quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mais um muro

Exatamente um mês atrás, publiquei post aqui que dizia, no auge das recordações quanto à queda do muro de Berlim (09/11/1989), que ainda existem muros a serem derrubados. Tratei, particularmente, do muro levantado por Israel para isolar a Cisjordânia -- território da Jordânia ocupado por palestinos expulsos de sua terra.

Nos comentários, o leitor Fernando Romano atentou para outros muros: o que separa as favelas cariocas e o que divide a fronteira americana com o México. Todos, como o israelense, construído pelo poder para arrasar e separar homens de homens.

Hoje, o Harretz -- jornal israelense (de alto nível, diga-se) -- acaba de informar que o Egito inicia a construção de um muro na fronteira com a faixa de Gaza. O imenso muro de aço terá de 9 a 10 metros. A justificativa egípcia é "evitar a construção de túneis palestinos ao Egito". Por isso, além do muro "tradicional" (acima do solo), o muro egípcio terá de 20 a 30 metros de aço abaixo da terra.

A faixa de Gaza é uma tripa, um pedaço de terra falida que agrupa centenas de milhares de palestinos em condições subhumanas de subsistência. A entrada de comida, bebida, remédios, tecidos, combustíveis é controlada pelo exército de Israel. Tudo que entra -- porque nada sai -- em Gaza passa por Israel. A exceção, nos últimos tempos, têm sido os túneis, construídos, em boa parte, por gente do Hamas, a agremiação política radical dos palestinos, maioria em Gaza.

Os palestinos, além da divisão territorial -- uma parte em Gaza, outra na Cisjordânia (além de tantos outros espalhados em diversos países da região) -- são também divididos politicamente entre os moderados do Fatah e os radicais do Hamas. A ideia de que "união faz a força" já foi descartada há tempos. Desde os anos 30, quando os principais líderes árabes foram assassinados (sobre isso, leia esta obra-prima), os palestinos são um povo sem liderança unitária -- Yasser Arafat, antes da moderação dos anos 80-90, talvez seja uma exceção -- e constantemente desgraçados.

Os túneis, dizem os governantes egípcios (e principalmente o governo de Israel), servem para contrabandear armas da Síria e do Irã. Servem, também, para trazer mantimentos básicos que faltam à Gaza. Uma coisa não justifica a outra, mas é sempre bom lembrar que os túneis não servem apenas ao "terrorismo", segundo denominação norte-americana.

Seja como for, abandonar o diálogo e levantar um muro é uma coisa impressionantemente animalesca. De um lado, o povo é cortado por um muro cercado (na Cisjordânia). Agora, do outro lado (Gaza), também.

Muros são excrecências. Todos devem ser derrubados. Homens são homens.

2 comentários:

Patrick disse...

Caro João, Marrocos construiu nada menos que 8 muros (total de 2.720km) para anexar áreas do Sahara Ocidental.

João Villaverde disse...

Olá meu caro Patrick,

Obrigado pela informação e pelos links. Sempre que bate nesta tecla -- do apartheid físico, não apenas legal -- aqui no Blog, recebo informações de leitores trazendo "novos" muros.

Nós nunca vamos aprender, não adianta ser otimista, não é Patrick?

Abração

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