sexta-feira, 17 de julho de 2009

A casa da infância (ou como os tempos modernos levam o passado ao esquecimento)



A casa que o saudoso cineasta Ingmar Bergman viveu de 1960 até sua morte está em leilão na Christie's, famoso centro de (mega)leilões em Londres. A casa fica na ilha de Farö, na província de Gotland, distante 100 quilometros da costa sueca. No leilão, que aceita ofertas até 20 de agosto, estão à venda cinco lotes, que podem ser adquiridos conjuntamente.

Matéria publicada hoje no caderno "EU&FimdeSemana", do Valor, dá detalhes sobre a história.

A venda inclui a Hammars, o nome que Bergman dava a sua casa, construída sete anos após sua mudança para a ilha. Além da casa, com seus 300 m², uma fazenda de 1854, cuja sede foi adaptada para servir como cinema pessoal de Bergman, com 15 assentos; e uma pequena casa no meio de uma floresta de pinheiros, onde o diretor escrevia os roteiros de seus filmes.

A notícia do leilão provocou polêmica. Ingmar Bergman teve nove filhos, dos quais oito ainda vivem. Desde a morte do pai, não estavam certos sobre qual destino dar às propriedades e só decidiram pela venda no início do ano.

Essa história me lembra um belíssimo filme, "Horas de Verão", em cartaz atualmente. O filme não impressiona por uma técnica de linguagem, como, aliás, é característico do cinema francês contemporâneo, mais preocupado em contar histórias e convencer pelo enredo do que pela linguagem. "Horas de Verão", do diretor Olivier Assayas, conta uma história muito semelhante ao impasse colocado diante dos filhos de Ingmar Bergman após a morte do pai.

Em "Horas de Verão", são três filhos, Frédéric (Charles Berling), Jérémie (Jérémie Renier) e Adrienne (Juliette Binoche), que se veem diante de impasse após a morte da mãe, Hélène Berthier (Edith Scob). Ela morava sozinha, acompanhada apenas da empregada da família, numa casa de campo onde todos cresceram, a 30 km de Paris. A casa, além do sentido simbólico de pertencer à infância dos filhos (e primos, tios, a parentada toda), é um mausoléu de seu dono anterior, Paul Berthier, que era tio de Hélène, portanto tio-avô dos três irmãos. Paul Berthier é o grande artista da família, famoso por toda a França e ídolo de Hélène (há uma camada mais sensível por trás, que joga com a adoração de Hélène por Paul e o consequente esquecimento de seu marido).

A grande sacada de "Horas de Verão" não são os personagens, muito bem construídos e montados, diga-se. O grande personagem da história, por onde gira o enredo e remonta para reflexões é a casa da família.

Sem Paul Berthier e sem Hélène (a grande entusiasta de sua arte, que viveu na eterna saudade e rememoração dos "bons tempos"), toda aquela beleza -- a casa, os móveis, as pinturas, os livros, o campo -- fica sem sentido familiar, rústico mesmo. Os três filhos levam suas vidas descolada da infância, como quase todos fazemos. Um mora na China, outra nos EUA e apenas um deles fica em Paris, próximo à casa e à mãe, mas que tem também sua própria família e questões internas (casamento, escola das crianças, viagens de férias, trabalho, etc). Assim, a morte de Hélène deixa a casa orfã de sentido.

Há uma metáfora aí, além da representação simbólica da casa como derrota do coletivismo de outrem frente ao individualismo que move nossa rotina e conquistas. Mas isso é tema para outra hora.

A verdade é que, ao recontar a venda da casa da família Berthier, em "Horas de Verão", Olivier Assayas mostra o dilema do pertencimento e das mudanças que passamos todos, de tempos em tempos.

Quando li a reportagem do Diego Viana, escrevendo de Paris sobre o leilão da casa de Ingmar Bergman, um dos maiores diretores da história do cinema e, certamente, o artista da família Bergman, logo lembrei desse dilema: sem o artista e alguém que o represente, a casa da família se torna apenas isso, uma casa.

A diferença, entre a história ficcional e a real, é que os herdeiros de Berthier nem titubearam em colocar a casa da infância em leilão. Estavam muito mais preocupados com suas vidas.

6 comentários:

Diego Viana disse...

Perdoe a falta de modéstia, mas as fotos que eu tirei em Fårö são melhores que essa aí... :-)

Algumas estão separadas no seguinte site: www.strindbergman.com

PS: o cinema francês tem estado bem mediano. Horas de verão (a tradução literal seria Horário de Verão) é um dos melhores, acredita?

João Villaverde disse...

Olá Diego,

Estão mesmo, ótimas fotos!
Aqui em SP estamos vendo uma invasão dos filmes franceses nos cinemas "alternativos" (leia-se: não Playarte ou Cinemark).

Na Reserva Cultural, na Avenida Paulista, por exemplo, das 6 salas, 5 estão com filmes franceses em cartaz.

Horas de Verão (ou "Horários de Verão" como vc disse) é dos melhores mesmo, mas achei Há Tanto Tempo que Te Amo deslumbrante, das melhores coisas que o cinema francês produziu nos últimos anos.
Você assistiu?
Abraços

SURAIA disse...

Acabo de chegar do cinema! Maravilhso filme, principalmente pra quem há exatamente um ano estava passeando pelas galerias do Museu d'Orsay. É realmente muito bom poder ouvir a língua francesa nos cinemas daqui.
Aceito sua sugestão e amanhã será o dia de assistir a "Há Tanto Tempo que Te Amo".

João Villaverde disse...

Olá Suraia,

O filme é maravilhoso mesmo, especialmente diante dessa condição de rever o Museu d'Orsay. Agora o Há Tanto Tempo Que Te Amo é melhor ainda, espero que goste.

Certamente, o melhor da safra recente francesa é Entre os Muros da Escola, e esse, imagino, tanto você quanto o Diego devem ter assistido, não?
Abs

Diego Viana disse...

Há muito tempo... perdi; na verdade, por erro meu. É que vi uma peça com o mesmo título (é uma canção, fui descobrir depois) e achei que fosse uma adaptação, então fui deixando pra depois.

Quanto a Entre les murs, vi sim e gostei bastante. Mas sinceramente esperava mais, dá pra ver que o autor (que por sinal é o ator) se faz um pouco de vítima...

João Villaverde disse...

Olá Diego,

Você achou que o professor (François Bégaudeau, autor da história, como vc bem lembrou) se fez de vítima? Entendo que, especialmente na parte final -- aquela reunião de professores -- o personagem se faz de vítima, mudando seu perfil mais conciliador para um que lava as mãos, mas acho que o personagem pede um pouco disso.

Achei ótimo, em todos os sentidos, meu caro. A direção de atores, a meu ver, é o ponto alto.

Abração