
A casa que o saudoso cineasta Ingmar Bergman viveu de 1960 até sua morte está em leilão na Christie's, famoso centro de (mega)leilões em Londres. A casa fica na ilha de Farö, na província de Gotland, distante 100 quilometros da costa sueca. No leilão, que aceita ofertas até 20 de agosto, estão à venda cinco lotes, que podem ser adquiridos conjuntamente.
Matéria publicada hoje no caderno "EU&FimdeSemana", do Valor, dá detalhes sobre a história.
A venda inclui a Hammars, o nome que Bergman dava a sua casa, construída sete anos após sua mudança para a ilha. Além da casa, com seus 300 m², uma fazenda de 1854, cuja sede foi adaptada para servir como cinema pessoal de Bergman, com 15 assentos; e uma pequena casa no meio de uma floresta de pinheiros, onde o diretor escrevia os roteiros de seus filmes.
A notícia do leilão provocou polêmica. Ingmar Bergman teve nove filhos, dos quais oito ainda vivem. Desde a morte do pai, não estavam certos sobre qual destino dar às propriedades e só decidiram pela venda no início do ano.
Essa história me lembra um belíssimo filme, "Horas de Verão", em cartaz atualmente. O filme não impressiona por uma técnica de linguagem, como, aliás, é característico do cinema francês contemporâneo, mais preocupado em contar histórias e convencer pelo enredo do que pela linguagem. "Horas de Verão", do diretor Olivier Assayas, conta uma história muito semelhante ao impasse colocado diante dos filhos de Ingmar Bergman após a morte do pai.
Em "Horas de Verão", são três filhos, Frédéric (Charles Berling), Jérémie (Jérémie Renier) e Adrienne (Juliette Binoche), que se veem diante de impasse após a morte da mãe, Hélène Berthier (Edith Scob). Ela morava sozinha, acompanhada apenas da empregada da família, numa casa de campo onde todos cresceram, a 30 km de Paris. A casa, além do sentido simbólico de pertencer à infância dos filhos (e primos, tios, a parentada toda), é um mausoléu de seu dono anterior, Paul Berthier, que era tio de Hélène, portanto tio-avô dos três irmãos. Paul Berthier é o grande artista da família, famoso por toda a França e ídolo de Hélène (há uma camada mais sensível por trás, que joga com a adoração de Hélène por Paul e o consequente esquecimento de seu marido).A grande sacada de "Horas de Verão" não são os personagens, muito bem construídos e montados, diga-se. O grande personagem da história, por onde gira o enredo e remonta para reflexões é a casa da família.
Sem Paul Berthier e sem Hélène (a grande entusiasta de sua arte, que viveu na eterna saudade e rememoração dos "bons tempos"), toda aquela beleza -- a casa, os móveis, as pinturas, os livros, o campo -- fica sem sentido familiar, rústico mesmo. Os três filhos levam suas vidas descolada da infância, como quase todos fazemos. Um mora na China, outra nos EUA e apenas um deles fica em Paris, próximo à casa e à mãe, mas que tem também sua própria família e questões internas (casamento, escola das crianças, viagens de férias, trabalho, etc). Assim, a morte de Hélène deixa a casa orfã de sentido.
Há uma metáfora aí, além da representação simbólica da casa como derrota do coletivismo de outrem frente ao individualismo que move nossa rotina e conquistas. Mas isso é tema para outra hora.
A verdade é que, ao recontar a venda da casa da família Berthier, em "Horas de Verão", Olivier Assayas mostra o dilema do pertencimento e das mudanças que passamos todos, de tempos em tempos.
Quando li a reportagem do Diego Viana, escrevendo de Paris sobre o leilão da casa de Ingmar Bergman, um dos maiores diretores da história do cinema e, certamente, o artista da família Bergman, logo lembrei desse dilema: sem o artista e alguém que o represente, a casa da família se torna apenas isso, uma casa.
A diferença, entre a história ficcional e a real, é que os herdeiros de Berthier nem titubearam em colocar a casa da infância em leilão. Estavam muito mais preocupados com suas vidas.

6 comentários:
Perdoe a falta de modéstia, mas as fotos que eu tirei em Fårö são melhores que essa aí... :-)
Algumas estão separadas no seguinte site: www.strindbergman.com
PS: o cinema francês tem estado bem mediano. Horas de verão (a tradução literal seria Horário de Verão) é um dos melhores, acredita?
Olá Diego,
Estão mesmo, ótimas fotos!
Aqui em SP estamos vendo uma invasão dos filmes franceses nos cinemas "alternativos" (leia-se: não Playarte ou Cinemark).
Na Reserva Cultural, na Avenida Paulista, por exemplo, das 6 salas, 5 estão com filmes franceses em cartaz.
Horas de Verão (ou "Horários de Verão" como vc disse) é dos melhores mesmo, mas achei Há Tanto Tempo que Te Amo deslumbrante, das melhores coisas que o cinema francês produziu nos últimos anos.
Você assistiu?
Abraços
Acabo de chegar do cinema! Maravilhso filme, principalmente pra quem há exatamente um ano estava passeando pelas galerias do Museu d'Orsay. É realmente muito bom poder ouvir a língua francesa nos cinemas daqui.
Aceito sua sugestão e amanhã será o dia de assistir a "Há Tanto Tempo que Te Amo".
Olá Suraia,
O filme é maravilhoso mesmo, especialmente diante dessa condição de rever o Museu d'Orsay. Agora o Há Tanto Tempo Que Te Amo é melhor ainda, espero que goste.
Certamente, o melhor da safra recente francesa é Entre os Muros da Escola, e esse, imagino, tanto você quanto o Diego devem ter assistido, não?
Abs
Há muito tempo... perdi; na verdade, por erro meu. É que vi uma peça com o mesmo título (é uma canção, fui descobrir depois) e achei que fosse uma adaptação, então fui deixando pra depois.
Quanto a Entre les murs, vi sim e gostei bastante. Mas sinceramente esperava mais, dá pra ver que o autor (que por sinal é o ator) se faz um pouco de vítima...
Olá Diego,
Você achou que o professor (François Bégaudeau, autor da história, como vc bem lembrou) se fez de vítima? Entendo que, especialmente na parte final -- aquela reunião de professores -- o personagem se faz de vítima, mudando seu perfil mais conciliador para um que lava as mãos, mas acho que o personagem pede um pouco disso.
Achei ótimo, em todos os sentidos, meu caro. A direção de atores, a meu ver, é o ponto alto.
Abração
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