Já aviso: este post não é técnico nem está muito preocupado com pesquisas de dados e informações. Farei aqui algumas ponderações e poucas perguntas baseadas um tanto em fatos, outro tanto em sentimentos diante de fatos. É um desabafo, puro e simples.
Vivo em São Paulo, capital. Embora tenha família em outras regiões do país, é em SP que nasci e onde vivo desde então. O que vem a seguir se refere justamente a algo pouco falado: o município de São Paulo.
Estamos no mês de maio. Maio de 2009, certo? Pois, já são quatro meses completados neste ano. Dias atrás, pesquisando nos arquivos deste Blog, revi uma série de assuntos - alguns já são parte do passado, outros estão esquecidos e muitos ainda estão presentes no noticiário. Mas não há nada relativo a prefeitura paulistana. É um erro meu, admito. Não estou dividindo culpa com ninguém, embora seja claro e evidente que o acompanhamento da imprensa, de um modo geral (há exceções, lógico), é ruim comparado a atenção dada ao governo federal. Sempre foi assim.
Há, também, um certo esquecimento interesseiro. Não sou partidário do PT, muitíssimo menos de Marta Suplicy. Mas, os paulistanos atentos devem lembrar, havia muito mais atenção a prefeitura de São Paulo quando esta era ocupada por Marta, entre 2000 e 2004. Esse acompanhamento da imprensa é benéfico para todos. Para o prefeito da ocasião, que passa a render mais, e para a sociedade, que passa a executar com maior atenção e rigidez o controle das autoridades de seu município.
Digo tudo isso porque, como morador de São Paulo, gostaria de saber quem é o atual prefeito. (E não adianta comparar essa minha indagação com aquela propaganda ridícula do PT de SP do ano passado. Sobre aquele episódio lamentável, já escrevi o suficiente: veja "
São Paulo de hipócritas".)
O que estou perguntando aqui é outra coisa.
Já se passaram quatro meses. Alguma coisa mudou, mesmo que um pouquinho apenas, em São Paulo? Não, não quero ser aquele sujeito chato que cobra de alguém em pouco mais de 100 dias. Aliás, sempre que alguém comete essa petulância, sou o primeiro a pedir calma e paciência. Lembro quando, em fevereiro ou março, o jornal O Globo publicou um artigo de um colunista seu, que também aparece em TV e rádio, cobrando mais ação de Barack Obama. Obama tinha dois meses no cargo de presidente dos Estados Unidos numa época de grave recessão econômica e guerras no Oriente Médio e o cara cobrando mudanças em 60 dias! Não sei se escrevi sobre esse episódio específico, mas navegando com calma nos textos antigos certamente encontrarei exemplos de críticas à analistas apressadinhos em cobrar resultados.
Estou perguntando sobre o prefeito de São Paulo, e indiretamente cobrando-lhe medidas, simplesmente porque ele está no cargo desde março de 2006. Pois é, março de 2006!
É importante ter em mente que o atual prefeito de São Paulo assumiu o cargo depois que o prefeito eleito em 2004, José Serra, deixou a prefeitura - mesmo após prometer que não o faria - para disputar o governo do estado. Ou seja, o atual prefeito de São Paulo está no cargo há três anos! Um tempinho mais do que suficiente para entender o funcionamento da máquina municipal, os limites do cargo, o trabalho das subprefeituras, as diferentes concessionárias de serviços públicos, a relação com a Camara Municipal, saber quem presta e quem não presta para cada atribuição, enfim.
Ou seja, não estou cobrando ninguém por ineficiência em quatro meses, mas por inoperância total nos quatro primeiros meses de um mandato legitimado por voto no ano passado após mais de três anos a frente da Prefeitura!
O trânsito na cidade é um horror. Enlouquece qualquer ser são. Alguma coisa mudou nesse sentido? Os transportes públicos continuam no mesmo estado, sem ampliação de faixas para trânsito exclusivo (uma ideia), ou mais rotas para ônibus (outra ideia) ou mesmo mais ônibus circulando (opa, mais uma). Nada disso foi colocado em prática - e eu não sou nenhum dono da verdade, quem tiver novas ideias ou mesmo planos que inviabilizem as minhas, que se apresente, por favor. Pior que não pensar nada ou simplesmente pensar e não colocar coisa alguma em prática é que o número de carros não para de crescer, com crise ou sem crise. Ou seja, é um problema gigante hoje e vai ser maior ainda daqui a 6 meses, 1 ano, 4 anos, etc.
As pessoas que tanto reclamam do país não param de lamentar sobre esses pontos, que não há infraestrutura decente, que o trânsito e as péssimas condições de tráfego atrasam e encarecem os negócios, bla bla bla. Elas estão certas. E é péssimo que elas estejam. Somos um país pródigo em reclamões de primeira mão, que criticam tudo e a todos mas na hora do "vamo ver" são os primeiros à fugir pela tangente, sem encarar o problema de frente.
A falta de infraestrutura em geral penaliza a sociedade como um todo. Bem como o saneamento delinquente que existe nas regiões abastadas do país, ou o problema da educação pública ser ignorada frente à escolas bonitinhas e bacaninhas que funcionam 100% para a galera do Leblon e de Moema, da Barra e de Alphaville, enfim. Lembro de um estudo da UN-Habitat, agência da ONU, que dizia uns dois anos atrás (
mais precisamente, foi numa reportagem do Estadão de 01/10/2007, antes da crise e dos programas habitacionais do governo, portanto) que em 2010, de cada quatro brasileiros, um morará numa favela. Ao todo, serão 53 milhões (de um total de 190) de pessoas que morarão em favelas em 2010. Isso é um problema enorme e tudo o que se vê sendo discutido como solução é levantar muros para esconder os pobres (!) ou simplesmente aumentar o número de policiais (!!). Se alguém levanta a voz falando em aumentar gastos sociais, ou seja, construir escolas e ambulatórios médicos, e para isso contratar funcionários, lá vem o chororô contra os "gastos públicos".
Não estou falando nenhuma obviedade e também não estou generalizando (sempre há exceções e nós temos muitas), mas boa parte do pessoal que tem chance de fazer alguma coisa prefere gastar seu tempo reclamando que nem criança mimada por mudança, apelando para movimentos de butique hipócritas do tipo "Cansei", ou pedindo mais polícia nas ruas e encarcerando-se em condomínios fechados e isolados. Esses reclamões torcem para o quê? Acham que todos os funcionários públicos são vagabundos, que a política é um lixo, que o Brasil é atrasado e todo aquele criticismo esnobe. Ninguém nunca pára para pensar que se tem um político corrupto é porque tem um maldito empresário corruptor que aceita mandar dinheiro para um lobbista
blasé com trâmite entre os congressistas para alterar regras de toda ordem para beneficiar determinado segmento. Ninguém nunca pára para pensar que se o serviço público é ruim é porque os salários são baixos, e se são baixos, não adianta ficar de birra cada vez que o governo aumenta o salário do funcionalismo. E ninguém nunca pára para pensar o que é ser um "país moderno". O que é ser "moderno"? Os Estados Unidos são modernos? A União Europeia? O Japão então? Estão todos em recessão!
Ou seja, o fato de termos uma infraestrutura horrosa apenas justifica o discurso desses hipócritas de plantão que adoram xingar o país e adorariam que aqui fosse uma enorme Bélgica onde tudo dá certo.
Porque não começar a resolver esse tipo de coisa, que impacta todos os moradores e trabalhadores de São Paulo capital - e do Brasil - e, com isso, calar os cri-cri - que na falta de algo para criticar fugiriam todos para Miami ou Paris?
Outra coisa que acho simplesmente irracional é essa ideia absurda de apresentar superávit das contas públicas como plataforma eleitoral. Essa metonímia, "superávit das contas públicas" esconde a verdade verdadeira: governo que dá lucro. Agora me explica uma coisa, como pode governo dar lucro, cara pálida?
Entendo que a razão de ser da iniciativa privada - seja ela uma usina, uma fábrica, uma fazenda, uma empresa de informática - é o lucro. Até discuto isso, mas acho compreensível, faz parte do jogo. Agora governo dar lucro? Não é à toa que os países pobres estão infestados de ONGs: os governos não investem nada, tão preocupados que estão em dar lucro!
Não estou defendendo dívidas enormes, como aquelas que o Geisel tomou à rodo nos anos 70 que, após a elevação dos juros nos EUA em 1980 e 1981, tornou nossa dívida externa impagável, destruindo o Estado e gerando Collor e a adoção do neoliberalismo para "modernizar" o Brasil. Não, há de ter controle das contas, com responsabilidade fiscal, com política criativa e inclusiva, que adote metas claras e objetivos transparentes com gestão exemplar e serviço por mérito, bem remunerado. Isso é uma coisa. Outra coisa é essa história torta que nós importamos dos "países modernos" a partir dos anos 80. Reter dinheiro simplesmente para ter essa pecha de "governo que dá lucro" é bisonho, para não dizer outra coisa.
Outro dia mesmo - para ser mais específico: quarta-feira, 28 de abril, FGV-SP, pela manhã - o governador de São Paulo defendeu seu governo e do seu aliado, prefeito de São Paulo, com um discurso de "aqui há superávit fiscal". Isso é plataforma eleitoral? Onde? Imagine o seguinte discurso: "estamos investindo menos, não reajustando salários e não contratamos mais. Com isso, o governo está com um enorme superávit". Tenha dó.
A mesma coisa ocorreu claramente no primeiro governo Lula, para não dizerem que não falei dos dois lados. Na gestão Palocci havia um controle absurdo das contas públicas, cortando dinheiro dos orçamentos das diferentes pastas com quase nenhum critério específico, apenas para gerar maior "superávit primário" (que, é bom lembrar, foi maior no primeiro governo Lula que no segundo governo FHC). No que o "superávit primário" astronômico foi bom para o Brasil naqueles tempos? Em diminuir nossa dívida pública? Que nada! Qualquer susto no mercado todos os investidores saltam para títulos pós-fixados e passam a exigir maior Selic - e acabam sendo sempre acudidos pelo BC.
O pior é o mundo inteiro vai num rumo e nós aqui seguimos firmes, isolados em outro. Como pode nos nossos adorados papai (Estados Unidos) e mamãe (Inglaterra), os governos entrarem gastando tudo para fazerem os países crescerem, investindo em programas habitacionais, em universalização da saúde, em melhoria do ensino público, em planos de carreira para funcionários públicos, etc., e aqui, em terra brasilis, ficarmos com esse papo de "superávit nas contas públicas"? Não estou defendendo o governo federal por partidarismo ou idelogia ou qualquer interesse de qualquer ordem. Mas o momento agora é justamente de intensificar gastos de Previdência, de Benefícios de Prestação Continuada (para idosos e deficientes físicos), de Bolsa Família, de habitação popular, saneamento, obras de infraestrutura, hospitais, escolas, centros recreativos, Sesc's, quadras, parques, tudo! Isso não é ideologia. É bom senso. Momentos de crise abrem espaços para muita coisa e a oportunidade de darmos uma sapecada civilizatória é enorme.
Para o pessoal que só aceita depois que um gringo diz antes, o próprio
Financial Times, um dos principais jornais de economia e negócios do mundo, por meio de um de seus mais renomados colunistas, Gideon Rachman, foi perspicaz em notar que
o modelo de Margaret Thatcher faliu, depois de 30 anos de hegemonia.
Porque então insistimos nisso?
E mais uma vez, quem é o prefeito de São Paulo?