domingo, 4 de outubro de 2009

Domingo

Nada morre jamais numa vida. Tudo sobrevive. Nós, ao mesmo tempo, vivemos e sobrevivemos. Assim também toda cultura é sempre entretecida de sobrevivências. No caso que estamos agora examinando, o que sobrevive são aqueles famosos 2 mil anos de imitatio Christi, aquele irracionalismo religioso. Eles não têm mais sentido, pertencem a um outro mundo, renegado, recusado, superado; e, no entanto, sobrevivem. São elementos historicamente mortos mas humanamente vivos que nos compõem. Penso que seria ingênuo, superficial, faccioso negar ou ignorar sua existência. Eu, pessoalmente, sou anticlerical (não tenho medo de afirmá-lo), mas sei que sobre mim pesam 2 mil anos de cristianismo: eu construí com meus antepassados as igrejas românicas, e depois as góticas, e as barrocas; elas são meu patrimônio, no conteúdo e no estilo. Seria um louco se negasse essa força poderosa que existe em mim; se deixasse para os padres o monopólio do Bem.

Pier Paolo Pasolini, cineasta italiano.

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