As reações eram, via de regra, as mesmas. A percepção era de que o trabalho repetiria as teses de "dependência econômica e cultural dos países de Terceiro Mundo com o eixo rico", de "hegemonia norte-americana no campo das ideias" etc.
O livro está escrito, diagramado, com capa e tudo. São quase 200 páginas (197, mais especificamente) e será levado à gráfica ainda nesta semana.
Sem entrar nos méritos do meu trabalho em si, destaco apenas três matérias, publicadas hoje no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo. São três matérias distintas -- uma de cinema, outra de televisão e a última de música -- publicadas no mesmo dia. Repito: publicadas hoje, início de novembro de 2009. Vejamos o quão "velho" é o tema de "americanização":
Capa da Ilustrada. Manchete: "Triste cinema brasileiro". O que é: o grande Jean-Michel Frodon, um dos maiores pensadores de cinema -- que dirigiu recentemente a Cahiérs du Cinemá -- fala, em entrevista, sobre cinema contemporâneo e, mais especificamente, sobre cinema brasileiro. Vejamos dois trechos:
FOLHA - Como vai o cinema brasileiro?
JEAN-MICHEL FRODON - É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria. O último filme brasileiro do qual eu gostei foi "Mutum".
FOLHA - Por o cinema brasileiro era visto como promessa?
FRODON - Porque o Brasil parece um país obviamente feito para o cinema. As paisagens, a riqueza cultural, a genialidade de um diretor como Mário Peixoto... Alguém poderia até questionar o seguinte: os mesmos ingredientes que fazem o futebol brasileiro ser único não poderiam ser também utilizados no cinema? O Brasil vem ganhando visibilidade internacional e poderia traduzir esse movimento histórico em filmes, mas, ao contrário da China e de outros países asiáticos, não tem feito isso.FOLHA - O senhor vê algo de brasileiro em filmes como "Ensaio sobre a
Cegueira" ou "O Jardineiro Fiel", de Fernando Meirelles?FRODON - Eu os vejo como filmes internacionais. E ruins.
Matéria dois. Abre de página da coluna "Outro canal", que cobre televisão brasileira. Título: SBT dobra audiências com enlatados americanos". O que é: depois de meses com o telejornal da emissora no horário das 21h15 às 22h batendo abaixo dos 4 pontos de audiência, o SBT conseguiu emplacar 8 pontos com a transmissão de duas séries de TV dos EUA: "Harper's Island" e "Supernatural".
Vejamos um trecho da matéria:
Com a exibição de séries consagradas nos EUA em seu horário nobre, estratégia iniciada no meio de setembro, o SBT dobrou a audiência que tinha das 21 h 15 às 22 h. Pelo Twitter, Daniele Beyruti, diretora geral da emissora, anunciou a seus seguidores que tenta a liberação de "The Vampire Diaries", série sobre vampiros que estreou nos EUA em setembro, para o início de 2010.
Matéria três. Título: "Sambista faz disco enquanto é tempo". O que é: Edu Krieger, sambista da nova geração carioca, acaba de lançar seu segundo disco e, em entrevista, avisa que é preciso aproveitar o momento de "nacionalismo" porque, após os Jogos Olímpicos de 2016, haverá um desgaste e o campo vai ficar aberto para o pop americano.
Vejamos o que diz o Edu:
O tempo está se esgotando. Dentro de seis ou sete anos, a Lapa carioca, hoje efervescente reduto sambista, estará às moscas. O cavaco, o pandeiro e o tamborim serão instrumentos fora de moda. As rádios segmentadas de música brasileira terão enfraquecido e mudado desse para algum outro nicho -o rock, possivelmente. "A euforia nacionalista que a gente vive deve chegar ao auge nas Olimpíadas de 2016. Em seguida, virá a sensação de desgaste", aposta. "O sucesso da Mallu Magalhães, que é uma artista que não tem nada de Brasil, já é o começo disso. Quando esse ufanismo olímpico passar, muitas outras Mallus vão tomar conta do espaço -e com todo o direito."
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O que depreendemos disso tudo?
A avaliação é individual do leitor, e a caixa de comentários está aberta, como sempre.
A banca do livro que discute a mercantilização da cultura brasileira nos anos 90, oriunda de um intenso processo de americanização dos costumes, ocorre dia 23 de novembro. Espero ver os colegas que acreditam que "americanização" é discussão do passado por lá :-)

10 comentários:
Olá João.
Acho que os três matérias citadas por você são sintomas de um processo que se iniciou há muito tempo e, como o próprio sambista diz, é cíclico. Por exemplo, no cinema brasileiro dos anos 60, Glauber Rocha escreve um artigo (em 63 ou 64, se não me engano) a respeito da necessidade de uma cinematografia única, tipicamente brasileira, capaz de representar as contradições e o contexto brasileiro do mesmo período, ao mesmo tempo em que tal estética se colocaria contra o cinema hegemônico norte-americano. Hoje, temos a "cosmética da fome" (não me lembro quem disse). Ou seja, a conjuntura social é brasileira, ams a estética não. Visto o poder do cinema, claramente a questão de hegemonia cultural se torna fundamental na administração do país. Pois afinal, no Brasil, a televisão, o cinema e a música são os formadores do imaginário cultural.
Exatamente, Luís. Você tem razão quando fala da luta que o Glauber tinha no começo dos anos 60 para formar um cinema -- e um pensamento cultural como um todo -- que agisse como contraponto à hegemonia dos EUA no cinema. Glauber perdeu, como perdeu a classe artística que lutou nos anos 50 e 60 por um cinema nacional, livre das amarras mercadológicas e sociais impostas pelo poder que o capital americano dispunha.
Uns foram cooptados pelo Estado militar nos anos 70, outros se alienaram, poucos radicalizaram. Aos poucos, foram morrendo -- os artistas e os ideais. As gerações seguintes (da segunda metade dos 70, dos anos 80, 90 e 00) apenas reverberaram a sociedade. As artes, afinal, por mais que se tente negar, são um espelho das condições sociais, políticas e econômicas presentes em determinado momento. Se o cinema hoje é banal, completamente despolitizado, tendo a estética como ponto de chegada, é preciso perceber que os tempos incentivam isso.
Normalmente, pensar diferente disso te leva a ser taxado de "atrasado", "dinossauro" e outros bla bla bla. Mas enfim, está aí.
Um abraço
Ah! quem disse a frase foi a Ivana Bentes, em um seminário famoso -- e polêmico -- sobre o Cidade de Deus em 2002.
Abração
Concordo com o xará.
O pessoal invejoso se gaba em dizer que 'Glauber é uma merda' é justamente aquele que mais contribui para a colonização da nossa cultura.
Outro exemplo é o hype do momento, o stand-up comedy.
João, aguardo com altíssimas espectativas o livro.
Um abraço
João
O processo de americanização do Brasil começa mesmo ali pelos anos 30, depois de um vácuo nos anos 20, quando a França deixa de ser nossa paradigma cultural depois da Primeira Guerra Mundial ter destruído a belle epoque.
Essa primeira fase de americanização ainda é contida, atingindo outro patamar durante o regime militar - que, apesar de aparente nacionalismo, na verdade, abre as portas para uma dominação cultural americana maior ainda.
O descalabro acontece na terceira fase, nos anos Collor e depois FHC, onde a cultura brasileira é basicamente esmagada pelo imperialismo cultural americano.
O momento que vivemos, no entanto é curioso: Justamente no momento em que o modelo cultural americano atingiu seu ápice de controle no Brasil, foi aí que ele, de um modo geral iniciou seu processo de exaustão paradigmática como os anos Bush provam muito bem.
O futuro ainda é incerto; não sabemos como e o quanto Obama vai conseguir negociar a posição americana nesse novo mundo multilateral que se desenha; se falhar, pode acontecer um esgotamento do modelo americano como vimos acontecer com o modelo francês anos 20 - mas mesmo que tudo dê certo, teremos um século 21º provavelmente mais plural do que o século 20º.
A pergunta chave é como essas possibilidades poderiam dialogar com o Brasil e seu antropofagismo cultural...nós absorvemos paradigmas culturais estrangeiros e os reordenamos; já fizemos isso com a cultura portuguesa, francesa e depois americana...mas e se vivermos em um mundo onde não houver um modelo cultural suficientemente coeso para ser copiado? O que será de nós?
P.S.: Farei todo o possível para assistir essa banca, realmente, gostaria muito de ver isso.
Olá Hugo,
Daqui para frente, isto é, segunda década do século XXI, a questão central é exatamente esta que você colocou, isto é, até onde Obama será capaz de costurar um novo desenho que mantenha o predomínio norte-americano.
É plenamente possível, diga-se. A grande questão, para o Brasil, reside em como o país vai se posicionar nessa janela de oportunidade que se abre.
Nos perdemos nas outras vezes. Vamos ver como vai ser agora.
Um abraço.
P.S. Conto com a presença de vocês, Hugo e Luis Henrique, na banca!
Você já sabe qual o horário, João?
Será às 21 horas, Hugo, na Faculdade de Comunicação e Filosofia (Comfil) da PUC-SP, na Monte Alegre.
Abração
Tem um livro muito bom sobre o assunto, descomplicado e fácil de ler, já com várias edições: "A Invasão Cultural Norte-Americana", de Júlia Falivene Alves, Ed. Moderna, 2004, Col. Polêmica. Ele explica de forma didática mas sem ser chato, fazendo um retrospecto da nossa história desde o descobrimento até os dias de hoje. Altamente recomendável.
E o Luís Henrique está certíssimo. Até o nosso modo de procurar o riso já está sendo "invadido". Mas vai falar disso: você vira "comunista", "petista", etc. Abs.
Olá Fernando,
O livro da professora Falivene é um clássico, inclusive com aquela capinha genial do cheeseburguer que é deixado sobre uma bancada tendo a bandeira brasileira como pano de mesa.
Usei ele no meu livro ;-) Está como apoio bibliográfico, além de um pequeno trecho no capítulo 6.
O principal preconceito para romper com esse trabalho foi justamente esse, cara. Fugir de pechas que limitam sua pesquisa como sendo algo do passado e todo aquele bla bla bla.
Espero ter sido bem sucedido.
Abração
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