Do blog do ótimo Sérgio Léo:
"Como o grande alvo atual da oposição é a política de gastos do governo, os liberais estão se contorcendo para explicar por que, ao contrário do que recomendava o FMI à América Latina e à Ásia duirante as crises do século do passado, os Estados Unidos aumentaram seu déficit público para 12%. O Sardenberg, na CBN, enrolou-se para justificar o rombo orçamentário no líder espiritual do que se chama de economia científica. Eles podem porque garantiram que é temporário e estamos em crise, argumentou.
Mas aí se atrapalhou. Obama não promete que o déficit será temporário. Diz que, no fim do mandato dele, o rombo no orçamento votla a 3%. Nada de fazer superávit para reduzir a dívida que se acumulará nesse período. Em curto-circuito com mais esa demonstração de que, na hroa do aperto, os manuais que valem para o terceiro mundo são rasgados no primeiro, Sardenberg chegou a dizer que o Obama prometeu "equilíbrio" nas contas ao fim do mandato. (...)
O Sardenberg poderia dizer simplesmente que eles, nos EUA, podem jogar no lixo o senso comum dos economistas, porque emitem a moeda mundial, e garantem uma inflação baixa importando alucinadamente do mundo todo. Mas aí teria de dizer que, quando a coisa fica preta, começam as pressões protecionistas para proteger os empregos americanos num mercado encolhido, jogando no lixo outro princípio liberal, o do livre comércio a qualquer custo, porque, em longo prazo, a economia ganha competitividade.
Para se tornar a potência farmacêutica que é hoje, a Suíça desprezou direitos de propriedade intelectual, até que teve uma indústria com criação própria e passou a ser a maior defensora desses direitos (como, aliás, também fez os EUA). A maioria dos países desenvolvidos foi protecionista, até que sua produção os incentivou a abrir os mercados dos outros, e então passaram a defender com unha e dente o liebralismo. Nas crises, são testadas as convicções econômicas. E os Estados Unidos estão mostrando que a receita cantada pelos economistas que estudaram em suas escolas não vale quando o fogo está no rabo deles.
O que, como ouvi na CBN, é uma covardia com os comentaristas que acreditaram no ideário pré-crise. Ficam gaguejando no ar. Tremenda maldade."
Você pode acessar o Sergio Leo clicando aqui.
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Modernidade na América Latina
A Argentina inicia hoje um processo histórico e crucial dos novos tempos. A partir de hoje, militares do país que cometerem delitos serão julgados pela Justiça Federal - como qualquer cidadão - e deverão submeter-se ao Código Penal - como qualquer pessoa. A Argentina tem dado muitos passos equivocados, especialmente a partir de 2006. Mas essa medida, incluída na Lei 26.394, aprovada pelo Congresso no ano passado para entrar em medida no 27 de fevereiro, coloca o país na modernidade.
Adoro esse tema.
Durante décadas, o grande discurso dos países ricos - que era adotado regiamente pelos países periféricos como lição de casa - era defender a "modernidade". Nos anos 80, por exemplo, todos os acadêmicos nos países da América Latina defendiam o "fim da participação do Estado, o livre mercado". Essas políticas eram chave para "finalmente ingressar na modernidade".
Balela, como todos sabemos. A enorme crise econômica que explodiu no ano passado está desmontando muito desse discurso bonitinho e interesseiro dos anos 80/90.
Já escrevi sobre a fabulosa Constituição boliviana e sobre os pontos realmente modernos incluídos na Carta. Ser moderno é entender que os homens são diferentes e que não há nada de errado com isso. Ser moderno é respeitar, e não restringir ou até reprimir, as diferenças. As diferenças entre os homens podem ser contornadas sempre, afinal, somos um pouco mais inteligentes que os bichos. A nova constituição boliviana devolve aos índios boa parte dos direitos extirpados pelos diferentes conquistadores ao longo dos milênios de massacres.
Na Argentina, ao equiparar os militares aos civis, mais um passo nesse sentido é dado.
Não faz sentido termos, em 2009 - após mais de seis ou sete mil anos de vida humana na Terra - pessoas ou grupos de pessoas que se julga diferente das outras por questões não-culturais.
A Argentina acabou com o Código de Justiça Militar, aprovado em 1951. Esse cógigo seria importante para regularizar e implementar regras que fortaleceriam um discurso que se tornaria dominante após o golpe militar-religioso que depôs o presidente Perón em 1955.
Agora foi instituído um novo Sistema de Justiça Militar. Com ele, foi erradicada a pena de morte e o homossexualismo deixou de ser considerado uma falta de disciplina grave pelas Forças Armadas, entre outras.
Aliás, essa mudança também toca outro chavão muito utilizado pelos cabeções nas últimas décadas. A ideia de "democracia". Os Estados Unidos, por exemplo, invadiu o Iraque com o discurso de levar a democracia àquele país. Claro, isso tudo era mentia, como todos sabem. Mas exemplifica bem o que foi o discurso da democracia.
Ao colocar os militares no mesmo patamar jurídico do resto da população, a Argentina de fato coloca um pouco de democracia na sociedade. Quer dizer, uma parcela relevante da sociedade respondia a seus próprios códigos de ética, com regras e leis particulares, enquanto todo o resto dos mortais argentinos tinham outra. Como as Forças Armadas são o braço armado (óbvio) do governo, e o governo é a representação dos interesses e anseios do povo, nada mais justo que as Forças Armadas respondam às autoridades civis, por fazerem parte do governo, como qualquer outro setor.
Se o governo realmente responde ao povo é outra discussão. Fato mesmo é que agora militar também é civil.
***
Ontem, a Assembleia Geral do Uruguai declarou inconstitucional a Lei de Caducidade. A Lei era uma espécie de anistia aos militares que ocuparam o poder ao longo da ditadura uruguaia, e foi aprovada por referendo na década de 80. Foi uma votação simbólica, uma vez que apenas participaram os parlamentares de esquerda - os de centro e direita boicotaram.
A anulação à anistia dos militares que tomaram o poder por golpe, torturam e assassinaram civis, na prática, não ocorreu. Para isso é preciso um decreto da Suprema Corte de Justiça. Em entrevista ao jornal O Globo, o senador Rafael Michelini explicou: "Nossa decisão não terá impacto jurídico, mas, sim, político". Rafael é filho de Zelmar Michelini, congressista uruguaio sequestrado e assassinado pelos militares, no âmbito da Operação Condor.
***
Incorporar e equiparar os militares ao resto da sociedade e lembrar que os crimes cometidos por regimes de exceção não estão esquecidos são pontos cruciais para (re)construção de Estados abertos e respeitados.
Isso é ser moderno.
Adoro esse tema.
Durante décadas, o grande discurso dos países ricos - que era adotado regiamente pelos países periféricos como lição de casa - era defender a "modernidade". Nos anos 80, por exemplo, todos os acadêmicos nos países da América Latina defendiam o "fim da participação do Estado, o livre mercado". Essas políticas eram chave para "finalmente ingressar na modernidade".
Balela, como todos sabemos. A enorme crise econômica que explodiu no ano passado está desmontando muito desse discurso bonitinho e interesseiro dos anos 80/90.
Já escrevi sobre a fabulosa Constituição boliviana e sobre os pontos realmente modernos incluídos na Carta. Ser moderno é entender que os homens são diferentes e que não há nada de errado com isso. Ser moderno é respeitar, e não restringir ou até reprimir, as diferenças. As diferenças entre os homens podem ser contornadas sempre, afinal, somos um pouco mais inteligentes que os bichos. A nova constituição boliviana devolve aos índios boa parte dos direitos extirpados pelos diferentes conquistadores ao longo dos milênios de massacres.
Na Argentina, ao equiparar os militares aos civis, mais um passo nesse sentido é dado.
Não faz sentido termos, em 2009 - após mais de seis ou sete mil anos de vida humana na Terra - pessoas ou grupos de pessoas que se julga diferente das outras por questões não-culturais.
A Argentina acabou com o Código de Justiça Militar, aprovado em 1951. Esse cógigo seria importante para regularizar e implementar regras que fortaleceriam um discurso que se tornaria dominante após o golpe militar-religioso que depôs o presidente Perón em 1955.
Agora foi instituído um novo Sistema de Justiça Militar. Com ele, foi erradicada a pena de morte e o homossexualismo deixou de ser considerado uma falta de disciplina grave pelas Forças Armadas, entre outras.
Aliás, essa mudança também toca outro chavão muito utilizado pelos cabeções nas últimas décadas. A ideia de "democracia". Os Estados Unidos, por exemplo, invadiu o Iraque com o discurso de levar a democracia àquele país. Claro, isso tudo era mentia, como todos sabem. Mas exemplifica bem o que foi o discurso da democracia.
Ao colocar os militares no mesmo patamar jurídico do resto da população, a Argentina de fato coloca um pouco de democracia na sociedade. Quer dizer, uma parcela relevante da sociedade respondia a seus próprios códigos de ética, com regras e leis particulares, enquanto todo o resto dos mortais argentinos tinham outra. Como as Forças Armadas são o braço armado (óbvio) do governo, e o governo é a representação dos interesses e anseios do povo, nada mais justo que as Forças Armadas respondam às autoridades civis, por fazerem parte do governo, como qualquer outro setor.
Se o governo realmente responde ao povo é outra discussão. Fato mesmo é que agora militar também é civil.
***
Ontem, a Assembleia Geral do Uruguai declarou inconstitucional a Lei de Caducidade. A Lei era uma espécie de anistia aos militares que ocuparam o poder ao longo da ditadura uruguaia, e foi aprovada por referendo na década de 80. Foi uma votação simbólica, uma vez que apenas participaram os parlamentares de esquerda - os de centro e direita boicotaram.
A anulação à anistia dos militares que tomaram o poder por golpe, torturam e assassinaram civis, na prática, não ocorreu. Para isso é preciso um decreto da Suprema Corte de Justiça. Em entrevista ao jornal O Globo, o senador Rafael Michelini explicou: "Nossa decisão não terá impacto jurídico, mas, sim, político". Rafael é filho de Zelmar Michelini, congressista uruguaio sequestrado e assassinado pelos militares, no âmbito da Operação Condor.
***
Incorporar e equiparar os militares ao resto da sociedade e lembrar que os crimes cometidos por regimes de exceção não estão esquecidos são pontos cruciais para (re)construção de Estados abertos e respeitados.
Isso é ser moderno.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
A Argentina e os nazistas
A história do bispo inglês Richard Williamson que negou o holocausto e ontem foi deportado da Argentina é apenas a ponta de um iceberg. A relação Argentina-nazistas-judeus vem de muito antes, dos anos 30, 40 e 50.
Para se estabelecer no período 1943-1946, o presidente Perón incluiu seu amigo pessoal e empresário Rodolfo Freude entre os conselheiros econômicos do peronismo. Rodolfo Freude era reconhecidamente ligado as teorias nazistas, e isso foi refletido no período, quando a Argentina passou a permitir a entrada de capitais de industriais alemães após a batalha de Stalingrado, em 1943.
Depois, seu filho Rodolfo "Rudy" Freude assume cargo de secretario no governo, permitindo a entrada de milhares de criminosos e colaboracionistas nazistas à Argentina. Não só Alemanha, mas da Polônia, Croácia, França, etc.
Em 1947 é lançado o primeiro plano quinquenal, que incentiva a boa imigração, que permite a chegada dos últimos cientistas nazistas não absolvidos pelos aliados. Von Braun, cientista nazista que criara a bomba voadora B-2, tendo trabalhado depois na Nasa, veio à Argentina. Vários como Von Braun, tiveram suas penas diminuídas em Nuremberg. A intenção da Argentina era atrair esses cérebros a partir de 1947, depois de quatro anos atraindo capital.
Carlos Fuldner funda uma empresa em 1948 e abre para a chegada de nazistas, lançando licenças aos montes. Foi um ótimo negócio para ele, Fuldner, e para os nazistas recém-chegados, como Eichman.
Na mesma época, Perón concedeu documentos para tornar legais todos os imigrantes. Milhares de nazistas se regularizaram, como Otto Papper, que voltou a utilizar seu nome original, após alguns anos de clandestinidade na Argentina. Mengele é outro que regulariza seu nome. Ele chegou à Argentina com uma mala com tipos sanguinios e experimentos de Auschwitz.
Em 16 de setembro de 1955, as Forças Armadas, lideradas pela Marinha, promoveram a revolução libertadora e retiraram Perón do poder. Os militares contavam com a ajuda da Igreja, que passou a apoiar o golpe pouco antes, em março daquele ano, quando Perón lançou uma série de projetos como lei do divórcio, separação da Igreja e Estado.
A proteção militar, contudo, continuava efetiva aos criminosos. Logo após a queda de Perón, Adolf Eichman, que utilizava o nome de Ricardo Klement, assume cargo na Mercedes-Benz na Província de Buenos Aires.
A partir de 1956, o Estado de Israel já estava equilibrado e estabelecido. Com o apoio dos Estados Unidos, passa a colocar seu serviço de inteligência e espionagem para procurar os nazistas que viviam e trabalhavam na América Latina. O foco especial era, claro, a Argentina, um berço de refugiados.
Uma denúncia anônima de um colega de trabalho de Ricardo Klement (Eichman) ao serviço EUA/Israel no início de 1960 provocou uma prática nada ortodoxa. Os israelenses entraram na Argentina e sequestraram Eichman, entre abril e maio de 60, levando-o a Israel. Lá ele seria julgado e condenado à morte pelos crimes dos anos Hitler na Alemanha. Seria morto em 31 de maio de 1962.
A vida dos nazistas na Argentina funcionou normalmente nas décadas de 40, 50 e 60, a não ser pelas incursões dos israelenses ou por políticas da Alemanha (que depois de 45 seria dividida entre os ocidentais e a União Soviética). Em novembro de 1956, após anos de tranquilidade na Argentina - mesmo com as turbulências internas que depuseram Perón um ano antes - um alemão clandestino deu entrada em sua embaixada com nome verdadeiro: Joseph Mengele. Por quase três anos isso não gerou problemas a ele, que continuou levando a vida na Argentina com sua situação normalizada com a Alemanha. Em setembro de 1959, no entanto, a República Alemã pediu sua extradição à Argentina.
Mengele fugiu, indo se tornar nômade por um tempo, até entrar no Brasil, de maneira clandestina. Morreu nos anos 80, de ataque cardíaco, numa praia brasileira. Teria sido mantido pelo Estado alemão até alguns anos antes de sua morte.
Para se estabelecer no período 1943-1946, o presidente Perón incluiu seu amigo pessoal e empresário Rodolfo Freude entre os conselheiros econômicos do peronismo. Rodolfo Freude era reconhecidamente ligado as teorias nazistas, e isso foi refletido no período, quando a Argentina passou a permitir a entrada de capitais de industriais alemães após a batalha de Stalingrado, em 1943.
Depois, seu filho Rodolfo "Rudy" Freude assume cargo de secretario no governo, permitindo a entrada de milhares de criminosos e colaboracionistas nazistas à Argentina. Não só Alemanha, mas da Polônia, Croácia, França, etc.
Em 1947 é lançado o primeiro plano quinquenal, que incentiva a boa imigração, que permite a chegada dos últimos cientistas nazistas não absolvidos pelos aliados. Von Braun, cientista nazista que criara a bomba voadora B-2, tendo trabalhado depois na Nasa, veio à Argentina. Vários como Von Braun, tiveram suas penas diminuídas em Nuremberg. A intenção da Argentina era atrair esses cérebros a partir de 1947, depois de quatro anos atraindo capital.
Carlos Fuldner funda uma empresa em 1948 e abre para a chegada de nazistas, lançando licenças aos montes. Foi um ótimo negócio para ele, Fuldner, e para os nazistas recém-chegados, como Eichman.
Na mesma época, Perón concedeu documentos para tornar legais todos os imigrantes. Milhares de nazistas se regularizaram, como Otto Papper, que voltou a utilizar seu nome original, após alguns anos de clandestinidade na Argentina. Mengele é outro que regulariza seu nome. Ele chegou à Argentina com uma mala com tipos sanguinios e experimentos de Auschwitz.
Em 16 de setembro de 1955, as Forças Armadas, lideradas pela Marinha, promoveram a revolução libertadora e retiraram Perón do poder. Os militares contavam com a ajuda da Igreja, que passou a apoiar o golpe pouco antes, em março daquele ano, quando Perón lançou uma série de projetos como lei do divórcio, separação da Igreja e Estado.
A proteção militar, contudo, continuava efetiva aos criminosos. Logo após a queda de Perón, Adolf Eichman, que utilizava o nome de Ricardo Klement, assume cargo na Mercedes-Benz na Província de Buenos Aires.
A partir de 1956, o Estado de Israel já estava equilibrado e estabelecido. Com o apoio dos Estados Unidos, passa a colocar seu serviço de inteligência e espionagem para procurar os nazistas que viviam e trabalhavam na América Latina. O foco especial era, claro, a Argentina, um berço de refugiados.
Uma denúncia anônima de um colega de trabalho de Ricardo Klement (Eichman) ao serviço EUA/Israel no início de 1960 provocou uma prática nada ortodoxa. Os israelenses entraram na Argentina e sequestraram Eichman, entre abril e maio de 60, levando-o a Israel. Lá ele seria julgado e condenado à morte pelos crimes dos anos Hitler na Alemanha. Seria morto em 31 de maio de 1962.
A vida dos nazistas na Argentina funcionou normalmente nas décadas de 40, 50 e 60, a não ser pelas incursões dos israelenses ou por políticas da Alemanha (que depois de 45 seria dividida entre os ocidentais e a União Soviética). Em novembro de 1956, após anos de tranquilidade na Argentina - mesmo com as turbulências internas que depuseram Perón um ano antes - um alemão clandestino deu entrada em sua embaixada com nome verdadeiro: Joseph Mengele. Por quase três anos isso não gerou problemas a ele, que continuou levando a vida na Argentina com sua situação normalizada com a Alemanha. Em setembro de 1959, no entanto, a República Alemã pediu sua extradição à Argentina.
Mengele fugiu, indo se tornar nômade por um tempo, até entrar no Brasil, de maneira clandestina. Morreu nos anos 80, de ataque cardíaco, numa praia brasileira. Teria sido mantido pelo Estado alemão até alguns anos antes de sua morte.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Do tempo em que se debatia cinema
Morreu no fim de janeiro Antonio Moniz Vianna, aos 84 anos. Fiquei devendo um comentário sobre o mestre, o primeiro crítico de cinema do Brasil. Moniz não foi apenas o professor dos leitores e fãs de cinema, mas professor dos críticos e dos cineastas também.
Moniz Vianna começou a escrever sobre cinema no Correio da Manhã, em 1946. O Correio era o jornal de circulação nacional mais lido do Brasil. Manteria essa posição por muitos anos ainda. Pois foi nesse espaço que Moniz Vianna passou a escrever, todos os dias, em artigos de duas colunas de página inteira. Naqueles anos, a crítica de cinema era importantíssima em alguns países, mas nada parecia ao que Moniz Vianna e o Correio se propuseram. As críticas eram curtas, ainda não existiam as publicações especializadas. Ao invés de jornais e revistas, os cineastas e críticos escreviam livros. Nesse sentido, Vianna foi um visionário, antecipando um movimento de pensar cinema que chegaria com força nos anos 50 e 60.
Como escreveu o grande Sérgio Augusto, discípulo de Moniz Vianna, o texto de seu mestre era elegante, incisivo e com inigualável erudição, "pois via de tudo, ao contrário dos franceses, que ficaram, por alguns anos, alheios ao que Hollywood produziu durante a Segunda Guerra Mundial, e dos americanos, com limitada intimidade com a produção comercial europeia".
Moniz venerava John Ford, um dos cinco maiores cineastas americanos de toda a história, na opinião deste blogueiro. Na França era René Clair antes de Jean Renoir e se sempre implicou com a Novelle Vague; na Itália, valorizava De Sica, Visconti e Fellini em detrimento de Rosselini. No Brasil, seus cineastas favoritos eram igualmente inovadores e conservadores: Lima Barreto, Jorge Illeli, Rubem Biáfora, Walter Hugo Khouri. A escolha de cineastas conservadores evidenciava uma visão que se tornou consensual durante os anos 60, quando uma geração explosivamente revolucionária tomou o cinema brasileiro. As críticas diárias de Moniz Vianna era rígidas demais para o cinema que se recriava, se pensava, se revolucionava e queria revolucionar. Ficou conhecido como "o inimigo número um do cinema brasileiro". Nos anos 40 criticara a chanchada, nos anos 50 fez vistas grossas às experiências industriais da Vera Cruz e nos tempos do Cinema Novo preferia o seguro Khoury às experimentações.
Podia-se criticar o conteúdo de suas missivas diárias no Correio, podia-se discordar de sua postura exigente e segura, mas nunca apelar para desconhecimento. Moniz Vianna assistia tudo, o tempo inteiro, comentando os filmes no calor da pré-estréia, das cópias antecipadas, das primeiras versões editadas, estava sempre assistindo e escrevendo.
Sobre críticos e disputas, novamente Sérgio Augusto explica: "Os Fla-Flus, de inegável cunho ideológico, que ainda se promovem entre Moniz e Alex Vianny ou entre Moniz e Paulo Emílio Salles Gomes me parecem ociosos, se não estapafúrdios. Paulo Emílio foi um (grande) ensaísta, de produção mais compassada, não um crítico ativo cotidianamente, exposto a escolhas e julgamentos tangidos pela urgência. Moniz e Alex, ao menos, jogavam na mesma liga: eram ambos críticos de militância diária, mas Alex tinha contra si dois fatores: seus textos não possuíam o brilho e o charme dos de Moniz, nem desfrutavam da mesma periodicidade, profusão e difusão. Passo ao largo de suas idiossincrasias ideológicas, vale dizer, de seu tropismo stalinista, porque em matéria de idiossincrasias, Moniz tampouco era fácil."
O grande crítico Ely Azeredo, o homem que criou a expressão "Cinema Novo", fala sobre a questão do cinema brasileiro e Moniz Vianna: "Nunca alcançou a graça de reconhecer a identidade e a importância cultural da produção brasileira: abriu exceção apenas para meia dúzia de diretores capazes de sustentar um diálogo inteligente com ele. Por outro lado, quando ocupou cargos em órgãos de cinema, batalhou seriamente pelo fomento à produção".
Uma história exemplifica bem o papel do crítico e do homem. Em 1967, Moniz escreveu em sua coluna uma crítica a Terra em Transe, de Glauber Rocha. Tachou o filme de "caótico e ininteligível". Na mesma época, Antonio Moniz Vianna trabalhava no INC e se esforçou para liberar Terra em Transe, proibido pelos militares. Conseguiu, por pouco tempo, romper a censura.
Moniz Vianna começou a escrever sobre cinema no Correio da Manhã, em 1946. O Correio era o jornal de circulação nacional mais lido do Brasil. Manteria essa posição por muitos anos ainda. Pois foi nesse espaço que Moniz Vianna passou a escrever, todos os dias, em artigos de duas colunas de página inteira. Naqueles anos, a crítica de cinema era importantíssima em alguns países, mas nada parecia ao que Moniz Vianna e o Correio se propuseram. As críticas eram curtas, ainda não existiam as publicações especializadas. Ao invés de jornais e revistas, os cineastas e críticos escreviam livros. Nesse sentido, Vianna foi um visionário, antecipando um movimento de pensar cinema que chegaria com força nos anos 50 e 60.
Como escreveu o grande Sérgio Augusto, discípulo de Moniz Vianna, o texto de seu mestre era elegante, incisivo e com inigualável erudição, "pois via de tudo, ao contrário dos franceses, que ficaram, por alguns anos, alheios ao que Hollywood produziu durante a Segunda Guerra Mundial, e dos americanos, com limitada intimidade com a produção comercial europeia".
Moniz venerava John Ford, um dos cinco maiores cineastas americanos de toda a história, na opinião deste blogueiro. Na França era René Clair antes de Jean Renoir e se sempre implicou com a Novelle Vague; na Itália, valorizava De Sica, Visconti e Fellini em detrimento de Rosselini. No Brasil, seus cineastas favoritos eram igualmente inovadores e conservadores: Lima Barreto, Jorge Illeli, Rubem Biáfora, Walter Hugo Khouri. A escolha de cineastas conservadores evidenciava uma visão que se tornou consensual durante os anos 60, quando uma geração explosivamente revolucionária tomou o cinema brasileiro. As críticas diárias de Moniz Vianna era rígidas demais para o cinema que se recriava, se pensava, se revolucionava e queria revolucionar. Ficou conhecido como "o inimigo número um do cinema brasileiro". Nos anos 40 criticara a chanchada, nos anos 50 fez vistas grossas às experiências industriais da Vera Cruz e nos tempos do Cinema Novo preferia o seguro Khoury às experimentações.
Podia-se criticar o conteúdo de suas missivas diárias no Correio, podia-se discordar de sua postura exigente e segura, mas nunca apelar para desconhecimento. Moniz Vianna assistia tudo, o tempo inteiro, comentando os filmes no calor da pré-estréia, das cópias antecipadas, das primeiras versões editadas, estava sempre assistindo e escrevendo.
Sobre críticos e disputas, novamente Sérgio Augusto explica: "Os Fla-Flus, de inegável cunho ideológico, que ainda se promovem entre Moniz e Alex Vianny ou entre Moniz e Paulo Emílio Salles Gomes me parecem ociosos, se não estapafúrdios. Paulo Emílio foi um (grande) ensaísta, de produção mais compassada, não um crítico ativo cotidianamente, exposto a escolhas e julgamentos tangidos pela urgência. Moniz e Alex, ao menos, jogavam na mesma liga: eram ambos críticos de militância diária, mas Alex tinha contra si dois fatores: seus textos não possuíam o brilho e o charme dos de Moniz, nem desfrutavam da mesma periodicidade, profusão e difusão. Passo ao largo de suas idiossincrasias ideológicas, vale dizer, de seu tropismo stalinista, porque em matéria de idiossincrasias, Moniz tampouco era fácil."
O grande crítico Ely Azeredo, o homem que criou a expressão "Cinema Novo", fala sobre a questão do cinema brasileiro e Moniz Vianna: "Nunca alcançou a graça de reconhecer a identidade e a importância cultural da produção brasileira: abriu exceção apenas para meia dúzia de diretores capazes de sustentar um diálogo inteligente com ele. Por outro lado, quando ocupou cargos em órgãos de cinema, batalhou seriamente pelo fomento à produção".
Uma história exemplifica bem o papel do crítico e do homem. Em 1967, Moniz escreveu em sua coluna uma crítica a Terra em Transe, de Glauber Rocha. Tachou o filme de "caótico e ininteligível". Na mesma época, Antonio Moniz Vianna trabalhava no INC e se esforçou para liberar Terra em Transe, proibido pelos militares. Conseguiu, por pouco tempo, romper a censura.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Domingo
Cinquenta e um anos atrás, estreava, na sexta-feira 22 de fevereiro de 1958, "Eles não usam black-tie", no Teatro Arena de São Paulo. A peça é de Gianfrancesco Guarnieri - que também participa em atuação incrível nas primeira temporada - e conta a vida de operários.
A peça não apenas foi bem recebida pela crítica, mas ajudou a formar no país uma escola de teatro de protesto. Um teatro pensado, muito rico, que entraria com tudo nos anos 60 e 70. Grandes peças, grandes direções, grandes atores, muitas ideias, muito público, música, polêmica.
"Eles não usam black-tie" sofreu intermináveis problemas com a censura militar, depois de instaurada a ditadura, seis anos depois de estrear em São Paulo.
Retornaria de maneira triunfal em 1981, sob a forma de um filme homônimo de Leon Hirzman.
Em tempos de recrudescimento do protecionismo e das ideias de "flexibilização" do contrato de trabalho em tempos de crise, vale a pena relembrar a peça - e assistir ao magnífico cinema do Leon - para repensar o papel dos sindicatos na nossa sociedade.
A peça não apenas foi bem recebida pela crítica, mas ajudou a formar no país uma escola de teatro de protesto. Um teatro pensado, muito rico, que entraria com tudo nos anos 60 e 70. Grandes peças, grandes direções, grandes atores, muitas ideias, muito público, música, polêmica.
"Eles não usam black-tie" sofreu intermináveis problemas com a censura militar, depois de instaurada a ditadura, seis anos depois de estrear em São Paulo.
Retornaria de maneira triunfal em 1981, sob a forma de um filme homônimo de Leon Hirzman.
Em tempos de recrudescimento do protecionismo e das ideias de "flexibilização" do contrato de trabalho em tempos de crise, vale a pena relembrar a peça - e assistir ao magnífico cinema do Leon - para repensar o papel dos sindicatos na nossa sociedade.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
Aquarela brasileira
Para esse sábado de carnaval, nada melhor do que um de nossos maiores sambas: "Aquarela Brasileira", composição do grande Silas de Oliveira, tema da escola Império Serrano que levou o carnaval de 1975. O samba-enredo já foi gravado na voz de uma constelação de grandes músicos e interpretes brasileiros, como Dona Yvone Lara e Martinho da Vila. Abaixo, vai a versão do Dudu Nobre, num vídeo lindo.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Frase da semana
"Se não usarem os recursos, nós vamos retirar as empresas e chamar a segunda colocada nas licitações. Vamos fazer rescisão unilateral de contrato, depois a gente vê na Justiça. Quem avisa amigo é. Ou executa ou sai fora".
De Luiz Antônio Pagot, diretor-geral do Dnit, o Departamento Nacional de Infraestrutura em Transportes. O governo realiza estudos para retirar empreiteras das obras licitadas. Para o governo, as empresas pegaram mais obras para tocar do que sua capacidade operacional. Com isso, muitas obras de infraestrutura de transportes sofrem atrasos na execução dos projetos. O Dnit é o braço executivo do Ministério dos Transportes, o órgão público que tem mais verbas para execução de obras do PAC. Apenas para 2009, o orçamento do Dnit é de R$ 17,6 bilhões, uma soma importantíssima num setor crucial para atravessar a parte mais pesada da crise mundial.
De Luiz Antônio Pagot, diretor-geral do Dnit, o Departamento Nacional de Infraestrutura em Transportes. O governo realiza estudos para retirar empreiteras das obras licitadas. Para o governo, as empresas pegaram mais obras para tocar do que sua capacidade operacional. Com isso, muitas obras de infraestrutura de transportes sofrem atrasos na execução dos projetos. O Dnit é o braço executivo do Ministério dos Transportes, o órgão público que tem mais verbas para execução de obras do PAC. Apenas para 2009, o orçamento do Dnit é de R$ 17,6 bilhões, uma soma importantíssima num setor crucial para atravessar a parte mais pesada da crise mundial.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
A cabeça israelense
É inexplicável, mas todos se sentem mais convencidos quando a crítica vem de dentro. Quer dizer, se um botafoguense diz que seu time foi superior ao Flamengo numa vitória qualquer, esse comentário é fanatismo. Só será validado por outros torcedores se, nesse exemplo, o flamenguista assumir que o Botafogo jogou melhor. Isso é futebol, passa pela torcida assumida por determinado clube.
É assim também na política e na religião.
Pois bem. O artista plástico Gershon Knispel é judeu. Sua família fugiu da Alemanha nazista em 1935, indo morar na Palestina. Knispel tinha dois anos de idade. Foi criado entre os árabes palestinos e tinha 15 anos quando, naquele país, foi criado outro. A partir de 1948, Knispel passou a ser, portanto, israelense. Knispel ama e mora em Israel.
Aos que, como os torcedores de futebol, precisam de uma crítica de alguém de dentro para levar algum assunto a sério, aí vai o que Gershon Knispel pensa da vida política recente de Israel:
"Depois do assassinato de Rabin, fizeram um cerco contra seu parceiro Yasser Arafat em Ramallah. Não deixaram durante dois anos e meio que ele visse a luz do dia. Deixaram Arafat morrer devagar, pelo veneno que o serviço secreto israelense, por ordem de Ariel Sharon, conseguiu pôr na comida do líder palestino (veja o protocolo revelado pelo historiador israelense Amnon Kapeliuk). Depois que Arafat morreu, o governo israelense se negou a tratar com seu sucessor Abu Mazem - e quando o Hamas foi eleito democraticamente, chamaram esse grupo de terrorista, que quer liquidar com Israel. Com quem a gente precisa fazer conversações de paz? Com amigos? Ou com o inimigo? E como se pode reconhecer o direito à existência de um país que não tem fronteiras - e que dentro do próprio governo tem uma minoria dos que acreditam em 'dois povos, dois Estados', e uma maioria que se orgulha da 'Grande Israel' e que nunca vai aceitar devolver a Palestina aos palestinos?"
A questão Palestina-Israel é muito complexa. Existem, no entanto, uma série de possibilidades para negociar. Ainda assim, o recado que a maioria dos israelenses passou nas últimas votações (analisadas aqui) é um só: a Palestina continuará ocupada. E quem se insurgir, morre.
É assim também na política e na religião.
Pois bem. O artista plástico Gershon Knispel é judeu. Sua família fugiu da Alemanha nazista em 1935, indo morar na Palestina. Knispel tinha dois anos de idade. Foi criado entre os árabes palestinos e tinha 15 anos quando, naquele país, foi criado outro. A partir de 1948, Knispel passou a ser, portanto, israelense. Knispel ama e mora em Israel.
Aos que, como os torcedores de futebol, precisam de uma crítica de alguém de dentro para levar algum assunto a sério, aí vai o que Gershon Knispel pensa da vida política recente de Israel:
"Depois do assassinato de Rabin, fizeram um cerco contra seu parceiro Yasser Arafat em Ramallah. Não deixaram durante dois anos e meio que ele visse a luz do dia. Deixaram Arafat morrer devagar, pelo veneno que o serviço secreto israelense, por ordem de Ariel Sharon, conseguiu pôr na comida do líder palestino (veja o protocolo revelado pelo historiador israelense Amnon Kapeliuk). Depois que Arafat morreu, o governo israelense se negou a tratar com seu sucessor Abu Mazem - e quando o Hamas foi eleito democraticamente, chamaram esse grupo de terrorista, que quer liquidar com Israel. Com quem a gente precisa fazer conversações de paz? Com amigos? Ou com o inimigo? E como se pode reconhecer o direito à existência de um país que não tem fronteiras - e que dentro do próprio governo tem uma minoria dos que acreditam em 'dois povos, dois Estados', e uma maioria que se orgulha da 'Grande Israel' e que nunca vai aceitar devolver a Palestina aos palestinos?"
A questão Palestina-Israel é muito complexa. Existem, no entanto, uma série de possibilidades para negociar. Ainda assim, o recado que a maioria dos israelenses passou nas últimas votações (analisadas aqui) é um só: a Palestina continuará ocupada. E quem se insurgir, morre.
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Palestina Ocupada
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
A entrevista de Jarbas
A revista Veja dessa semana traz, em suas páginas amarelas, uma entrevista com o senador Jarbas Vasconcellos, do PMDB de Pernambuco. É uma entrevista forte, que recebeu ampla chamada de capa, acima do logotipo da revista.
A entrevista já está repercutindo no meio político. Deve - embora dificilmente será - ser entendida criticamente por todos os interessados em política. Aliás, a entrevista marca o início da campanha presidencial de 2010. Marca a entrada dos atores, da imprensa e dos joguinhos.
A entrevista pode ser lida no site da revista, clicando aqui.
Praticamente cada resposta de Jarbas pode ser discutida e analisada.
1) Ele, por vezes, incorre na politicagem que tanto critica. No início, critica o seu partido, o PMDB, por estar sempre "mamando nas tetas do poder". Diz que o partido é corrupto e está mais preocupado em ocupar cargos, por isso, segundo Jarbas, "daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado". Depois de criticar tanto, diz que não se sente estimulado em deixar o partido. E no final, diz que apoiará José Serra. Diz Jarbas: "Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a reformas essenciais, principalmente a política."
2) Faz uma análise séria do PMDB e seus caciques. Diz ele: "Eu entrei no MDB para combater a ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos." O MDB era forte, mas unia alhos com bugalhos. Bastava ser crítico a ditadura. Isso por si só abre um leque muito grande de ideologias e pensamentos. Com a distensão e a abertura foi se descentralizando. Hoje, basicamente, se trata de uma "confederação de líderes regionais". A falta de bandeiras é crônica. Bem como sua eterna ligação ao poder, seja ele ocupado pelos tucanos ou pelos petistas.
3) Jarbas é contraditório ao criticar o governo Lula. Diz que deixou de apoiar Lula quando percebeu que não havia compromisso com reformas. "Eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso". Jarbas acha que Lula não aproveitou a fase áurea de desenvolvimento mundial. Na resposta seguinte, diz que "o grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só."
Foi justamente o fato de Lula não ter mexido na economia que fez com o país não aproveitasse os tempos áureos. É só comparar o crescimento brasileiro nos anos FHC (1995-2002) com o crescimento no primeiro governo Lula (2003-2006, anos da bonança internacional) e veremos o continuísmo. A explicação? Justamente o que Jarbas vê como único ponto positivo: a manutenção da política econômica anterior.
4) Jarbas generaliza nas críticas, ao dizer que toda a classe política é medíocre. Diz que tanto governo quanto oposição são medíocres. Seria melhor ver as coisas de maneira mais ampla: políticos não são alienígenas. Vieram do Brasil. Se todos são medíocres, melhor seria criticar o país como um todo. Como fazer para mudar essa situação então? Permanecer no PMDB, como ele diz? Ou esperar José Serra assumir para aí então promover a reforma política, "a mãe de todas as reformas"?
5) A crítica de Jarbas ao Bolsa Família é desmedida e não é comprovada nos fatos. Ele diz que o programa é "o maior programa de oficial de compra de votos do mundo". O que faz o Bolsa Família? Por meio de estudos de craques da pesquisa social brasileira, como Ricardo Paes de Barros, do Ipea, distribui algo como oitenta reais às pessoas mais pobres do Brasil. São pessoas que não tinham renda alguma antes do programa. Isso é compra de votos? Não se trata de defender o PT ou Lula, mas defender humanidade. Aliás, é de uma incoerência atroz apontar a mediocridade da classe política e depois criticar veementemente um dos poucos programas sérios. O que ele sugere? Que as pessoas recebam atenção do governo pela primeira vez e depois votem na oposição?
6) Jarbas não percebe, mas sua visão sobre o Bolsa Família ser um programa eficaz de marketing político e sua análise de que o PMDB é um partido de caciques regionais são complementares. Não é à toa que seu estado, Pernambuco, tenha aprovação de quase 95% ao presidente Lula (Bolsa Família) e ainda eleja um cacique, Jarbas Vasconcellos, para o senado.
7) A comparação, mesmo que indireta, da popularidade de Lula com Médici é, no mínimo, deselegante, para não dizer ignorante. Médici fazia parte de uma ditadura, governou sob o AI-5 e institucionalizou a tortura como política de Estado. Lula, que seria preso (1979) por sua liderança sindical durante a mesma ditadura a qual Médici fez parte, foi eleito e reeleito pela maioria. Considerar o Bolsa Família um programa eleitoral pode ser errado, mas é uma opinião, mesmo que manifestadamente motivada por interesses políticos. Mas daí a relacionar indiretamente ao governo Médici, é masturbação mental.
8) "A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição." Isso é verdade. Popularidade de ninguém deve ser motivo de extinção do pensamento contrário. A questão aí está na própria oposição passar um processo de reciclagem, uma vez que ficou reduzida a personagens caricatos, como Arthur Virgíllio, Paulo Bornhausen, Cesar Maia, entre outros. A oposição sozinha tem de perceber que essa estratégia é ruim para si, inclusive politicamente falando. A análise podia ser mais ampla, nesse sentido, ao perceber quem ocupou o espaço deixado vago pela oposição ao longo do governo Lula.
O que fica claro é que as eleições de 2010 começaram antes do carnaval de 2009.
A entrevista já está repercutindo no meio político. Deve - embora dificilmente será - ser entendida criticamente por todos os interessados em política. Aliás, a entrevista marca o início da campanha presidencial de 2010. Marca a entrada dos atores, da imprensa e dos joguinhos.
A entrevista pode ser lida no site da revista, clicando aqui.
Praticamente cada resposta de Jarbas pode ser discutida e analisada.
1) Ele, por vezes, incorre na politicagem que tanto critica. No início, critica o seu partido, o PMDB, por estar sempre "mamando nas tetas do poder". Diz que o partido é corrupto e está mais preocupado em ocupar cargos, por isso, segundo Jarbas, "daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado". Depois de criticar tanto, diz que não se sente estimulado em deixar o partido. E no final, diz que apoiará José Serra. Diz Jarbas: "Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a reformas essenciais, principalmente a política."
2) Faz uma análise séria do PMDB e seus caciques. Diz ele: "Eu entrei no MDB para combater a ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos." O MDB era forte, mas unia alhos com bugalhos. Bastava ser crítico a ditadura. Isso por si só abre um leque muito grande de ideologias e pensamentos. Com a distensão e a abertura foi se descentralizando. Hoje, basicamente, se trata de uma "confederação de líderes regionais". A falta de bandeiras é crônica. Bem como sua eterna ligação ao poder, seja ele ocupado pelos tucanos ou pelos petistas.
3) Jarbas é contraditório ao criticar o governo Lula. Diz que deixou de apoiar Lula quando percebeu que não havia compromisso com reformas. "Eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso". Jarbas acha que Lula não aproveitou a fase áurea de desenvolvimento mundial. Na resposta seguinte, diz que "o grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só."
Foi justamente o fato de Lula não ter mexido na economia que fez com o país não aproveitasse os tempos áureos. É só comparar o crescimento brasileiro nos anos FHC (1995-2002) com o crescimento no primeiro governo Lula (2003-2006, anos da bonança internacional) e veremos o continuísmo. A explicação? Justamente o que Jarbas vê como único ponto positivo: a manutenção da política econômica anterior.
4) Jarbas generaliza nas críticas, ao dizer que toda a classe política é medíocre. Diz que tanto governo quanto oposição são medíocres. Seria melhor ver as coisas de maneira mais ampla: políticos não são alienígenas. Vieram do Brasil. Se todos são medíocres, melhor seria criticar o país como um todo. Como fazer para mudar essa situação então? Permanecer no PMDB, como ele diz? Ou esperar José Serra assumir para aí então promover a reforma política, "a mãe de todas as reformas"?
5) A crítica de Jarbas ao Bolsa Família é desmedida e não é comprovada nos fatos. Ele diz que o programa é "o maior programa de oficial de compra de votos do mundo". O que faz o Bolsa Família? Por meio de estudos de craques da pesquisa social brasileira, como Ricardo Paes de Barros, do Ipea, distribui algo como oitenta reais às pessoas mais pobres do Brasil. São pessoas que não tinham renda alguma antes do programa. Isso é compra de votos? Não se trata de defender o PT ou Lula, mas defender humanidade. Aliás, é de uma incoerência atroz apontar a mediocridade da classe política e depois criticar veementemente um dos poucos programas sérios. O que ele sugere? Que as pessoas recebam atenção do governo pela primeira vez e depois votem na oposição?
6) Jarbas não percebe, mas sua visão sobre o Bolsa Família ser um programa eficaz de marketing político e sua análise de que o PMDB é um partido de caciques regionais são complementares. Não é à toa que seu estado, Pernambuco, tenha aprovação de quase 95% ao presidente Lula (Bolsa Família) e ainda eleja um cacique, Jarbas Vasconcellos, para o senado.
7) A comparação, mesmo que indireta, da popularidade de Lula com Médici é, no mínimo, deselegante, para não dizer ignorante. Médici fazia parte de uma ditadura, governou sob o AI-5 e institucionalizou a tortura como política de Estado. Lula, que seria preso (1979) por sua liderança sindical durante a mesma ditadura a qual Médici fez parte, foi eleito e reeleito pela maioria. Considerar o Bolsa Família um programa eleitoral pode ser errado, mas é uma opinião, mesmo que manifestadamente motivada por interesses políticos. Mas daí a relacionar indiretamente ao governo Médici, é masturbação mental.
8) "A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição." Isso é verdade. Popularidade de ninguém deve ser motivo de extinção do pensamento contrário. A questão aí está na própria oposição passar um processo de reciclagem, uma vez que ficou reduzida a personagens caricatos, como Arthur Virgíllio, Paulo Bornhausen, Cesar Maia, entre outros. A oposição sozinha tem de perceber que essa estratégia é ruim para si, inclusive politicamente falando. A análise podia ser mais ampla, nesse sentido, ao perceber quem ocupou o espaço deixado vago pela oposição ao longo do governo Lula.
O que fica claro é que as eleições de 2010 começaram antes do carnaval de 2009.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Domingo
"Cheguei lá cedo demais e, por isso, me sentei num daqueles sofás de couro, bem pertinho do relógio do saguão, e fiquei olhando as garotas. Muita gente já tinha chegado de férias e acho que havia mais ou menos um milhão de pequenas por ali, sentadas ou em pé, esperando os namorados. Garotas de pernas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas fabulosas, garotas com pernas pavorosas, garotas que pareciam boazinhas, garotas que, se a gente fosse conhecer, ia ver que eram umas safadas. Era realmente uma paisagem interessante. De certo modo, também era meio deprimente, porque a gente ficava pensando que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho a umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. Não entendo bem os chatos. Juro que não. No Elkton Hills, durante uns dois meses fui companheiro de quarto dum garoto, o Harris Macklin. Ele era muito inteligente e tudo, mas era um dos maiores chatos que já encontrei na minha vida. Tinha uma dessas vozes de taquara rachada e praticamente não parava nunca de falar. Não havia jeito de se calar, e o pior de tudo é que, em primeiro lugar, nunca dizia uma única coisa que a gente tivesse interesse em ouvir. Mas tinha uma coisa que ele fazia como ninguém: o filho da puta assoviava como gente grande. Ele ficava fazendo a cama ou pendurando seus trecos no armário - vivia pendurando alguma coisa no armário, me deixava maluco - e, quando não estava tagarelando com aquela voz de taquara rachada, ficava assoviando o tempo todo. Ele era capaz de assoviar até troços clássicos, mas quase sempre assoviava músicas de jazz. Era capaz de pegar um negócio bm difícil como, por exemplo, 'Tin Roof Blues', e assoviar tão fácil e bonito - sem parar de pendurar os trecos no armário - que deixava a gente doido. Claro que eu nunca disse a ele que o achava um assoviador fabuloso. Ninguém vai chegar junto de um cara e dizer: 'Você é um assoviador fabuloso'. Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe."
J.D. Salinger
J.D. Salinger
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
A ideologia burra
Não era preciso se informar muito para ser bombardeado por um chavão político econômico: é preciso diminuir o papel do Estado. Isso foi muito falado nos anos 80 e 90. No mundo todo.
A ideologia por trás desse discurso encampava uma série de propostas: enxugar o papel do Estado e, com isso, cortar impostos, deixando livre a iniciativa privada, que deve operar sem controles do governo. Tudo isso era chamado de "modernidade" pelos acadêmicos, governantes e pela grande mídia. O discurso nasceu durante os anos 70, tendo Milton Friedman a frente da defesa econômica e a dupla Reagan-Thatcher na defesa política. Ser moderno era isso.
Aqui na América Latina, todos estavamos fadados a seguir o que se convencionou chamar de Consenso de Wasghington. Para governar, era preciso estabelecer um pacto com as elites e com o mercado financeiro. Em 2002, no Brasil, isso ficou muito claro. Até o lançamento da "Carta ao Povo Brasileiro" assinada pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado financeiro globalizado forçou duros golpes contra o país. A taxa de câmbio, por exemplo, saltou de R$ 2,00 para R$ 4,00 em meses, sem que nada tivesse acontecido. Foi um jogo cruel, que envolveu mercado e imprensa, brasileira e estrangeira.
Os teóricos do poder da ideologia exercido pela potência hegemônica já desnudaram esse fenômeno. Antonio Gramsci, por exemplo, previa esses ataques psicológicos nos anos 20 do século passado. Não é algo novo. A modernidade é velha.
A crise econômica mundial que estamos passando está destruindo este modelo. Aqueles que ainda não perceberam continuam seguindo os mesmos mantras, como se nada tivesse acontecido.
Aqui no Brasil, agora, 2009, ainda tem muito cabeção defendendo "corte de gastos públicos". É a mesma ideologia de 1979: diminuir o papel do Estado. Querem passar tudo ao mercado e depois retirar todos os controles.
A excelência do mercado desregulado já mostrou seu poder: arruinou o modelo neoliberal de capitalismo e está levando os Estados Unidos e todo o mundo junto. O Japão entrou em recessão em 1990 pelos excessos do capitalismo sem controles. Ficou 15 anos em recessão. Começou a sair em 2005 e, em 2008, entrou novamente, graças a mesmíssima crise, dessa vez nos Estados Unidos. Isso é globalização.
A situação é evidente: Os bancos que estão com problemas financeiros não estão emprestando. Aqueles que estão seguros, também cortaram fortemente os empréstimos, com medo da inadimplência. As empresas endividadas não investem, preferem pagar dívidas. As empresas que estão sadias não encontram crédito, porque os bancos não estão emprestando. As pessoas endividadas não procuram os bancos, preferem pagar suas dívidas, com medo do que pode vir a acontecer. As pessoas que estão sem dívidas não estão consumindo como antes, porque os bancos não estão emprestando.
Na ponta, se o governo não entrar em campo, quem o fará?
Mesmo que não tivéssemos essa situação, é preciso ser ignorante para não perceber que o Estado precisa de melhores condições e mais funcionários para melhor prover seus serviços.
Nessa semana, por exemplo, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), divulgou pesquisa revelando que, para acelerar a tramitação de processos na Justiça, seria preciso praticamente dobrar o número de servidores do Poder Judiciário. Atualmente, cada unidade judicial tem, em média, 3,6 técnicos, 1,5 analista e 2,3 oficiais. No entanto, de acordo com os juízes entrevistados, para atender à demanda existente, seriam necessários, em média, 5,7 técnicos, 3,3 analistas e 4,2 oficiais em cada unidade. A pesquisa revela ainda que quase metade dos magistrados (47%) classifica como ruim ou péssimo o número de funcionários disponíveis nas unidades de trabalho.
Todos reclamam da morosidade da Justiça no Brasil. Mas para exercer sua função, é preciso um ser humano lá, não é? No entanto, qualquer contratação de funcionário público é tida, pela parcela que ocupa os espaços privilegiados da informação no Brasil, como desnecessária.
É preciso ficar atento. Se algum economista ou colunista de jornal reclamar do aumento dos gastos públicos e, no dia seguinte, choramingar a lentidão da Justiça brasileira, já saberemos: se trata de ideologia ou burrice.
A ideologia por trás desse discurso encampava uma série de propostas: enxugar o papel do Estado e, com isso, cortar impostos, deixando livre a iniciativa privada, que deve operar sem controles do governo. Tudo isso era chamado de "modernidade" pelos acadêmicos, governantes e pela grande mídia. O discurso nasceu durante os anos 70, tendo Milton Friedman a frente da defesa econômica e a dupla Reagan-Thatcher na defesa política. Ser moderno era isso.
Aqui na América Latina, todos estavamos fadados a seguir o que se convencionou chamar de Consenso de Wasghington. Para governar, era preciso estabelecer um pacto com as elites e com o mercado financeiro. Em 2002, no Brasil, isso ficou muito claro. Até o lançamento da "Carta ao Povo Brasileiro" assinada pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado financeiro globalizado forçou duros golpes contra o país. A taxa de câmbio, por exemplo, saltou de R$ 2,00 para R$ 4,00 em meses, sem que nada tivesse acontecido. Foi um jogo cruel, que envolveu mercado e imprensa, brasileira e estrangeira.
Os teóricos do poder da ideologia exercido pela potência hegemônica já desnudaram esse fenômeno. Antonio Gramsci, por exemplo, previa esses ataques psicológicos nos anos 20 do século passado. Não é algo novo. A modernidade é velha.
A crise econômica mundial que estamos passando está destruindo este modelo. Aqueles que ainda não perceberam continuam seguindo os mesmos mantras, como se nada tivesse acontecido.
Aqui no Brasil, agora, 2009, ainda tem muito cabeção defendendo "corte de gastos públicos". É a mesma ideologia de 1979: diminuir o papel do Estado. Querem passar tudo ao mercado e depois retirar todos os controles.
A excelência do mercado desregulado já mostrou seu poder: arruinou o modelo neoliberal de capitalismo e está levando os Estados Unidos e todo o mundo junto. O Japão entrou em recessão em 1990 pelos excessos do capitalismo sem controles. Ficou 15 anos em recessão. Começou a sair em 2005 e, em 2008, entrou novamente, graças a mesmíssima crise, dessa vez nos Estados Unidos. Isso é globalização.
A situação é evidente: Os bancos que estão com problemas financeiros não estão emprestando. Aqueles que estão seguros, também cortaram fortemente os empréstimos, com medo da inadimplência. As empresas endividadas não investem, preferem pagar dívidas. As empresas que estão sadias não encontram crédito, porque os bancos não estão emprestando. As pessoas endividadas não procuram os bancos, preferem pagar suas dívidas, com medo do que pode vir a acontecer. As pessoas que estão sem dívidas não estão consumindo como antes, porque os bancos não estão emprestando.
Na ponta, se o governo não entrar em campo, quem o fará?
Mesmo que não tivéssemos essa situação, é preciso ser ignorante para não perceber que o Estado precisa de melhores condições e mais funcionários para melhor prover seus serviços.
Nessa semana, por exemplo, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), divulgou pesquisa revelando que, para acelerar a tramitação de processos na Justiça, seria preciso praticamente dobrar o número de servidores do Poder Judiciário. Atualmente, cada unidade judicial tem, em média, 3,6 técnicos, 1,5 analista e 2,3 oficiais. No entanto, de acordo com os juízes entrevistados, para atender à demanda existente, seriam necessários, em média, 5,7 técnicos, 3,3 analistas e 4,2 oficiais em cada unidade. A pesquisa revela ainda que quase metade dos magistrados (47%) classifica como ruim ou péssimo o número de funcionários disponíveis nas unidades de trabalho.
Todos reclamam da morosidade da Justiça no Brasil. Mas para exercer sua função, é preciso um ser humano lá, não é? No entanto, qualquer contratação de funcionário público é tida, pela parcela que ocupa os espaços privilegiados da informação no Brasil, como desnecessária.
É preciso ficar atento. Se algum economista ou colunista de jornal reclamar do aumento dos gastos públicos e, no dia seguinte, choramingar a lentidão da Justiça brasileira, já saberemos: se trata de ideologia ou burrice.
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
A triste derrota do futuro
Ontem foram realizadas eleições para as cadeiras do Knesset, o Congresso israelense. No intricado processo político do país, essas eleições definem quem o presidente escolherá para o cargo de primeiro-ministro. O presidente escolhe o candidato do partido que obtiver maior número de eleitos para o Knesset. Quanto mais cadeiras o partido conquistar, maior a legitimidade de seu primeiro-ministro.
Uma análise breve sobre o que teremos em Israel.
São cinco partidos, sendo quatro tradicionais e um novato. O novato foi surpreendente: foi o terceiro mais votado, ficando a frente do Partido Trabalhista, do atual presidente, Shimon Peres. A disputa maior ficou na frente: o Kadima levou 26 cadeiras, uma a mais que o Likud. A candidata do Kadima, Tpizi Livni, portanto, leva vantagem. Mas não terá nem de longe sossego para governar. Terá de fazer coalizão com alguém.
Essa análise, no entanto, ignora as cores partidárias e ideológicas. Vejam.
- O partido vencedor, o Kadima, é de centro-direita. Apoiou o recente massacre contra os palestinos na Faixa de Gaza. Sua candidata Tpizi Livni é atualmente ministra das Relações Exteriores e sua atuação forte e seca durante a guerra em Gaza foi crucial para conseguir a vitória.
- O segundo colocado, colado no Kadima, é o Likud. Se trata de um partido de direita. Apoiou o massacre em Gaza e defende novos ataques. Para o candidato a primeiro-ministro do Likud, Benjamin Netanyahu, é figura central na direita israelense, cada vez mais fortalecida pela opinião pública. É uma figura que polariza o jogo pessoal e pertence a um partido que faz o mesmo no campo político, por isso, ao mesmo tempo que angaria votos da direita convicta, afasta parte para a direita moderada do Kadima.
- O terceiro colocado foi o novato Yisrael Beiteinu, de extrema-direita. O partido não existe fortemente. Elegeu 14 membros para o Knesset graças a figura de seu líder máximo, também candidato ao cargo de primeiro-ministro, Avigdor Lieberman. Lieberman é anti-árabe e razoavelmente rude. Cresceu entre os judeus ortodoxos israelenses e apoiando-se na opinião pública fortemente manipulada durante a guerra em Gaza. Uma de suas propostas é instituir pena de morte aos membros do Knesset que votarem por causas árabes.
- O quarto colocado é o Partido Trabalhista, do qual faz parte Shimon Peres e membros do atual governo, como o ministro da Defesa e candidato do partido ao cargo de primeiro-ministro, Ehud Barak (que já foi primeiro-ministro de Israel). Se trata de um partido de centro-esquerda, mas que recentemente se tornou de centro, ao tomar para si muitas causas importantes da direita. Ehud Barak, por exemplo, foi estratégico no massacre aos palestinos em Gaza. Isso foi ruim para os trabalhistas, que perderam uma visão partidária. Esse movimenta exemplifica bem a opinião pública à direita formada em Israel nos últimos anos.
- O último é o Mertez, o partido comunista de Israel. Evidentemente se trata do partido de esquerda. Como se viu, com a virada para a direita da sociedade israelense, os pacifistas perderam espaço, caindo de 5 para 3 cadeiras nas eleições de quarta. Mais do ideologia ou qualquer coisa parecida, a derrocada dos comunistas exemplifica de maneira clara como será o jogo em Israel daqui para frente: o Mertez é o único a unir árabes e judeus de Israel. Há uma explicação razoável para seu encolhimento, que apenas torna mais triste a situação. Frente ao grande apoio popular para a ofensiva militar em Gaza, o Mertez, de início, resolveu surfar a onda e apoiar o massacre. Depois, recuou. Mas já era tarde, perdendo boa parte do apoio dos pacifistas, que se viram isolados.
E é desolador que os pacifistas estejam isolados.
Uma análise breve sobre o que teremos em Israel.
São cinco partidos, sendo quatro tradicionais e um novato. O novato foi surpreendente: foi o terceiro mais votado, ficando a frente do Partido Trabalhista, do atual presidente, Shimon Peres. A disputa maior ficou na frente: o Kadima levou 26 cadeiras, uma a mais que o Likud. A candidata do Kadima, Tpizi Livni, portanto, leva vantagem. Mas não terá nem de longe sossego para governar. Terá de fazer coalizão com alguém.
Essa análise, no entanto, ignora as cores partidárias e ideológicas. Vejam.
- O partido vencedor, o Kadima, é de centro-direita. Apoiou o recente massacre contra os palestinos na Faixa de Gaza. Sua candidata Tpizi Livni é atualmente ministra das Relações Exteriores e sua atuação forte e seca durante a guerra em Gaza foi crucial para conseguir a vitória.
- O segundo colocado, colado no Kadima, é o Likud. Se trata de um partido de direita. Apoiou o massacre em Gaza e defende novos ataques. Para o candidato a primeiro-ministro do Likud, Benjamin Netanyahu, é figura central na direita israelense, cada vez mais fortalecida pela opinião pública. É uma figura que polariza o jogo pessoal e pertence a um partido que faz o mesmo no campo político, por isso, ao mesmo tempo que angaria votos da direita convicta, afasta parte para a direita moderada do Kadima.
- O terceiro colocado foi o novato Yisrael Beiteinu, de extrema-direita. O partido não existe fortemente. Elegeu 14 membros para o Knesset graças a figura de seu líder máximo, também candidato ao cargo de primeiro-ministro, Avigdor Lieberman. Lieberman é anti-árabe e razoavelmente rude. Cresceu entre os judeus ortodoxos israelenses e apoiando-se na opinião pública fortemente manipulada durante a guerra em Gaza. Uma de suas propostas é instituir pena de morte aos membros do Knesset que votarem por causas árabes.
- O quarto colocado é o Partido Trabalhista, do qual faz parte Shimon Peres e membros do atual governo, como o ministro da Defesa e candidato do partido ao cargo de primeiro-ministro, Ehud Barak (que já foi primeiro-ministro de Israel). Se trata de um partido de centro-esquerda, mas que recentemente se tornou de centro, ao tomar para si muitas causas importantes da direita. Ehud Barak, por exemplo, foi estratégico no massacre aos palestinos em Gaza. Isso foi ruim para os trabalhistas, que perderam uma visão partidária. Esse movimenta exemplifica bem a opinião pública à direita formada em Israel nos últimos anos.
- O último é o Mertez, o partido comunista de Israel. Evidentemente se trata do partido de esquerda. Como se viu, com a virada para a direita da sociedade israelense, os pacifistas perderam espaço, caindo de 5 para 3 cadeiras nas eleições de quarta. Mais do ideologia ou qualquer coisa parecida, a derrocada dos comunistas exemplifica de maneira clara como será o jogo em Israel daqui para frente: o Mertez é o único a unir árabes e judeus de Israel. Há uma explicação razoável para seu encolhimento, que apenas torna mais triste a situação. Frente ao grande apoio popular para a ofensiva militar em Gaza, o Mertez, de início, resolveu surfar a onda e apoiar o massacre. Depois, recuou. Mas já era tarde, perdendo boa parte do apoio dos pacifistas, que se viram isolados.
E é desolador que os pacifistas estejam isolados.
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Palestina Ocupada
A Bolívia moderna
A nova constituição boliviana elucida alguns pontos importantíssimos da nova sociedade moderna. Afinal, o que é uma sociedade moderna? É algo complexo, mas parece consenso que devemos respeitar as diferenças culturais e sociais. O ser humano é diferente – já estamos há cinco mil anos por aqui e isso deve ser compreendido por todos. Quer dizer, se somos capazes de escolher um parceiro e com ele dividir nossas vidas – a ideia do matrimônio do catolicismo, por exemplo – e aceitar suas diferenças, por que não seríamos capazes de agir da mesma maneira com os outros, mesmo aqueles não conhecemos?
Dei uma volta longa, mas volto a nova constituição boliviana. Um ponto em especial, me inspirou nos últimos dias. Ela regulamentou, quer dizer, tornou legal e constitucional um mecanismo já usado há muito tempo em algumas regiões do país. A tarifa indígena. Uma empresa para usar os recursos dos povos originários precisa devolver a estes uma parte, que é cobrada pelos indígenas. Vou explicar melhor, mas antes é preciso entender três coisas.
1)Os povos originários são os indígenas. Eles estavam aqui antes de qualquer europeu, americano ou quem quer que seja. São seres humanos como todos os outros e não devem ser espoliados de suas terras, como ninguém gostaria de ser. 2) As empresas são criações humanas que buscam o lucro. São capitalistas de nascença, e isso é importante ter em mente. Portanto, não há distinção, da perspectiva do índio, do capital da empresa, quer dizer, se ele é nacional ou internacional. A história mostra que por dinheiro, pode ser vizinho ou estrangeiro, todos são capazes de tudo. 3) A Bolívia é um país crucial para entender a América Latina. Como escreveu o cientista político Cesar Benjamin, a história produziu diferenciações importantes. No Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no Chile e na Argentina, predominaram povos novos, formados já no mundo moderno pela mistura de grupos humanos originários da própria América, da Europa, da África e até da Ásia, usados como força de trabalho pelo capitalismo europeu. No Peru, no Paraguai e no Equador, predominaram povos herdeiros das civilizações pré-colombianas; mesmo espoliados pela invasão europeia, preservaram línguas, costumes, formas de organização social, crenças e valores. A Bolívia ocupa um lugar especial. Não é apenas o centro geográfico do continente. É também o principal lugar de encontro desses dois grandes contingentes humanos. Por isso, sempre esteve sob ameaça de desagregação. Até recentemente cresciam as tensões separatistas.
A pressão sob a Bolívia e mais especificamente sob o presidente Evo Morales é forte desde sua vitória nas eleições de 2006. No ano passado, uma verdadeira guerra civil foi quase disparada pela tensão instaurada nas regiões ricas, que não aceitam a liderança indígena. Até por isso, a vitória da nova constituição é ainda mais importante simbolicamente.
Aliás, os aspectos mais relevantes da nova constituição são o fortalecimento da economia estatal, da economia comunitária e dos direitos dos povos indígenas originários do país. Estes ganharam, inclusive, o direito de estruturar um órgão judiciário indígena, aos quais serão aplicados princípios, valores culturais, normas e procedimentos próprios. Isso é incrível, não tem paralelo com nada já colocado em prática. Uma incoerência histórica é finalmente consertada: a grande maioria da população, os índios, eram forçados a seguir as leis e os costumes da minoria colonialista. A nova constituição mantém o judiciário “convencional”, mas dá direito aos indígenas valerem seus direitos e valores de maneira legal.
A tarifa indígena, como estava falando, é simples. O repórter Marcos de Moura Souza escreveu matéria no Valor Econômico tempos atrás (“Empresas pagam ‘taxa’ indígena na Bolívia”, Valor, 26/01) dando exemplos práticos do funcionamento das taxas. A maior fabricante de cerveja da Bolívia, a Cervejaria Boliviana Nacional, paga anualmente uma tarifa aos povos indígenas pela utilização das águas do rio Huari – para produzir cerveja de mesmo nome. Nas margens do rio vive uma comunidade indígena. A cervejaria desembolsa uma contribuição anual em dinheiro ao povo indígena, que não passa pelo governo central ou pelos departamentos (estados). Este ano são 400 mil bolivianos para os “caciques” (R$ 132,7 mil), valor reajustado a cada quatro anos.
A matéria lembra inclusive de um episódio dramático que ocorreu antes da instituição das tarifas. “No início da década um derramamento de óleo no Rio Desaguadero praticamente extinguiu os peixes do lago Poopo. Ao redor do lago vivem comunidades indígenas tradicionais que tinham sua alimentação baseada na pesca e que, por um bom período de tempo, se viram às margens de um mar de óleo sem vida”.
O artigo 304 diz que comunidades indígenas camponesas autônomas poderão “criar e administrar taxas, patentes e contribuições especiais” em suas áreas e “administrar os impostos de sua competência no âmbito de sua jurisdição”. No capítulo sobre “direitos das nações e povos originários camponeses”, a Carta diz que eles terão de ser consultados a respeito da exploração de recursos não renováveis no território que habitam. Estabelece ainda que terão direito à “participação dos benefícios da exploração” desses recursos.
Quando uma empresa se interessa por algum projeto na Bolívia que afete territórios de comunidades indígenas, a primeira coisa que precisa fazer é entrar em acordo com os próprios indígenas. Isso é regra agora. Não adianta a visão colonialista de passar por cima dos índios para ganhar dinheiro. E não adianta o velho discurso de se apoiar na “modernidade” para justificar os projetos. Já vimos que isso nada tem a ver com modernidade, mas com antiguidade. Ser moderno é entender que os seres humanos são diferentes e não há nada de errado com isso.
O engraçado é o argumento dos críticos desse artigo da nova constituição. Dizem que essas tarifas são danosas ao investimento privado. Aliás, a grande crítica feita aos termos da nova constituição é quanto as condições do investimento privado internacional.
Isso era esperado.
O artigo 366 da constituição boliviana, prevê que "todas as empresas estrangeiras que realizam atividades na cadeia produtiva hidrocarburífera em nome e representação do Estado estarão submetidas à soberania do Estado, a dependência das leis e das autoridades do Estado. Não se reconhecerá em nenhum caso tribunal, nem jurisdição estrangeira e não poderá invocar alguma situação excepcional, de arbitragem internacional, nem recorrer a reclamações diplomáticas". Isso não é uma afronta ao capital estrangeiro. Ninguém é forçado a investir na Bolívia. Ninguém é obrigado a investir em qualquer país. Mas se for, deve-se submeter as regras que determinado país considera melhor para si. Simples.
Porque se acham que a Bolívia perde ao não incentivar os investimentos privados, as pessoas tem de mudar sua concepção de mundo. Se massacrar povos “atrasados”, poluir rios, levantar fábricas nas planícies, criar classe sociais (aqueles que trabalham e aqueles que pagam) e tudo o mais, se isso é “trazer a modernidade”, então a Bolívia foi muito bem modernizada desde o início. Estamos vendo o que está acontecendo com o capital estrangeiro em tempos de crise. Não era bom? Então porque não param de sair do Brasil e de todos os emergentes desde que a crise explodiu? Depender dos outros é muito fácil quando os outros estão malucos pelo lucro fácil.
Agora se é a vez dos povos originários – que são a maioria além de tudo! – ocuparem o poder – democraticamente, é bom lembrar – e trazerem um pouco de igualdade para a Bolívia, então é importante parar para pensar. Porque impor uma visão de mundo sobre um povo parece excesso de altruísmo ou abuso de má-fé.
***
Esse artigo foi originalmente publicado no Óleo do Diabo. Para ler por lá, clique aqui.
Dei uma volta longa, mas volto a nova constituição boliviana. Um ponto em especial, me inspirou nos últimos dias. Ela regulamentou, quer dizer, tornou legal e constitucional um mecanismo já usado há muito tempo em algumas regiões do país. A tarifa indígena. Uma empresa para usar os recursos dos povos originários precisa devolver a estes uma parte, que é cobrada pelos indígenas. Vou explicar melhor, mas antes é preciso entender três coisas.
1)Os povos originários são os indígenas. Eles estavam aqui antes de qualquer europeu, americano ou quem quer que seja. São seres humanos como todos os outros e não devem ser espoliados de suas terras, como ninguém gostaria de ser. 2) As empresas são criações humanas que buscam o lucro. São capitalistas de nascença, e isso é importante ter em mente. Portanto, não há distinção, da perspectiva do índio, do capital da empresa, quer dizer, se ele é nacional ou internacional. A história mostra que por dinheiro, pode ser vizinho ou estrangeiro, todos são capazes de tudo. 3) A Bolívia é um país crucial para entender a América Latina. Como escreveu o cientista político Cesar Benjamin, a história produziu diferenciações importantes. No Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no Chile e na Argentina, predominaram povos novos, formados já no mundo moderno pela mistura de grupos humanos originários da própria América, da Europa, da África e até da Ásia, usados como força de trabalho pelo capitalismo europeu. No Peru, no Paraguai e no Equador, predominaram povos herdeiros das civilizações pré-colombianas; mesmo espoliados pela invasão europeia, preservaram línguas, costumes, formas de organização social, crenças e valores. A Bolívia ocupa um lugar especial. Não é apenas o centro geográfico do continente. É também o principal lugar de encontro desses dois grandes contingentes humanos. Por isso, sempre esteve sob ameaça de desagregação. Até recentemente cresciam as tensões separatistas.
A pressão sob a Bolívia e mais especificamente sob o presidente Evo Morales é forte desde sua vitória nas eleições de 2006. No ano passado, uma verdadeira guerra civil foi quase disparada pela tensão instaurada nas regiões ricas, que não aceitam a liderança indígena. Até por isso, a vitória da nova constituição é ainda mais importante simbolicamente.
Aliás, os aspectos mais relevantes da nova constituição são o fortalecimento da economia estatal, da economia comunitária e dos direitos dos povos indígenas originários do país. Estes ganharam, inclusive, o direito de estruturar um órgão judiciário indígena, aos quais serão aplicados princípios, valores culturais, normas e procedimentos próprios. Isso é incrível, não tem paralelo com nada já colocado em prática. Uma incoerência histórica é finalmente consertada: a grande maioria da população, os índios, eram forçados a seguir as leis e os costumes da minoria colonialista. A nova constituição mantém o judiciário “convencional”, mas dá direito aos indígenas valerem seus direitos e valores de maneira legal.
A tarifa indígena, como estava falando, é simples. O repórter Marcos de Moura Souza escreveu matéria no Valor Econômico tempos atrás (“Empresas pagam ‘taxa’ indígena na Bolívia”, Valor, 26/01) dando exemplos práticos do funcionamento das taxas. A maior fabricante de cerveja da Bolívia, a Cervejaria Boliviana Nacional, paga anualmente uma tarifa aos povos indígenas pela utilização das águas do rio Huari – para produzir cerveja de mesmo nome. Nas margens do rio vive uma comunidade indígena. A cervejaria desembolsa uma contribuição anual em dinheiro ao povo indígena, que não passa pelo governo central ou pelos departamentos (estados). Este ano são 400 mil bolivianos para os “caciques” (R$ 132,7 mil), valor reajustado a cada quatro anos.
A matéria lembra inclusive de um episódio dramático que ocorreu antes da instituição das tarifas. “No início da década um derramamento de óleo no Rio Desaguadero praticamente extinguiu os peixes do lago Poopo. Ao redor do lago vivem comunidades indígenas tradicionais que tinham sua alimentação baseada na pesca e que, por um bom período de tempo, se viram às margens de um mar de óleo sem vida”.
O artigo 304 diz que comunidades indígenas camponesas autônomas poderão “criar e administrar taxas, patentes e contribuições especiais” em suas áreas e “administrar os impostos de sua competência no âmbito de sua jurisdição”. No capítulo sobre “direitos das nações e povos originários camponeses”, a Carta diz que eles terão de ser consultados a respeito da exploração de recursos não renováveis no território que habitam. Estabelece ainda que terão direito à “participação dos benefícios da exploração” desses recursos.
Quando uma empresa se interessa por algum projeto na Bolívia que afete territórios de comunidades indígenas, a primeira coisa que precisa fazer é entrar em acordo com os próprios indígenas. Isso é regra agora. Não adianta a visão colonialista de passar por cima dos índios para ganhar dinheiro. E não adianta o velho discurso de se apoiar na “modernidade” para justificar os projetos. Já vimos que isso nada tem a ver com modernidade, mas com antiguidade. Ser moderno é entender que os seres humanos são diferentes e não há nada de errado com isso.
O engraçado é o argumento dos críticos desse artigo da nova constituição. Dizem que essas tarifas são danosas ao investimento privado. Aliás, a grande crítica feita aos termos da nova constituição é quanto as condições do investimento privado internacional.
Isso era esperado.
O artigo 366 da constituição boliviana, prevê que "todas as empresas estrangeiras que realizam atividades na cadeia produtiva hidrocarburífera em nome e representação do Estado estarão submetidas à soberania do Estado, a dependência das leis e das autoridades do Estado. Não se reconhecerá em nenhum caso tribunal, nem jurisdição estrangeira e não poderá invocar alguma situação excepcional, de arbitragem internacional, nem recorrer a reclamações diplomáticas". Isso não é uma afronta ao capital estrangeiro. Ninguém é forçado a investir na Bolívia. Ninguém é obrigado a investir em qualquer país. Mas se for, deve-se submeter as regras que determinado país considera melhor para si. Simples.
Porque se acham que a Bolívia perde ao não incentivar os investimentos privados, as pessoas tem de mudar sua concepção de mundo. Se massacrar povos “atrasados”, poluir rios, levantar fábricas nas planícies, criar classe sociais (aqueles que trabalham e aqueles que pagam) e tudo o mais, se isso é “trazer a modernidade”, então a Bolívia foi muito bem modernizada desde o início. Estamos vendo o que está acontecendo com o capital estrangeiro em tempos de crise. Não era bom? Então porque não param de sair do Brasil e de todos os emergentes desde que a crise explodiu? Depender dos outros é muito fácil quando os outros estão malucos pelo lucro fácil.
Agora se é a vez dos povos originários – que são a maioria além de tudo! – ocuparem o poder – democraticamente, é bom lembrar – e trazerem um pouco de igualdade para a Bolívia, então é importante parar para pensar. Porque impor uma visão de mundo sobre um povo parece excesso de altruísmo ou abuso de má-fé.
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Esse artigo foi originalmente publicado no Óleo do Diabo. Para ler por lá, clique aqui.
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Boa noite e boa sorte
Durante a década de 1990 uma inovação no mercado de trabalho foi incessantemente martelada na imprensa e nos meios de negócios como a salvação da competitividade das empresas: a terceirização.
A ideia era tudo de bom para o empresariado: ao invés de arcar com custos do empregado (também conhecidos por direitos trabalhistas), o empresário fecha um contrato com uma empresa terceirizada, que trata de pagar os empregados. Os terceirizados não entram em nenhuma conta da empresa para a qual efetivamente trabalham: não podem fazer greve e menos ainda cobrar por melhores condições.
Isso virou norma. Boa parte do mercado aproveitou a enorme entrada de firmas terceirizadas para diminuir seus custos e ampliar seus ganhos.
A crise econômica mundial que vivemos hoje desmonta uma série desses mitos dos anos 80 e 90. Um deles é o de que a terceirização funciona.
Na hora do aperto - depois de anos de lucros recordes, diga-se - as empresas voltam-se contra os terceirizados rapidamente. Eles são os primeiros a saírem. E a reciclagem, que já era alta nesse segmento, fica infernal. O empresário está bem, antes que se pergunte.
O Japão está passando por um processo brabo de demissão de terceirizados e temporários. Os japoneses seguem uma rígida conduta moral, que é transferida para a vida profissional pela tradição patriarcal empresarial e pelos costumes familiares. No entanto, não resistiu frente aos "grandes mitos". Depois da longa recessão de 15 anos após a explosão da bolha imobiliária japonesa de 1990-91, o Japão liberalizou suas leis trabalhistas em 2004, permitindo que indústrias contratassem funcionários temporários. Boa parte dos negócios japoneses nos últimos anos foi passado a funcionários terceirizados ou para temporários. E estes estão sendo demitidos a bateladas desde que a crise americana explodiu.
A coisa fica mais séria porque muitos funcionários terceirizados dependem enormemente dos seus empregos. Além do salário, eles tem direito a moradia subsidiada - na realidade, apartamentos de um quarto - , mas para isso precisam estar empregados em alguma empresa. Seu contrato de trabalho é o mais flexível de todos. Ele pertence à empresa A, que paga seu salário e ajuda na moradia, mas apenas enquanto ele estiver trabalhando na empresa B, que procurou os funcionários terceirizados oferecidos pela A. As empresas do tipo B estão demitindo. E as empresas do tipo A, em consequência, estão deixando de pagar seus funcionários.
Os números no Japão são os seguintes: o governo diz que 125 mil empregados terceirizados e/ou temporários perderão seus empregos entre outubro do ano passado e o mês de março. Ou seja, em seis meses. Um estimativa da indústria japonesa prevê ainda mais: 400 mil demissões no mesmo período.
Em meses, milhares de trabalhadores - milhões se ampliarmos o quadro para o resto do mundo em crise - viram sua vida ruir. Os temporários japoneses são apenas um exemplo. Já recebiam pouco por condições precárias de trabalho. Hoje, do dia para noite, estão sem renda e sem casa, lançados a própria sorte.
A ideia era tudo de bom para o empresariado: ao invés de arcar com custos do empregado (também conhecidos por direitos trabalhistas), o empresário fecha um contrato com uma empresa terceirizada, que trata de pagar os empregados. Os terceirizados não entram em nenhuma conta da empresa para a qual efetivamente trabalham: não podem fazer greve e menos ainda cobrar por melhores condições.
Isso virou norma. Boa parte do mercado aproveitou a enorme entrada de firmas terceirizadas para diminuir seus custos e ampliar seus ganhos.
A crise econômica mundial que vivemos hoje desmonta uma série desses mitos dos anos 80 e 90. Um deles é o de que a terceirização funciona.
Na hora do aperto - depois de anos de lucros recordes, diga-se - as empresas voltam-se contra os terceirizados rapidamente. Eles são os primeiros a saírem. E a reciclagem, que já era alta nesse segmento, fica infernal. O empresário está bem, antes que se pergunte.
O Japão está passando por um processo brabo de demissão de terceirizados e temporários. Os japoneses seguem uma rígida conduta moral, que é transferida para a vida profissional pela tradição patriarcal empresarial e pelos costumes familiares. No entanto, não resistiu frente aos "grandes mitos". Depois da longa recessão de 15 anos após a explosão da bolha imobiliária japonesa de 1990-91, o Japão liberalizou suas leis trabalhistas em 2004, permitindo que indústrias contratassem funcionários temporários. Boa parte dos negócios japoneses nos últimos anos foi passado a funcionários terceirizados ou para temporários. E estes estão sendo demitidos a bateladas desde que a crise americana explodiu.
A coisa fica mais séria porque muitos funcionários terceirizados dependem enormemente dos seus empregos. Além do salário, eles tem direito a moradia subsidiada - na realidade, apartamentos de um quarto - , mas para isso precisam estar empregados em alguma empresa. Seu contrato de trabalho é o mais flexível de todos. Ele pertence à empresa A, que paga seu salário e ajuda na moradia, mas apenas enquanto ele estiver trabalhando na empresa B, que procurou os funcionários terceirizados oferecidos pela A. As empresas do tipo B estão demitindo. E as empresas do tipo A, em consequência, estão deixando de pagar seus funcionários.
Os números no Japão são os seguintes: o governo diz que 125 mil empregados terceirizados e/ou temporários perderão seus empregos entre outubro do ano passado e o mês de março. Ou seja, em seis meses. Um estimativa da indústria japonesa prevê ainda mais: 400 mil demissões no mesmo período.
Em meses, milhares de trabalhadores - milhões se ampliarmos o quadro para o resto do mundo em crise - viram sua vida ruir. Os temporários japoneses são apenas um exemplo. Já recebiam pouco por condições precárias de trabalho. Hoje, do dia para noite, estão sem renda e sem casa, lançados a própria sorte.
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domingo, 8 de fevereiro de 2009
Domingo
"Se os tubarões fossem homens", perguntou ao sr. K. a filha da sua senhoria, "eles seriam mais amáveis com os peixinhos?" "Certamente", disse ele. "Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca, e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, então lhe fariam imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar em direção às goelas dos tubarões. Precisam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam da sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um dentre eles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em líguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo em direção às goelas dos tubarões, e a música seria tão bela, que a seus acordes todos os peixinhos com a orquestra na frente, sonhando, embalados nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isto seria agradável para os tubarões, pois eles teriam, com maior frequência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores, detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens."
Bertolt Brecht
Bertolt Brecht
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
A questão do lobby
Acabou de sair o relatório anual do Centro para Políticas Responsáveis, órgão americano que rastreia as doações de empresas privadas a projetos do Congresso. Segundo nota da agência de notícias Efe, "em 2008, as companhias gastaram US$ 77 milhões para fazer lobby e mais US$ 37 milhões em contribuições a campanhas políticas. E, aparentemente, lucraram muito com isso."
A constatação de que o lobby funciona não é nova, claro. Se não funcionasse, não existiria. Estamos no centro do capitalismo, onde tudo que é desnecessário ou caro, é descartável. O lobby não é. Por isso, inclusive, que ele é "regulamentado" nos Estados Unidos.
A novidade do estudo relativo aos gastos com lobby - leia-se: doações a congressistas e financiamento de campanha - não está no lobby em si, mas nas empresas campeãs de doações.
Dentre os campeões: Bank of America, Merrill Lynch, General Motors, American International Group (AIG), Citigroup, JPMorgan Chase, Wells Fargo, Goldman Sachs, Morgan Stanley, PNC Financial Services Group e US Bancorp.
Essas empresas estão entre as que receberam milhões e bilhões desde a explosão da crise, em 15 de setembro do ano passado. Vou ficar devendo uma pesquisa mais ampla, mas apenas colocando os números que tenho na cabeça, a AIG, por exemplo, pegou U$ 87 bilhões do governo. A GM pegou US$ 17,2 bilhões.
Isso não é uma insinuação de que só conseguiram o dinheiro do governo porque fizeram lobby. Claro que não. Até porque, o Lehman Brothers era um histórico "contribuidor" de campanhas e nem isso evitou sua falência.
O estudo caracteriza a importância financeira do lobby em 2008. As companhias gastaram US$ 77 milhões para fazer lobby e mais US$ 37 milhões em contribuições a campanhas políticas. Como resposta a essas atividades de pressão, as empresas receberam do governo federal US$ 305,2 milhões do plano de resgate para ajudar a economia.
Sheila Krumholz, diretora-executiva do Centro para Políticas Responsáveis foi enfática: "Mesmo no melhor dos tempos econômicos, você não encontrará um investimento com maior ganho que o que estas companhias estiveram obtendo".
A questão do lobby estava (e está) fora do debate criado em torno do sistema americano de fazer política e conduzir economia. Muita coisa tem de mudar. Parece premente que esta é uma delas.
A constatação de que o lobby funciona não é nova, claro. Se não funcionasse, não existiria. Estamos no centro do capitalismo, onde tudo que é desnecessário ou caro, é descartável. O lobby não é. Por isso, inclusive, que ele é "regulamentado" nos Estados Unidos.
A novidade do estudo relativo aos gastos com lobby - leia-se: doações a congressistas e financiamento de campanha - não está no lobby em si, mas nas empresas campeãs de doações.
Dentre os campeões: Bank of America, Merrill Lynch, General Motors, American International Group (AIG), Citigroup, JPMorgan Chase, Wells Fargo, Goldman Sachs, Morgan Stanley, PNC Financial Services Group e US Bancorp.
Essas empresas estão entre as que receberam milhões e bilhões desde a explosão da crise, em 15 de setembro do ano passado. Vou ficar devendo uma pesquisa mais ampla, mas apenas colocando os números que tenho na cabeça, a AIG, por exemplo, pegou U$ 87 bilhões do governo. A GM pegou US$ 17,2 bilhões.
Isso não é uma insinuação de que só conseguiram o dinheiro do governo porque fizeram lobby. Claro que não. Até porque, o Lehman Brothers era um histórico "contribuidor" de campanhas e nem isso evitou sua falência.
O estudo caracteriza a importância financeira do lobby em 2008. As companhias gastaram US$ 77 milhões para fazer lobby e mais US$ 37 milhões em contribuições a campanhas políticas. Como resposta a essas atividades de pressão, as empresas receberam do governo federal US$ 305,2 milhões do plano de resgate para ajudar a economia.
Sheila Krumholz, diretora-executiva do Centro para Políticas Responsáveis foi enfática: "Mesmo no melhor dos tempos econômicos, você não encontrará um investimento com maior ganho que o que estas companhias estiveram obtendo".
A questão do lobby estava (e está) fora do debate criado em torno do sistema americano de fazer política e conduzir economia. Muita coisa tem de mudar. Parece premente que esta é uma delas.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
O velho e o novo
Em 1965, José Sarney vencia sua primeira eleição majoritária, alcançando o governo do estado do Maranhão. Naqueles tempos, de revoluções, guerra fria e golpes militares, Sarney representava o "Novo", que volta e meia aparece no cenário político, visando empunhar uma bandeira de confronto contra o "tradicional e arcaico", ocupando um espaço muito bem avaliado pelas sociedades em geral.
Sarney queria ser visto, queria ser conhecido, queria ser pop. Por meio de amigos de amigos contactou Luiz Carlos Barreto, que despontava como um dos maiores produtores de cinema do Brasil que se descobria para as artes. As décadas passadas, 30, 40, 50 e a então década de 60 haviam descoberto gerações e gerações de artistas brasileiros. Pintores, desenhistas, músicos, compositores, dançarinos, cineastas, atores, produtores, jornalistas, polemistas. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ficou encarregado de convocar um amigo para filmar a posse de Sarney.
Chamou Glauber Rocha.
Glauber, em 1966, já era o mais inventivo cineasta do mundo. Já havia dirigido dois filmes, "Barravento" (62) e "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (64). Este último, seguramente, um dos maiores filmes de toda a história do rico cinema brasileiro. Em 1966, Glauber começaria a viver seus primeiros problemas com a ditadura, instaurada no Brasil desde 01 de abril de 1964, 13 dias depois da estréia de Deus e o Diabo nos cinemas. O cineasta baiano era marxista, revolucionário, ligado aos cubanos e aos ideias de guerrilha. O cinema era sua arma. E a ditadura, que começava a endurecer, logo perceberia o problema.
Glauber tinha um projeto em 1966: filmar "Terra em Transe" (67). Mas para isso precisava de dinheiro. Acabou aceitando o pedido de seu amigo Barretão. Pegou sua equipe de cinema novo, no máximo dez pessoas e uma câmera, e foi ao Maranhão. A ideia era filmar outro projeto: o de José Sarney, que tomaria posse no início de 66.
O filme acabou virando curta-metragem. Mas teve pouco espaço. Sarney não gostou da ideia de Glauber de contrapor as imagens de Sarney durante seu discurso com imagens capturadas nas casas da população do estado. Ficava feio, diziam. O argumento de Glauber é que o documentário mostrava justamente a situação que Sarney se propunha a mudar. A situação que ele jurou mudar. Afinal, tinha sido eleito para isso.
O documentário, "Maranhão 66", foi censurado e só foi ser difundido recentemente. Ainda hoje, serve como o melhor resumo do poder do discurso.
Na segunda-feira, José Sarney foi eleito pela terceira vez o presidente do Senado federal, 54 anos depois de vencer as eleições para o governo do Maranhão.
Sarney queria ser visto, queria ser conhecido, queria ser pop. Por meio de amigos de amigos contactou Luiz Carlos Barreto, que despontava como um dos maiores produtores de cinema do Brasil que se descobria para as artes. As décadas passadas, 30, 40, 50 e a então década de 60 haviam descoberto gerações e gerações de artistas brasileiros. Pintores, desenhistas, músicos, compositores, dançarinos, cineastas, atores, produtores, jornalistas, polemistas. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ficou encarregado de convocar um amigo para filmar a posse de Sarney.
Chamou Glauber Rocha.
Glauber, em 1966, já era o mais inventivo cineasta do mundo. Já havia dirigido dois filmes, "Barravento" (62) e "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (64). Este último, seguramente, um dos maiores filmes de toda a história do rico cinema brasileiro. Em 1966, Glauber começaria a viver seus primeiros problemas com a ditadura, instaurada no Brasil desde 01 de abril de 1964, 13 dias depois da estréia de Deus e o Diabo nos cinemas. O cineasta baiano era marxista, revolucionário, ligado aos cubanos e aos ideias de guerrilha. O cinema era sua arma. E a ditadura, que começava a endurecer, logo perceberia o problema.
Glauber tinha um projeto em 1966: filmar "Terra em Transe" (67). Mas para isso precisava de dinheiro. Acabou aceitando o pedido de seu amigo Barretão. Pegou sua equipe de cinema novo, no máximo dez pessoas e uma câmera, e foi ao Maranhão. A ideia era filmar outro projeto: o de José Sarney, que tomaria posse no início de 66.
O filme acabou virando curta-metragem. Mas teve pouco espaço. Sarney não gostou da ideia de Glauber de contrapor as imagens de Sarney durante seu discurso com imagens capturadas nas casas da população do estado. Ficava feio, diziam. O argumento de Glauber é que o documentário mostrava justamente a situação que Sarney se propunha a mudar. A situação que ele jurou mudar. Afinal, tinha sido eleito para isso.
O documentário, "Maranhão 66", foi censurado e só foi ser difundido recentemente. Ainda hoje, serve como o melhor resumo do poder do discurso.
Na segunda-feira, José Sarney foi eleito pela terceira vez o presidente do Senado federal, 54 anos depois de vencer as eleições para o governo do Maranhão.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Um novo terrorista
Não tem 15 dias o mundo deu adeus a um terrorista no poder: George W. Bush, presidente dos Estados Unidos por oito anos até 20 de janeiro último. Seu país foi atacado por terroristas do Afeganistão. Não satisfeito com a guerra-revide iniciada em 2002, Bush iniciou um genocídio irracional no Iraque, que nada tinha a ver com a história. Bush mentiu sobre as justificativas. Nada disso porém mudou. Os soldados americanos continuam nos dois fronts e os árabes "suspeitos" presos em Guantánamo já foram humilhados e torturados.
O terrorista no poder em foco agora é outro. Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel.
Para não parecer afobação ou falta de critério de minha parte, peço que o leitor veja com seus próprios olhos um exemplo recente, de hoje, do que o homem é capaz de pensar e dizer > aqui <.
Agora comento. Não irei muito longe, apenas me basearei nas informações contidas na reportagem da Folha Online que linkei acima.
***
Todo domingo há uma reunião entre os líderes de Israel. A reportagem dá conta que quatro foguetes vindos de Gaza atingiram o sul de Israel hoje, no entanto, sem deixar vítimas. Pode parecer banal a quem acha que o simples fato de lançarem foguetes já se trata de um crime. Não é, e já explicarei por que. O importante é ter em mente o seguinte: "sem deixar vítimas".
Vejam agora como se forma o jogo de manipulação das opiniões.
A reportagem diz o seguinte: "Segundo a mídia israelense, um dos quatro foguetes que atingiram o país no domingo caiu em uma área entre duas creches na região de Eshkol. No sábado, um foguete disparado a partir de Gaza já havia atingido a cidade de Ashkelon, também sem deixar vítimas. Pelo menos outros dois foguetes já haviam sido disparados nos dias anteriores".
Você tem a sociedade israelense e os dois ou três pólos de opinião. A direita, a esquerda e a parcela móvel, que varia de acordo com o assunto e o momento. Seria fácil achar que essa última parcela da sociedade é a parte manipulável. Não é assim. O distanciamento da política por parte da parcela móvel também a torna menos acessível a comunicação, seja ela do governo, da oposição ou da mídia. Todas parcelas podem ser manipuladas. As exceções, em todos os três campos, tem crescido exponencialmente com as novas tecnologias, como os blogs, que passam a agrupar pessoas que dividem as mesmas ideias.
Israel é atualmente governado por um governo de direita. Esse governo foi francamente apoiado pela mídia nas últimas eleições e ao longo do governo. Parte da imprensa apoia o Likud, partido da extrema direita. Ambos são favoráveis a guerra e ao extermínio dos palestinos. E ambos são os favoritos nas eleições que ocorrerão em 9 dias, no dia 10 de fevereiro.
E então o primeiro-ministro, Ehud Olmert diz o seguinte: "Já dissemos que se houver novos disparos de foguetes contra o sul do país, haverá uma resposta israelense desproporcional ao fogo contra os cidadãos de Israel e suas forças de segurança".
O jogo é claro: pegue uma sociedade governada por um governo de direita, bem aprovado, em tempos de eleição - quando todos passam a prestar mais atenção na política e se tornam mais interessados com os "assuntos nacionais" - após uma guerra (na verdade um massacre absurdo) e lance informações sobre foguetes caindo perto de creches. Ignore que não houve vítimas. apenas martele sobre os foguetes caindo em seu país. Todos os dias.
Você tem uma clara situação em que não apenas o povo passa a aprovar atitudes "desproporcionais" como as propostas por Olmert como também inicia um pedido silencioso por medidas desse tipo.
As duas últimas citações de Olmert na matéria são incríveis.
"Não vamos concordar em voltar às regras antigas do jogo e vamos agir de acordo com as novas regras, que garantirão que não sejamos levados a uma guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país".
O que significa, na cabeça do líder israelense, "voltar às regras antigas do jogo"? O retorno da Palestina roubada em 1948 e 1967? Ou a suspensão do bloqueio de comida e remédios que Israel iniciou em Gaza em 2006? Quais são as "regras antigas do jogo" tão desfavoráveis à Israel que Olmert tanto teme?
Se não tiver a resposta, deve certamente entender o que ele quis dizer com "não sejamos levados a uma guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país". Eu não entendi. Identifico dois erros, que podem ser atribuídos à ignorância ou a manipulação ou aos dois.
1) há uma incoerência de raciocínio enorme. Primeiro ele diz que vai ocorrer um ataque desproporcional por parte de Israel. Depois diz temer uma guerra olho-por olho. Peraí, qual das duas é a possibilidade real? Israel é capaz ou não de produzir um ataque desproporcional?
2) Onde Olmert visualizou uma possibilidade, qualquer que seja, de ocorrer uma "guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país"? Não é preciso vijara na história do Oriente Médio. Vamos pegar o último massacre que Israel proporcionou aos palestinos na Faixa de Gaza. Nos 22 dias de bombardeios e ataques terrestres militares por parte das tropas israelenses o saldo foi o seguinte: mais de 1.300 palestinos mortos, sendo mais de 900 civis. Do lado de Israel foram 13 mortos, sendo 7 civis. Aproveitando a mórbida coincidência numérica, é possível perceber que foram mortos 1000% mais palestinos que israelenses.
Essa é a "guerra olho-por-olho" que Olmert teme?
Não, é claro que não. Olmert não teme nada. O governo e a oposição israelenses não temem o Hamas ou os palestinos de Gaza e Cisjordânia. Talvez tenham mais dúvidas quanto a Síria e o Irã especialmente, mas ainda assim estes não lhe fazem frente. Israel dispõe de amplo acesso a recursos financeiros e militares da maior potência econômica e militar do nosso tempo: os Estados Unidos.
O que o primeiro-ministro quer é criar a sensação de medo. Instaurar medo traz a chancela para os abusos que ele possa a vir a cometer. Além da evidente manipulação, há um óbvio jogo político: Olmert quer deixar transparecer que ele é capaz de contornar o medo que o Hamas inflige na pobre população que mora ao sul de Israel, mais que isso, ele é o único que está disposto a fazer tudo o que for preciso para manter a integridade e a soberania nacional. O programa eleitoral está aí, na máquina pública.
Vamos agora a segunda declaração, seguida de comentários.
"A situação nos últimos dias cresceu de uma maneira que não permite a Israel não retaliar para deixar claro que nossa posição seja entendida por aqueles envolvidos nos disparos. A resposta virá no momento, no local e da maneira que Israel escolher".
A situação cresceu nos últimos dias? Cresceu como? De dois para quatro foguetes lançados pelo Hamas?
Lembram que pedi que guardassem a informação de que não houve vítimas nos ataques do Hamas? Pois lá vamos nós. O Hamas é um movimento fundamentalista islâmico. Expliquei as diferenças políticas e religiosas entre os árabes do Oriente Médio (clique aqui), mas basicamente, o Hamas não liga para um coesão territorial nacional. Eles, antes de palestinos, são islâmicos. E isso faz toda a diferença. Eles não reconhecem Israel e pregam a destruição do Estado semita desde o início do movimento, em 1988. Some-se a isso o fato de que 1) Israel iniciou um bloqueio unilateral criminoso na Faixa de Gaza, suspendendo a entrada de alimentos, bebidas, combustíveis e remédios, justamente após o Hamas vencer as eleições de janeiro de 2006. Esse bloqueio continua de pé, três anos depois, e 2) Israel produziu um massacre criminoso contra os palestinos em Gaza. Pegue tudo isso: a cabeça fundamentalista + o fato de estar no poder eleito democraticamente em Gaza + o bloqueio econômico + a guerra. E qual é o resultado que gerou essa situação que "nos últimos dias cresceu" e que necessitará de uma resposta de Israel?
De dois a quatro foguetes lançados sem fazer nenhuma vítima.
A) Estou desmerecendo a população do sul de Israel, lugar onde caem os foguetes do Hamas?
- Não, nunca fiz isso (basta ler os textos sobre o marcador "Palestina Ocupada") e não estou fazendo agora. Os foguetes do Hamas são de fabricação artesanal, pequenos e ridículos até, alcançam poucos quilômetros e, por isso, chegam apenas ao extremo sul de Israel. Gaza é uma cidade sitiada, uma prisão em céu aberto, as pessoas nem entram nem saem. Israel é bem grandinho, as pessoas que estão no extremo sul, único ponto onde chegam os foguetes do Hamas, estão lá porque querem.
B) Então os israelenses é que tem de sair, não o Hamas que tem de parar?
- Também não. É óbvio que a atitude do Hamas é terrorista, porque não busca alvos militares, mas qualquer israelense. Gaza é uma cidade sitiada, uma prisão a céu aberto. Israel deve suspender o bloqueio unilateral criminoso permitindo a entrada de mantimentos básicos. O que não pode e é ridículo é um país rico como é Israel instituir e manter um bloqueio econômico num território pequeno como é Gaza e ainda ficar choramingando a explosão de três ou quatro foguetes. E pior ainda: sem fazer vítima alguma.
C) Ah! Então se tivesse uma vítima então Israel estaria com a razão?
- Não, embora o governo e a oposição de extrema direita sonhem dia e noite para que vítimas ocorram. Israel, do jeito que está, quer mártires. Querem uma família sem um ente ou qualquer coisa do tipo que funcione como cartada final na opinião pública. No momento em que uma morte ocorrer do lado israelense devido a um foguete do Hamas, Israel terá o pacote completo da manipulação: uma sociedade com pré-disposição a ataques e incursões militares, uma mídia explosiva que apóia o governo, uma guerra bem sucedida, um governo disposto a fazer o que for preciso, inclusive um "ataque desproporcional" e um mártir. Aí não tem eleição que segure.
***
Não temos mais Bush. Mas temos Ehud Olmert, o homem que hoje prometeu um ataque desproporcional no momento, no local e da maneira que Israel escolher.
O terrorista no poder em foco agora é outro. Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel.
Para não parecer afobação ou falta de critério de minha parte, peço que o leitor veja com seus próprios olhos um exemplo recente, de hoje, do que o homem é capaz de pensar e dizer > aqui <.
Agora comento. Não irei muito longe, apenas me basearei nas informações contidas na reportagem da Folha Online que linkei acima.
***
Todo domingo há uma reunião entre os líderes de Israel. A reportagem dá conta que quatro foguetes vindos de Gaza atingiram o sul de Israel hoje, no entanto, sem deixar vítimas. Pode parecer banal a quem acha que o simples fato de lançarem foguetes já se trata de um crime. Não é, e já explicarei por que. O importante é ter em mente o seguinte: "sem deixar vítimas".
Vejam agora como se forma o jogo de manipulação das opiniões.
A reportagem diz o seguinte: "Segundo a mídia israelense, um dos quatro foguetes que atingiram o país no domingo caiu em uma área entre duas creches na região de Eshkol. No sábado, um foguete disparado a partir de Gaza já havia atingido a cidade de Ashkelon, também sem deixar vítimas. Pelo menos outros dois foguetes já haviam sido disparados nos dias anteriores".
Você tem a sociedade israelense e os dois ou três pólos de opinião. A direita, a esquerda e a parcela móvel, que varia de acordo com o assunto e o momento. Seria fácil achar que essa última parcela da sociedade é a parte manipulável. Não é assim. O distanciamento da política por parte da parcela móvel também a torna menos acessível a comunicação, seja ela do governo, da oposição ou da mídia. Todas parcelas podem ser manipuladas. As exceções, em todos os três campos, tem crescido exponencialmente com as novas tecnologias, como os blogs, que passam a agrupar pessoas que dividem as mesmas ideias.
Israel é atualmente governado por um governo de direita. Esse governo foi francamente apoiado pela mídia nas últimas eleições e ao longo do governo. Parte da imprensa apoia o Likud, partido da extrema direita. Ambos são favoráveis a guerra e ao extermínio dos palestinos. E ambos são os favoritos nas eleições que ocorrerão em 9 dias, no dia 10 de fevereiro.
E então o primeiro-ministro, Ehud Olmert diz o seguinte: "Já dissemos que se houver novos disparos de foguetes contra o sul do país, haverá uma resposta israelense desproporcional ao fogo contra os cidadãos de Israel e suas forças de segurança".
O jogo é claro: pegue uma sociedade governada por um governo de direita, bem aprovado, em tempos de eleição - quando todos passam a prestar mais atenção na política e se tornam mais interessados com os "assuntos nacionais" - após uma guerra (na verdade um massacre absurdo) e lance informações sobre foguetes caindo perto de creches. Ignore que não houve vítimas. apenas martele sobre os foguetes caindo em seu país. Todos os dias.
Você tem uma clara situação em que não apenas o povo passa a aprovar atitudes "desproporcionais" como as propostas por Olmert como também inicia um pedido silencioso por medidas desse tipo.
As duas últimas citações de Olmert na matéria são incríveis.
"Não vamos concordar em voltar às regras antigas do jogo e vamos agir de acordo com as novas regras, que garantirão que não sejamos levados a uma guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país".
O que significa, na cabeça do líder israelense, "voltar às regras antigas do jogo"? O retorno da Palestina roubada em 1948 e 1967? Ou a suspensão do bloqueio de comida e remédios que Israel iniciou em Gaza em 2006? Quais são as "regras antigas do jogo" tão desfavoráveis à Israel que Olmert tanto teme?
Se não tiver a resposta, deve certamente entender o que ele quis dizer com "não sejamos levados a uma guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país". Eu não entendi. Identifico dois erros, que podem ser atribuídos à ignorância ou a manipulação ou aos dois.
1) há uma incoerência de raciocínio enorme. Primeiro ele diz que vai ocorrer um ataque desproporcional por parte de Israel. Depois diz temer uma guerra olho-por olho. Peraí, qual das duas é a possibilidade real? Israel é capaz ou não de produzir um ataque desproporcional?
2) Onde Olmert visualizou uma possibilidade, qualquer que seja, de ocorrer uma "guerra de olho-por-olho que não permitirá uma vida normal no sul do país"? Não é preciso vijara na história do Oriente Médio. Vamos pegar o último massacre que Israel proporcionou aos palestinos na Faixa de Gaza. Nos 22 dias de bombardeios e ataques terrestres militares por parte das tropas israelenses o saldo foi o seguinte: mais de 1.300 palestinos mortos, sendo mais de 900 civis. Do lado de Israel foram 13 mortos, sendo 7 civis. Aproveitando a mórbida coincidência numérica, é possível perceber que foram mortos 1000% mais palestinos que israelenses.
Essa é a "guerra olho-por-olho" que Olmert teme?
Não, é claro que não. Olmert não teme nada. O governo e a oposição israelenses não temem o Hamas ou os palestinos de Gaza e Cisjordânia. Talvez tenham mais dúvidas quanto a Síria e o Irã especialmente, mas ainda assim estes não lhe fazem frente. Israel dispõe de amplo acesso a recursos financeiros e militares da maior potência econômica e militar do nosso tempo: os Estados Unidos.
O que o primeiro-ministro quer é criar a sensação de medo. Instaurar medo traz a chancela para os abusos que ele possa a vir a cometer. Além da evidente manipulação, há um óbvio jogo político: Olmert quer deixar transparecer que ele é capaz de contornar o medo que o Hamas inflige na pobre população que mora ao sul de Israel, mais que isso, ele é o único que está disposto a fazer tudo o que for preciso para manter a integridade e a soberania nacional. O programa eleitoral está aí, na máquina pública.
Vamos agora a segunda declaração, seguida de comentários.
"A situação nos últimos dias cresceu de uma maneira que não permite a Israel não retaliar para deixar claro que nossa posição seja entendida por aqueles envolvidos nos disparos. A resposta virá no momento, no local e da maneira que Israel escolher".
A situação cresceu nos últimos dias? Cresceu como? De dois para quatro foguetes lançados pelo Hamas?
Lembram que pedi que guardassem a informação de que não houve vítimas nos ataques do Hamas? Pois lá vamos nós. O Hamas é um movimento fundamentalista islâmico. Expliquei as diferenças políticas e religiosas entre os árabes do Oriente Médio (clique aqui), mas basicamente, o Hamas não liga para um coesão territorial nacional. Eles, antes de palestinos, são islâmicos. E isso faz toda a diferença. Eles não reconhecem Israel e pregam a destruição do Estado semita desde o início do movimento, em 1988. Some-se a isso o fato de que 1) Israel iniciou um bloqueio unilateral criminoso na Faixa de Gaza, suspendendo a entrada de alimentos, bebidas, combustíveis e remédios, justamente após o Hamas vencer as eleições de janeiro de 2006. Esse bloqueio continua de pé, três anos depois, e 2) Israel produziu um massacre criminoso contra os palestinos em Gaza. Pegue tudo isso: a cabeça fundamentalista + o fato de estar no poder eleito democraticamente em Gaza + o bloqueio econômico + a guerra. E qual é o resultado que gerou essa situação que "nos últimos dias cresceu" e que necessitará de uma resposta de Israel?
De dois a quatro foguetes lançados sem fazer nenhuma vítima.
A) Estou desmerecendo a população do sul de Israel, lugar onde caem os foguetes do Hamas?
- Não, nunca fiz isso (basta ler os textos sobre o marcador "Palestina Ocupada") e não estou fazendo agora. Os foguetes do Hamas são de fabricação artesanal, pequenos e ridículos até, alcançam poucos quilômetros e, por isso, chegam apenas ao extremo sul de Israel. Gaza é uma cidade sitiada, uma prisão em céu aberto, as pessoas nem entram nem saem. Israel é bem grandinho, as pessoas que estão no extremo sul, único ponto onde chegam os foguetes do Hamas, estão lá porque querem.
B) Então os israelenses é que tem de sair, não o Hamas que tem de parar?
- Também não. É óbvio que a atitude do Hamas é terrorista, porque não busca alvos militares, mas qualquer israelense. Gaza é uma cidade sitiada, uma prisão a céu aberto. Israel deve suspender o bloqueio unilateral criminoso permitindo a entrada de mantimentos básicos. O que não pode e é ridículo é um país rico como é Israel instituir e manter um bloqueio econômico num território pequeno como é Gaza e ainda ficar choramingando a explosão de três ou quatro foguetes. E pior ainda: sem fazer vítima alguma.
C) Ah! Então se tivesse uma vítima então Israel estaria com a razão?
- Não, embora o governo e a oposição de extrema direita sonhem dia e noite para que vítimas ocorram. Israel, do jeito que está, quer mártires. Querem uma família sem um ente ou qualquer coisa do tipo que funcione como cartada final na opinião pública. No momento em que uma morte ocorrer do lado israelense devido a um foguete do Hamas, Israel terá o pacote completo da manipulação: uma sociedade com pré-disposição a ataques e incursões militares, uma mídia explosiva que apóia o governo, uma guerra bem sucedida, um governo disposto a fazer o que for preciso, inclusive um "ataque desproporcional" e um mártir. Aí não tem eleição que segure.
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Não temos mais Bush. Mas temos Ehud Olmert, o homem que hoje prometeu um ataque desproporcional no momento, no local e da maneira que Israel escolher.
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