Para lembrar esse feriado ridículo de São Paulo (quando se comemora uma "revolução" fracassada), tiro um causo de um dos personagens mais idiossincráticos da história nacional.
Direto do baú do amigo Paulo Totti, provavelmente a memória mais ativa do jornalismo brasileiro.
Durante a campanha presidencial de 1960, o candidato governista, marechal Henrique Teixeira Lott, chegou a Campinas para discursar em palanque. A ideia, claro, era angariar votos e apoio popular à sua campanha.
Seu rival direto era Jânio Quadros, da UDN, que fazia sucesso com seu jeito malandro e sua campanha pela "limpeza pela ética", apoiando-se nas "vassourinhas do Jânio", que ajudariam a varrer a corrupção.
Lott era mais sisudo, militar austero e de fala desembestada. Figura típica do imaginário militar boa pinta, que fala sem pensar. Figura importante da República, foi o responsável por forçar a saída de Carlos Luz, depois que Café Filho (vice de Vargas, que cometera suicídio) adoeceu. Lott bancou Nereu Ramos, então presidente do Senado, e, assim, abriu caminho para que o resultado das eleições -- em que Juscelino fora eleito -- fosse respeitado. Fez um anti-golpe, portanto, ao tirar Carlos Luz.
Pois bem. Corria solta a campanha presidencial de 1960. Era ano auge do Brasil, que ganhara a boa vontade do mundo com o sorriso do presidente JK, as grandes obras rodoviárias e urbanísticas, a bossa nova e o futebol campeão de Copa. Ali, a democracia brasileira era testada, após a estréia de Brasília. Juscelino sairia e daria posse ao vencedor daquelas eleições.
Era com esses ares, institucionalmente falando, que Lott aportava em Campinas. Estava confiante, embora Jânio zarpasse com mais segurança no apoio popular.
Começou então seu discurso:
"É com grande satisfação que venho à Campinas. É minha segunda visita à esta importante cidade do Estado de São Paulo. A primeira vez que estive aqui foi em 1932, quando cerquei a cidade com tropas do Exército e mandei bombardear".
Não precisou falar mais nada, é claro.
***
Aos leitores que não moram em São Paulo, vale a memória. Por aqui, temos um dia de feriado em homenagem a uma "revolução" fracassada. Incrível.

10 comentários:
Eu li "Soldado absoluto", biografia de Lott. Indispensável para ajudar a compreender o clima e os desdobramentos do golpe de 1964. Uma das consequências nefastas foi acabar com a pluralidade de pensamento nas forças armadas brasileiras. Antes, tinhamos os nacionalistas e os entreguistas. Depois da ditadura militar, as escolas de formação passaram a preparar predominantemente entreguistas. Sim, do ponto de vista aparente, na forma, são profissionais extremamente nacionalistas e amantes do Brasil, mas tem suas mentes impregnadas com as mesmas idéias de vassalagem que imperam em Honduras: são anti-povo, anti-democracia, anti-estado e estão sempre na defesa dos interesses das transnacionais estrangeiras.
Salve Patrick,
A trajetória de Lott exemplifica bem o poder que as Forças Armadas brasileiras ostentaram desde o início da República.
Ele foi figura importante do poder, especialmente durante os episódios de 1955-56, narrados no post. Depois, como candidato em 1960 mas, mais importante, quando defendeu a presidência de João Goulart, em 61, quando Jânio renunciou.
Acabou forçosamente esquecido pelos militares no poder, a partir de 65, morrendo ignorado e largado.
Exemplifica o papel do Exército na República brasileira ao longo do século XX: seu final, esquecido, confunde-se com o ostracismo do poder militar, falido em 83-85, extinto (SNI) em 90 e dividido nos anos 90.
Bom comentário, Patrick. O post está aberto para mais histórias e, claro, para o debate sobre as Forças Armadas no Brasil.
Abração
João,
As Forças Armadas, desde o fim da Guerra do Paraguai até os anos 80 tiveram uma posição político-insitucional muito importante. O problema é que a partir do tenentismo até o Golpe de 64, passando pela entrada do pensamento comunista em suas fileiras ali pelos anos 30, houve uma profunda convulsão para decidir qual espécie de FFAA nós teríamos. O Golpe foi um indicativo de qual lado havia vencido a briga internamente e a ditadura militar acabou sendo um tiro no próprio pé; esses militares arcaram com o ônus do projeto que eles foram a face visível, mas que no qual, na verdade, eram coadjuvantes, meras marionetes nas mãos gente que passou incólume.
Hoje, eu diria, sem medo de errar, que as nossas FFAA estão falidas. Não é uma mera questão de reaparelhamento como muitas análises simplistas levam a crer. É caso de todo um redesenho estratégico mesmo, de se adequar ao que se espera de uma FFAA num regime democrático nessa nova conjuntura multipolar. Se isso não for possível, melhor fazer como a Costa Rica mesmo.
Hugo,
Costa Rica? É forçar um pouco (muito), não?
O grande problema das FFAA's hoje é, além da falta de estrutura, o controle total da elite militar ativa na época do Golpe, saudosista,s linha-dura, que passam para as tropas exatamente este pensamento retrógrado e golpista.
Precisamos, antes de qualquer reaparelhamento e melhorias físicas, uma reforma completa de cima para baixo nas lideranças e no modo de pensar.
Me lembro que na última feira do livro eu estava atrás de um livro de geopolítica da Therezinha de Castro, e os livros dela só na Editora do Exército, oa Bibliex. Por lá acabei encontrando outros bons livros e comprei uns 5, acho.
Na hora de sair um milico já idoso veio conversar cmg, me convidou para um encontro de oficiais sei lá quando, comentou dos comunas que deviam ser mortos (mal sabia ele que eu era - sou - de Esquerda), falou com saudosismo do golpe (Revolução, haha) e etc...
O fiz falar, estava interessante - ainda que enojante - ouvir o que um velhaco militar poderia falar do golpe e etc. Até o animei quando disse que um tio meu era Contra-Almirante (só omiti que ele era e ainda é anti-golpe) e confirmei que iria nas reuniões militares.
fiquei com medo de ser morto, não apareci, hehe!
Mas isso demonstra bem o caráter militar, retrógrado, anti-democrático, vingativo e etc.
Raphael,
Não, não é. Honestamente, eu passo ao largo de ser entusiasta do militarismo ou do nacionalismo, mas creio que no momento histórico em que nos encontramos talvez as FFAA possam ter alguma utilidade - só que certamente não seguindo a cartilha que eles seguem até hoje e não difere muito do militar velhinho que você viu. Reequipar essa estrutura aí seria um tiro no pé do país.
Reequipar do jeito que está, concordo, é temerário.
Mas não podemos também achar que teremos uma vida cor-de-rosa como a Costa Rica. Não somos insignificantes, convenhamos, o exército ainda tem sérias funções de defesa fronteiriça e etc.
A mentalidade é terrível, mas a importância é incontestável.
Cara, achaste esta história do Lott lá no fundo do Baú. Espetacular!
Pois é, André. A memória do Totti, além de prodigiosa, é cheia de causos da história nacional. Ele daria um ótimo blog, se quisesse, apenas de histórias e lembranças.
Abração
Caros Hugo e Raphael,
O debate sobre o papel das Forças Armadas no Brasil contemporâneo e os caminhos que se colocam à sua frente é amplo, há discordâncias dentro do próprio Exército.
Vou trazer o debate para um post, assim que tiver tempo!
Abraços
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