quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A divisão das esquerdas entre os estudantes

Dentre a infinidade de boletins e jornais estudantis que circulam pela Universidade de São Paulo (USP), um deles, em especial, me chamou a atenção: "Suplemento do jornal Juventude Revolucionária", feito pela juventude do Partido da Causa Operária (PCO). Trata-se de uma folha, redigida frente e verso, com tiragem, segundo o boletim, de 10 mil exemplares.

O informativo trata da crise da USP e lança ideias. É algo importante, isso, de lançar ideias. Mas, afora qualquer coisa, destaco o seguinte parágrafo:
A atual direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE, controlado pelo PSTU) e do Conselho de Centros Acadêmicos (CCA, dirigido pelo P-SOL) atuam contra a organização dos estudantes. Impediram a realização do Congresso dos Estudantes da USP, que deveria ter sido feito neste segundo semestre e agora trabalham para impedir a convocação de uma assembleia geral (...)

Aqui, o PCO acusa o PSTU e o P-SOL de atuarem "contra a realização de uma assembleia geral". É um ponto. Aqui, portanto, deve ser discutido: 1) a crise da USP, 2) como resolver, 3) qual deve ser a participação dos estudantes, 4) se uma assembleia geral é o caminho. Pelo informativo, é possível supor que, neste caso, PSTU e P-SOL dividem a mesma opinião.

No entanto, conversando com qualquer pessoa ligada à juventude do PSTU e do P-SOL, podemos perceber que os dois não chegam a quase nenhum consenso. Ou seja, o PCO discorda do PSTU e do P-SOL, que discordam entre si.

Como os partidos de esquerda querem arregimentar alguém com essa zona toda? Sério, qual é a diferença tão crucial que separa PSTU, P-SOL, PCO? Não quero ser ingênuo. Eu sei que, a depender do tema, sempre teremos opiniões divergentes. Não estou defendendo a união forçada. Mas o bom senso. É simplesmente ridículo acreditar que, cada grupinho de 100 nêgo fazendo seu jornalzinho, discutindo uma vírgula n'O Capital, vão fazer alguma diferença entre todo o resto dos estudantes, que nada querem com nada. Para romper a alienação geral, o individualismo ou a pressão que o status quo exerce sobre o bem resolvido é preciso muito mais que isso.

Ou alguém dentro do PCO, do PSTU e do P-SOL acha que do jeito que está é possível, sozinho, mudar o regime do país?

Façam-me o favor.

7 comentários:

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Excelente post! Amanhã, engraçado, tinha programado um Post para falar do outro lado, sobre a chapa da direita na USP!=)

Jurandir Paulo disse...

Um exemplo recente da antropofagia entre as esquerdas aconteceu na eleição do DCE da UFRGS este mês. Várias chapas divididas e quem ganha, tam, tam, tam??? O DEM! Recebi por email a revolta de alguns, não tenho um link. A situação é tão cachorra que nem blogs, acho, cobriram. Vou pesquisar para ver se acho algo. Vale um bom post.

Luiz Henrique Mendes disse...

É simplesmente lamentável a situação da esquerda universitária brasileira, João! Certeiro o post. Se tem algo que me incomoda na universidade é justamente essa questão. Ah, isso porque você não falou do dogmatismo do pessoal...

Conrado disse...

O jeito mais fácil de unir as esquerdas é... um inimigo comum.

Deixa a direita ganhar pra ver se em um ano esse povo não se junta!

Hugo Albuquerque disse...

João,

Esse post casa bem com um outro que o Tsavkko escreveu sobre a lamentável chapa de direita que disputa o DCE da USP.

Honestamente, eu sou bem pessimista e crítico quanto a tudo isso, até pela minha experiência no ME: Para além da questão da fragmentação pueril entre os grupos, não há como não fugir da constatação de que muitos deles são completamente inviáveis.

Se pegarmos boa parte desses grupos, eles tem uma leitura bastante vulgar de Política, se assentam num culto desmedido da práxis em detrimento de um debate teórico suficientemente coeso e aprofundado, de tal forma que acabam orientando sua ação por dogmas - orientadores de ação inquestionáveis - e não por preceitos - linhas mestras ideológicas que jogam luzes sobre as possíveis formas de ação, decorrem do debate e são passíveis de permanente questionamento.

O resultado é que essas organizações dogmáticas se assemelham muito mais aos grupelhos socialistas reacionários que Marx tanto combatia - e que tanto combatiam Marx - do que com agremiações verdadeiramente socialistas científicas como eles se reivindicam.

Assim, vemos que tais grupos se assentam numa lógica tecno-burocrática de administração, na ausência de dialética, numa leitura vulgar da realidade e, por fim, nada mais são do que a caricatura de si mesmas: Um bando de burgueses e pequeno-burgueses surtados fazendo um baita favor para a direita - do mesmo modo que Reinaldo Azevedo faz um baita favor pra Lula, sendo a caricatura perfeita do opositor conservador de Lula capaz de corar muitos direitistas que eu conheço.

Pelo menos na minha experiência no ME em um curso de Direito - onde eu era, ainda por cima, oposição a uma gestão não muito diferente dessa que concorre ao DCE uspiano - me ensinou que a esquerda precisa se reinventar para continuar a existir. Não é uma tarefa das mais fáceis - até pelos nossos vícios intelectuais -, mas acho que nós no Direito da PUC nos saímos razoavelmente bem nisso: Derrotamos um projeto bem enraizado e terrivelmente conservador que tinha o apoio da Reitoria e da Direitoria da Faculdade de Direito - e se o fizemos, foi porque chutamos o dogmatismo de lado.

Gustavo Silva disse...

O Elio Gaspari soltou a seguinte notinha em sua coluna na Folha:

"Os estudantes da UFRGS deram uma aula aos onipotentes comissários dos partidos de esquerda na eleição do DCE da universidade.
Juntos, o PSOL e o PSTU teriam perto de 2.500 votos, mas cada um correu com sua chapa. Resultado: perderam para um grupo que se intitula antiesquerdista e conseguiu 1.559 votos. (A chapa do PSOL teve 1.524 votos e a do PSTU, 1057.)"

Timing para sacar o debate e como as coisas estão sendo conduzidas é é isso ai, Harry. Texto na hora certa.

João Villaverde disse...

Caros Raphael, Luiz Henrique: obrigado pelos elogios. A questão estudantil, hoje, é central para analisarmos qualquer política federal -- mas poucos se dão conta desse poder.

Pois é, Gustavo Silva, a situação é exatamente essa: ao invés de se unirem, PSTU e P-SOL, partidos com fraquíssima exposição nacional, ficam com briguinhas infantis -- o que é ridículo para estudantes do nível superior, certo? -- sobre como "melhor operar a transição do capitalismo avançado para um regime socialista de fato" e perdem para partidos da direita.

Sobre esse caso na UFRGS, narrado pelo Elio Gaspari, que você transcreveu aqui, Gustavo, o Jurandir Paulo tinha me chamado atenção, num comentário logo acima. Aliás, Jurandir, se tiver algum material sobre o caso, pode mandar que certamente dará um post.

Essa vitória do DEM, na UFRGS, aproveitando a cisão entre PSTU e P-SOL é exatamente o gatilho que o Conrado chamou a atentão. Quer dizer, agora que perderam a direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE), terão de sentar e, juntos, lutar para vencer as próximas eleições. Quem sabe, assim, Conrado, esse pessoal aprenda.

O Hugo, num comentário mais longo, matou a pau a questão: alguns grupos são simplesmente inviáveis. Juntam estudantes de 19, 20 anos de idade para um projeto irreal e lutam para conseguir algo. Conseguem seus 20, 30 votos, dividem ainda mais a esquerda e não resolvem nada.

Ou alguém acha, sinceramente, que esse pessoal tem alguma ideia de como tocar seriamente algum órgão de representação dos estudantes?

Abraços

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