sábado, 31 de janeiro de 2009

Frase do primeiro mês do ano

"É inconcebível, irracional, que o dinheiro do trabalhador seja usado pelas empresas para demitir. Se querem dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), têm de assinar compromisso de não demitir. Senão seria FAE, Fundo de Amparo ao Empresário"

De Carlos Lupi, ministro do Trabalho.

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O mês que termina hoje foi cheio: o massacre promovido por Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza, a posse de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, a vitória dos indígenas em referendo na Bolívia, o bloqueio de bilhões do Opportunity e as negociações sindicais-patronais sobre a crise no Brasil.

A crise econômica mundial se acirrou em janeiro. Dois dos maiores conglomerados financeiros dos Estados Unidos - e do mundo por consequência - tiveram sérios problemas de solvência. Ambos Bank of America e Citibank sofreram intervenções do Estado americano para não falirem. Outros 4 bancos médios e pequenos desapareceram, bem como lojas de departamento e artigos eletrônicos. O sumiço do crédito está mudando o modelo de crescimento mundial, com a China - motor vendedor - alterando suas rotas diante da falência dos EUA - motor comprador.

Depois de quatro meses forçando a barra, a crise acabou chegando surpreendentemente forte no Brasil. Em dezembro a indústria se desfez de trabalhadores - o saldo do mês e de 2008 como um todo ainda foi muito positivo. Diante disso, janeiro trouxe de volta as negociações entre representantes dos trabalhadores industriais e os empresários. Uns aceitam alguma negociação, desde que o nível de emprego se mantenham, outros querem que tudo permaneça. Do lado dos empresários, há aqueles que aproveitam a boquinha para tentar flexibilizar as leis trabalhistas, outros querem diminuir provisoriamente a carga de impostos.

No meio disso tudo o governo entrou oferecendo crédito barato do BNDES - com dinheiro do FAT - para o empresariado passar pelos tempos de secura no crédito interno e externo. Ainda assim, demissões ocorreram.

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A torcida pela crise no Brasil não cessará em fevereiro. O brasileiro médio continua, no entanto, ignorando a crise: os livros mais vendidos continuam sendo de finanças pessoais. Há pouca atenção sendo dada para a crise.

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Para fechar o mês com chave de ouro, hoje o HSBC Brasil - antigo Tom Brasil - recebe um show magistral de um mestre sem igual: Martinho da Vila.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Imagem da semana

Foto de Ibrahim Usta, da Associated Press

A foto traz uma multidão na Turquia, na madrugada de hoje, unida para receber seu primeiro-ministro Receb Tayyp Erdogan, que abandonou o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suiça), no meio de debate com o presidente de Israel, Shimon Peres.

O ato foi duro. Em qualquer debate, conversa ou comunicação entre pessoas, o gesto de largar tudo é forte e pode ser recebido como grosseria, desagravo ou discordância total com aquilo que o interlocutor disse. Cada lado, evidentemente, terá uma percepção sobre o gesto de Erdogan. Mas para julgar é preciso conhecer.

A Turquia é o país que melhor negocia com Israel. Negociava antes do massacre em Gaza e negocia hoje. Para se ter uma ideia, quatro dias antes do ataque israelense contra os palestinos na Faixa de Gaza, o premiê israelense Ehud Olmert estava na Turquia, em negociação indiretas com a Síria. Israel não dialoga com a Síria, o Irã e os grupos Hizbollah no Líbano e Hamas em Gaza. A participação da Turquia como intermediadora dessas negociações, portanto, é crucial.

Em Davos, cidadezinha gelada da Suiça, estão reunidos chefes de Estado, banqueiros, diplomatas, jornalistas, etc., como em todos os anos. Como se não bastasse a anacronia de realizar um fórum entre países falidos pelos sistema que eles mesmos defenderam por décadas, o Fórum Econômico Mundial reuniu em debate o presidente de Israel, o primeiro-ministro da Turquia e o secretário-geral da ONU.

No debate, Ban Ki-moon, da ONU, atacou Israel pelos ataques homicidas contra as instalações de ajuda humanitária das Organizações em Gaza. Depois, Erdogan recriminou duramente os israelenses pelo embargo aos palestinos de Gaza e pelo massacre promovido em seguida.

Abre parêntesis. Israel decretou bloqueio das fronteiras da Faixa de Gaza, em 2006, após a vitória do Hamas, grupo fundamentalista islâmico eleito democraticamente. Com o embargo, houve um corte de mais de 80% no na entrada de alimentos, bebidas, combustíveis e remédios. Foram três anos assim. O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, seguiu lançando foguetes contra o sul de Israel. Em junho de 2008 foi estabelecida uma trégua de seis meses. O Hamas suspendeu os foguetes. Mas Israel manteve o embargo e ainda rompeu o acordo, assassinando sete palestinos no dia 04 de novembro, quando toda atenção mundial estava depositada nas eleições nos Estados Unidos, principal parceiro ideológico e financeiro de Israel. Terminada a trégua, o Hamas retomou os foguetes, no dia 19/12. Poucos dias depois, a 27/12, Israel iniciou o massacre. Em 22 dias de ataque, mais de 1.300 palestinos foram mortos e quase 5 mil ficaram feridos. A guerra parou três dias antes da posse de Barack Obama, nos Estados Unidos, principal parceiro ideológico e financeiro de Israel. Fecha parêntesis.

O discurso do primeiro-ministro turco foi duro e contundente: "Gaza é uma prisão a céu aberto". E terminou: "O antissemitismo é um crime contra a humanidade, mas a islamofobia também é um crime contra a humanidade".

Shimon Peres, presidente israelense, foi o último a falar. Usou trechos da constituição do Hamas para justificar o embargo e as ações militares. Erdogan pediu direito de resposta. Na réplica, de um minuto de duração, foi ficando mais inflamado conforme falava - sempre em turco, com tradução simultânea pero no mucho em inglês - sendo interrompido algumas vezes pelo mediador do debate, David Ignatius, editor-associado do "The Washington Post".

Erdogan se cansou e parou de falar repentinamente. Um silência instalou-se na sala. Pegou seus documentos e se levantou, em silêncio, caminhando com passos duros em direção à porta de saída. Não cumprimentou Shimon Peres ou Ban Ki-moon. Foi embora de Davos.

Ao mesmo tempo que se estremecem os poucos canais de negociação que Israel mantém com países do Oriente Médio, uma enorme ofensiva jurídica deve ser iniciada em fevereiro. Ministros israelenses receiam que o país seja pressionado a aceitar uma investigação internacional sobre as mortes de civis - quase 70% dos 1.300 assassinados no massacre (ver texto reproduzido no Biscoito Fino e a Massa) - e uso ilegal de armas. O Tribunal Penal Internacional, que julga indivíduos acusados de crimes de guerra, examina denúncias contra Israel apresentadas pela Autoridade Nacional Palestina e pela Liga Árabe.

Israel provalvemente barrará esses processos indefinidamente. O povo israelense está mais preocupado com outra coisa agora: as eleições para primeiro-ministro que ocorrerão em 10 de fevereiro. São dois principais partidos: o Likud, de extrema-direita, e o Kadima, de direita.

Ambos apoiaram o massacre. E ambos defendem novos ataques.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Fórum Econômico de 2010

Grande parte da mídia, nacional e internacional, está focada no Fórum Econômico Mundial, que, como sempre, ocorre em Davos, na Suiça. Isso não é novidade. Sempre foi assim e nesse ano, após toda a turbulência financeira e econômica de 2008, é de se esperar. O discurso anti-hegemônico sempre cravou: "Que Fórum Econômico que nada!". As circunstâncias acabaram levando todos, incluindo a turma da bufunfa, a bradar o mesmo protesto.

O atual Fórum está chamando muita atenção, mas em nada parece com os eventos anteriores. Mesmo o evento do ano passado, realizado em janeiro de 2008, quando já vivíamos os primeiros efeitos da crise financeira, tinha todo o glamour capitalista. O de 2009 não.

Não que a turma da bufunfa não esteja lá. Claro que está. Mas não há mais o clima de viagem de faculdade que antes predominava. Antes, todos os bancos - que são os fundadores do evento em Davos - promoviam festas. E todos participavam: banqueiros, investidores, jornalistas, políticos, juízes, enfim, uma farra. Todo ano as bolsas subiam, os mercados inflavavam, os lucros aumentavam, o bolo ficava concentrado. Tudo bancado pelos bancos, que compravam os convites e organizavam tudo com muita antecedência.

O evento deste ano, por exemplo, foi todo fechado no início de 2008, quando as coisas estavam piorando, mas ainda longe do precipício que agora estão. Muitos que colocaram dinheiro no Fórum de 2009 não estão lá: o pessoal dos bancos de investimentos como um todo, não apareceram. O Lehman Brothers faliu; o Merril Lynch e o Bear Stearns foram incorporados por outros bancos; e o Goldman Sachs e o Morgan Stanley se transformaram em bancos comerciais.

Melhor que ver a turma da bufunfa sumir ou ficar envergonhada é esperar pelo Fórum Econômico Mundial de 2010. Ele terá de ser planejado agora, no início de 2009.

Não há mais bancos de investimentos, não há mais farra. O sistema está, em boa parte, nas mãos (ou à caminho) do Estado.

Como será em 2010?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

De olho no Nomura

Alguns nomes são sintomáticos para prever e entender como as coisas estão. Winston Fritsch é um deles.

Fritsch surgiu no cenário político-financeiro nos anos 80, época de grande rebuliço econômico. Pertencia a geração de economistas formados por universidades brasileiras que se internacionalizaram no fim dos anos 70 (especialmente a PUC do Rio) que depois foram estudar no exterior (basicamente em escolas liberais dos Estados Unidos e do Reino Unido) nos anos 80.

Era uma geração francamente liberal, por usos e costumes. Vinham de famílias de classe média alta e puderam desfrutar do melhor espaço para estudar e pensar. E estavam no lugar certo na hora certa: nos anos 80 o mundo regulado do pós-guerra explodia com as crises da dívida externa enquanto o pensamento liberal renascia das cinzas, tendo Milton Friedman como guru, a Universidade de Chicago como base e os governos Reagan (EUA) e Thatcher (Inglaterra) como carros-chefes.

Ao longo dos anos 80 esses economistas iam ocupando espaços em jornais e revistas, ora como articulistas convidados, ora como fontes, até alcançar cargos no governo Sarney. Uns antes de outros entraram para o governo. Ocuparam secretariados na Fazenda, no Planejamento até alcançar o posto máximo: o Banco Central.

Naquela época o BC não era nem de perto o que é hoje. Quem fazia a política econômica era a dupla que ocupava Fazenda e Planejamento. Ali estavam os debates, as intricas, as políticas, os erros e acertos.

Foi essa turma liberal dos anos 80 que mudou tudo no Brasil a partir dos anos 90.

Fritsch entrou para o Banco Central em 1992, no ocaso do governo Collor. Participou do início das discussões do grupo formado por Fernando Henrique Cardoso para alterar as regras econômicas. O grupo de FHC era, basicamente, dos economistas dos anos 80.

Nos anos de criação e lançamento do Plano Real, 1993 e 1994, Winston Fritsch ocupou a cadeira de secretário de Política Econômica do Banco Central.

Fritsch se uniu ao amigo Gustavo Franco, após este deixar a presidência do BC depois da explosão cambial de 13 de janeiro de 1999, e juntos criaram a Rio Bravo Investimentos, um das maiores financeiras do país. Já escrevi muito sobre a Rio Bravo (quem quiser pesquisar, sugiro seguir a seção "Arquivos antigos" no blog, para textos de 2007).

Depois de alguns anos Fritsch assumiu a presidência do Dresdner Kleinwort Wassestein. O Dresdner era uma das maiores instituições financeiras da Alemanha. Há alguns anos foi adquirido, na Alemanha, pelo Commerzbank. No auge das operações do Dresdner no Brasil, o banco contava com mais de 250 funcionários. Sua sede, ainda hoje, funciona num luxuoso prédio na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em frente ao shopping Iguatemi. A crise financeira internacional provocou problemas na Alemanha - o governo alemão teve de intervir financeiramente no Commerzbank, controlador do Dresdner. Com isso, no início do ano passado, boa parte dos funcionários deixaram o banco.

Entre eles, Winston Fritsch.

Hoje o Dresdner está com todos seus ativos no Brasil à venda - por ordem do controlador, o Commerzbank (agora com mão do governo alemão, bom lembrar). Se trata de um negócio vantajoso, numa análise fria, sem considerar o preço pedido. O Dresdner tem uma atuação restrita à banco de investimento, mas possui licença de banco múltiplo que pode atrair o interesse de instituição financeira que ainda não atua no país. Para conseguir licenças para operar no país, toda instituição financeira precisa do crivo do Banco Central, importante ter em mente.

O Dresdner já em decorrada, para onde foi Winston Fritsch? Para o Lehman Brothers.

Explicando melhor, Fritsch voltou para a Rio Bravo, assumindo a coordenação da área de banco de investimento. Essa área foi depois vendida para o Lehman Brothers, que optou por cortar caminho burocrático para entrar no país. Assim, numa operação, Fritsch passou a ser o representante das operações do Lehman Brothers no Brasil.

Como se sabe, o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, a nação dos bancos de investimentos, faliu. A falência do Lehman, a 15 de setembro do ano passado, desencadeou o acirramento da crise mundial. Depois do Lehman a crise deixou de ser financeira e passou a ser econômica.

Fritsch, então, se viu desempregado.

Ontem foi anunciada sua contratação pela japonesa Nomura, que pretende ampliar sua participação no Brasil.

Alguns nomes são sintomáticos para prever e entender como as coisas estão. Winston Fritsch é um deles.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Arquivos antigos

Finalmente criei tempo para resgatar meus artigos e posts do meu primeiro blog para colocar neste. Iniciei em dezembro de 2006 meu primeiro blog, hospedado no iG. Por lá, escrevi quase todos os dias por 18 meses. Sempre tive por hábito salvar meus textos publicados em arquivos no computador. Parecia que sabia o que viria.

O início do ano passado foi atribulado. Acabei não salvando os textos de abril, maio. O sistema já falhava horrores. No meio de junho, saiu completamente do ar. Nunca mais consegui ter acesso.

Passei para o Blogspot - além de muito mais bonito, ele permite uma série de inovações que o iG nem sonha alcançar. Estou aqui desde junho - e ainda não salvei esses textos, diga-se.

No fim de semana juntei todos os textos antigos e coloquei em arquivos separados por meio do Google Docs e depois coloquei-os na internet. Quem quiser acessar os artigos escritos entre dezembro de 2006 e junho de 2008 (excetuando os perdidos de abril e maio do ano passado) pode clicar na seção ao lado, intitulada "Arquivos antigos".

Uma saída do caos: nova ordem social e financeira

Está amadurecendo a ideia de que o sistema bancário americano deve ser estatizado. O governo Obama, que completa uma semana, está longe de obter todas as informações possíveis sobre as condições do sistema. Digo possíveis e não necessárias, simplesmente porque não há controle específico sobre o sistema: ele foi lentamente desregulado a partir dos anos 80.

E aí está o grande perigo para qualquer tipo de ação que passe por precificação de ativos. Afinal, como é possível dar um preço a algo que não se conhece exatamente? O mercado falhou, errou feio. Hoje o sistema financeiro americano e mundial está quebrado justamente porque se apostou que o mercado daria conta de se auto-controlar.

Essa crença cega gerou uma elevação sem limites na especulação financeira. Esse processo se intensificou a partir dos anos 90 com os enormes ganhos de produtividade graças a tecnologia. Em pouco mais de 15 anos praticamente alcançamos o nível de mercado desregulados e globalizados que tínhamos no início do século XX.

Não é possível precificar um ativo nos Estados Unidos de hoje. Todos estão dispostos a reaver seu dinheiro, portanto, todos estão vendendo. E ninguém está comprando. Não compram porque 1) não tem dinheiro, 2) estão com medo de errar porque não se conhece o que se está comprando ou 3) estão falidos.

O plano inicial dos Estados Unidos, lançado pelo secretário do Tesouro Henry Paulson, no fim do ano passado, ainda governo Bush, era o seguinte: o governo entra comprando todos os títulos imobiliários em nome dos bancos, deixando-os sem problemas.

Esse plano era uma obcenidade. A ideia era o governo se endividar loucamente para adquirir ativos sem preços (chamados "títulos podres") e não entrar no mérito dos erros. Os banqueiros, os operadores, o mercado como um todo estaria salvo - sem os títulos podres - e o governo endividado.

Assim como o governo Bush, essa ideia já é passado.

É indiscutível o que se coloca à frente do governo americano: estatizar os bancos e parte do sistema financeiro. O governo garante as perdas dos bancos, ganhando em troca o controle das instituições. Assim, três problemas são resolvidos numa tacada só:

a) A gerência e a diretoria culpada pela fanfarra especulativa é demitida: o governo é o novo controlador. b) os títulos podres serão garantidos pelo governo. O calote deixa de ser risco e passa a ser contornável. c) no controle, o governo passa a controlar o crédito bancário.

Esse último ponto, o c), é importantíssimo. No controle do crédito o governo pode reestabelecer boa parte da legislação jogada fora nos anos 80/90 e 2000. Não se trata de um golpe à liberdade dos negócios ou das famílias. O controle sobre a quantidade de empréstimos torna as coisas mais securas. Os negócios e as famílias ficam muito mais seguras com o controle exercido.

Isso é óbvio, basta apenas um pequeno exercício de memória.

Qual foi, dentre as várias "novidades" criadas nos últimos anos pelos mercados, a mais criminosa: os contratos hipotecários oferecidos pelas instituições financeiras de imobiliárias que ofereciam dinheiro de graça para o comprador da casa própria, mas o contrato continha cláusulas que previam que as taxas de juros sobre o empréstimo aumentariam absurdamente depois de dois ou três anos. O que aconteceu então? Milhões de famílias se tornaram inadimplentes da noite para o dia.

Ali começou o castelo de cartas que desmoronou o modelo desregulamentado.

Tivesse um controle mais efetivo sobre os empréstimos as famílias não entrariam no jogo desconhecido. Quer dizer então que todas as famílias que conseguiram a casa própria nesses anos nunca alcançariam num modelo regulamentado pelo governo?

Não. Primeiro que essas famílias hoje estão na rua ou morando nos seus carros. Ou seja, não passariam pela humilhação financeira e moral de realizar o sonho e depois vê-lo ruir. Segundo que a regulamentação previne a inadimplência e por consequência o despejo, mas não pode vir desacompanhada.

No exemplo do mercado imobiliário, o controle sobre os empréstimos deve vir junto a uma política expansiva e milionária de habitação. O governo deve intervir adquirindo terrenos e construindo casas - isso tudo gera emprego, que gera salário que vira consumo que move as fábricas, etc. - para estabelecer a parcela da população americana que é desassistida.

A estatização dos bancos é o primeiro passo. Mas o movimento mais dramático se dará depois, provavelmente no segundo semestre, quando o governo estiver com todas as cartas nas mãos.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Gaza: um mantra, um crime

Uma cantilena defendida pelas autoridades israelenses é repetida ao redor do mundo pelos que dividem ideais sociais ou religiosos com Israel é de que os palestinos não gostam de paz, afinal eles preferem soltar foguetes à construir casas.

O mantra israelense e americano - e por extensão, hegemônico - é de que os palestinos tiveram a oportunidade de reconstruir a Faixa de Gaza após a retirada das últimas famílias de colonos judeus da região em 2005/2006. "Mas eles não souberam aproveitar. Ao invés disso, ficam lançando foguetes contra Israel".

Esse mantra justifica a "ação de auto-defesa" promovida pelas tropas israelenses recentemente.

O crime está na ignorância ou no interesse, dependendo do interlocutor.

Uma coisa é verdade: Israel retirou todos seus colonos de Gaza entre 2005 e 2006. Tomado como fato isolado, deixa a porta aberta para a justificativa da guerra.
Mas algo que todos os que justificam os abusos com esse argumento não mencionam, por ignorância ou por conveniência, é que Israel estabeleceu um bloqueio unilateral da região.

Em Gaza não entram alimentos, bebidas, combustível, remédios, roupas. Isso não é crucial para "construir ou reconstruir as coisas"? Pois em Gaza também está proibida a entrada de produtos como cimento e canos de metal. Desde 2006, há um controle rígido sobre o que entra ou o que sai de Gaza.

É bom lembrar que o controle é absolutamente eficaz e muito bem planejado. Israel faz uso do melhor da tecnologia e do controle militar sobre a região. Tudo o que entra e sai de Gaza é registrado por um órgão central de Israel. A ajuda financeira e estratégica dos americanos é irônica: o controle das fronteiras da Faixa de Gaza deixaria qualquer líder soviético orgulhoso. E pelo que consta, os americanos sempre foram rivais da centralização soviética, right?

Naquele mesmo ano de 2006 os palestinos de Gaza elegeram o Hamas, que iniciou conflito com o Fatah - que tem a simpatia de Israel/EUA - terminado em 2007, com a expulsão dos membros do Fatah para a Cisjordânia.

Até o início da "ação de auto-defesa" de Israel (27 de dezembro do ano passado), passaram três anos inteiros de controle das fronteiras de Gaza. Como reconstruir dessa maneira?

***
Não se trata de justificar os atos do Hamas. Mas entender suas ações. Mesmo que fosse possível ignorar as questões religiosas do grupo, é possível fazer alguma coisa em qualquer lugar sem ter acesso a nada?

Ainda assim, nada disso foi, é ou será discutido. O que fica da "ação de auto-defesa" de Israel em Gaza é um ódio ainda mais forte entre os palestinos, agora mais unidos numa causa, menos dispersos nas disputas entre nacionalistas (Fatah) e fundamentalistas islâmicos (Hamas).

E mais de mil e trezentos palestinos à menos em Gaza. Que continua bloqueada.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Amanhecendo com a luz acesa

Para aproveitar o domingo, nada melhor que a poesia por trás das músicas do grande Nei Lisboa.

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"o mundo é do novo
e o novo dos antigos
o mundo é quem sobrar
no fim da noite dos amigos
"

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"Lembra do quanto amanhecemos
com a luz acesa
nos papos mais estranhos
sonhando de verdade
salvar a humanidade
ao redor da mesa"

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"o mundo é dos vivos
o mundo é dos bancos
e os bancos
dos mendigos"

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O verso "amanhecemos com a luz acesa" é de uma lindeza sem igual. Uma grande alegoria do papo com os amigos, da boemia urbana, da vida que passa e deixa, aqui e lá, seus momentos inesquecíveis.

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Nei Lisboa costumava se apresentar no Sesc e em alguns botecos na Vila Mariana, mas há tempos não ouço dele.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Encruzilhada histórica

Existe um processo pouco percebido sendo desenvolvido aos poucos no Brasil e nos países emergentes semelhantes. Não é nada formal ou mesmo um pacto entre elites dominantes, mas um jogo que estabelece vencedores (os mesmos de sempre e alguns novos jogadores) e esconde dos perdedores a grande derrota. Podemos estar diante de um modelo intermediário entre uma nova dominação ou a restituição da hegemonia clássica.

Explico.

As exportações brasileiras estão diminuindo em volume há anos, pelo efeito do real valorizado (quando Lula assumiu o dólar valia R$ 3,80; antes da crise chegou a R$ 1,55). Mas o saldo comercial não parava de crescer graças a um motor paralelo: o aumento dos preços dos produtos vendidos ao exterior. Quer dizer, vendia-se menos quantidade, mas as mercadorias valiam mais.

Estavam mais caras graças a nossa produção de bens industrializados de maior valor agregado? Não, embora tenhamos nos desenvolvido fortemente em vários setores. Mas nada que alterasse nossa composição exportadora. As mercadorias mais vendidas continuaram sendo os produtos primários de sempre: grãos e minérios. Commodities, em geral. Por que elas aumentavam de preços? Graças a enorme e crescente demanda chinesa.

O desenvolvimento chinês dos últimos trinta anos produziu uma economia fortemente urbana, com moeda desvalorizada (o que incentiva as exportações, uma vez que com a mesma quantidade de dólares recebidos pela venda se consegue maior quantidade de moeda nacional) e mão-de-obra barata, sem direitos trabalhistas e impostos baixos. O modelo era simples: importa-se produtos básicos, industrializa internamente e reverte para exportação. Os dólares entram e enchem as reservas. Essas são aplicadas nos Estados Unidos, ajudando as famílias americanas a se endividarem e adquirirem mais e mais produtos chineses.

A crise financeira americana alterou profundamente os termos desse modelo. Com a falência de bancos, o crédito secou. Sem crédito, as famílias pararam de rolar suas dívidas - asfixiando os bancos ainda mais - e pararam de consumir. No ano passado, 25 bancos quebraram. Outros estão na iminência de quebrar e os grandes bancos estão recebendo aportes bilionários do governo para resistirem. A fanfarra baseada na crença do crescimento eterno do mercado imobiliário foi enorme. Os bancos não param de falir e estão entrando em colapso com mais rapidez. Na última sexta-feira, dois bancos faliram (o National Bank of Commerce, de Illinois, e o Bank of Clark County, de Washington) antes de qualquer tipo de ação do governo - a regulação foi tão afrouxada nas últimas décadas que o governo não tinha nem informações.

A previsão oficial é de outros 20 bancos vão falir, apenas nos primeiros três meses de 2009.

Com isso, o fluxo de dólares para a China diminuiu e tende a diminuir ainda mais. Os países da União Européia não são válvula de escape: a recessão é forte por lá também.

A grande diversificação comercial do governo Lula foi crucial para agüentar o tranco inicial da crise mundial. A maior parte das exportações de produtos de alto valor agregado são direcionadas para nossos vizinhos latinos - o comércio entre países da América Latina aumentou enormemente desde 2003.

Ainda assim, a maior parte do saldo comercial é razão da venda de commodities para os países industrializados. Dentre eles, nosso maior comprador é a China. Isso não mudou. Intensificou-se apenas. Com o Chile aconteceu a mesma coisa. Desde 2003, a produção industrial se diversificou, aumentando exportações e importações com os vizinhos. Mas praticamente 80% da entrada de dólares é oriunda do cobre, uma commodity.

Com a crise financeira internacional destruindo bancos dos países desenvolvidos, o crédito externo travou. Com isso, muitas linhas de financiamento de exportações brasileiras foram fechadas. Ao mesmo tempo, os bancos nacionais também pararam de conceder empréstimos (ou concedem a taxas absurdas, o que equivale a não emprestar). O financiamento, nos últimos dias, tem-se limitado às linhas especiais criadas pelo governo em dezembro. Mesmo o real mais desvalorizado não compensa, uma vez que a própria demanda interna está mais enfraquecida – de novo, efeito da escassez de crédito.

Esse é o panorama de como estamos, de como estão as coisas em janeiro de 2009, ainda que em compasso de espera para as primeiras medidas de Obama à frente dos Estados Unidos. O governo Obama é crucial, mas não agora. Antes é preciso preciso perceber o que há pela frente para depois discutir Obama, China e o resto do mundo (Brasil incluso) no meio disso.

O que importa é perceber a encruzilhada que o momento coloca à frente do Brasil e dos países emergentes de condições semelhantes.

Para manter as exportações fortes – o que é de interesse brasileiro para manter a entrada dos dólares necessários para honrar os compromissos externos, uma vez que nossa moeda não é conversível – o Brasil precisa que a China não pare. A maior parte de nossas exportações, como já se viu, refere-se a produtos básicos. A produção das commodities é relegada ao grande capital do agronegócio. Mas boa parte dos mercados importadores dos bens industriais chineses – os países ricos – estão em recessão. A China deve realocar essa produção para seu próprio mercado interno e para países como o Brasil: abertos, com renda mínima e com grande mercado interno.

Com as famílias americanas cortando seu consumo e a Europa deixando de ser uma alternativa, tudo o que os chineses querem é um Brasil importador. Com a demanda americana e européia em baixa também para as commodities brasileiras, tudo o que o Brasil quer é uma China importadora.

Ou seja, incentiva-se (de maneira indireta, é claro) a China para que ela continue comprando nossos bens primários, que depois serão remetidos de volta para cá sob a forma de produtos industriais.

Dessa maneira, mantendo aumentos do salário mínimo e de programas de transferência de renda (simplificando: para as classes baixas, Bolsa Família; para classes altas, superávit primário), os bancos ficam sem pressa para retomar o crédito, podendo manter o rigor seletivo e o lucro com títulos do Tesouro, e o Banco Central fica livre de se desgastar muito com o combate à inflação. Tanto os bancos quanto o BC, ajudados pelos produtos chineses que chegam com preços baixos e em grande quantidade. A renda mínima promove o consumo dos bens chineses sem necessitar do crédito bancário. A renda elevada mantém a produção dos bens primários que são levados à China.
O modelo desenhado é intermediário de uma troca de modelos, proporcionada pela conjuntura. Podemos entrar de cabeça no modelo sino-cêntrico ou podemos continuar no modelo anterior, vigente a pouco, de dominação americana.
Obama tem a chance única de fazer prevalecer o jogo como todos os participantes (vencedores e perdedores) conhecem: ele pode restituir a hegemonia americana por meio das finanças e do comércio. A hegemonia cultural, como sempre, é conseqüência da dominação econômica.

Com isso, mantém-se o processo de dependência externa, histórico e crônico ao mesmo tempo. O país continua colonizado, trocando ou não de colonizador.

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Este artigo foi originalmente escrito para o Oleo do Diabo, onde foi publicado ontem. Para ler por lá, clique aqui.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Das diferenças sutis

Completa-se hoje 70 anos da primeira descoberta de petróleo no Brasil. No dia 22 de janeiro de 1939, em plena ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, jorra petróleo no município de Lobato, Bahia.

Curioso lembrar que até aquele momento, ao longo das décadas de 20 e 30, quem dissesse que havia petróleo no Brasil era tachado de "subversivo comunista". Documentos históricos e análise dos jornais de então deixam evidente a participação dos Estados Unidos nesse tipo de discurso.

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Hoje também se completam dois anos de governo Evo Morales, indígena aymara, como presidente da Bolívia.

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O Brasil de 2009 é muito diferente do Brasil de 1939. Formamos uma empresa nacional estatal de prospecção e pesquisa de petróleo e derivados - Petrobras - e desenvolvemos o modelo de retirar petróleo do mar, ainda nos anos 80. Hoje temos a camada do pré-sal, que pode trazer enormes benefícios financeiros para o país nas próximas décadas. Ainda estamos longe - trabalhamos muito com petróleo bruto ainda, há espaço para crescimento no refino - mas o desenvolvimento é inegável.

Ainda assim, continuamos com a mesma visão aristocrática quando tratamos de assuntos e questões relativas a nossos vizinhos latino-americanos. Nesse sentido, estamos na mesma desde 1939.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Consequências do massacre

O extermínio dos palestinos em Gaza promovido pelo exército isralense parou graças ao acordo entre Israel e Estados Unidos de deixar o céu aberto para a posse de Barack Obama, hoje. Mas o massacre não será esquecido. Especialmente pelas consequências.

O Estadão de hoje traz notícia de primeira página para algumas consequências imediatas da guerra. Reproduzo abaixo:

"Após três semana de bombardeios, a desocupação ocorre rapidamente. Palestinos já retornam para o que restou de suas casas, enquanto corpos ainda são tirados dos escombros. Com o cessar-fogo respeitado também pelo Hamas, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, convidou o grupo islâmico para um governo de união nacional."

O que seria um "governo de união nacional"? A única união possível seria a religiosa ou étnica. União territorial é impossível. A pequena faixa de terra ao sul (Gaza) e a outra ao leste (Cisjordânia) estão separadas pelo Estado de Israel. É simplesmente impossível unir territorialmente.

Além disso, há uma profunda divisão entre os palestinos. Há aqueles fundamentalistas, que não vêem necessidade de um território linear nacional e não reconhecem Israel. Do outro lado há aqueles que são nacionalistas, que defendem a (re)criação de um Estado da Palestina, que agregue todos os povos difusos pelo Oriente Médio.

Dos dois lados há os oportunistas, como em qualquer aglutinação humana. Há os fundamentalistas que se aproveitam da paixão e da crença na fé religiosa tradicional para se apoderar de um discurso e assim obter poder sobre recursos humanos e financeiros. E há aqueles que se apoderam do discurso nacionalista para usufruir das benesses econômicas do comércio e da intermediação financeira.

Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, defende, protanto, um projeto aliado ao interesse do Fatah, parcela dos palestinos nacionalistas.

O momento agora é de aparar as arestas. O massacre irracional de Israel serviu para unir, em parte, os palestinos - aqueles que não reconhecem Israel com aqueles que reconhecem mas odeiam. Por isso, se faz necessário um discurso inclusivo, que entenda o fundamentalismo e o nacionalismo, que eles tem sua razão de ser. Aproveitar os danos provocados por Israel para pregar pensamento político é certamente a pior opção. A cisão entre palestinos tenderá a aumentar.

E não ajuda em nada o apoio que Israel e os Estados Unidos dão ao Fatah.

Bush is out

Hoje o mundo se despede de um assassino no poder. George W. Bush deixa a presidência dos Estados Unidos após 8 anos de governo. Já escrevi muito sobre os crimes praticados em seu governo, sobre a incompetência gerencial, sobre o acirramento do fundamentalismo cristão - pegando de onde Reagan deixou e levando a novos limites - e sobre a política do medo. Ainda escreverei mais sobre esses temas. Nunca é demais lembrar os erros e os crimes praticados pela maior potência econômica, militar e ideológica do mundo.

Mas como hoje é dia de mudança, dia em que o democrata Barack Obama assume a presidência dos EUA, nada melhor do que mudar um pouco o foco. Lembrar as idiotices ditas por Bush nesses mais de 8 anos (somando o ano eleitoral de 2000).

Meu trabalho foi facilitado por um post da Maria Frô , baseando-se em coletânia promovida pela BBC Brasil (ver texto original aqui).

Frases de Bush (2000-2009)

Sobre si mesmo

"Eles me mal-subestimaram."
(Bush inventou a palavra 'misunderestimated') Bentonville, Arkansas, 6 de novembro de 2000.

"Não há dúvida de que no minuto em que eu fui eleito, as nuvens de tempestade no horizonte estavam chegando quase diretamente sobre nós."
Washington, 11 de maio de 2001.

"Eu quero agradecer ao meu amigo, o senador Bill Frist, por se juntar a nós hoje. Ele se casou com uma menina do Texas, eu quero que vocês saibam. Karyn está conosco. Uma menina do Oeste do Texas, exatamente como eu."
Nashville, Tennessee, 27 de maio de 2004

Sobre política externa

"Há um século e meio, os Estados Unidos e o Japão formam uma das maiores e mais duradouras alianças dos tempos modernos."
(Bush se esquecendo da Segunda Guerra Mundial) Tóquio, 18 de fevereiro de 2002.

"A guerra contra o terror envolve Saddam Hussein por causa da natureza de Saddam Hussein, da história de Saddam Hussein, e a sua determinação de aterrorizar a si mesmo."
Grand Rapids, Michigan, 29 de janeiro de 2003.

"Eu acho que a guerra é um lugar perigoso."
Washington, 7 de maio de 2003.

"O embaixador e o general estavam me relatando sobre a – a grande maioria dos iraquianos querem viver em um mundo pacífico e livre. E nós vamos achar essas pessoas e levá-las à Justiça."
Washington, 27 de outubro de 2003.

"Sociedades livres são sociedades cheias de esperança. E sociedades livres serão aliadas contra os poucos odiosos que não têm consciência, que matam ao gosto de um chapéu."
Washington, 17 de setembro de 2004.

"Você sabe, uma das partes mais difíceis do meu trabalho é conectar o Iraque à guerra ao terrorismo."
Washington, 6 de setembro de 2006.

Sobre economia

"Eu entendo o crescimento dos negócios pequenos. Eu fui um."
Entrevista ao New York Daily News, 19 de fevereiro de 2000.

"É claramente um orçamento. Tem muitos números nele."
Entrevista à agência de notícias Reuters, 5 de maio de 2000.

"Eu continuo confiante em Linda. Ela será uma ótima secretária de Trabalho. Do que eu li na imprensa, ela é perfeitamente qualificada."
Austin, Texas, 8 de janeiro de 2001.

"Primeiro, deixe-me esclarecer bem, pessoas pobres não são necessariamente assassinos. Só porque você não é rico, não significa que você está disposta a matar."
Washington, 19 de maio de 2003.

Sobre governar

"E a verdade é que muitos relatórios de Washington nunca são lidos por ninguém. Para mostrar como este é importante, eu o li e Tony Blair o leu."
Sobre o relatório Baker-Hamilton, em Washington, 7 de dezembro de 2006.

"Eu já terei morrido há anos antes que alguma pessoa esperta descubra o que aconteceu dentro do Salão Oval."
Washington, 12 de maio de 2008.

Sobre assuntos gerais

"Eu sei que os seres humanos e os peixes podem coexistir pacificamente."
Saginaw, Michigan, 29 de setembro de 2000.

"Aqueles que entram no país ilegalmente violam a lei."
Tucson, Arizona, 28 de novembro de 2005.

"Isso é George Washington, o primeiro presidente, é claro. O que é interessante sobre ele é que eu li três – três ou quatro livros sobre ele no último ano. Isso não é interessante?"
Washington, 5 de maio de 2006

***

Pois esse homem foi o despreparado presidente da maior potência de nossos tempos. Agora imaginem esse homem no Brasil, com nossa imprensa. Aqui fazem o maior carnaval com o "Sifu" de nosso presidente (aqui e depois o comentário aqui) ou o assustador caso da "marolinha".

Hoje é dia de festa. George W. Bush vai embora.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sinuca brasileira

O saldo comercial brasileiro vem decaindo desde 2006. No fim daquele ano já era perceptível a qualquer interessado atento ao movimento de explosão das importações correndo junto a menor velocidade de expansão das exportações.

O mercado interno começara a crescer fortemente com aumento de crédito e renda (salário mínimo e Bolsa Família). A taxa de câmbio não parava de cair graças ao enorme ingresso de dólares oriundos, em boa parte, da conta de capitais, que aproveitavam a boquinha dos juros, operando alavancados na BM&F. Os especuladores ganhavam triplamente: com os juros dos títulos públicos, com operações cambiais em mercados futuros e com a valorização do real, aumentando a quantidade de dólares comprados com a mesma quantidade de reais.

Com isso, mais dinheiro entrava, em tempos de gigantesca liquidez mundial. Com a moeda se valorizando e os chineses produzindo quantidades frenéticas de bens industriais, os produtos importados começaram a inundar o país, cada vez mais baratos. Ao mesmo tempo isso favorecia o controle da inflação por parte do Banco Central. Isso não era explícito, mas era óbvio.

Os primeiros a reclamar da competição desigual com os chineses foram os fabricantes de calçados (o Brasil era o maior produtor mundial, mais competitivo), de têxteis e de brinquedos. As empresas que antes exportavam começaram a trocar os mercados, transferindo a venda para o mercado interno, uma vez que a competição externa estava arruinada pela política cambial do governo.

O saldo comercial de 2007 ainda foi bastante elevado - US$ 40 bilhões. Mas as cadeias desconstruídas ao longo de 2007 foram realmente sentidas em 2008. Fechamos o ano passado com um saldo de apenas US$ 24,5 bilhões.

Em agosto de 2008 o dólar chegou a valer R$ 1,55, o menor valor de todo o governo Lula, que iniciou 2003 com o câmbio a R$ 3,80. Mesmo após a explosão mundial da crise financeira americana a partir de setembro do ano passado - quando o dólar subiu para quase R$ 2,50 - não conseguimos reverter o processo.

E dificilmente conseguiremos. O repique no câmbio precisa ser efetivo para reativar o comércio externo. Por hora, apenas melhora os termos de troca de contratos já fechados. Poucas empresas se lançarão a exportar produtos com o câmbio atual, na marca dos R$ 2,30, por considerarem muito arriscado. Afinal, ele pode cair a R$ 2,10 ou até R$ 2,00 no momento de liquidação contratual, o que seria péssimo para a exportadora.

A expansão do mercado interno é excelente para o país. A concorrência entre produção nacional e as exportações chinesas nos últimos anos ajudou na queda dos preços, ao mesmo tempo em que a renda crescia. Hoje, o crédito está parado - os bancos, conservadores, estão temerosos com a crise internacional. A renda, no entanto, continua aumentando e os preços caindo - a inflação de 2009 será menor que em 2008.

No entanto estamos com conta corrente deficitária, pela primeira vez no governo Lula. Na ponta, podemos incorrer em sérios problemas de financiamento de nossa balança de pagamentos a partir de 2010 se não aumentarmos as exportações, ou, diminuirmos as importações. Os dólares que entram pela corrente comercial são cruciais para mantermos nossos compromissos, uma vez que não temos uma moeda conversível.

Agora, com os países ricos em grave crise, a demanda por produtos chineses decaiu muito. A saída para a China é exportar para países como o Brasil: abertos, com renda mínima e grande mercado interno. Isso já é perceptível, mais uma vez, mas só estourará todas suas consequências mais à frente no tempo.

O déficit na conta corrente é dos maiores erros do governo Lula. Mas não é uma surpresa: já estava evidente desde 2005/2006.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Todos perderam, todos ganharam

Depois de iniciado o massacre promovido pelas tropas do Tsahal, exército israelense, os objetivos ficaram claros: A) mais um passo no processo de limpeza dos palestinos na região e B) as eleições para primeiro-ministro em Israel, que ocorrerão em fevereiro próximo.

Mais que isso. Após a truculência irracional e criminosa contra a Faixa de Gaza, estava claro que havia uma data de término para o massacre: ele não poderia ultrapassar o dia 20 de janeiro, data da posse de Barack Obama como 44º presidente dos Estados Unidos. Uma data histórica e crucial para o maior parceiro ideológico, militar e econômico do Estado judeu.

Os laços entre EUA e Israel são históricos também. E nos mais recentes conflitos em Gaza, a relação entre os dois países também passou por uma data importante nos EUA. Em junho, membros do Hamas, movimento político militar eleito democraticamente pelos palestinos para liderar Gaza a partir de 2006, fecharam um acordo de cessar-fogo com Israel, válido por seis meses. Antes do acordo expirar, Israel rompeu o estabelecido com um ataque rápido e letal que matou sete palestinos. O dia do ataque? 04 de novembro do ano passado. Dia das eleições presidenciais nos EUA. Havia pouca atenção dispensada para Gaza naquele dia. Quem lembrou disso não foi um membro do Hamas ou um representante da ONU ou quem quer que seja interessado no conflito. Foi Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos (1977-1980). Veja aqui.

É importante perceber que estamos lidando com um Estado que não respeita qualquer regra internacional de direitos humanos. Que descumpre as regras que ele mesmo propôs. Não, não são os Estados Unidos (dessa vez). Mas Israel. Mais um exemplo? Clique aqui. Outro? Aqui.

Na semana passada Israel promoveu seus ataques mais sangrentos, matando centenas em poucas horas, incluindo o número três do Hamas. Os ataques mais fortes tinham uma meta: aterrorizar no final, marcando posição militar e medo psicológico entre os palestinos sobreviventes. Israel anunciou um cessar-fogo unilateral ontem, sábado, dia 17 de janeiro. Ganhou as capas e manchetes da mídia internacional hoje, domingo. E deixa o campo diplomático livre para a posse de Obama na terça dia 20. Conforme este Blog antecipou, em análise publicada na sexta-feira, dia 16, durante o 22º e penúltimo dia de massacre.

A direita israelense sai fortalecida para as eleições internas de fevereiro. Embora a oposição política tenha se posicionado contrária a guerra desde o início, ganhando simpatizantes ao redor do mundo, a direita - que atualmente está no poder - saí muito mais forte, com a "defesa da soberania nacional" e os "brios do povo israelense" em alta.

Como se previra, Israel se diz vitorioso por ter esmagado o Hamas, que ele não reconhece como partido político. O Hamas se diz vitorioso por ter resistido aos ataques de um dos maiores exércitos do mundo, que ele não reconhece como Estado. A União Européia se diz vitoriosa por ter conseguido convencer os líderes de Israel a cessar-fogo. Os Estados Unidos se dizem vitoriosos por seguirem o discurso de Israel, que não reconhece o Hamas. Obama agradece, claro.

Mas as coisas estão ainda piores. As massas ainda mais fundamentalistas, os israelenses racistas, os americanos adesistas, a ONU inutilizada, os pacifistas ridicularizados e o mundo ainda mais entorpecido pelas falta de reação frente ao extermínio criminoso de crianças, mulheres, homens, de todo um povo, que continua expulso de um território.

2009 começa e a Palestina continua ocupada.

***
Lá em cima, no primeiro parágrafo falei que a guerra promovida por Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza é mais um passo na limpeza dos palestinos da região. Não foi uma observação vazia. Há um revisionismo entre historiadores da região, cada vez mais percebendo que o que houve na Palestina desde os anos 30 e 40 foi, basicamente, uma limpeza étnica. Muitos desses historiadores são judeus. Entre eles, Ilan Pappé lançou no início de 2008 um livro que é best-seller nos EUA desde então: "The Ethnic Cleansing of Palestine" ("A Limpeza Étinca da Palestina"). Consegui comprar uma edição em inglês, que pretendo começar a ler nos próximos dias. Até lá, um início de debate: ótima entrevista de Pappé à Globonews > aqui.

***

Em tempo: aproveitando a boa ideia do Idelber (do Biscoito Fino e a Massa), coloquei todos os textos sobre a guerra em Gaza com a tag Palestina Ocupada.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Guerra em Gaza. Data de validade: 20/01/2009

Ontem foi dos dias mais sangrentos em Gaza. Israel atacou fortemente a região, matando mais de 120 palestinos em apenas um dia. Entre os ataques, o exército israelense bombardeou o prédio da ONU em Gaza, onde estavam concentrados alimentos e remédios para serem distribuídos à população atacada. O fogo provocado pelas bombas israelenses destruiu boa parte dos mantimentos - é bom lembrar que as fronteiras de Gaza continuam fechadas. As forças de Israel atacaram também um hospital e um escritório de imprensa.

Israel quer destruir o Hamas. Ontem foi o dia mais efetivo nesse sentido. A ofensiva matou Said Siam, ministro do Interior de Gaza e o número três do Hamas. Siam pertencia à ala mais radical do movimento islâmico palestino. Foi ele quem fundou a polícia do Hamas e quem arquitetou a expulsão de membros do Fatah da região em 2007.

É um conflito insano sobre todos os sentidos. Israel justifica-se pelos lançamentos de foguetes por parte de membros do Hamas contra o sul de Israel. O Hamas não reconhece a existência do Estado israelense - são um grupo radical islâmico que se opõem aos nacionalistas do Fatah. Ao mesmo tempo, Israel também não reconhece o Hamas, que foi um grupo legitimamente eleito pela população em Gaza, em eleições reconhecidas internacionalmente como justas e democráticas, realizadas em 2006.

Mas o massacre de Israel contra Gaza, que já matou mais de 1.100 palestinos em 21 dias de combates, tem data para acabar.

A trégua virá no fim de semana. No mais tardar na madrugada de domingo para segunda. Israel se dirá vitorioso. O Hamas se dirá vitorioso. E Obama assumirá a presidência dos Estados Unidos sem qualquer guerra no Oriente Médio.

O ódio contra os judeus será maior, o racha entre fundamentalistas e nacionalistas islâmicos será maior e o Irã continuará contrabalançando o poderio americano na região. Mas guerra em si, não haverá nenhuma, tornando as coisas menos urgentes, mas indiscutivelmente mais perigosas. O abacaxi a ser descascado pela diplomacia democrata de Obama será muito maior.

Mas pior que isso. A Palestina continuará ocupada. Com mais de mil pessoas a menos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Quem perde em Gaza

No meio do massacre descontrolado e oportunista produzido por Israel contra o movimento político e militar do Hamas, na Faixa de Gaza, Palestina Ocupada, quem perde não é o Hamas, que vê o movimento se esvaziar com as centenas de mortos. Também não é Israel, que vê o ódio entre muçulmanos árabes e palestinos crescer.

O vídeo abaixo mostra quem realmente perde em Gaza.

video

Narração inicial:

"O campo dos refugiados mesmo sem conflito com Israel é humanamente horrível. É superpopuloso. São de 14 a 25 pessoas vivendo num mesmo espaço. Não há espaço para crianças ficarem. Não há ruas, mas pequenas passagens, não há árvores, nada."

Legenda:

"Muitas gerações de palestinos cresceram e continuam vivendo em campos de refugiados pelo região. Em 1948 eram 700 mil palestinos...hoje, aqueles que continuam vivendo em campos de refugiados são 4.225,110."

Menino:

"Você conseguiria viver aqui? Conseguiria? Você não conseguiria porque as condições aqui são horríveis. E você ficaria aterrorizado sempre que os mísseis caem e as paredes começam a ruir!"

Menina:

"O foguete destruiu a janela, quebrando tudo e colocando fogo em todas as coisas. Porque eles quebraram as minhas coisas? Eu perdi muitas das minhas coisas. Nós jogamos tudo no lixo. Nós também perdemos nossas roupas, nós imploramos aos nossos vizinhos por roupas para usar. A comida que comemos cheira a gás. Nós não queremos nos livrar de nossas roupas, mesmo com elas cheirando a gás. Apenas se você cheirasse as nossas roupas! Que os israelenses venham e cheirem nossas roupas e vejam nossas casas... sempre que queremos tomar banho ou fazer qualquer coisa em casa o cheiro de gás nos sufoca até a morte! Venha e veja minhas roupas. Cheire elas...é gás! O que eu posso fazer? Eu não pude nem aproveitar os óculos de sol que meu pai me deu, ou os braceletes e o lenço para pescoço que minha mãe me deu. Eu não brinquei nem com meus anéis. Como eu posso aproveitar tudo que me pertence? Como? Aproveitar minhas coisas com o que?!"

Mãe:

"Nossas crianças não conseguem nem viver... nós não sabemos nem como viver. Vivem com medo constante. Eu vivo com medo e terror."

Menina:

"E no meu caminho à escola eu ouço tiros. Eu fico com tanto medo dos tiros que meu corpo todo começa a tremer."

Homem segurando balas:

"Isso é o que tem sido usado nessa região. Estamos numa área de civis, não há soldados aqui. Não há base militar por aqui. Se trata de tiros de civis para afastar as pessoas da fronteira para que os tanques israelenses possam se movimentar normalmente. Eles querem essas pessoas (palestinos) fora dessa área. É simples assim. E é uma maneira de humilhar as pessoas."

Mulher:

"Em Gaza você pode ver a situação terrível, pode ver melhor do que na Cisjordânia (onde outra parcela dos palestinos vivem). Bairros inteiros foram destruídos. Centenas de pessoas não têm mais casas porque elas estão próximas da fronteira. Isso, claro, é uma clara violação de regras humanitárias, em todos os sentidos.

Homem segurando balas:

"As pessoas não tem a chance de retirar seus bens pessoais de dentro das suas casas, não tem chance de pedir ajuda e aqui é muito longe da maioria da mídia. Você (se referindo ao homem com a câmera) está entre os poucos que conseguiram ver isso. Jornalistas europeus ou americanos não estiveram aqui porque as pessoas tem medo de vir ou porque é muito difícil chegar."

***

As imagens pertencem ao excelente documentário "Occupation 101: Vozes da maioria silenciosa", que mesmo tendo recebido muitos prêmios internacionais, continua fora do "sistema". O DVD, que pode ser encomendado pelo Amazon clicando aqui, trata de ouvir o lado muitas vezes ignorado pela grande mídia: os palestinos, que desde 1948 não tem mais uma pátria. Pior: desde 1967 perderam o pouco que conseguiram. Hoje se apertam em Gaza e na Cisjordânia, região criada ao oeste da Jordânia.

O documentário não trata do atual genocídio em Gaza - foi filmado em 2006, quando o extermínio tinha outra justificativa. Mas as vítimas são as mesmas: o povo sem terra na Palestina Ocupada.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Muda ou não muda?

Vejam a manchete de hoje do Estadão:

"Hillary anuncia mudança na política externa dos EUA. Intenção de dialogar até com inimigos marca ruptura com a era Bush."

Agora a manchete de hoje d'O Globo:

"Hillary descarta diálogo com Hamas. Em sabatina no Congresso, a futura secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que o governo Obama não negociará com o Hamas enquanto o grupo não reconhecer Israel e renunciar à violência."

E então, Hillary aceitará conversar com inimigos ou não? Muda ou não muda?

O impasse é grande na imprensa, não apenas brasileira, porque o discurso da Secretária de Estado do governo Obama, Hillary Clinton, estabeleceu uma série de relações. Enquanto a tendência é de uma posição mais aberta por parte dos americanos - praticamente imposta após o acirramento irracional da política unilateral do governo Bush - Hillary não apresentou nada de novo.

Disse que "há possibilidade de diálogo com o Irã e a Síria", dois países tidos como "inimigos mortais da democracia" pelo governo Bush. É um passo positivo, mas possibilidade por possibilidade, pode ficar só no discurso bonito. Ao mesmo tempo que acena com maior abertura para conversa, Hillary mantém a diplomacia atual ao negar um diálogo com o Hamas, que continua sendo considerado grupo terrorista.

Para dialogar é preciso entender. Se alguém quiser acertar a vida no Oriente Médio não pode escolher os interlocutores. Aceitar dialogar só com um lado é deixar as coisas como elas estão. Conversar com o Hamas não significa aceitar as ações suicidas e os ataques contra civis israelenses que o grupo promove. Mas significa compreender que o grupo existe dadas as circunstâncias históricas.

A palavra chave é entender, não compactuar. Os Estados Unidos se negam a entender o Hamas. Mas compactuam com os crimes de Israel. Na ponta, incorrem no mesmo erro ideológico e oportunista do Irã, que não entende Israel e compactua com o Hamas.

É preciso entender o que é o fundamentalismo islâmico. E perceber que os Estados Unidos vivem sob o fundamentalismo cristão.

Só resta notar o óbvio: para mudar é preciso realmente mudar.

Imagens da semana





A primeira retrata um bombardeio israelense na cidade de Rafah, ao sul da Faixa de Gaza. O fotógrafo é Eyad Baba, da Associated Press.

A segunda mostra um soldado israelense fazendo uma oração em cima de um tanque, na fronteira de Gaza, se preparando para mais um dia de ataque.

Hoje é o 19º de ataques israelenses contra o Hamas, em Gaza.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

De jornalistas e fontes

O trecho a seguir foi retirado da coluna do Janio de Freitas, publicada na Folha de hoje:

"A contestação de Lula à previsão das tais consultorias econômicas, que reduzem a 2% o crescimento brasileiro neste ano, talvez erre quanto ao seu próprio otimismo, mas não quanto à direção da crítica. A consultoria mais louvada por comentaristas de economia é a Tendência, de Mailson da Nóbrega, Gustavo Loyola e muitos outros prósperos egressos de governos passados, ouvidos por jornalistas como oráculos.As comparações das estimativas de várias instituições e consultorias, feitas no início de 2008, com os resultados do ano só revelam catástrofes. E não por causa da crise internacional. A Tendência não se contentou em ser expoente na quantidade de erros em itens pesquisados: todos. Foi exemplar também na dimensão dos erros individualizados.Se isso não ajudar a entender o que houve com a economia brasileira, ajuda a explicar vasta parte do rebocado jornalismo de economia."

É a velha história das "expectativas". No mundo político, a criação e manipulação das expectativas é uma das formas mais eficazes de influência no poder. Já escrevi sobre isso uma vez, sobre o "caso da marolinha" (ler aqui).

Um lado aposta em 4%, o outro aposta em 2%. Quem ouve um acha que estamos tranquilos. Quem ouve o outro, acha que se trata do fim dos tempos. O papel crucial do jornalista é mostrar os dois lados e depois fazer o exercício básico de história, cobrando a conta do lado que errou.

O que não pode é jornalista se fazer por assessor de imprensa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Israel e os fundamentalistas islâmicos

Desde que estourou a guerra, com as forças de Israel bombardeando Gaza em 27 de dezembro, muito se falou de 1967, 1973 e 2006, datas históricas e importantes para compreender o conflito entre israelenses e palestinos. Certamente são. Mas a história foi, em grande parte, mal contada. Praticamente não se falou de outra data histórica: 1948. Foi nesse ano que, horrorizados pelo genocídio promovido pelos alemães nazistas contra os judeus ao longo dos anos 30 e 40, o Ocidente criou o Estado de Israel. A criação ignorou qualquer coerência geográfica ou ética: Israel foi cravado no meio da Palestina, agora dividida. Mais de 750 mil palestinos foram expulsos de suas terras para dar espaço à Israel.

As diferenças e incompreensões instauraram-se aí.

A partir de então, 1948, Israel desenvolveu forte relações com os Estados Unidos - financeira e religiosa - que permitiu levantar um Estado grande e um dos maiores exércitos do mundo. A guerra dos seis dias, em 1967, gerou o primeiro grande debate internacional. Aproveitando de seus serviços de inteligência, Israel antecipou um ataque coordenado pelo Egito, Síria e Jordânia, destruindo toda a força armada dos três países. Para evitar novas surpresas, Israel passou ele mesmo a invadir o território alheio, levando milhares de famílias israelenses para as terras ocupadas. Israel ocupou todo o Sinai, ao norte, a Faixa de Gaza, ao sul, Jerusalém oriental e parte da Jordânia, espremendo milhões de palestinos - já há 19 anos sem pátria - na Jordânia.

Em 1948 foram as forças internacionais que ocuparam territórios palestinos para dar espaço a Israel. Em 1967, foi a vez de Israel sozinho ocupar territórios palestinos.

O grande debate que se formou se deu graças a justificativa de guerra: Israel antecipou um ataque coordenado por uma frente árabe, constituída pela Síria, Egito e Jordânia, mas com apoio também do Iraque, do Kuwait, da Arábia Saudita, da Argélia e do Sudão.

Sem querer entrar nos méritos das justificativas de guerra, mas ali nasceu um ódio visceral entre judeus e palestinos e o mundo árabe. Primeiro porque Israel teve as justificativas de antecipar um ataque. Segundo porque o ataque, para a frente árabe, justificava-se pela implantação estranha de Israel em 1948, e terceiro que a partir dali seguiu-se a ocupação ilegal de território palestino pelos colonos israelenses.

O que incitou um acirramento no conflito foi uma questão secular, pouco lembrada. A década de 1970 para o mundo muçulmano marcou o início do XIV século da Hégira, período do renascimento, purificação e fortalecimento do Islã, tal como ocorre no início de cada século. A partir dos anos 70 iniciou-se um processo de revoluções culturais e religiosas pelo mundo islâmico, renascendo um franco processo de fundamentalismo religioso, em muito apoiado pelo fracasso promovido pela globalização econômica na região.

As elites do mundo muçulmano, como as nossas latino-americanas, entraram de cabeça na defesa da globalização. Nos anos 70 e 80 nascia e era desenvolvido o batido discurso de "inserir o país na modernidade". O mundo muçulmano a "modernidade" era um pouco diferente: ocupava-se o controle do Estado, que passava a ser estratégico para ditar os rumos da sociedade moderna, capitalista e global. Iniciou-se uma dialética crescente entre o fortalecimento do Estado-nação e do fundamentalismo islâmico.

Islã, em árabe, significa submissão, e um muçulmano é alguém que se submeteu à vontade de Alá. Há a lei divina, o sharia (contituída pelo Corão e os Hadiths), que está relacionada ao verbo shara'a, isto é, caminhar em direção a uma fonte. Para a maioria dos muçulmanos, a haria não representa uma lei rígida, mas uma referência para se caminhar em direção a Deus, podendo ser adaptada pelas circunstâncias históricas do período vivido.

Ao contrário dessa abertura permitida pelo Islã, o fundamentalismo islâmico implica a fusão de sharia e fiqh, reconstruindo a história do Islã para demonstrar a eterna submissão do Estado à religião. Portanto, para um fundamentalista, o vínculo fundamental não é watan (terra natal), mas sim umma, ou comunidade de fiéis, em que todos são iguais em sua submissão perante Alá, conforme explicou o sociólogo Manuel Castells no segundo volume de seu "Era da Informação".

Ou seja, a confraternização universal entre islãmicos transcende o estado-nação, que passa a ser encarado como fonte de cisão entre fiéis. Inicia-se um conflito cada vez mais radical no mundo árabe: aqueles seguidores da sharia e aqueles seguidores do discurso nacionalista do Estado-nação. Conforme explica o estudioso islãmico Bassam Tibi, "o Estado-nação é um elemento estranho e praticamente imposto. A cultura política do nacionalismo secular não só é novidade no Oriente Médio, como também mantém-se meramente na superfície das sociedades envolvidas".

A modernização econômica promovida pelos Estados no Oriente Médio durante os anos 70 e 80 foi fracassada, uma vez que suas economias não conseguiram entrar no jogo pesado da globalização, ou seja, concorrência comercial e revolução tecnológica. Os países foram inundados por importados, que aumentou o desemprego e descaracterizou as relações. A disparidade campo-cidade cresceu horrores. Ao mesmo tempo, toda uma geração de jovens formados nas décadas de 50 e 60 - quando os países cresceram muito - se viu sem oportunidades e perdidas em discursos ocidentais de globalização, que não alcançaram os objetivos vendidos. A crise de legitimidade do estado-nação foi resultado de sua corrupção generalizada, ineficiência, dependência de potências estrangeiras e, no Oriente Médio, de repetidas humilhações no âmbito militar diante de Israel, seguidas de um processo de acomodação com o inimigo sionista.

Como escreveu Farhad Khosrokhavar, famoso sociólgo islâmico, "quando o projeto de formação de indivíduos que participem ativamente da modernidade revela-se absurdo na experiência real da vida cotidiana, a violência torna-se a única forma de auto-afirmação do novo sujeito. A exclusão da modernidade adquire um significado religioso: deste modo, a auto-imolação passa a ser a forma de luta contra a exclusão".

O Hamas, em Gaza, segue exatamente esse pensamento. O Hizbollah, no Líbano, também. Esses movimentos - e muitos outros - tem todo um contexto histórico que explica sua existência. Não justificam seus ataques, mas compreendem suas ações assistencialistas - o Hamas foi eleito principalmente por levantar escolas e hospitais - e também seu ódio.

O massacre irracional e criminoso de Israel contra os palestinos em Gaza tem objetivos políticos claros: haverá eleição para o cargo de primeiro-ministro logo mais, em fevereiro. Mais que isso: aproveitaram de uma justificativa convincente entre seus pares - "os terroristas do Hamas não param de lançar mísseis contra nós" - para aniquilar o que resta de Gaza.

É importante notar o seguinte: Israel deixou totalmente Gaza em 2005. O que se seguiu na região foi justamente o conflito religioso, explicado acima, exemplificado pela disputa entre Fatah (apoiado pelos EUA e por Israel) e Hamas. O Hamas foi eleito, levou a maioria, e uma guerra entre palestinos se iniciou. Os membros do Fatah foram todos expulsos de Gaza, indo se refugiar no gueto palestino na Jordânia, apelidado de Cisjordânia (conhecido por West Bank por lá). Quando Israel viu o Hamas soberano em Gaza, logo ordenou o fechamento das fronteiras, iniciando um bloqueio econômico de alimentos, bebida e energia. Gaza estava literalmente enjaulada.

A situação de fome e miséria explodiu rapidamente. Ainda assim foi assinado um cessar-fogo de seis meses entre o Hamas e Israel, em julho do ano passado. Era um cessar-fogo ridículo, convenhamos. O Hamas se dispunha a parar de lançar mísseis caseiros contra o sul de Israel, enquanto Israel praticamente não se mexeu para terminar o embargo. Foi permitida pouca entrada de ajuda humanitária. Resultado: foi um péssimo negócio para a população de Gaza, uma vez que não mudou em nada a péssima condição de vida, sem comida, água, remédios e combustível.

Como se não bastasse, Israel rompeu o cessar-fogo, com um ataque rápido e letal, que matou sete palestinos. O ataque foi estratégico: ocorreu no dia 04 de novembro, dia das eleições americanas, que escolheram o democrata Barack Obama como novo presidente. Isso foi pouquíssimo lembrado. (Ver texto no Biscoito Fino e a Massa sobre isso).

Mesmo assim o Hamas não se mexeu. Terminado o acordo, em 19 de dezembro, retomou o lançamento de mísseis. E deu cabo para a justificativa de Israel.

Já são mais de 890 palestinos assassinados desde o início dos bombardeios israelenses.

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Publiquei esse texto originalmente no Óleo do Diabo. O artigo pode ser lido lá clicando aqui.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Frase da primeira semana de 2009

"É preciso levar em conta que os palestinos continuarão sendo vizinhos de Israel depois que cessar o derramamento de sangue"



De Gideon Rachman, colunista do jornal Financial Times.

Mudança estrutural na política de juros

A edição de ontem do Financial Times trouxe um artigo interessante, assinado por John Redwood, faz parte do grupo de competitividade econômica do Partido Conservador, em Londres. Redwood escreve sobre a reunião do Banco Central inglês, que decidirá sobre as taxas de juros no país.

Lá como cá, grupos organizados patronais voltam com os mesmos pedidos de cortes nas taxas básicas de juros para ajudar a baratear o crédito, que está parado desde que explodiu a crise. E na Inglaterra a crise imobiliária atacou quase tão firme quanto nos Estados Unidos.

Sobre essas demandas patronais, Redwood escreve que esses grupos devem perguntar a si mesmos: "é a taxa básica que ainda causa a eles angústia, ou a escassez de crédito ou ainda o erro dos bancos em cobrar de seus clientes uma taxa semelhante à taxa básica?"

É a mesma coisa no Brasil, há tempos. É claro que as taxas básicas de juros influem nas taxas de juros cobradas no país. E os juros básicos também condicionam parte da oferta de crédito. Mas o tamanho da Selic - nossos juros básicos - não influe em praticamente nada no nosso mercado bancário.

A Selic vale hoje 13,75%. Para se ter uma ideia, a taxa de juros média cobrada em empréstimos a pessoas físicas no Brasil é de quase 140% ao ano. Para pessoas jurídicas é um pouco abaixo. Nesse sentido, um corte de 0,5%, ou um pouco mais ou um pouco menos na Selic, muda alguma coisa?

A oferta de crédito foi muito expandida durante o período de fanfarra neoliberal mundial, de 2003 a 2007. O tamanho do crédito em relação ao PIB no Brasil cresceu muitos pontos percentuais, alcançando quase 40%. Muito disso se deu graças a queda na Selic, claro. Mas a melhor explicação está nas condições mundiais apresentadas. Os bancos tinham acesso quase irrestrito à crédito externo, sempre muito barato, facilitando o acesso ao dinheiro.

Não foi o aumento da Selic que travou o crédito, embora seja uma das razões. O que travou o crédito no Brasil foi o fechamento dos mercados internacionais.

Cada vez mais, a taxa de juros básica influi quase que integralmente na política de dívida pública soberana. Quer dizer, a Selic alta aumenta os gastos com serviço das dívidas do governo. Uma taxa mais baixa na Inglaterra diminui a remuneração dos títulos da dívida de lá, aumentando o espaço para o endividamento por outras frentes - algo crucial para escapar dessa crise.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O caso da "marolinha"

No dia 15 de setembro do ano passado, o quarto maior banco de investimento americano, o Lehman Brothers, faliu. A falência do Lehman desencadeou todo um agravamento trágico da crise financeira. A espiral de falências e recessões alcançou todos os países que se meteram nas "inovações" do mercado imobiliário americano.

A partir do dia seguinte, a imprensa mundial - copiada a ferro e fogo pela brasileira - passou a pintar o quadro negro da crise. Os mercados começaram a cair e o pessimismo se instaurara de uma vez por todas.

Poucos dias depois, no início de outubro, o presidente Luís Inácio Lula da Silva disse, em discurso oficial, que não era preciso se assustar: "Essa crise não passa de uma marolinha".

Pronto. Estava instaurado o "caso da Marolinha".

Para os incautos que não acompanham o noticiário e as disputas políticas tupiniquins de perto, é preciso uma introdução ao imaginário brasileiro. Aqui por estas bandas praticamos uma série de horrores, somos capazes de complexas operações cruzadas entre bancos públicos e filiais internacionais de financeiras aproveitando-se de brechas cambiais legais do BC (caso Banestado), de subfaturar contratos com ambulâncias municipais com o intuito de enriquecer ilicitamente (Operação Sanguessuga), somos capazes de espionar empresas e membros do governo e depois escapar com ajuda de juízes do Supremo (Satiagraha). Enfim, de temeridades complexas somos pródigos. Não devemos a ninguém.

Mas na hora do franco debate nacional, envolvendo atores políticos do governo e da oposição e a grande imprensa, aí sim, optamos pelos casos mais geniais.

Já tivemos o incrível "caso da tapioca". Agora, o "caso da marolinha".

A "marolinha" virou desculpa para bater no presidente, no governo, em qualquer pessoa que dissesse que a crise não chegaria aqui. A "marolinha" se encaixou perfeitamente no mesmo vinil arranhado ininterruptamente desde 2003, de que nosso presidente é ignorante e burro.

Para os nossos inteligentes, era óbvio que a crise era a pior coisa do universo, que já tinha chegado no Brasil, que era questão de tempo para falirmos.

Longe de mim defender o governo ou dizer que a crise não chegou aqui. Chegou sim. Quem acompanha este blog sabe que a crise é brava. A maior desde 1929. Mas sabe também que economia, antes de números e estatísticas, é feita por pessoas, seres humanos movidos antes por emoção que por razão. Os economistas, aliás, adoram falar das "expectativas de inflação", ou das "expectativas do mercado". Expectativa é algo que se forma com um pouco de razão, tendo diante de si uma série de dados e informações, e um tanto de emoção, acreditando que algo, bom ou ruim, acontecerá.

O famoso New Deal de Frank Delano Roosevelt, antes de econômico, era emocional. O medo do governo americano dos ideais comunistas assolarem um país desolado pela Grande Depressão gerou um enorme programa de obras públicas, que contratou milhares de trabalhadores desempregados, gerou renda, movimentou os serviços e o comércio, revigorando os Estados Unidos. Em 1937 o PIB americano já alcançara seu valor antes da explosão de 1929.

Não passa de uma luta política pelo imaginário coletivo, que move a economia e a sociedade. Um lado aterroriza, o outro minimiza. Os dois lutam por influenciar as "expectativas" do país.

Se um empresário lêsse todos os jornais, ouvisse todas as rádios e assistisse todos os jornalísticos televisivos brasileiros estaria certo de que o mundo acabou. "O Brasil está em crise e não há mais nada a fazer". Por outro lado, um que só ouvisse fontes oficiais, diria que a crise é uma "marolinha", "coisa para americano resolver". Este estaria tranquilo, tratando de botar as mãos para trabalhar. O que é isso senão o manejo das expectativas, de um lado e de outro?

O caso específico da "marolinha" é mais um que exemplifica o jogo de poder que o Brasil vivencia desde 2003 quando o PT assumiu o governo federal. A oposição política crava trincheiras no discurso conservador da imprensa que opta pela disputa fácil, que ignora a complexidade e ataca o português. Se trata de uma generalização simples, é claro. Especialmente por se tratar de algo empírico, mas sem comprovação formal. Apenas a evidencia de que o discurso da oposição foi totalmente colado ao de boa parte da imprensa.

É por isso que o Brasil ignora Daniel Dantas, os grampos do BNDES sobre a privatização da telefonia, o Banestado, os swaps cambiais do BC no mercado futuro. Mesmo o mensalão, um episódio que envolve utilização de doleiros para internacionalizar dinheiro ilegal, que passava por operadoras regionais de telefonia celular (Daniel Dantas) para irrigar empresas de contratos publicitários (Marcos Valério) e assim dar cabo à suborno de deputados e senadores por meio de pessoas-chave (Delúbio Soares no PT, Valdemar Costa Neto no extinto PL, por exemplo). O que ficou marcado das investigações foi o episódio do "dólar na cueca" e de que "o PT é corrupto".

Essas generalizações criam estigmas. E outro potencial bem brasileiro é o dos estigmas. Não é à toa que muita gente ainda acredita que programas de transferência de renda direta, como o Bolsa Família, na realidade, "ajudam vagabundo", quando já está mais do que comprovado que é justamente o contrário.

Por aqui há pouca discussão. O que pega são estigmas. São manchetes bombásticas e capas fortes. Os formadores de opinião com maior habilidade sacam rapidinho como funciona o processo de comoção e influência do público consumidor (de jornais, revistas, rádio e tevê) e daí passam a bater nos pontos de maior assimilação, como o "dólar na cueca", para transmitir uma mensagem que é logo assimilada.

Não gostamos de nada muito complexo. Se precisar reler para entender então, nem se fala. Melhor falar da tapioca e da marolinha.

Que venha 2009.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Relatos de uma "ação de auto-defesa"

"Deixamos nossa casa no campo de Jabaliya e fomos para a casa da minha sogra, mas lá também não é mais seguro. Tive de me separar da minha família e estou morando no escritório, na Cidade de Gaza. Há outras 15 pessoas trabalhando e morando comigo. Dormimos em turnos de duas a cinco horas. Os hospitais estão um caos. Vi uma senhora chorar, indo de maca em maca. Não sabia se o filho estava vivo ou morto, ele simplesmente desapareceu, e há muita gente assim. Todo mundo está procurando os parentes para se despedir."

Sammy Abu Salem, produtor da agência de notícias Ramattan, ao jornal britânico Guardian.

"Tem gente perto de nós que não tem água há uma semana. As crianças estão tendo muitos problemas - choram, fazem xixi na cama e não dormem. As pessoas no mundo pensam que isso é normal para Gaza, mas não é. Ninguém imaginou um ataque assim tão sangrento."

Elena Qleibo, moradora de Gaza, ao Guardian.

"Estamos sem gás há três dias, não temos querosene para o fogareiro e a água potável está acabando. Mal dá para aguentar o fedor do banheiro. Comemos comida fria direto da lata. Se você sair e tiver sorte para encontrar comida, estará três ou quatro vezes mais cara."

Mohamed Marwan, palestino, na Cidade de Gaza.

***
Com 11 dias de chacina, o exército israelense matou quase 700 palestinos. Nesse número estão computados o que Israel chama de "militante do Hamas", isto é, crianças, bebês, mães, agricultores e velhos. Ontem 3 escolas da ONU foram bombardeadas, deixando 30 mortos. Entre eles, um bebê de três meses de idade.

Ao mesmo tempo 5 soldados israelenses morreram. Apenas um foi morto por um membro do Hamas, o governo de Gaza. Os outros 4 foram assassinados pelo próprio exército de Israel, confundidos com terroristas.

Para quem se perdeu no meio disso, os "terroristas" são o pessoal do Hamas, ok? Israel está apenas praticando uma "ação de auto-defesa".

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Uma frase e uma imagem

soldado israelense em Hebron, Cisjordânia, 2008


"Os árabes não gostam de sangue e sacríficio mais que qualquer outro grupo humano. Submetidos a décadas de humilhações, invasões e ocupações, reagem como qualquer outro grupo humano, ou seja, num leque de alternativas que vai desde a violência suicida mais desesperada até a perda completa da capacidade de ter esperanças. Os africanos não gostam de matar suas crianças mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis africanos e afrodescendentes recorreram ao infanticídio como forma desesperada de tentar salvar seus filhos do opróbrio da escravidão. Os indígenas da Mesoamérica não gostam de se suicidar mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis mexicas, toltecas e chichimecas recorreram ao suicídio como forma de fugir dos horrores da colonização espanhola. A idéia de que “os árabes cultuam o martírio” é nada mais que isso: um estereótipo racista. Em incontáveis conversas com amigos árabes, escutei sempre, invariavelmente, a mesma história: “por que não nos percebem como humanos? Por que achariam que vamos viver contentes sob botas estrangeiras
dentro da nossa própria casa? Vocês viveriam?"
Idelber Avelar, acadêmico brasileiro, professor da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, rebatendo o discurso difundido de que "árabe gosta de sangue".

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Dica de janeiro

Há um novo blog na área, enriquecendo a blogosfera brasileira. É o blog do Cyro Franklin de Andrade. A proposta do Cyrão é escrever pouco, de maneira despretensiosa. O negócio é outro: promover o debate econômico internacional, chamando a atenção para artigos interessantes e centralizando discussões entre visões de mundo. Chegou em boa hora: a crise econômica de 2007-2008, que entra com força total neste 2009 trouxe um enorme debate sobre keynesianismo (ou desenvolvimentismo) e o neoliberalismo (conservadorismo).

O endereço do Cyrão é http://trueglobal.typepad.com/globalidades

Em tempo

O novo Acordo Ortográfico entre países de língua portuguesa já está valendo desde 01 de janeiro, embora uma série de dúvidas ainda estejam no ar. Para dar a chancela oficial, falta a Associação Brasileira de Letras publicar a lista oficial de palavras e regras alteradas - o livro deve ser publicado em fevereiro ou março.

Este Blog tentará, na medida da paciência, adotar as medidas até que a ABL se posicione oficialmente. Depois, incorporarei todas as mudanças.
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