eram mandantes e tinham amplo conhecimento do que era (é?) feito com os prisioneiros de guerra no Iraque e no Afeganistão.

Os prisioneiros de guerra, como se sabe, são, em sua maioria, civis que nada tem a ver com os "terroristas" procurados pelos militares americanos. A arte de prender, isolar, torturar e assassinar inocentes, em sua maioria, fazia parte de uma estratégia maior: vencer pelo medo.

Uma coalizão de grupos e organizações de lutas pelos direitos humanos lançaram, no último 22 de abril, um apelo ao novo presidente americano, Barack Obama, para que este estabeleça uma comissão de inquérito para examinar e divulgar publicamente o uso de tortura por parte dos Estados Unidos no período iniciado em 11 de setembro de 2001. O texto diz:

"Afogamento. Lançado contra paredes. Intensa dor corporal.
Os Estados Unidos torturam detentos após 11 de setembro de 2001. Faça valer que isso não se repita. Contacte o presidente para criar uma comissão não-partidária para investigar a tortura e o abuso de detentos."

A petição pode ser lida integralmente no endereço: http://commissiononaccountability.org/ ou clicando aqui.

E, ao que parece, Barack Obama sinaliza favoravelmente à abertura de documentos da era medieval.

A questão das fotos no combate aos torturadores

A polêmica da semana nos Estados Unidos é quanto ao veto de Obama na liberação e divulgação das imagens de tortura praticadas por militares americanos contra suspeitos de terrorismo. Do lado republicano revanchista, querem a divulgação e aproveitam para dar uma espetada no governo democrata, acusando-o de desonrar promessa eleitoral, de que seria transparente em todos os pontos.

Neste sentido, tendo a concordar com a atitude de Obama. Transparência é uma coisa, segurança é outra. Nas guerras irracionais em que estão metidos há centenas de milhares de militares. O ódio contra os americanos é inigualável, muito devido às práticas dos anos Bush. Liberar imagens de tortura neste momento é contraproducente. Elas devem ser liberadas para o mundo todo ver, mas apenas após Obama cumprir outra promessa: retirar os soldados da cagada em que se meteram no Oriente Médio.

Obama, ontem: "Eu concorri para presidente pela transparência, e eu mantenho minha palavra. E a razão é que, sempre que possível, minha administração vai disponibilizar todas as informações para os americanos para que eles podem fazer seus juízos e nos fiscalizar. Mas eu nunca disse - e nunca direi - que nossas mais sensíveis questões de segurança devem, simplesmente, ser um livro aberto."

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Intimidação de juíza - o caso Márcia Cunha

"Nunca vi um juiz ser tão absurdamente perseguido só porque decidiu contra interesse de parte".

Quem diz é Rogério Oliveira, desembargador da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça (TJ) do Rio de Janeiro. O caso a que ele se refere é mais um da epopeia Daniel Dantas.

Anos atrás, o banco Opportunity entrou com um pedido de ação de tutela antecipada na 2ª Vara Empresarial do Rio, onde o banco tem sede. O pedido foi acolhido pela juíza Márcia Cunha de Carvalho, que, após analisar o pedido, decidiu não acolher.

Como se sabe, os juízes tem independência prevista pela Constituição e são a autoridade responsável para deliberar sobre os casos que lhes dizem respeito. Para reformar uma decisão judicial, existem os tribunais de instâncias superiores e suas corregedorias, além do próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O Opportunity não entendeu dessa maneira.

Mas a intimidação não começou ali. Foi mais perspicaz e disfarçada. Começou antes, assim que o banco descobriu que seria ela quem julgaria seu pedido na 2ª Vara Empresarial.

No fim de 2004 ela assumiu a 2ª Vara Empresarial do Rio. Em fevereiro ou março de 2005, afirma, seu marido, Sérgio Antonio de Carvalho, foi procurado por um homem que lhe teria convidado para trabalhar no grupo de Dantas. "A proposta financeira era extremamente vantajosa", narra a juíza. Seu marido lhe disse que "era dinheiro para ficar rico". Sérgio não aceitou a proposta.Ela constatou que havia dois processos sobre o Opportunity em curso na 2ª Vara. Uma demanda "era de extrema importância para o Opportunity, uma vez que como resultado poderia ser tirado do controle das empresas que haviam sido adquiridas pelo consórcio formado pelo Opportunity por um fundo nacional e um fundo estrangeiro".

Ao retornar de viagem a Nova York "começou o inferno". Uma
das empresas de Dantas ajuizou exceção de suspeição contra ela, ofensiva rejeitada pela 8ª Câmara Cível. A juíza assinala que o grupo de Dantas a fustigou com representações e reclamações sucessivas. Apresentaram quatro laudos periciais "que indicavam que a antecipação de tutela não era de sua autoria intelectual". Ela contratou um perito. Ele atestou que a decisão foi elaborada "a partir do lap top da depoente".Um dossiê apócrifo começou a ser espalhado no Rio, atribuindo-lhe a compra de um apartamento de luxo em Ipanema. Estranhos rondavam o edifício onde reside. Um homem fez imagens do prédio. O Tribunal de Justiça providenciou segurança pessoal para Marcia. A escolta foi retirada durante um "período de calmaria". Quando o misterioso motociclista a abordou em Santa Teresa, ela caminhava só pelo bairro. Fez ocorrência na 14ª Delegacia. Afirmou que "as ameaças começaram após ter prolatado a decisão contra o Opportunity, do qual Daniel Dantas é o controlador".
(íntegra aqui)

Márcia se afastou do caso devido ao excesso de pressão do Opportunity sobre ela. Quando se afastou, já respondia a um processo por calúnia, dois inquéritos, um civil e um penal, ação por improbidade e processo no Órgão Especial do TJ - arquivado por 16 votos a 4 -, além das exceções de suspeição.

As coisas começaram a mudar com a Satiagraha.

A partir dali, e especialmente após o juiz Fausto De Sanctis imputar condenação à Daniel Dantas (fundador do Opportunity), o caso de Márcia Cunha começou a ter desfecho diferente.

Poucos dias após a decisão de De Sanctis, ainda em dezembro do ano passado, o juiz Alessandro Oliveira Felix, da 51ª Vara Cível, condenou o Opportunity ao reconhecer perseguição à juíza e sua família de "forma vil e ardilosa".

Ontem, o Tribunal de Justiça do Rio decidiu aumentar em R$ 200 mil o valor de indenização por danos morais a ser paga pelo Opportunity Equity Partners Administradora de Recursos Ltda., do Grupo Opportunity, à juíza Márcia Cunha.

São muitas as disputas deflagradas no Judiciário após a Satiagraha. As diferentes relações do Opportunity - e de seu fundador - com tribunais e agentes do Direito começam a tomar outro rumo e, aos poucos, vão arrumando um enorme quebra cabeça que vivia desmontado.

Olho aberto em quem insiste em misturar as peças do jogo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Descobrindo a rasgueira do Barbeiro

Passei a última semana só ouvindo coisa linda. Aos poucos vou soltando comentários sobre cada disco, conforme a correria do dia a dia vai permitindo escrever. Mas como a semana começou com choro no domingo, nada mais justo, portanto, manter a coerência e começar resenhando chorinho.

O Zé Barbeiro soltou um disco que é um primor só. Chama-se "Segura a Bucha!". Trata-se de um manifesto renitente em nome do choro. O chorinho do Zé Barbeiro tem tudo da nossa raiz mais linda, lá do século XIX ainda, quando o Brasil era um recém nascido, e mostra com toda a pompa o estilo musical que é mãe do ritmado único e universalesco, que é percebido no século XX em estilos diversos, desde o samba-canção até o romântico do norte, com os cantores arriscando boleros regionais nos anos 20 e 30.

O que se sente ouvindo canções como "No Baixo de Minha Modéstia", com seu choro simples, meio sincopado até, e em "Minha Primeira Vez", mais tradicional, com as cordas puxando e dançando juntos, criando a letra na cabeça, enfim, o que se sente é um profundo conhecimento em forma de manifesto pela tradição, sem, no entanto, ser conservador, mas antes (e acima de tudo) respeitoso ao que já foi construído no passado. O passado está vivo em todas as composições do novo Zé Barbeiro - um exemplo de como a coisa funciona bem é na ambígua "Chorâmbulo", que começa correndo, registra as notas simbilantes em torno de uma melodia meio apressada, e termina devagarinho, como que puxando a melodia que corria no início.

E para além do respeito e conhecimento ao passado do choro, ouvindo as composições com calma é possível perceber uma característica muito peculiar do Zé Barbeiro: seu violão de sete cordas bem demarcado, que contrói e descontrói a música sem nunca desrespeitar a melodia, que é soberana, ao mesmo tempo em que deixa o caminho livre para o solista da vez. Um exemplo disso no disco em questão é a faixa título, que traz o violão marcando a melodia enquanto a flauta faz seu solo - ajudados pelo ritmo, mais próximo do samba, que também é percebido na bela "Respira Fundo".

O melhor detalhe do disco inteiro, que ajuda a completar a compreensão da obra como um todo, é o fato de que "Segurando a Bucha" se trata do primeiro disco de Zé Barbeiro. Conheci quase que sem querer, procurando um disco antigo do Gudin na internet - que ainda não encontrei - acabei topando com uma chamada para este do Zé Barbeiro na capa do site Rádio UOL. Quando parei para ouvir foi um descobrimento só. O dia virou outro.

É engraçado encontrar o que não estava procurando, ou ao menos, não estava conscientemente procurando naquele instante. Porque um amante de música, no fundo, está sempre procurando por coisas desse tipo.

Em nome da boa música - e das boas maneiras - divido o novo do Zé Barbeiro > aqui < Para ouvir as músicas basta clicar sobre os nomes das composições.

A internet nas eleições de 2010

A democratização da informação e do debate de ideias promovido pela internet é algo histórico e o fenômeno é conhecido. Já existem teses acadêmicas, grupos de estudo e mesmo empresas especializadas no assunto.

No começo do ano passado estudei um pouco como essa democratização toda, ampliando o acesso à informações sem precisar da anuência (ou benevolência, ou simplesmente chancela) dos meios de comunicação tradicional, que antes eram os detentores por excelência da informação - desde o fato em si, até a maneira como era abordado e transmitido. A internet alterou a produção, a forma de distribuição e a maneira como ela é recebida pelos leitores - novos e antigos.

Cheguei a escrever sobre isso em fevereiro de 2008, no blog antigo. (Trouxe dois artigos para este Blog - Parte 1 e Parte 2 - é também possível checar nos arquivos antigos do Blog, na seção à esquerda desta página).

Os blogs levaram o desenvolvimento dessa nova interface para rumos praticamente revolucionários. Com acesso à internet, é possível ter acesso à diferentes notícias, cruzar informações, ler análises e opiniões de todo o tipo e interagir com elas, seja por meio dos comentários diretos ao produtor do conteúdo - o blogueiro - seja até se tornando um blogueiro. Forma-se uma rede de debates, que se auto influenciam, criando pólos opinativos que podem ser levados, de um lado a outro, para todo tipo de debates. Isso é fortemente perceptivo no campo da política, especialmente a política interna.

O momento da virada para os blogs, o "turning point", se deu durante as eleições presidenciais de 2004 nos Estados Unidos. O pré-candidato democrata, Howard Dean, lançou um blog autônomo, com uma equipe de ponta, que atualizava constantemente, promovendo discussões sobre todo tipo de propostas - do candidato, dos outros pré-candidatos democratas e dos republicanos. Os leitores formavam grupos de discussões, interagindo com o candidato por meio do blog, que se tornou plataforma. Dean foi derrotado nas prévias por John Kerry, que incorporou a ideia do blog - mas foi incapaz de dar o mesmo apelo popular dado pela equipe de Howard Dean, ficando preso no institucionalismo político, pouco afeito a discussões mais aprofundadas.

Nos Estados Unidos a participação - interação, democratização, politização - do público foi crescente a partir de 2004. A partir dali os primeiros blogs foram ganhando musculatura, formando uma massa crítica, dependente num primeiro momento, autônoma num segundo. Mais e mais blogs foram nascendo, dando espaço para todo tipo de assunto, setorizando e ampliando debates antes resumidos em matérias ou em cadernos especiais.

O auge desse processo todo, evidentemente, se deu no ano passado por meio da campanha de Barack Obama à presidência do país. Seu site fora lançado um ano antes, em 2007. À ele era acoplado um blog. Depois, um twitter e em seguida, tudo era linkado ao candidato. A equipe de Obama - com alguns antigos parceiros da equipe de Howard Dean - era afinada tecnológica e politicamente falando. A experiência de quatro anos, após 2004, foi usada positivamente pelo site/blog/twitter servindo novamente como plataforma para um debate franco sobre todo tipo de ideia.

E finalmente, Obama levou às últimas consequências - no bom sentido - uma ideia inicial da campanha de Howard Dean: a ideia de arrecadar dinheiro por meio da internet. O blog de Obama incentivava os leitores à participação direta: discutiam no blog, doavam dinheiro ao candidato, criavam fóruns de debates em suas cidades e bairros, convocavam novos eleitores, que se tornavam leitores do blog, depois comentaristas, em seguida doadores, eleitores e o ciclo se ampliava crescentemente.

No Brasil, veremos isso tudo acontecer atualizado à nossa realidade socio-cultural. Já vimos e vemos, diariamente, é verdade. Mas o processo de ampla participação popular será visto de maneira mais forte a partir da campanha presidencial do ano que vem. Até aqui, vimos um crescente processo nesse sentido.

Enquanto ocorria a campanha presidencial americana de 2004, nossa blogosfera apenas engatinhava. Já existiam blogs políticos - muitos ainda estão de pé, outros sumiram, outros tantos mudaram de rumo - mas nada parecido com a situação de hoje, em nenhum sentido: o número de blogueiros era muito menor, o número de leitores (incrivelmente) menor e o alcance decorrente, portanto, era mais frágil. Essa situação começou a mudar em 2006.

Sobre as eleições de 2006, o professor Venício Lima organizou um livro interessante - com participação de acadêmicos, jornalistas e blogueiros - demonstrando como se deu o posicionamento ideológico partidário da grande mídia durante as eleições. Ao longo de 2005 e 2006 ocorreu a campanha do "mensalão" no Brasil, com três CPIs, escândalos sendo renovados todos os fins de semana, hipóteses sendo testadas à céu aberto. Esse posicionamento, praticamente hegemônico, serviu para lançar os primeiros leitores no campo da internet, alcançando blogs com "informações alternativas" (o bordão da época) e/ou pontos de vistas distintos do apresentado nos jornais, TVs e rádios.

Nesse sentido, a participação dos blogs na campanha de 2006 foi importante como pedra fundamental de um processo amplo, que será problematizado em 2010.

Ao longo de 2007 e 2008 (sendo que, no ano passado, ocorreram campanhas municipais) houve uma democratização enorme de acesso, difusão e debate de ideias. Foram formados grupos de leitores, afinados com este e com aquele blogueiro, que se uniam à outros blogueiros e grupos de leitores, criando redes de discussões e interfaces de ideias. Esse processo, longe de estar sedimentado, é visível hoje, em 2009.

A maior questão, no Brasil, é quanto à democratização do acesso. Somos um país pobre, de terceiro mundo. Nossa distribuição de renda é simplesmente crimonosa e, o avanço de grupos e plataformas na internet por vezes esconde a questão do acesso, que é crucial. Porque para participar disso tudo - lendo, comentando, interagindo, conhecendo, discordando, apresentando, criando - é preciso ter um computador com acesso à internet.

Nesse sentido, o acesso à banda larga, por exemplo, é fator decisivo também para facilitar o acesso a todo o conteúdo produzido nessa rede. Em 2006, nos tempos da eleição presidencial já tratada aqui (a pedra fundamental), eram 5,7 milhões de usuários brasileiros de banda larga. Para se ter uma ideia do avanço nessa área, em apenas dois anos, esse número saltou para 10 milhões de usuários, computados no fim de 2008, segundo informações da Associação Brasileira de Telecomunicações, apresentados por seu presidente, Antonio Carlos Valente (que também é presidente da Telefônica) em artigo publicado esta semana no jornal Valor Econômico (aqui).

Esse aumento no número de usuários de banda larga foi muito impulsionado pelo crescimento econômico vivenciado no biênio 2007-2008: em ambos os anos o Brasil cresceu acima de 5%. Isso não se repetirá em 2009, e provavelmente em 2010 também não. De qualquer maneira, um crescimento ocorrerá, uma vez que o Brasil foi dos países menos afetados pela crise econômica mundial (meus textos sobre as razões por trás disso estão sob a tag "O Brasil e a crise").

Por diferentes razões, teremos nas eleições presidenciais de 2010 um caminho novo para se discutir tudo o que está sendo discutido hoje nos Estados Unidos, por exemplo.

Atualização das 15:52
José Serra, pré-candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2010 acaba de lançar seu twitter. A fonte da informação aqui.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Convite

Os leitores do blog estão convidados - e os leitores residentes em São Paulo estão intimados :) - a comparecer no debate sobre crise econômica e o jornalismo, que ocorrerá na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, na noite da próxima segunda-feira.

O debate faz parte da Semana de Jornalismo da PUC-SP. Mais detalhes abaixo:

O que:
Crise Econômica e o acompanhamento da mídia

Quem:
Luis Nassif, jornalista, titular do blog Luis Nassif Online
Antônio Corrêa de Lacerda, economista, professor-doutor do Departamento de Economia da PUC-SP, conselheiro da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização)
Paulo Totti, jornalista, repórter especial do jornal Valor Econômico

Mediadores:
Hamilton Octávio de Souza, chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP
João Villaverde, estudante de Jornalismo pela PUC-SP, membro do Centro Acadêmico Benevides Paixão, e titular deste blog que vos fala.

Quando:
Segunda-feira, 25 de maio, das 19hrs às 23hrs

Onde:
Auditório - Sala 239 - Prédio Novo da PUC, entre a Ministro de Godoy e a Monte Alegre

O debate, assim como a PUC como um todo, é aberto a todos que quiserem comparecer e não é preciso se identificar, apenas encontrar o auditório.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

EUA-Israel-Irã

Hoje o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, se reuniu com Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, em Washington, capital americana. Obama recebeu Netanyahu uma semana após a visita do papa à Israel. Ambos, o papa e Obama, defenderam a criação do Estado palestino como resolução para os conflitos no Oriente Médio.

Netanyahu discorda. A maioria israelense também, não à toa, escolheram Netanyahu como seu novo líder nas eleições realizadas em fevereiro último.

O que o primeiro-ministro israelense defende é que toda atenção internacional deve se focar no Irã, e não na criação do Estado palestino.

Durante os anos perdidos da Idade Média intelectual - também chamados de "anos George W.Bush" - essa tese era hegemônica: defendia-se e repetia-se incessantemente que o problema era o Irã. Que o Irã se preocupa em desenvolver uma bomba atômica, que o Irã financia e treina os militantes do Hezbollah no Líbano e do Hamas na Faixa de Gaza, que o Irã pratica descriminação internacional, etc.

A tese de Netanyahu é de que, isolando o Irã, resolve-se o problema dos "terroristas" no Oriente Médio.

Esta é uma tese que induz ao erro. É um sofisma exemplar.

O Irã tem vivido um governo realmente conservador, elevando a doutrina religiosa à patamares históricos. De fato, há um desrespeito às normas internacionais quanto ao desenvolvimento de tecnologia nuclear por parte do governo de Ahmadinejad. E há dinheiro - e know how - iraniano passando pelo caixa de grupos de insurgentes, como o Hezbollah e o Hamas.

Querem ver o sofisma?

O governo Bush Junior foi mister em desrespeito às normas internacionais. E nem por isso houve qualquer boicote internacional quanto aos EUA. A Inglaterra disse alguma coisa? E Israel, tão preocupado com as normas? Aliás, tratar de normas internacionais e Israel é tratar também de termos como soberba, desrespeito e desleixo. Falam dos programas nucleares do Irã. E os programas israelenses, como andam?

Antes de recriminar o Irã é preciso entender porque o Irã faz isso. É porque o Irã é anti-Israel? É porque Ahmadinejad simplesmente não gosta de Israel? Os militantes do Hezbollah e do Hamas, cada um a sua maneira, odeiam Israel porque são malucos e pronto? Não é bem assim.

Entender porque existem Hezbollah, Hamas e porque o Irã está nessa ajuda a entender porque a tese defendida por Binyamin Netanyahu é um sofisma. Ele mesmo sabe que é. O problema é que a maioria leva a sério.

A conta de mantermos os olhos fechados para tudo isso vai ficando cara...

domingo, 17 de maio de 2009

H1N1 no Brasil

O Ministério da Saúde acaba de soltar comunicado afirmando que o número de suspeitos da gripe suína (H1N1) no Brasil caíu. De acordo com o Ministério, os suspeitos agora são 22, e não mais 25. Os casos confirmados no país permanecem em oito.

Ao mesmo tempo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que o número de casos confirmados da doença no mundo cresceu para 8.480, em 39 países, com 72 mortes. Dessas, 66 foram no México.

Abaixo a nota da Reuters sobre o assunto (pode ser lida clicando aqui)

Mais 3 casos suspeitos da gripe H1N1 no Brasil são descartados
domingo, 17 de maio de 2009 15:01 BRT

SÃO PAULO (Reuters) - O Ministério da Saúde anunciou neste domingo que o número de casos de pessoas com suspeita de estarem infectadas com a gripe H1N1 no Brasil caiu de 25 para 22. Os casos confirmados no país permanecem em oito.
Em nota, o ministério informou que os casos suspeitos estão nos Estados de Minas Gerais (7), São Paulo (6), Rio de Janeiro (1), Distrito Federal (2), Alagoas (1), Amapá (1), Paraná (1), Pernambuco (1), Piauí (1), e Rondônia (1). Os Estados que diminuíram suas suspeitas foram Rio de Janeiro (menos dois) e Bahia (um). As informações referem-se aos casos registrados apenas até as 9h30 deste domingo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou neste domingo que o número de casos confirmados da doença no mundo cresceu para 8.480, em 39 países, com 72 mortes. O Chile confirmou neste domingo seu primeiro caso em uma cidadã, de 32 anos, que voltou ao país da República Dominicana, após uma escala no Panamá.
A maior parte das mortes, 66, ocorreu no México, onde o surto começou, e nos Estados Unidos, com quatro. O Canadá confirmou 496 casos e a Costa Rica, nove, ambos com uma morte cada.
Segundo o ministério, 264 casos suspeitos no Brasil já foram descartados, mas 18 estão em monitoramento em sete Estados do país, acrescentando o Estado da Bahia, em comparação à nota divulgada no sábado.
(Por Adriane Piscitelli; Edição de Marcelo Teixeira)

Domingo

Chorei
Como nunca chorei na vida
Porque precisava desabafar
Chorei
Tanta mágoa naquela hora
Que a tristeza foi indo embora
Antes da derradeira lágrima rolar
Chorei
Porque vinha trazendo minh'alma sentida
Eu chorei pela última vez nessa vida
Para nunca mais chorar
Doravante eu vou cantar
Se a tristeza voltar
Dessa vez não demora
Mas não me envergonho pelo pranto que chorei
Porque
Pelo que eu chorei
Qualquer um também chora

Eduardo Gudin, compositor.

***
Depois de uma semana dura, peço licença para cantar baixinho, como quem pede duas vezes para nunca mais, mas mesmo assim não se envergonha.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

61 anos da invasão

menino palestino segura chave simbólica em Gaza - foto de Adel Hana, da Associated Press

Hoje são completados 61 anos da formação do Estado de Israel. A criança palestina retratada acima, em Gaza, segura uma chave que simboliza as casas que os palestinos tiveram de abandonar neste mesmo dia em 1948 para dar espaço para a criação de um Estado onde existia outro.

A discussão acerca de Israel e Palestina parece interminável. Mas tem uma origem. E hoje ela completa 61 anos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O caso Cesare Battisti


Na terça-feira, o ministro da Justiça brasileiro, Tarso Genro, disse o seguinte:

"Por que no caso de senhora refugiada na França, por que o Estado italiano jamais se manifestou através dos seus ministros de uma maneira tão violenta, tão agressiva e tão anti-diplomática como fez nesse caso Battisti? Por que [eu] era um ministro de esquerda, teria apoio da mídia para pressionar o Supremo Tribunal Federal? Ou para fazer um ajuste de contas consigo mesmo? Ou seja: levar o senhor Battisti para a Itália para que ele fosse o bode expiatório de um evento histórico, dramático, negativo".

O episódio de concessão de refúgio político a Cesare Battisti por parte de Tarso Genro, em janeiro deste ano, iniciou um debate imenso na mídias brasileira e italiana. O governo italiano ficou possesso com a decisão de Tarso Genro. A mídia nacional, inclusive a CartaCapital -- que normalmente vai contra a maré --, reproduziu o mesmo discurso.

Muito foi falado sobre o caso nos últimos cinco meses. Vamos agora analisar as diversas teorias que foram lançadas no debate público, tanto aqui quanto na Itália:

Teoria 1
Se falou que Battisti foi um terrorista armado -- um guerrilheiro -- em tempos de paz. Este argumento, que continua de pé em muitos meios, dá conta de que a Itália dos anos 70 era um harém político, costurado por uma aliança entre a esquerda e a direita.

O jornalista Sebastião Nery, ex-adido cultural do Brasil na Itália, contou como se deu a tão defendida "aliança pela paz entre esquerda e direita".

"Montaram uma aliança entre a Máfia, a maçonaria e o governo da Democracia Cristã. Criaram o Banco Ambrosiano, ligado ao Vaticano, para financiar estas operações e a base do esquema começou."

Essa aliança se deu 1975. Antes disso, porém, a Itália vivia atacada pelo terrorismo, todos concordarão. Mas qual era o terrorismo praticado na Itália antes do "pacto pela paz"?

"Após o histórico maio de 1968, marco dos protestos estudantis por um mundo mais justo, a Itália sofria o primeiro grande atentado fascista: a 12 de dezembro de 1969, uma bomba explode no saguão do Banco Nacional de Agricultura, em Milão, matando 16 e ferindo 86. As suspeitas caem sobre o bailarino anarquista Pietro Valpreda e o operário Giuseppe Pinelli. Os responsáveis só serão descobertos três anos depois: Franco Freda, Giovanni Ventura e Giuseppe Rautti, fundador da organização fascista Ordem Nova. Após sair da cadeia, Rautti se elegeu deputado em 1972 pela Direita Nacional. No mesmo ano o fascista Ivano Bocaccio tenta sequestrar um avião; em 1973 militantes da Ordem Nova matam um policial durante uma manifestação da direita, em Milão; a mando da Ordem Negra (que sucedeu a Ordem Nova) explode uma bomba em meio a manifestação contra o fascismo em Brescia, com 8 mortos; e mais 12 morrem na explosão do trem que vai de Roma a Viena."

Quem conta é o jornalista Felipe Larsen (aqui). Até aquele famoso "pacto pela paz" de 1975, percebe-se que o terrorismo que rondava a Itália não era propriamente de esquerda. O fato de o terror da primeira metade dos anos 70 ter sido praticado por grupos fascistas, portanto, de direita, não inibe a teoria ainda.

Essa teoria dá conta que Battisti fora um terrorista na Itália tranquila dos anos 70. Como vimos que a Itália tranquila a que se referem é a que veio posterior ao acordo entre a Democracia Cristã (direita) e o Partido Comunista (esquerda), vejamos então como era a Itália da segunda metade dos anos 70.

O filósofo Antonio Negri, famoso por seu livro Império (escrito em conjunto com Michael Hardt), posicionou a Itália daquela época, que, segundo alguns, vivia um período democrático onde os direitos eram resguardados. Vejamos o que diz o professor Negri, em entrevista recente ao UOL (veja aqui):

"Eu fui detido em 1979 e fiquei na cadeia até 1983, em prisão preventiva, sem processo. Em 1983, houve uma eleição parlamentar e saí da cadeia porque fui eleito deputado, porque não era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio - e poderia ter ficado até 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 1970 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precisão, com base no meu próprio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma prisão de alta segurança, prisão especial, fui massacrado e torturado."
A imagem que ilustra este post se refere à esta primeira teoria. Podemos perceber naquela imagem (créditos da foto aqui), como realmente era tranquila a Itália dos anos 1970.

Teoria 2

Em seguida, passaram para outra teoria: a de que o caso chegaria no Supremo Tribunal Federal e, a decisão que este tomasse, deveria ser definitiva. Ou seja, se o STF votasse pela extradição de Battisti à Itália, ele deveria ser extraditado, não importando a decisão anterior do ministro da Justiça. Queriam, indiretamente, transformar o caso Cesare Battisti numa grande disputa no Judiciário, colocando de um lado o Ministério da Justiça e do outro o Supremo Tribunal.

Essa teoria, evidentemente, não se sustentou por muito tempo.

"Qualquer que seja a decisão do [STF] Supremo Tribunal Federal no processo da extradição, esta não pode mais ser executada, tendo em vista a concessão da condição de refugiado do extraditando. [...] Não é mais só uma questão de faculdade, uma de impossibilidade jurídica, porque, repita-se, a concessão de refúgio tanto quanto a concessão de asilo político, obsta a extradição. A decisão do ministro da Justiça, concedendo a condição de refugiado a Cesare Battisti, sob ser um ato da soberania do Estado brasileiro, está coberta pelos princípios da constitucionalidade e da legalidade."

Quem diz é José Afonso da Silva. Essa opinião é muito semelhante ao que disse, mais de uma vez, Dalmo de Abreu Dallari. Os dois são dos maiores juristas brasileiros.

Até agora, vemos que se discutiu apenas alicerces do caso, e não o mérito em si. Vamos então ao parecer de Nilo Batista, específico ao caso:

"O princípio da dupla incriminação proíbe a extradição de alguém cuja conduta, no país requerido, teve sua punibilidade (rectius, sua criminalidade) extinta pela anistia. Os delitos atribuídos a Cesare Battisti são anteriores à Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979. Todos os indivíduos, brasileiros ou estrangeiros, que os praticaram até aquela data (...) foram anistiados"

Mas como foi a condenação a Battisti na Itália mesmo?

"A condenação foi feita com base na acusação de um ex-militante da mesma organização, um 'arrependido' que negociou anos a menos na sua pena (muitos anos, aliás) em troca de incriminar outras pessoas. Não foi apresentada nenhuma prova, testemunha ou um único indício. Dois dos homicídios foram cometidos no mesmo 16 de fevereiro de 1979, a 500 km de distância um do outro. O outro foi o de um comandante de uma prisão, em junho de 1978. E, por fim, teria assassinado o policial Andrea Campagna, acusado de torturas. Nesse último caso, a testemunha ocular descreveu o agressor como um barbudo louro, medindo 1,90 m. Battisti é moreno e tem 1,70 m. Foram encontradas armas no apartamento onde o escritor vivia com outros italianos clandestinos, mas a própria polícia constatou que elas nunca haviam sido disparadas. Segundo o livro de Battisti, a organização da qual fazia parte, o grupo dos PAC (Proletários Armados para o Comunismo), organizara-se no período de crítica ao stalinismo, era totalmente descentralizado e nada impedia que um punhado deles, em determinada região do país, fizesse ações e se assumisse como parte do grupo. Seria difícil, assim, que todos os que militavam nos grupos dispersos pela Itália se conhecessem."

Quem escreve é Maria Inês Nassif, colunista do Valor, em artigo publicado lá trás, em janeiro, pouco depois da decisão de Tarso Genro.

O tal militante "arrependido" se aproveitou das Leis de Exceção aprovadas na mesma "Itália harém da paz dos anos 70" para incriminar ex-colegas e militantes do grupo PAC. Battisti era um destes. O militante "arrependido" era Pietro Mutti.

Vejamos agora o que o próprio Tribunal de Milão decretou, em 31 de março de 1993:

"Esse arrependido (Mutti) é afeito a ‘jogos de prestidigitação’ entre seus diferentes cúmplices, como quando introduz Battisti no assalto de Viale Fulvio Testi a fim de salvar Falcone, ou Battisti e Sebastiano Masala no lugar de Bitti e Marco Masala no assalto ao arsenal Tuttosport, ou ainda Lavazza ou Bergamin no lugar de Marco Masala nos dois assaltos veroneses."
O processo italiano não foi propriamente democrático. E a posição do STF nada altera a decisão de refúgio político, concedida pelo ministro da Justiça, conforme prevê a legislação brasileira.

Teoria 3
A última das teorias que falta desmontar, dentre todas as usadas incessantemente nos últimos cinco meses no Brasil e na Itália, é a de que ao apoiar a decisão de refugiar Battisti, está-se, na verdade, defendendo Tarso Genro, o PT e as esquerdas de um modo geral.

O pessoal, na falta de evidências jurídicas, sociais, históricas e políticas, resolveu apelar neste último. Politizaram da pior maneira a questão. Esta teoria, bem como a segunda, tratou de transformar tudo numa partida de futebol, separando opiniões em torcidas, ignorando qualquer análise factual, jurídica ou histórica.
Quando se diz que, ao defender Battisti simplesmente está se defendendo o pensamento de esquerda, percebe-se não há nenhum argumento sério nessa teoria. Rebate-la seria entrar no jogo ideológico e cair na velha artimanha política.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Coreia do Norte e Bush - a crônica do século XXI

"Você não pode chamar alguém com quem quer negociar de 'eixo do mal'. Imagine que você brigou com sua mulher, que quer reatar ou até mesmo se divorciar, mas em termos amistosos. Mas aí, no começo da conversa, você a chama de 'prostituta'. Os EUA fizeram isso com a Coreia do Norte, então queimaram toda possibilidade de diálogo."

A análise é de Paik Hak-soon, cientista político da Coreia do Sul, entrevistado pelo repórter Raul Juste Lores, da Folha.

George W. Bush, quando candidato pelo partido Republicano nas eleições de 2000, já mostrava - ao dizer o que pensava sobre diversas questões - ser altamente conservador. Seu conservadorismo, exemplificado dia a dia durante seus 8 anos de governo, era rancoroso e rançoso. Especialmente a partir do 11 de setembro de 2001, quando Bush ganhou o mote que elevou sua popularidade às alturas, o governo americano instituiu um "novo" modelo.

Passara a usar todo o poder hegemônico - a teoria de conquistar corações e mentes - lapidado ao longo do governo Clinton (muito ajudado, bom que se lembre, pela decadência formal do contraponto ideológico simbolizado pelos soviéticos) como agulha, ou bala, para exercer seu poder de dominação. O que Bush e seus lacaios - a turma que o aparelhava no governo - queriam (e em boa parte fizeram) era forçar o mundo a engolir a supremacia americana.

A supremacia militar, a supremacia ideológica, a supremacia cultural, a supremacia do dólar (econômica e financeira).

Em termos de política externa, Clinton praticara uma política de inteligência de não agressão e persuasão. Tinha o momento histórico ao seu lado, bem como sua posição de negociação. Exercia todo a supremacia dos Estados Unidos de uma forma igualmente unilateral, mas fazia parecer consensual. Havia consenso, mas era um consenso conquistado pela diplomacia e validado pela ideologia. Era hegemônico no sentido stricto senso, ou, melhor dizendo, gramsciano.

Bush jogou tudo isso no lixo.

Estrategicamente falando, foi ruim inclusive para os americanos. Eles perceberam isso no ano passado, quando a disputa pelo cargo de presidente foi evidenciada por dois críticos de Bush. Não apenas o candidato democrata - rival político direto - mas também John McCain, a opção republicana, pertencia a ala mais moderna do partido (mesmo McCain sendo o candidato com idade mais avançada a ter disputado uma eleição).

O moderno, compreendido com um atraso indesculpável pela sociedade americana, é entender as diferenças - todas elas - e prezar pelo poder interminável das negociações.

O governo George W. Bush não era, sob nenhum ponto de vista, moderno.

Ao optar pela guerra, por ignorar a existência dos outros, exemplificada pelo desleixo e mal trato para com a Organização das Nações Unidas (ONU) em 2003 e 2004, e pelo apoio a grupos políticos em outras nações, exemplificados pela direitização israelense vivida no período e o malfadado golpe de Estado ocorrido na Venezuela em 2002, o governo Bush sacramentou as mentes e corações neste início de século XXI.

Bush demonizou Chávez, o Irã, a Coreia do Norte, e os "terroristas" do Hizbollah e do Hamas. (Re)criou-se o maniqueísmo do "conosco ou contra nós". Dos bonzinhos (americanos e seus parceiros) contra os bandidos (os demonizados citados acima).

Hoje a irracionalidade belicista parece irrefreável no Oriente Médio, na Europa Oriental e na Coreia do Norte. E não existem sinais de que isso seja bom para ninguém, como dizia o slogan martelado pelos americanos nos últimos oito anos.

O maior abacaxi que a nova administração dos Estados Unidos herdou não é a crise - que pode ser debitada igualmente na conta de ambas ideologias partidárias dominantes. Mas o desrespeito ao resto do mundo. O governo Obama terá de lembrar a todos que do seu país também nascem negociadores, não apenas cowboys.

***

Este artigo foi também publicado no Óleo do Diabo. Para ler por lá, clique aqui.

Links

Alguns links de textos e debates interessantes na blogosfera que ocorre(ra)m recentemente.

O Rodrigo Cássio, do Vistos e Escritos, traduziu um ótimo artigo do filósofo Slavoj Zizek. Tenho duas obras dele, uma, nunca lida com a atenção devida: "Visões em paralaxe". É um dos grandes pensadores marxistas ligado ao nosso tempo, discutindo o passado, mas também o presente. No artigo traduzido pelo Rodrigo, Slavoj Zizek trata de distinguir dois totalitarismos do século XX, o fascismo em sua forma nazista e o stalinismo. A distinção é comum até. O brilhantismo de Zizek está em analisar criticamente o stalinismo, dando ao período soviético um fardo que não pode ser negado ou mistificado. A demonização do nazismo por vezes ignorou os abusos do stalinismo e que a teia ideológica, à direita e à esquerda, colocou ao longo do tempo em segundo plano.

No blog do Pedro Dória, um bom debate - como é de praxe no Pedro - acerca da legalização da maconha. Pedro Dória parte de um artigo de Lula Borges, seu colega do Pandorama (sua iniciativa de blogs unidos), para discutir os limites de passeatas em prol de ideais - no caso, a legalização da maconha - como forma de pressão democrática sobre os órgãos representativos. Muito já foi escrito sobre a legalização ou criminalização. Muito será escrito ainda. Mas o debate é bom e vale conferir.

Na onda do debate abordado pelo Pedro Dória, de manifestações no espaço público como forma de pressão política por transformações sociais e/ou legais, o Alexandre Nodari, do Consenso Só No Paredão, tratou de outra manifestação - contra Gilmar Mendes, em Brasília, na semana passada - para teorizar sobre o modo de fazer e implementar política. Para isso, trouxe Hannah Arendt para sustentar e ampliar a discussão.

O Frederico Vasconcelos, repórter especial da Folha de S.Paulo, reproduziu, com comentários seus, a (ótima) proposta do procurador Fernando dos Santos Carneiro, do Ministério Público do Tribunal de Contas de Goiás, sobre os concursos públicos para ingresso na magistratura. As propostas do procurador - acrescidas das explicações facilitadoras do Fred - devem ser lidas e debatidas com atenção. A forma atual dos concursos para magistratura tem de ser repensada.

A situação política do governo Yeda Crusius (PSDB), do Rio Grande do Sul, está com a chapa quente na grande imprensa depois da reportagem da Veja, na última semana. A revista saiu na sexta. Ao longo do fim de semana, os jornais entraram na história, que repercute ao longo da semana. Mas o Marco Aurélio Weissheimer, do RS Urgente, já estava na história há tempos. O blog é a melhor cobertura para a máfia do Rio Grande desde 2007, quando o governo Yeda começou. As análises mais recentes, dão conta de uma defesa cada vez mais frágil por parte dos apoiadores da governadora.

O Leandro Fortes, em seu blog (que não permite links diretos para os posts), também tratou da crise política do governo Yeda.

Já o Idelber Avelar, d' O Biscoito Fino e a Massa, escreveu um excelente artigo sobre os partidos de extrema esquerda no Brasil, (P-SOL, PSTU e PCO) e tratou de propor mudanças de agenda e debates. A discussão é oportuna ao máximo: a vida política vai passando e esses partidos pouco ou nada agregam ao imaginário coletivo. Revigorar suas pautas e unificar suas agendas traria um frescor (ultra)necessário ao espectro partidário e ideológico brasileiro.

E pra finalizar, uma boa dica do leitor Itárcio José de Souza, que sugeriu o documentário Zeitgeist (que pode ser assistido na íntegra no Youtube). O André Lux escreveu uma boa resenha sobre o filme.

Um último link, já que falei de resenha. O Celso Rocha de Barros, cientista social que toca o blog Na Prática a Teoria é Outra, escreveu um boa resenha do livro O que a China Pensa, de Mark Leonard. O assunto, nem precisa dizer, é crucial - por uma série de razões. Diante de toda a crise do modelo neoliberal (o mesmo que, aos poucos foi sendo adotado em algumas práticas pelos chineses) nos Estados Unidos e na União Europeia, a China toma à frente dos principais países emergentes, secundada por Brasil, Índia e Rússia.

Sobre a adoção de platitudes neoliberais - no âmbito econômico - por parte dos chineses, o Gideon Rachman, jornalista do Financial Times, escreveu um rápido comentário em seu blog. Na China, o consumo interno começa a crescer e, com isso, pode ser uma base de sustentação futura, diante da decaída das famílias consumistas americanas, todas com dívidas absurdas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O cassino Brasil

Imaginem a seguinte situação:

O sistema financeiro americano começa a acertar seus pauzinhos para receber novas injeções de capital por parte do governo, mas, desta vez, com maior segurança de necessidade, diante dos resultados dos "testes de stress" divulgados na semana passada. Com isso, uma sensação de que o pior já passou começa a ganhar força. O Luiz Carlos Mendonça de Barros, no Valor de hoje, já confirma essa sensação dos investidores internacionais. Vejam:

"O pânico que atingiu os mercados financeiros após a quebra do Lehman Brothers chegou ao fim. Posso fazer esta observação com segurança ao leitor do Valor. O comportamento dos mercados de crédito nas últimas semanas suportam de forma inconteste esta minha afirmação"

A situação econômica, nos Estados Unidos, ainda é grave. Mas, com o sistema financeiro iniciando uma estabilização, os investidores começam a olhar o globo para voltar a aplicar. Quanto mais essa sensação de "o pior já passou" se ampliar, mais e mais investidores e dinheiro fluirá para aplicações rentáveis.

Não há, nos Estados Unidos de hoje, uma aplicação visivelmente rentável e segura. Seguro mesmo, apenas os títulos do Tesouro americano. Mas estes títulos pagam entre 0% e 0,25% ao ano. Ou seja, nada, para o investidor que começa a colocar suas asas para fora. Aos poucos, sua ambição a tomada de risco em troca de uma remuneração maior, vai ganhando força.

Então, ele para e analisa.

Olha as maiores taxas de juros. Em seguida, analisa as condições de segurança - se o país vai honrar aqueles juros - e de macroeconomia - como estão seus fundamentos - para então fazer sua escolha.

E o campeão do mundo, como sempre, é o Brasil.

Nossa taxa de juros vale 10,25% ao ano. Para um investidor qualificado - na linguagem de mercado, isto significa que tem alta capacidade de investimento - as taxas de juros nos Estados Unidos (entre 0 e 0,25% ao ano) e no Japão (0,5% ao ano) são convidativas. Ele toma empréstimos por essas praças e traz esses dólares ao Brasil. Aqui, ele encontra títulos seguros - o Brasil honra o pagamento e apresenta fundamentos sólidos - a uma taxa exorbitante. Com o rendimento dos juros brasileiros, ele honra seu empréstimo nos EUA ou no Japão e ainda embolsa um lucro de 10%. Isso sem fazer nada. Apenas comprando título público.

E ele ainda tem mais vantagens.

O estrangeiro não paga Imposto de Renda quando aplica em título público, diferentemente do capital nacional. E, além disso, conta com uma taxa de câmbio que se valoriza rapidamente. O que isso significa?

Quando nossa moeda sai de R$ 2,30 para R$ 2,00, a mesma quantidade de reais compra mais dólares. Ou seja, quando o investidor estrangeiro entra no Brasil com dólares e, depois desse período de valorização da moeda resolve sair do país, apenas com a variação cambial para baixo, ele obtem um ganho de 15%. Digamos que ele fique um mês, aplicando em título público - que paga 10,25% ao ano, ou 0,85% ao mês - e contando com a variação cambial de R$ 2,30 para R$ 2,00, ele sai daqui com um lucro de 15,85%. Se, neste exemplo, ele traz 80 mil dólares na entrada, no momento de sua saída, ele lucrou 12 mil e 680 doláres em 30 dias.

Isso é um exemplo hipotético, é claro. Há uma série de operações mais complexas, como os derivativos cambiais e de juros vendidos na BM&F e mesmo prazos e somas distintas das que apresentei aqui. O investidor pode ficar mais de 30 dias, é claro. Pode ficar por 1, 3, 6 meses, que seja. Também pode trazer mais de 80 mil dólares - em sua maioria, trazem muitas vezes mais que isso, obviamente.

Essa conta toda exemplifica que, a situação mudando nos EUA e as condições macroeconômicas permanecendo constantes no Brasil, veremos nossa moeda cair muito mais do esta taxa que está aí.

Se a turma da bufunfa acreditar que há saída dessa crise toda, os R$ 2,06 do fechamento de sexta é pouco. A fanfarra é muito maior.

domingo, 10 de maio de 2009

Domingo

"Ninguém produziria Pasolini, Marco Ferrari nem mesmo Antonioni hoje em dia. Se o cinema quiser uma nova Nouvelle Vague, ele precisa de uma nova geração de produtores independentes da televisão. Como coprodutora de filmes, o papel da TV é cortar as asas da modernidade. TV é segurança, acomodação. Cinema é angústia."

De Fanny Marguerite Judith Ardant, atriz.

Fanny Ardant é dona de um dos rostos mais bonitos da década de 80. Despontou como atriz ao estrelar "A mulher ao lado" (1981), dirigido por seu marido, François Truffaut, que morreria três anos depois.

Ela finalizou seu primeiro filme como diretora: "Cinzas e sangue" e estrela "Segredos Íntimos", em cartaz no Brasil.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Satiagraha e os direitos fundamentais

O Brasil tem um passado de supressão de direitos fundamentais da pessoa humana. Apenas recentemente esses direitos passaram a receber atenção e, num movimento pendular, foi de um pólo a outro. Hoje os direitos e garantias fundamentais são extremamente protegidos.

Essa é a opinião de Rodrigo de Grandis, procurador da República do Ministério Público de São Paulo. Para o procurador a atitude do Supremo Tribunal Federal (STF) de restringir o trabalho policial dificulta a utilização das novas técnicas de investigação, como interceptação de e-mails.

Grandis é o responsável pela fiscalização da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Trabalhou até julho do ano passado - quando a Satiagraha foi deflagrada - ao lado do delegado Protógenes Queiroz, que se afastou do caso logo em seguida. Desde então, Rodrigo de Grandis trabalha com o delegado Ricardo Saadi, que herdou as investigações e finalizou, na semana passada, o inquérito policial acerca das investigações em torno do banco Opportunity, de Daniel Dantas.

A partir de agora, Rodrigo de Grandis tem 10 dias para aceitar os indiciamentos propostos pelo delegado da PF e formalizar uma denúncia a Justiça Federal.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O prefeito

Venho aqui rapidamente apenas para um aviso. Parece coincidência, mas após meu desabafo - em que, entre outras coisas, perguntava a mim mesmo quem era o prefeito de São Paulo (ver texto abaixo) - finalmente uma notícia sobre ele ganha notoriedade nos jornais e seus sites noticiosos.

O prefeito de São Paulo é este aqui. Vale a pena ler até o final da reportagem, que é quando nosso prefeito dá as caras.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Desabafo sobre o presente e divagações sobre o futuro

Já aviso: este post não é técnico nem está muito preocupado com pesquisas de dados e informações. Farei aqui algumas ponderações e poucas perguntas baseadas um tanto em fatos, outro tanto em sentimentos diante de fatos. É um desabafo, puro e simples.

Vivo em São Paulo, capital. Embora tenha família em outras regiões do país, é em SP que nasci e onde vivo desde então. O que vem a seguir se refere justamente a algo pouco falado: o município de São Paulo.

Estamos no mês de maio. Maio de 2009, certo? Pois, já são quatro meses completados neste ano. Dias atrás, pesquisando nos arquivos deste Blog, revi uma série de assuntos - alguns já são parte do passado, outros estão esquecidos e muitos ainda estão presentes no noticiário. Mas não há nada relativo a prefeitura paulistana. É um erro meu, admito. Não estou dividindo culpa com ninguém, embora seja claro e evidente que o acompanhamento da imprensa, de um modo geral (há exceções, lógico), é ruim comparado a atenção dada ao governo federal. Sempre foi assim.

Há, também, um certo esquecimento interesseiro. Não sou partidário do PT, muitíssimo menos de Marta Suplicy. Mas, os paulistanos atentos devem lembrar, havia muito mais atenção a prefeitura de São Paulo quando esta era ocupada por Marta, entre 2000 e 2004. Esse acompanhamento da imprensa é benéfico para todos. Para o prefeito da ocasião, que passa a render mais, e para a sociedade, que passa a executar com maior atenção e rigidez o controle das autoridades de seu município.

Digo tudo isso porque, como morador de São Paulo, gostaria de saber quem é o atual prefeito. (E não adianta comparar essa minha indagação com aquela propaganda ridícula do PT de SP do ano passado. Sobre aquele episódio lamentável, já escrevi o suficiente: veja "São Paulo de hipócritas".)

O que estou perguntando aqui é outra coisa.

Já se passaram quatro meses. Alguma coisa mudou, mesmo que um pouquinho apenas, em São Paulo? Não, não quero ser aquele sujeito chato que cobra de alguém em pouco mais de 100 dias. Aliás, sempre que alguém comete essa petulância, sou o primeiro a pedir calma e paciência. Lembro quando, em fevereiro ou março, o jornal O Globo publicou um artigo de um colunista seu, que também aparece em TV e rádio, cobrando mais ação de Barack Obama. Obama tinha dois meses no cargo de presidente dos Estados Unidos numa época de grave recessão econômica e guerras no Oriente Médio e o cara cobrando mudanças em 60 dias! Não sei se escrevi sobre esse episódio específico, mas navegando com calma nos textos antigos certamente encontrarei exemplos de críticas à analistas apressadinhos em cobrar resultados.

Estou perguntando sobre o prefeito de São Paulo, e indiretamente cobrando-lhe medidas, simplesmente porque ele está no cargo desde março de 2006. Pois é, março de 2006!

É importante ter em mente que o atual prefeito de São Paulo assumiu o cargo depois que o prefeito eleito em 2004, José Serra, deixou a prefeitura - mesmo após prometer que não o faria - para disputar o governo do estado. Ou seja, o atual prefeito de São Paulo está no cargo há três anos! Um tempinho mais do que suficiente para entender o funcionamento da máquina municipal, os limites do cargo, o trabalho das subprefeituras, as diferentes concessionárias de serviços públicos, a relação com a Camara Municipal, saber quem presta e quem não presta para cada atribuição, enfim.

Ou seja, não estou cobrando ninguém por ineficiência em quatro meses, mas por inoperância total nos quatro primeiros meses de um mandato legitimado por voto no ano passado após mais de três anos a frente da Prefeitura!

O trânsito na cidade é um horror. Enlouquece qualquer ser são. Alguma coisa mudou nesse sentido? Os transportes públicos continuam no mesmo estado, sem ampliação de faixas para trânsito exclusivo (uma ideia), ou mais rotas para ônibus (outra ideia) ou mesmo mais ônibus circulando (opa, mais uma). Nada disso foi colocado em prática - e eu não sou nenhum dono da verdade, quem tiver novas ideias ou mesmo planos que inviabilizem as minhas, que se apresente, por favor. Pior que não pensar nada ou simplesmente pensar e não colocar coisa alguma em prática é que o número de carros não para de crescer, com crise ou sem crise. Ou seja, é um problema gigante hoje e vai ser maior ainda daqui a 6 meses, 1 ano, 4 anos, etc.

As pessoas que tanto reclamam do país não param de lamentar sobre esses pontos, que não há infraestrutura decente, que o trânsito e as péssimas condições de tráfego atrasam e encarecem os negócios, bla bla bla. Elas estão certas. E é péssimo que elas estejam. Somos um país pródigo em reclamões de primeira mão, que criticam tudo e a todos mas na hora do "vamo ver" são os primeiros à fugir pela tangente, sem encarar o problema de frente.

A falta de infraestrutura em geral penaliza a sociedade como um todo. Bem como o saneamento delinquente que existe nas regiões abastadas do país, ou o problema da educação pública ser ignorada frente à escolas bonitinhas e bacaninhas que funcionam 100% para a galera do Leblon e de Moema, da Barra e de Alphaville, enfim. Lembro de um estudo da UN-Habitat, agência da ONU, que dizia uns dois anos atrás (mais precisamente, foi numa reportagem do Estadão de 01/10/2007, antes da crise e dos programas habitacionais do governo, portanto) que em 2010, de cada quatro brasileiros, um morará numa favela. Ao todo, serão 53 milhões (de um total de 190) de pessoas que morarão em favelas em 2010. Isso é um problema enorme e tudo o que se vê sendo discutido como solução é levantar muros para esconder os pobres (!) ou simplesmente aumentar o número de policiais (!!). Se alguém levanta a voz falando em aumentar gastos sociais, ou seja, construir escolas e ambulatórios médicos, e para isso contratar funcionários, lá vem o chororô contra os "gastos públicos".

Não estou falando nenhuma obviedade e também não estou generalizando (sempre há exceções e nós temos muitas), mas boa parte do pessoal que tem chance de fazer alguma coisa prefere gastar seu tempo reclamando que nem criança mimada por mudança, apelando para movimentos de butique hipócritas do tipo "Cansei", ou pedindo mais polícia nas ruas e encarcerando-se em condomínios fechados e isolados. Esses reclamões torcem para o quê? Acham que todos os funcionários públicos são vagabundos, que a política é um lixo, que o Brasil é atrasado e todo aquele criticismo esnobe. Ninguém nunca pára para pensar que se tem um político corrupto é porque tem um maldito empresário corruptor que aceita mandar dinheiro para um lobbista blasé com trâmite entre os congressistas para alterar regras de toda ordem para beneficiar determinado segmento. Ninguém nunca pára para pensar que se o serviço público é ruim é porque os salários são baixos, e se são baixos, não adianta ficar de birra cada vez que o governo aumenta o salário do funcionalismo. E ninguém nunca pára para pensar o que é ser um "país moderno". O que é ser "moderno"? Os Estados Unidos são modernos? A União Europeia? O Japão então? Estão todos em recessão!

Ou seja, o fato de termos uma infraestrutura horrosa apenas justifica o discurso desses hipócritas de plantão que adoram xingar o país e adorariam que aqui fosse uma enorme Bélgica onde tudo dá certo.

Porque não começar a resolver esse tipo de coisa, que impacta todos os moradores e trabalhadores de São Paulo capital - e do Brasil - e, com isso, calar os cri-cri - que na falta de algo para criticar fugiriam todos para Miami ou Paris?

Outra coisa que acho simplesmente irracional é essa ideia absurda de apresentar superávit das contas públicas como plataforma eleitoral. Essa metonímia, "superávit das contas públicas" esconde a verdade verdadeira: governo que dá lucro. Agora me explica uma coisa, como pode governo dar lucro, cara pálida?

Entendo que a razão de ser da iniciativa privada - seja ela uma usina, uma fábrica, uma fazenda, uma empresa de informática - é o lucro. Até discuto isso, mas acho compreensível, faz parte do jogo. Agora governo dar lucro? Não é à toa que os países pobres estão infestados de ONGs: os governos não investem nada, tão preocupados que estão em dar lucro!

Não estou defendendo dívidas enormes, como aquelas que o Geisel tomou à rodo nos anos 70 que, após a elevação dos juros nos EUA em 1980 e 1981, tornou nossa dívida externa impagável, destruindo o Estado e gerando Collor e a adoção do neoliberalismo para "modernizar" o Brasil. Não, há de ter controle das contas, com responsabilidade fiscal, com política criativa e inclusiva, que adote metas claras e objetivos transparentes com gestão exemplar e serviço por mérito, bem remunerado. Isso é uma coisa. Outra coisa é essa história torta que nós importamos dos "países modernos" a partir dos anos 80. Reter dinheiro simplesmente para ter essa pecha de "governo que dá lucro" é bisonho, para não dizer outra coisa.

Outro dia mesmo - para ser mais específico: quarta-feira, 28 de abril, FGV-SP, pela manhã - o governador de São Paulo defendeu seu governo e do seu aliado, prefeito de São Paulo, com um discurso de "aqui há superávit fiscal". Isso é plataforma eleitoral? Onde? Imagine o seguinte discurso: "estamos investindo menos, não reajustando salários e não contratamos mais. Com isso, o governo está com um enorme superávit". Tenha dó.

A mesma coisa ocorreu claramente no primeiro governo Lula, para não dizerem que não falei dos dois lados. Na gestão Palocci havia um controle absurdo das contas públicas, cortando dinheiro dos orçamentos das diferentes pastas com quase nenhum critério específico, apenas para gerar maior "superávit primário" (que, é bom lembrar, foi maior no primeiro governo Lula que no segundo governo FHC). No que o "superávit primário" astronômico foi bom para o Brasil naqueles tempos? Em diminuir nossa dívida pública? Que nada! Qualquer susto no mercado todos os investidores saltam para títulos pós-fixados e passam a exigir maior Selic - e acabam sendo sempre acudidos pelo BC.

O pior é o mundo inteiro vai num rumo e nós aqui seguimos firmes, isolados em outro. Como pode nos nossos adorados papai (Estados Unidos) e mamãe (Inglaterra), os governos entrarem gastando tudo para fazerem os países crescerem, investindo em programas habitacionais, em universalização da saúde, em melhoria do ensino público, em planos de carreira para funcionários públicos, etc., e aqui, em terra brasilis, ficarmos com esse papo de "superávit nas contas públicas"? Não estou defendendo o governo federal por partidarismo ou idelogia ou qualquer interesse de qualquer ordem. Mas o momento agora é justamente de intensificar gastos de Previdência, de Benefícios de Prestação Continuada (para idosos e deficientes físicos), de Bolsa Família, de habitação popular, saneamento, obras de infraestrutura, hospitais, escolas, centros recreativos, Sesc's, quadras, parques, tudo! Isso não é ideologia. É bom senso. Momentos de crise abrem espaços para muita coisa e a oportunidade de darmos uma sapecada civilizatória é enorme.

Para o pessoal que só aceita depois que um gringo diz antes, o próprio Financial Times, um dos principais jornais de economia e negócios do mundo, por meio de um de seus mais renomados colunistas, Gideon Rachman, foi perspicaz em notar que o modelo de Margaret Thatcher faliu, depois de 30 anos de hegemonia.

Porque então insistimos nisso?

E mais uma vez, quem é o prefeito de São Paulo?
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