A morte do maior símbolo de toda uma geração do pós-Guerra Fria, Michael Jackson foi quadro do Chacrinha, encheu estádios em todos os países do mundo e, na quinta-feira, fez chorar todo tipo de gente, indiferentemente de credo, classe ou localização geográfica.
Morreu à tarde e, até por isso, caracterizou (especialmente no mundo ocidental, graças ao fuso horário) de forma muito forte todo um debate que envolve o desenvolvimento da comunicação humana. Monopólio, comunicação, tradição, novas mídias, tudo esteve presente na quinta e sexta-feira. Explico.
Sua morte foi notícia de internet. Em segundos, sites, blogs, twitters, facebooks e outros menos votados repercutiam a informação da morte do músico. As televisões, mesmos às internacionais (BBC, CNN), entraram depois, repercutindo a internet e aguardando a confirmação da notícia. Que veio, mais uma vez, da internet. Com isso, a notícia da morte de Michael Jackson ganhou a escalada de todos os telejornais e programas noturnos de rádio pelo mundo. No mundo oriental, por causa do fuso, a notícia chegou da mesma forma, mas nos programas televisivos e de rádio matutinos, uma vez que era manhã do lado de lá.
Os jornais impressos de sexta-feira pela manhã e as revistas semanais, que chegaram às bancas entre sexta e hoje, repercutiam a morte. Mas a notícia veio da internet.
A Folha traz na edição de hoje um artigo do colunista Ronaldo Lemos problematizando esta questão. Vejamos:
Em paralelo às notícias a morte do Rei do Pop, outra notícia que ganhou destaque em menor escala foi a de que as TVs, os rádios e os jornais do mundo foram "furados" pelo site TMZ, especializado em fofocas de celebridades.
Essa notícia paralela chama a atenção por pelo menos dois pontos. O primeiro é o mais óbvio. A internet, em toda a sua diversidade e complexidade, estabelece um canal direto muito mais rápido para a produção de notícias. Cada vez mais, ela terá impacto mais direto na esfera pública. A criação de "notícias", antes privilégio da mídia tradicional, tornou-se e irá se tornar cada vez mais descentralizada, valendo-se de Twitter, Facebook, YouTube, blogs, celulares e o que vier depois. É preciso se reinventar para não se tornar caixa de ressonância do que todo mundo já ficou sabendo antes. Já vi teses de doutorado e editores de jornal dizendo que a situação atual é a inversa. Que a internet é a caixa de ressonância da mídia tradicional. Há um quinhão de verdade nisso. Mas a tendência, como o caso Michael Jackson denota, é que a situação se inverta.
O segundo ponto é verificar que o TMZ, que vem sendo apontado como herói das "novas mídias", na verdade é ligado à Time-Warner. Nada mais mídia tradicional do que isso. No entanto, vale notar que seu formato é muito mais próximo de um blog/tablóide do que de um jornal tradicional. Em outras palavras, as regras de cautela, apuração e confiabilidade não são as mesmas para o site. Ele pode correr riscos. E, por conta disso, por ser um produto híbrido entre nova e velha mídia, talvez tenha sido destemido ao afirmar com tanta segurança a morte de Michael Jackson.
A morte de Michael Jackson e a forma como foi noticiada simbolizam um mundo em transição. Ninguém sabe ainda para onde irá o jornalismo e como será formada a esfera pública nos próximos anos. E os desafios são enormes. Como reinventar não só as formas de participação, mas também uma ética nova para a rede, uma ética que não seja nem ingênua nem obsoleta? E que não seja imposta, mas sim construída.
A conclusão do artigo de Lemos não deixa dúvida de que vivemos no meio de um processo que vai dar em alguma coisa (que ninguém sabe o que é) mas que certamente já deixou para trás um modelo histórico.
O fato é que não existe marcha a ré nesse processo, para desespero dos saudosistas e das viúvas do velho mundo. Vamos ter de aprender a reinventar tudo a 1.000 quilômetros por hora. É hora de experimentação. É hora de renovação de paradigmas. E de lembrar que o mundo em que foi possível existir alguém como
Jackson não existe mais.
Já disse em diferentes textos e debates: o próximo ano, para o Brasil, será o momento de mudança, de grande discussão entre paradigmas e modelos. A comunicação, enfim, será o debate.

3 comentários:
Eu estava numa reunião muito séria até que alguém recebeu a notícia por MSG, acabando com qualquer possibilidade dela continuar.
Jackson era uma figura bizarra, um homem levado a uma metamorfose kafkaniana pela mesma sociedade que o levou ao estrelato.
A fala final do artigo de Lemos é decisiva:
É hora de experimentação. É hora de renovação de paradigmas. E de lembrar que o mundo em que foi possível existir alguém como
Jackson não existe mais.
Os anos 80 morreram com Michael Jackson.
Caros Hugo e Luis Henrique,
Michael Jackson marcou o fim de uma época bastante simbólica de nossos tempos. Os anos 90, por exemplo, foram totalmente forjados pela década passada, quase indissociável.
De um certo modo, exemplificam a década americana, iniciada pelas reformas econômicas e sociais (mas principalmente culturais) promovidas por Reagan. A década "M": MTV, Michael Jackson e Madonna.
Poderia até somar Motley Crue, do lado do rock glamourizado e o Metallica, do metal thrash, cria norte-americana. Todos com milhões de discos vendidos, videoclipes marcantes e visual copiado por gerações.
Abraços
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