segunda-feira, 30 de março de 2009

A magnífica arte de acusar sem provas

Uma análise rápida sobre alguns aspectos curiosos de nossa sociedade política, mais especificamente, militares-Estado-mídia.

A edição de domingo d'OGlobo trouxe a seguinte manchete: "SNI: Brizola e Cesar recebiam propina de empresas de ônibus". A linha-fina era a seguinte: "Arapongas acompanharam governo dia a dia. Bicheiros também davam dinheiro". A aba da manchete era: "Arquivos da Abertura".

Essa era a grande manchete da edição de ontem do segundo jornal de maior tiragem do Brasil. Uma acusação forte, com uma linha-fina pesada.

Antes de qualquer coisa é preciso destacar os personagens. Por SNI, entenda-se Sistema Nacional de Informações, o braço de espionagem da ditadura militar. Por Brizola, sabemos ser Leonel Brizola, que foi o primeiro governador eleito democraticamente no Rio de Janeiro, nas eleições de 1982. E finalmente, por Cesar, entenda-se Cesar Maia, que até o fim de 2008 era o prefeito carioca e que nos tempos de Brizola exercia o secretariado da Fazenda.

Voltemos a manchete da edição de ontem. A reportagem ganhou a primeira página. E a manchete interna era igualmente direta: "SNI: Brizola e Cesar faziam caixinha". A linha-fina: "Arapongas espionaram governo e relataram pagamento de propina de ônibus e do bicho".

Lendo as duas manchetes (da capa e da reportagem) e as duas linhas-finas (da capa e da reportagem) temos como certeza o seguinte: Brizola e Cesar Maia recebiam propina de bicheiros e de empresas de ônibus.

Vamos então ler a matéria.

Diz a reportagem que o antigo Sistema Nacional de Informações mobilizou órgãos de inteligência das Forças Armadas e arapongas infiltrados em ministérios civis e empresas estatais para espionar o governo Brizola. Levantaram informações de sua vida privada e de sua gestão no governo, criando dossiês cheios de informações. A reportagem se utilizou de dossiês do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa).

Mas é no miolo da matéria que se dá a informação mais importante de todas:

"Os relatórios não apresentam provas e não indicam ter originado investigações formais, mas são categóricos em suas afirmações".

Ou seja, os dossiês criados contra o governo Brizola não apresentam prova alguma. São políticos e ideológicos ao máximo. A ideia era desestabilizar o governo civil.

Isso não exime Brizola, Cesar Maia ou qualquer outro que esteja citado nos relatórios - a reportagem do jornal só cita os dois - de culpa. Eles podem ter feito aquilo pelo qual foram acusados. Mas podem não ter feito. Sem provas, qualquer conclusão que se fizer é política.

Isso não quer dizer que a matéria não tem sentido. É claro que tem. É preciso abrir todos os documentos - aqueles que os militares não rasgaram ou queimaram - referentes ao período de ditadura militar no Brasil. Um país sério não pode ficar sem passado. Pior, um país sério não pode deixar impunes todos os que praticaram crimes num período largo de sua história (21 anos - 1964-1985). Se os relatórios do SNI acusavam Brizola de receber propina de bicheiros e de empresas de ônibus é importante que isso venha a público por muitos motivos, como 1) para mostrar que os militares investigavam mesmo 2) para lançar luz sobre a administração Brizola, seja para absolvê-lo, seja para culpá-lo.

Mas daí a cravar em manchete e linha-fina de primeira página da edição de domingo do segundo jornal de maior circulação do Brasil uma acusação sem provas de um órgão de espionagem da ditadura militar é um pouco excessivo. Sendo que tudo é desmontado com uma simples frase, que explica que os relatórios foram feitos sem apresentar qualquer prova, mas "são categóricos".

Lição do dia: Para ganhar manchete não é preciso apresentar provas, apenas ser "categórico".

domingo, 29 de março de 2009

Domingo

Foto de Tara Todras, da Associated Press
Nessa semana que passou, a Força de Defesa israelense admitiu ter matado 309 civis inocentes, entre eles 189 crianças e jovens com menos de 15 anos, durante o recente massacre promovido contra os palestinos sitiados na Faixa de Gaza.
O ataque começou no dia 27 de dezembro de 2008, usando como justificativa o fato de estar revidando o lançamento de foguetes por parte do Hamas, movimento político eleito democraticamente pelos palestinos de Gaza, em janeiro de 2006. O Hamas não reconhece o Estado de Israel. E mais que isso: a pequena faixa de terra conhecida como Gaza está totalmente bloqueada desde 2007 por parte das tropas israelenses. Só entra comida, bebida, combustível e remédio se Israel deixar. O cerco se manteve mesmo após o Hamas e Israel terem concordado em cessar-fogo por seis meses, a partir de junho do ano passado.
Mesmo assim, Israel também desrespeitou o cessar-fogo, assassinando três palestinos em Gaza, no dia 04 de novembro (quarenta e dois dias antes do fim do acordo de cessar-fogo). O Hamas esperou o fim do acordo e retomou o lançamento de foguetes. Israel então, inflamado pela irracionalidade racista e belicista, decidiu invadir e bombardear Gaza.
Foram 21 dias de massacre. Ao todo, 1.434 palestinos foram mortos. Desses, 960 civis eram civis (já computadas as 309 crianças que o exército admitiu), 239 policiais e 235 militantes do Hamas.
Hoje, domingo gostoso aqui no Brasil, a situação é pouco diferente por lá: Gaza continua com o bloqueio econômico imposto por Israel e destruída após os ataques. Israel, por seu lado, formou uma coalização de direita com extrema-direita e inicia uma fase ainda mais radical.
A vida continua, claro. Hoje é domingo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Favelas americanas

O Estadão de hoje traz tradução de artigo de Jesse McKinley, chefe da sucursal do "The New York Times" em San Francisco. Se trata de uma reportagem sobre o avanço das favelas nos Estados Unidos, como consequencia direta da explosão dos juros das hipotecas a partir de 2007 - que iniciou a explosão da crise. Com a crise econômica e o aumento do desemprego, mais e mais famílias foram perdendo casas e oportunidades.

Há pobreza, enorme desigualdade e indigência na terra das oportunidades e liberdades. Aos poucos, embora ainda não exista uma consciência coletiva e organizada sobre isso, percebe-se que nada adianta liberdade ou democracia sem políticas de igualdade e solidariedade.

Abaixo alguns trechos do artigo:

"Como gerente operacional de um centro para a população desabrigada, Paul Stack manteve contato com pessoas em dificuldades. O que nunca tinha visto antes eram pessoas vivendo em barracas, num terreno perto da rodovia que leva ao centro.
“Eles apareceram por aqui há uns 18 meses”, disse Stack. “Um dia tudo estava vazio. No dia seguinte, as pessoas estavam vivendo ali”.
Como uma dezena de outras cidades pelo país, Fresno, na Califórnia, está às voltas com um funesto”déjà vu”: a chegada das Hooverville modernas, os acampamentos ilegais formados por pessoas sem ter onde morar, uma reminiscência, em escala menor, das favelas que proliferaram na época da Depressão.
Durante coletiva de imprensa na terça-feira, o presidente Barack Obama foi questionado diretamente sobre essas cidades-acampamento, e respondeu dizendo que não “se pode aceitar que crianças e famílias vivam sem um teto num país tão rico como o nosso”.
Embora os acampamentos e pessoas que vivem na rua já façam parte da paisagem de grandes cidades como Los Angeles e Nova York, essas novas áreas que abrigam sem-teto estão crescendo, deixando de ser pequenos enclaves, à medida que mais pessoas perdem seus empregos e a sua casa - em locais tão diversos como Nashville, no Tennessee, Olympia, em Washington, ou St.Petersburg, na Flórida.
Os sem-teto de Seattle, infelizes com seu acampamento de 100 pessoas, o apelidaram de Nickelville, numa referencia ao prefeito Greg Nickels.
Uma outra área de barracos em Sacramento, Califórnia, levou o governador Arnold Schwarzenegger a anunciar um plano para transferir os sem-teto para uma área vizinha destinada a um parque de diversão. Isso depois que uma visita ao local do programa de televisão “The Oprah Winfrey Show” provocou uma explosão de notícias na mídia, a ponto de algumas pessoas se queixarem de que estavam muito expostas e pedir para ser deixadas em paz.
O problema em Fresno é diferente, já que é crônico e totalmente distante dos refletores no plano nacional. A indigência nessa região há muito tempo é alimentada pelos altos e baixos da mão de obra de subsistência e sazonal no setor agrícola. Mas a recessão produziu agora centenas de novos sem-teto - desde aqueles que pegam carona até motoristas de caminhão e eletricistas.
“São pessoas que trabalhavam recebendo um salário mínimo ou mais, que conseguiam ter uma habitação de acordo com sua renda”, disse Michael Stoops, diretor executivo da Coalizão Nacional para os sem-teto, com sede em Washington.
Mas o grande aumento dos sem-teto em Fresno, cidade de 500 mil habitantes, foi uma surpresa. Funcionários da prefeitura dizem que há três grandes acampamentos perto do centro da cidade e assentamentos menores ao longo de duas rodovias. São cerca de 2 mil pessoas vivendo ali, de acordo com Gregory Barfield, encarregado da política e prevenção da cidade, que diz que o uso de drogas, a prostituição e a violência são muito comuns nessas áreas.
“Tudo isso faz parte dessa economia clandestina”, disse ele. “É o que ocorre quando uma pessoa está tentando sobreviver”, concluiu.
Segundo Barfield, a cidade pretende fazer uma “triagem” nos acampamentos nas próximas semanas, para determinar quantas pessoas precisam de serviços e uma habitação permanente. “Estamos tratando esses locais como área de desastre.”
Barfield assumiu o cargo em janeiro, depois que o condado e a cidade aprovaram um plano de dez anos para solucionar o problema dos sem-teto.
Uma ação coletiva aberta em nome dos desabrigados contra a cidade e o Departamento de Transportes da Califórnia foi concluída com um acordo de US$ 2,35 milhões, em 2008, o que rendeu algum dinheiro para 350 moradores que tiveram seus pertences jogados no lixo pela prefeitura.
"

***
Meus comentários:

Por enquanto, há muita desinformação. Mesmo com a exposição típica da televisão - como no caso da favela de Sacramento, na Califórnia, que recebeu um programa especial da Oprah Winfrey - o que há é um processo difuso, com indivíduos antes preocupados com seus problemas pessoais, pouco se lixando para os outros, tendo de sofrer os excessos do sistema montado cuidadosamente por décadas.

A atenção das autoridades, no caso, o governo Obama, acabará chegando, mas de uma perspectiva política. Semelhante ao que produziu Roosevelt nos anos da Grande Depressão, isto é, evitar que esse monte de indivíduos ganhe imaginação coletiva, questionando o sistema e o modelo de repartição de renda social. O governo Roosevelt se antecipou a essa tomada de consciência, promovendo ele mesmo a organização social, por meio de incentivos à formação de sindicatos, movimentos sociais e grupos de trabalho. Isso diluiu um processo mais grave de cisão social, que poderia desembocar lá na frente.

Se tudo isso vai se repetir agora, nos Estados Unidos de 2009, eu não sei. Mas, como no início da Depressão dos anos 30, muita gente está indo morar nas ruas.

Como se sabe, nossa intelectualidade só percebe alguns contornos sociais quando as coisas acontecem nos Estados Unidos. Mesmo que aqui as coisas sejam assim há milênios. Aos poucos perceberemos todos que de nada adianta liberdade ou democracia sem políticas de igualdade, oportunidade e solidariedade.

Em outras palavras, para ser realmente democrático, é preciso antes de democracia de facto.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A sinuca de radicalismo de Israel

A política de Israel alcançou um ponto impensável e triste ao mesmo tempo. O Kadima, partido de centro, levou a maioria das cadeiras nas eleições de fevereiro. Mas o segundo colocado, o Likud, de centro-direita, recebeu a indicação do presidente Shimon Peres para encabeçar o governo e indicar o primeiro-ministro, porque alcançou a maioria após conquistar o apoio do Israel Beitenu, partido de extrema direita.

Anteontem, o Partido Trabalhista, do atual primeiro-ministro Ehud Barak, decidiu apoiar a coalização Likud-Israel Beitenu. Detalhe: os Trabalhistas são um partido de centro-esquerda. Quer dizer, o partido de centro, o Kadima, se esquivou de se aliar ao pessoal da direita. Mas o partido de centro-esquerda não.

A situação que se desenha é de um radicalismo descontrolado por parte do novo governo, que terá como primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, do Likud. Veremos aumento - se isso ainda é possível - do radicalismo contra árabes e palestinos, pressão para que as famílias de colonos ortodoxos em regiões palestinas aumentem seu território, diminuindo ainda mais o espaço para os palestinos no pouco que resta de sua terra.

Israel, aos poucos vai ingressando numa sinuca de poucas opções políticas, todas convergindo para a incapacidade de sustentar diálogo, preferindo ataques bélicos antes disso.

Mais do que nunca, a Palestina continuará ocupada, sitiada e atacada.

Radiohead e Altamiro Carrilho

O Diogo, do Eu Garimpo, escreveu uma boa resenha sobre o show do Radiohead, realizado no último domingo em São Paulo. O show foi fora de série, de uma banda absolutamente fora de série. Musicalmente falando, o Radiohead é o melhor grupo dos anos 90: texturas complexas que aliam bases de rock básico com eletrônica bem amarrados, gerando um progressivo moderno maravilhoso.

Os pontos positivos estão todos elencados na resenha do Diogo (que pode ser lida clicando aqui), mas adicionaria a lindeza que foi assistir Thom Yorke, vocalista do grupo, cantar o rescaldo de "Paranoid Android" junto ao coro do público, logo depois da banda ter executado a canção.

O ponto negativo foi a desorganização total do lugar. Embora a Chácara do Jockey seja um lugar compatível para o tipo de evento - que juntou mais de 35 mil pessoas - a infraestrutura é péssima. Saímos, eu e a loira, às quinze para uma da madrugada (segundos depois do final de "Creep", a última música do terceiro e último bis) do local, alcançando o carro poucos minutos depois. Mas ficamos completamente parados, numa fila de carros desligados, até as duas e quinze da madrugada. Cheguei em casa as 3h30min, tendo de acordar as 6h30min da segunda, para começar o batente da semana, com faculdade, jornal, meu livro e tudo o mais pela frente.

Não foi fácil, mas o fim de semana recarregou todas as baterias.

Se no domingo tive Radiohead, no sábado foi vez do genial Altamiro Carrilho, no Sesc Vila Mariana. O show do Altamiro foi de matar. Ele, seguramente o maior flautista brasileiro, recebeu Danilo Brito, um dos grandes nomes do bandolim nacional. Juntos, entre outras, fizeram uma versão linda do "Aeroporto de Galeão", composição do Altamiro.

Não é sempre que podemos presenciar o melhor da música nacional e internacional em dois dias. Faz as três horas de sono - e a dor de cabeça subsequente - passarem desapercebidas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Piada da semana

Em agosto do ano passado, a revista Veja apresentou uma transcrição de uma conversa entre o ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres. À época, a revista acusou - sem apresentar qualquer prova - que o grampo teria sido feito ilegalmente pela Abin, a Agência Brasileira de Inteligência.

Ambos, Gilmar Mendes e Demóstenes Torres confirmaram a conversa. E após a publicação da matéria, Mendes foi mais longe, chamando o presidente Lula "às falas", para explicar o que ele chamava de "Estado policial", isto é, a perda de controle sobre grampos feitos pela Abin e pela Polícia Federal.

Na mesma época, a CPI das Escutas Telefônicas, popularmente conhecida como CPI dos Grampos, estava para acabar seus trabalhos. A acusação de Veja, seguida dos protestos de Gilmar Mendes, que é ministro-presidente do Superior Tribunal Federal, serviram para esquentar os parlamentares. A CPI prorrogou sua existência para apurar as acusações. Mas agora os parlamentares tinham um foco claro: desmoralizar a Polícia Federal e a Abin.

Estamos completando 8 meses da "reportagem" da revista. Até hoje, nenhuma prova foi apresentada. Não há qualquer indício que o grampo existiu ou, se existiu, se foi a Abin quem produziu.

Pois bem. Ontem, durante sabatina realizada pela Folha de S.Paulo, o ministro Gilmar Mendes se saiu com essa:

"Se a gente tiver um pouco de inteligência, não dá nem para conceder o benefício da dúvida. Com ou sem grampo, os fatos que estavam a ocorrer indicavam que aquilo era extremamente plausível. Se a história não era verdadeira, era extremamente verossímil."

Inacreditável!

Quer dizer, não importa se uma história seja verdadeira ou mentirosa, se ela for verossímil, já está valendo para condenar. Isso é inacreditável! Ou seja, se eu sou uma pessoa bacana, que nunca brigou com ninguém, nem nos tempos da escola, mato alguém no trânsito, só preciso alegar a incoerência do crime diante de minha personalidade. Quer dizer, seria verossímil que um homem bom não mata alguém. Seria verdade? Não, eu estaria mentindo. Mas seria verossímil. Isso bastaria para livrar minha cara e culpar outra pessoa, ou simplesmente deixar o suposto caso de assassinato em aberto.

A piada da semana é que o sujeito que disse isso é o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil.

domingo, 22 de março de 2009

Domingo

Gostaria saber dançar. (Opa, essa frase soa estranha assim). Gostaria de saber dançar. Pronto, contei uma verdade e algo que me encabula. Já pensei muito sobre isso - aliás, o que não me faz pensar muito? - e já tirei várias conclusões. Sempre que preciso dançar, isto é, naquelas saídas em bares com música ao vivo em que todos, literalmente todos no recinto, estão dançando. Eu odeio ficar de fora. É até algo humano isso. A gente detesta ficar de fora, ou ainda, chamar a atenção para isso. Pensando um pouco, isso até é coerente com minha deficiência. Fico preocupado em não dançar, porque eu não sei, para que os outros não fiquem achando que eu não passo de um idiota que não sabe dançar. Essa angústia é a mesma que me faz sentir um bocado isolado quando estou num recinto onde todos dançam.
Não costumo seguir ondas, que isso fique claro. Não estou me defendendo, apenas dizendo o óbvio e a mais pura verdade. Afinal, se estou me abrindo dizendo que sou um péssimo dançarino, posso me dar ao luxo de explicar melhor o contexto para que a sinceridade seja mais verdadeira. Digo isso porque, se um dia alguém, por qualquer razão que seja (e eu não consigo pensar em nada minimamente racional que motive), for escrever a história da minha vida, poderá resumi-la muito bem se disser que sou o tipo clássico que não segue ondas, modas ou experiências. Quando todos ouviam Nirvana, eu ouvia Rolling Stones. Quando passaram a ouvir Offspring e dançar axé, eu ouvia Sepultura e me vestia de preto. Mas não era como os roqueiros. Odiava bater cabeça nos shows. Quer dizer, também não sou daqueles do contra. Apenas digo que moda, onda ou qualquer denominação que deem, isso nunca me seduziu. Mesmo na fase universitária das experiências - quando tudo que é novo é muito legal - eu fiquei para trás. Fiquei porque quis. Não sou do contra, repito. Se quisesse, faria o que for. Sou assim porque é meu jeito.
Dei essa volta longa para voltar ao principal. Quando digo que me angustia ficar no canto quando todos os amigos e amigas estão adorando dançar não estou me referindo a angústia do adolescente que quer ser igual. Estou me referindo ao mesmo sentimento de não ser notado. Queria saber dançar apenas o necessário. Apenas aquilo que precisasse para cativar os amigos fofoqueiros a não ficarem de olho e para que a moça ao lado não ache ridículo. Na verdade, tenho raiva de quem sabe dançar porque eles roubam os poucos atributos que me dão.
Dizem que eu sou sensível, que eu entendo os problemas de todo mundo. Pois dizem as mesmas coisas dos caras que dançam, afinal, a atitude do cara grosseirão seria ficar no canto chamando todos os outros que dançam de boiolas. E aí, como eu não sei dançar, fica parecendo que eu sou um desses caras que não tem miolo, apenas músculo, que usam regatas e óculos escuros. Eu não esse cara. Eu sou o rapaz sensível, que entende os outros - mas não sabe dançar. No fundo, se pudesse, aboliria a dança. Aqueles que dançassem deveriam ser multados ou até agredidos. E eu seria o primeiro a chegar com a conta, dizendo: amigo, amiga, chega dessa palhaçada.
Mas isso não seria eu, é claro. Seria incapaz de fazer isso, quanto mais agredir alguém por dançar. Meu problema é outro. Meu problema é se preocupar tanto com o que os outros estão pensando de mim. Em pensar que eu sou o foco do universo, que, quando eu estou dançando, todos estão me olhando. Claro, existem as fofoqueiras babaquinhas e os machões desmiolados, mas esses já tem problemas demais. O real problema sou eu mesmo.

João Villaverde, 27/02, 20:10.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Carta aberta aos jornalistas - Por Leandro Fortes

O repórter Leandro Fortes, da revista CartaCapital, divulga hoje uma carta aberta endereçada a todos os jornalistas do Brasil. Leandro relata um episódio gravíssimo de censura no governo brasileiro. Reproduzo a carta logo abaixo e, em seguida, meus comentários.


CARTA ABERTA AOS JORNALISTAS DO BRASIL
Por Leandro Fortes

Com cópias para:
Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj);
Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); e
Romário Schettino, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF)

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha.

Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico - de áudio nunca revelado - envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”.

Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes?


Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

*****

Meus comentários:

A Carta aberta de Leandro Fortes apresenta uma denúncia muito grave, como já tinha dito lá em cima. Ele é um jornalista sério e sua carta não pode ser ignorada. Deve-se estabelecer uma investigação sobre o episódio de censura - apurar se houve censura nos termos apresentados pelo jornalista - e em seguida a restituição do programa ao site da Câmara, além da punição dos envolvidos no esquema.

Eu assisti ao programa, direto do site da TV Câmara, na semana passada. Por sorte, gravei o vídeo para meu computador. Se trata de uma excelente peça jornalística e democrática, com um debate transparente entre três jornalistas sérios. O programa não está mais no site da TV Câmara - realmente ele foi tirado do ar.

Somos um país pródigo em abusos de poder. Temos o dever de extirpar qualquer forma de censura à debates transparentes, democráticos e sérios.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Botando a casa em ordem

Os 13 leitores deste Blog estão acompanhando os últimos acontecimentos do nosso Senado? Não bastasse os R$ 6,2 milhões pagos em horas extras de janeiro (quando a Casa está em recesso), descobre-se (!) essa semana que o Senado conta com 181 diretorias. Marquem, são 81 senadores. A conta dá mais de duas diretorias por senador. Diretoria do quê? De check-in, para facilitar o embarque dos senadores nos aeroportos, diretoria de visitação, para acompanhar a visita de turistas ao Senado, diretoria das rádios de ondas curtas, etc.

A situação das 181 diretorias do Senado é bisonha. Aliás, se fossem minimamente investigadas, as relações de poder e troca entre os diferentes cargos (comissões, diretorias, secretariais, assessorias, etc.) trariam para a luz um esgoto político enorme.

Isso tem de ser feito. Se será feito é outra história.

O que não deve ser feito é entrar na ladainha de sempre, qual seja, aproveitar os escândalos políticos para criticar a política e o Estado. Isso é oportunismo e deve ser evitado.

Invariavelmente, sempre que surge algum escândalo - como esse bisonho das 181 diretorias do Senado - algumas vozes se levantam para criticar os políticos, criticar o Congresso, o governo, o Brasil e tudo o mais.

Não se deve entrar nessa onda.

Foi esse criticismo vazio e alienante que reinou no Brasil dos anos 80. Criticava-se o Estado inchado legado pelos militares e usado por José Sarney (o primeiro presidente do período da redemocratização) para distribuir favores. Mas era uma crítica pesada, que ia contra qualquer interesse nacional e coletivo. A crítica tinha um interesse: derrubar o Estado.

Esse projeto - que era martelado dia-a-dia - visava passar o Estado (que tinha enormes problemas, isso é inegável) para mãos privadas, tidas como mais eficientes e edificantes. Era um escapismo atroz, misturado com interesses financeiros. A lógica da crítica era: "O Estado é ruim portanto deve ser esvaziado e passado à mãos privadas."

Isso foi feito especialmente nos países pobres, que aceitaram esse criticismo e promoveram medidas de esvaziamento estatal ao longo dos anos 90. O que aconteceu com eles? O México foi o primeiro, mais ligado aos EUA. Quebrou em 1994. Depois os asiáticos, em 1997. Os russos, em 1998. O Brasil em 1999. E finalmente, a enorme quebra da Argentina, em 2001.

O que quero dizer é o seguinte: é preciso evitar essa crítica fácil do Estado brasileiro. Afinal, os políticos são marcianos? Eles não são parte integrante da sociedade brasileira? Se eles têm problemas, nós temos também, é evidente.

Ficamos parecendo adolescentes vazios. Diante de um problema familiar, preferímos fugir de casa à resolver as coisas. Ou ainda aquele analista chato que vive criticando o país e o mundo, como se não fizesse parte dele. Está na hora de agir cara pálida!

A questão não está em atacar ou fugir, mas em construir.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tenha cuidado com o poder supremo

"A Lei do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) prevê a participação de agentes de inteligência e o compartilhamento de dados entre a polícia e os demais órgãos de inteligência. Sustentar que a participação da Abin é ilegal é o mesmo que apontar que a participação do Bacen (Banco Central), numa investigação de fraude financeira, ou da Receita Federal, numa investigação fiscal, por exemplo, é ilegal"

De Rodrigo De Grandis, procurador-geral da República, ontem, em nota publicada pelo Ministério Público de São Paulo.

***

Na edição desse fim de semana, a revista Veja continua sua série de matérias tentando desmoralizar o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, o homem que prendeu o banqueiro Daniel Dantas após quatro anos de investigações (a Operação Satiagraha). Na semana passada, Veja divulgou trechos do relatório do delegado Amaro Ferreira, de São Paulo, destacado pela PF para investigar as denúncias de vazamento da Satiagraha supostamente feitas por Protógenes e que teriam favorecido a Rede Globo. Logo em seguida, cada passo do delegado Ferreira na investigação passou a ser vazado para a imprensa - uma ironia: o vazamento do vazamento. O ápice dessa estratégia se deu há quinze dias, no apagar das luzes da CPI dos Grampos, na Câmara. Onze volumes de informações até então sigilosas colhidas pelo delegado Ferreira foram enviados à CPI dos Grampos, sob responsabilidade do deputado Marcelo Itagiba, presidente da CPI. No meio do caminho, esse material foi vazado à revista Veja, a única a ter acesso a isso.

Quem vazou? Não se sabe. Outra coisa que não se sabe é se as investigações são verdadeiras, quer dizer, sem um posicionamento da Justiça, uma investigação da Polícia Federal não quer dizer nada, legalmente falando. Protógenes, acusado de muita coisa nas investigações de Ferreira, levadas à CPI de Itagiba e vazadas à revista Veja, pode ser tudo isso que dizem, pode não ser nada disso, pode ser um pouco. Enquanto um juiz não decidir, é cedo para afirmar.

No entanto, esse zelo foi ignorado pela imprensa. Isso tudo é muito conveniente para inviabilizar as investigações da Satiagraha, mas isso é outra história.

A reportagem da semana passada dava conta que Protógenes grampeara, ilegalmente, grandes nomes da República, como José Dirceu e Dilma Rousseaf, ex e atual ministros da Casa Civil, respectivamente, entre outros. A reportagem apenas atacava, esquecendo de trazer o outro lado.
Agora, a reportagem ataca outros flancos da Satiagraha, ao dizer o procurador-geral da República, Rodrigo De Grandis, e o juiz da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Fausto De Sanctis, tinham conhecimento da participação de membros da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, nas operações da Polícia Federal.

A ideia é desmoralizar Protógenes e a Polícia Federal, expediente já usado desde 08 de julho do ano passado, quando a PF prendeu Dantas.

A reportagem, mais uma vez, acusava sem trazer o outro lado. Publicada na sexta-feira, a matéria durou pouco. Logo no sábado o juiz Fausto De Sanctis lançou nota negando que soubesse da participação de arapongas da Abin nas operações de Protógenes. Ontem, segunda-feira, foi a vez de Rodrigo De Grandis, por meio de nota (de onde o trecho acima foi retirado) do Ministério Público negar as afirmações da revista.

Ao mesmo tempo, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Alberto Menezes Direito foi simples e claro sobre tudo isso: não é inconstitucional a participação de agentes da Abin em operações da Polícia Federal. O ministro do STF votava sobre uma ação de inconstitucionalidade perpetrada pelo PPS, que tentava anular a Satiagraha.

Ou seja, mesmo que Rodrigo De Grandis e Fausto De Sanctis soubessem que a Operação Satiagraha era tocada por agentes da Polícia Federal e da Abin, isso não seria inconstucional de maneira nenhuma, afinal, ambos pertencem a algo mais amplo, o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), que é soberano nessa história toda. Ou seja, se Protógenes fechou um acordo formal ou não com a Abin não interessa: é legal.

O que não é legal é sair atacando os outros sem checar a informação nem verificar o outro lado. No meio disso, ficam reputações jogadas no lixo por uma metralhadora de 1 milhão de exemplares. É preciso cuidado com o poder.

domingo, 15 de março de 2009

Domingo

"De que maneira eu vou me arranjar
Pro senhorio não me despejar?
De que maneira eu vou me arranjar
Pro senhorio não me despejar?
Pois eu hoje saí do plantão
Sem tostão! sem tostão!
Pois eu hoje saí do plantão
Sem tostão! sem tostão!

Já perguntei na prefeitura quanto tenho que pagar:
Quero ter uma licença pra viver sem almoçar.
Veio um funcionário e gritou bem indisposto
Que pra ser assim, tão magro
Tenho que pagar imposto! (mas vejam só!)

E quando eu passo pela praça, quase como o chafariz
Quando a minha fome aperta, dou dentadas no nariz
Ensinei meu cachorrinho a passar sem ver comida
Quando estava acostumado, ele disse adeus à vida!"

Noel Rosa e Arthur Costa

quarta-feira, 11 de março de 2009

Calma

O PIB brasileiro caiu 3,6% nos últimos três meses do ano passado. Essa informação é incompleta - e isso faz toda a diferença. Quando se estabelece qualquer relação de proporcionalidade, é preciso levar em conta o que se está comparando. No caso da queda do PIB, a comparação é entre o quarto e o terceiro trimestre do ano passado.

A informação completa é a seguinte: O PIB brasileiro caiu 3,6% nos últimos três meses do ano passado em comparação com o período de três meses imediatamente anterior (julho-agosto-setembro), quando o país registrou crescimento recorde, de mais de 6%.

Ou seja, a queda foi forte sim, não há dúvida. Mas se deu sob uma base extremamente alta, que foi o terceiro trimestre do ano passado.

O que acontece é que, se registrarmos queda no PIB neste primeiro trimestre de 2009, estará configurada recessão no Brasil. Por que? Porque tecnicamente falando, se estabeleceu a convenção de que está configurada uma recessão sempre que se registrar crescimento negativo do PIB de um país por dois trimestres seguidos.

Nesse sentido, aliás, os EUA estão em recessão desde dezembro de 2007.

O que se coloca à frente do Brasil é uma situação inédita. Quando o Lehman Brothers faliu, em 15 de setembro de 2008, levando a crise americana para patamares horríveis, sendo distribuída pelo mundo todo, logo as coisas chegaram aqui como o fim do mundo. Criou-se o medo da crise. Por três meses, foi martelada, dia a dia nos jornais, nas rádios, na televisão, que a crise era enorme, que o mundo tinha acabado, etc. e tal.

Isso abalou o "espírito animal do empresário", cravou Luis Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES, em entrevista publicada hoje no Valor Econômico. A ideia de "espírito animal" é de John Maynard Keynes.

O que é o "espírito animal"? Uma reação emocional altamente dependente da confiança em relação ao futuro. Quer dizer, a sensação, a fé de que as coisas darão certo, porque o país continuará crescendo. O "espírito animal do empresário", segundo Keynes, é aquele que não pode ser medido pelas planilhas, ou previsto pelos analistas de mercados. Estes só sabem fazer contas e errar previsões.

O espírito animal é aquilo que o presidente Lula tentava manter estimulado com suas declarações, ainda em setembro do ano passado, de que a crise era uma "marolinha". Já escrevi sobre essa história, mas ela voltou com tudo desde que o IBGE divulgou a queda de 3,6% de outubro-dezembro, ontem. Uma série de economistas e, principalmente, jornalistas, aproveitaram para tirar mais uma casquinha, se perguntando da tal da marolinha e tudo o mais.

Não se trata de defender o presidente Lula, o PT, ou quem quer que seja. Se trata de atentar para o óbvio: as pessoas, antes de ser empresários, trabalhadores, poetas, vagabundas, são pessoas. E por isso, criam expectativas emocionais - ou irracionais, como preferem os cabeções de planilha - sobre uma série de coisas. Dizer que o mundo está acabando e o Brasil vai junto, todos os dias, tem um preço: causa medo.

Claro que o medo em si não explica todas as demissões e fechamento de obras ou planos de investimentos que as empresas promoveram desde a explosão da crise. É evidente que há um contágio - todas dependiam da Bolsa, que viu os investidores externos fugirem, e do crédito internacional, que secou, para investir - e ele ajuda a explicar o que ocorre.

Não se trata de defender A ou B pensando dessa forma, mas sim, de defender a calma na análise e o bom senso. Numa hora dessas, ridicularizar a "marolinha" do governo é fazer política, antes de fazer análise.

domingo, 8 de março de 2009

Domingo

"Sou tradutor profissional há mais de 25 anos e a experiência acumulada me confere uma cristalina certeza: os revisores que trabalham nas nossas editoras pertencem a uma seita secreta com a missão de boicotar ao máximo o português brasileiro, impedir que ele se consagre na língua escrita para preservar tanto quanto possível a norma-padrão obsoleta que eles julgam ser a única forma digna de receber o nome de 'língua portuguesa'. Sempre fico irritado quando recebo os meus exemplares de tradutor e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de 'correções' que representam a obsessão paranóica de expurgar do texto escrito qualquer 'marca de oralidade', qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever o português. É sistemático, é premeditado (só pode ser). Todos os 'num' e 'numa' que uso são devidamente desmembrados em 'em um' e 'em uma', como se essas contrações, presentes na língua há mais de mil anos, fosse algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com 'nesse', 'nisso', etc., ou com 'no' e 'na'. Por que essa perseguição estúpida ao 'num', 'numa'?
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente a escrever em português brasileiro, pelo amor de Oxum! Consultem sues calendários: estamos no século 21! Vão estudar um pouco, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e como se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não nada de errado em escrever 'assisti ao filme', 'deixa eu ver', que a forma 'entre eu e você' não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos 'eu custo a crer'! Esqueçam o que dizem pasquales, sacconis e squarisis, esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz! Ouçam os apelos de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e idéias! Deixem eu ser brasileiro, deixem eu escrever para ser entendido pelos meus contemporâneos!"

Marcos Bagno, línguista e escritor.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O dia de Villa-Lobos

Hoje é o dia nacional de música clássica. Hoje é o dia que a morte do maestro Heitor Villa-Lobos completa 50 anos. Sem sombra de dúvida, Villa-Lobos foi nosso maior músico, em todos os sentidos do termo. Amava Bach, dos maiores maestros do mundo, e unia sua paixão musical com primor com sua paixão brasileira. Amava a música brasileira, amava a Amazônia, amava os animais, amava o país. Ao longo dos anos 20 compôs 13 choros, para violão, clarinete e flauta, orquestra completa, piano solo, tudo. Villa-Lobos conhecia, unia, fazia. Era complexo - até hoje, poucos músicos são capazes de interpretar o Choros nº11, por exemplo.

É preciso sempre lembrar o gênio, lembrar sua música e seu legado.

Abaixo, uma interpretação muito sincera de David Hussel, violeiro inglês, para o Choros nº 1, seu mais conhecido. E mais abaixo, da série das Bachianas Brasileiras dos anos 30, sua mais memorável, na minha opinião: as Bachianas Brasileiras nº 5, interpretada pela belíssima voz de Marília Vargas, durante apresentação no Castelo de Versailles, na França, em 2005.

video

Clique no link para ouvir as > Bachianas Brasileiras nº 5, na voz de Marília Vargas <

Aliás, as Bachianas Brasileiras nº5 ficaram famosas por terem sido executadas numa das cenas mais marcantes da história do cinema. Alguém arrisca o filme e a cena?

quarta-feira, 4 de março de 2009

A ditadura no Brasil foi "branda"

Na edição de 17 de fevereiro passado, o jornal Folha de S.Paulo escreveu em editorial que a ditadura militar brasileira foi uma "ditabranda". O editorial tratava do plebiscito realizado na Venezuela, em que o presidente Hugo Chávez saiu vitorioso, com a vitória das emendas constitucionais que ampliam a reeleição indefinida do presidente.

Foi um editorial polêmico - com o intuito de ser polêmico.

O ponto que mais chamou a atenção, claro, foi o fato de ter caracterizado os 21 anos de tortura, desaparecimentos, perseguições, assassinatos, exílios, censura e repressão de "ditabranda". Foi um golpe baixo. Em todos os sentidos. Ao dizer que o Brasil viveu uma "ditadura branda", o jornal definiu um "medidor de ditaduras", como marcou o colunista Fernando Barros e Silva, uma semana depois (edição de 24/02). Quer dizer, perto das ditaduras que existiram no Chile e na Argentina, onde o número de mortos e torturados foi maior, a ditadura no Brasil foi branda. Assim como o holocausto, quando 6 milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas (e outros milhões com sequelas psicológicas), foi "extermínio diet" perto dos 20 milhões de russos assassinados por Stálin.

Qualquer ser humano com o mínimo de humanidade - não é preciso muito - sabe que isso é uma atrocidade. Assassinato é assassinato. Extermínio é extermínio. Tortura é tortura. Ditadura é ditadura.

O editorial não gerou muito barulho até sexta-feira, três dias depois. É compreensível. Em uma das histórias relatadas em seu magistral "O Reino e o Poder - A história do New York Times", Gay Talese conta que certo dia, o New York Times publicou um editorial criticando os empreendimentos na ponte do rio Hudson. Logo pela manhã, o líder da equipe de publicidade do jornal entrou correndo na sala dos editorialistas e editores-chefes para dizer que aquilo era péssimo, que já estava quase acertado um grande anúncio para as páginas do Times bancado pelas empresas que tinha interesse nas obras no rio Hudson, que todos na área de publicidade e anúncios estavam desesperados e tudo o mais. Foi interrompido, calmamente, por um dos editorialistas do jornal, que disse: "Nada vai acontecer, fique tranquilo. Ninguém lê os editoriais".

Portanto, após três dias de silêncio sobre a "ditabranda" - quebrado por uma carta isolada de um leitor, publicada na edição de quarta-feira, revoltando-se com o termo da Folha - eis que a edição da sexta-feira, 20 de fevereiro, vêm recheada de cartas contra a atitude do jornal. Entre as cartas, estavam a da socióloga Maria Victória Benevides e do jurista Fabio Konder Comparato. Ambos prezando pelos direitos humanos lesados pelo ataque gratuíto do editorial revisionista.

As cartas foram respondidas com deselegância pelo jornal, por meio de "Nota da Redação", que dizia: "A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua 'indignação' é obviamente cínica e mentirosa."

A resposta da Folha gerou protesto no meio acadêmico e nos blogs. Vinte mestres lançaram um abaixo-assinado em repúdio à resposta grosseira do jornal aos dois acadêmicos. O abaixo-assinado pode ser lido aqui.
Entre os blogs, tanto de esquerda quanto de direita, muito foi falado. O Idelber, do Biscoito Fino e a Massa, resumiu bem o pensamento geral. O blogueiro da revista Veja, como de costume, foi truculento e grosso.

Do lado de onde tudo começou, a Folha de S.Paulo, dois colunistas se posicionaram. O já citado Fernando Barros e Silva, editor do caderno Brasil do jornal, escreveu em sua coluna de 24/02 criticando a utilização do termo "ditabranda", por parte do jornal. A coluna de Barros e Silva pode ser lida no blog do Renato Essenfelder, que é jornalista da própria Folha.

O colunista do caderno Ilustrada, Marcelo Coelho, membro do Conselho Editorial da Folha, escreveu em seu blog texto mais comedido - como é de seu costume - criticando tanto o jornal quanto parte da crítica de esquerda. O texto de Marcelo Coelho pode ser lido aqui.

Coelho reduz o pensamento da crítica de maneira errada, ao vincular a crítica ao termo "ditabranda" com a defesa de Chávez. Marcelo Coelho foi explícito: "Existe, por outro lado, muito interesse de parte dos críticos em defender Hugo Chávez." Isso não é de todo certo.

O termo "ditabranda" é errado sob qualquer ótica, independentemente da situação na Venezuela.

terça-feira, 3 de março de 2009

Dois a menos

A grande imprensa brasileira perdeu dois nomes importantes de uma vez: André Petry e Inaldo Sampaio. Enquanto Petry assinou sua última coluna no fim de semana, Sampaio foi demitido no último dia 27.

Eram dois jornalistas importantes para a grande imprensa, especialmente nos veículos onde estavam. André Petry era colunista da revista Veja; Inaldo Sampaio, articulista do Jornal do Commercio, de Pernambuco.

Os dois veículos, Veja e Jornal do Commercio, estão há tempos se afastando da imparcialidade e da regra pétrea do jornalismo: ouvir os dois lados da história. A revista Veja muito mais, é claro. Nos últimos anos, André Petry era a única mente lúcida na revista. O único a não entrar em ataques desqualificadores, baixos e fortemente ideológicos. A revista há tempos promove baixarias contra a esquerda (de cabeça consigo lembrar da matéria esquentada ridicularizando Che Guevara e da coluna do Reinaldo Azevedo blasfemando Gramsci em 2007), mas vem perdendo a compostura, agredindo o bom senso inclusive. Petry é um colunista de direita, mas diferentemente do ambiente criado pela revista sempre se caracterizou pelo Jornalismo (com maiúscula mesmo). Podia-se discordar de Petry, como aliás, inúmeras vezes discordei; podia-se concordar com ele, como também muita vezes concordei. E isso era o mais importante: se tratava de um dos poucos praticando jornalismo em seu espaço.

Aliás, Petry sofreu por isso. Diversas vezes, no último ano, foi atacado por Reinaldo Azevedo em seu blog, hospedado no site da revista. A saída de Petry é das últimas luzes que se apagam no setor de Jornalismo da revista. Isso é grave.

Grave também é a demissão de Inaldo Sampaio do Jornal do Commercio. A linha editorial do jornal, de centro-direita, vêm pendendo cada vez mais para a direita nos últimos anos. Isso é perceptível em outros órgãos da grande mídia, mas só poderá ser contastado e repercutido com mais seriedade com algum distanciamento temporal. Por enquanto, tudo ocorre lentamente.

A saída de Sampaio, no entanto, tende a apressar essa percepção. Inaldo Sampaio, assim como André Petry, é um colunista de direita. Mas, assim como Petry, sempre privilegiou o Jornalismo acima de suas convicções políticas. Foi essa, pelo que consta das informações disponíveis (leia aqui), a razão de sua demissão: Inaldo Sampaio foi longe demais ao discordar da opinião de seu jornal sobre a famigerada entrevista que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) concedeu à revista Veja, duas semanas atrás. Escrevi um artigo sobre a entrevista: > "A entrevista de Jarbas".

A coluna de despedida de André Petry pode ser lida aqui. Já a cobertura da demissão de Inaldo Sampaio do Jornal do Commercio pode ser encontrada no blog Bodega Cultural.

domingo, 1 de março de 2009

Domingo

"A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa."

Wilhelm Stekel, psicanalista.
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