quarta-feira, 22 de abril de 2009

Voltemos todos a estudar

A edição de hoje do Financial Times traz um artigo muito bacana do colunista John Kay, que escreve às quartas-feiras. Kay foi um defensor ardoroso das políticas colocadas em prática nos anos 90, isto é, dos democratas de Clinton nos EUA e dos trabalhistas de Blair, no Reino Unido. Defendia a liberdade do mercado e o discurso moderno.

Desde que estourou a crise, alguns colunistas tiveram um choque de realidade, e eles, rapidamente, mudaram de opinião diante dos fatos. Uma atitude séria, de honestidade intelectual. John Kay foi um deles. Desde então, seus artigos tem forçado um revisionismo das coisas, trabalhando as mesmas informações com perspectivas diferentes.

O artigo é muito interessante. Traduzi os principais pontos - na realidade, traduzi quase inteiro - e publico logo abaixo. Quem quiser ler no original, basta clicar aqui. Em seguida do artigo traduzido, estão meus comentários.

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Como os economistas perderam a noção do mundo real
Por John Kay – Financial Times de 22/04/2009

Os últimos dois anos não melhoraram a reputação dos economistas. Em sua maioria, falharam em apontar o ponto fraco fundamental dos mercados financeiros e não foram capazes de antecipar a crise, e agora, eles discordam sobre as políticas apropriadas e sobre o futuro. Embora nunca foram feitas tantas pesquisas na área econômica quanto nos últimos 25 anos, os economistas cujos nomes são os mais frequentemente lembrados hoje, como Hyman Minsky e John Maynard Keynes, são de gerações anteriores.

Desde os anos 1970, os economistas têm se engajado em um grande projeto. O objetivo desse projeto é que a macroeconomia deve ter fundamentos da microeconomia. Na linguagem do dia a dia, isso significa que o que devemos dizer de grandes questões nacionais – crescimento e inflação – deve ter suas raízes no estudo dos comportamentos individuais Colocado dessa forma, esse projeto soa obviamente desejável, essencial até. Eu confesso que fui seduzido por muito tempo por isso.

Muitos economistas vão dizer que esse projeto foi um sucesso. Mas o critério é o critério de autorreferência da moderna vida acadêmica. O melhor elogio que alguém pode fazer a um argumento econômico hoje é dizer que ele é rigoroso. Os modelos macroeconômicos atuais certamente são.

Mas os políticos e o público em sua maioria, de maneira correta, não estão interessados em saber se os modelos são rigorosos. Eles estão interessados em saber se os modelos são úteis – e esses modelos rigorosos não pontuam bem nesse sentido.

Economistas, como os físicos, tem procurado por uma teoria sobre tudo. Não existe e nunca existirá uma teoria econômica sobre tudo. Os físicos podem, ou não, ser diferentes. Mas o conhecimento que nós podemos ter em economia são provisórios, e diferentes teorias vão iluminar diferentes situações.

Max Planck, o físico, disse certa vez que abandonara a economia porque era muito difícil. Planck, conforme observou Keynes, poderia ter dominado a matemática por trás da economia em poucos dias – hoje poderia demorar algumas semanas. Keynes explicou que para entender economia é preciso um amálgama de lógica e intuição, e um vasto conhecimento dos fatos, muitos dos quais não é perfeito: “Um requerimento incrivelmente difícil para aqueles cujo dom consiste, principalmente, no poder de imaginar e perseguir as implicações em seus pontos mais precisos, e as condições anteriores de simples casos, que são conhecidos com um elevado grau de precisão”. Sobre isso, e sobre quase todo o resto, Keynes estava certo.

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Comentário
John Kay, como muitos outros analistas políticos e econômicos dos países ricos, tem voltado atrás de muitas afirmações e ideias que ele próprio defendera até bem pouco tempo atrás. É uma atitude corajosa e muito importante.

Não defendo caça as bruxas, à esquerda ou à direita. Mas sim honestidade de pensamento. Muita gente defendeu o modelo que vemos ruir com a enorme crise mundial porque de fato acreditava ser o melhor para promover o crescimento das nações e a diminuição da pobreza.

Os fatos, todos eles, comprovam que as políticas adotadas nos anos 80, 90 e 2000 não promoveram mais crescimento e muito menos diminuíram a pobreza no mundo.

Diante disso, muitos estão voltando atrás e rediscutindo muitas teses e ideias colocadas em prática no passado. Esse revisionismo neoliberal é sadio, como é sadio o revisionismo sobre as questões da esquerda. Nada é perfeito - isso tem de ser deixado sempre claro. Todo revisionismo é, antes de mais nada, pesquisa e estudo humilde. Parar para ler, pensar, juntar informações, analisar, pensar um pouco mais e chegar a um desenho muito próximo da realidade. Sem interesse financeiro ou ideológico, mas conhecimento e respeito aos fatos, pura e simplesmente.

Essa crise tem colocado os holofotes em quem é sério e quem é oportunista na análise. Quem foi honesto em acreditar e defender, quem foi cordeirinho em repetir sem discutir e quem foi esperto em bancar e ganhar em cima. Todos esses personagens estão desfilando por aí.

É preciso unir o pessoal sério, que quer chegar em algum lugar, e partir para algo novo. Já disse isso aqui uma série de vezes, seja tratando do Brasil, dos países emergentes como um todo ou dos países ricos: estamos vivendo um momento crucial, de mudança dos rumos históricos. A hora de fazer algo é agora.

2 comentários:

Luiz Henrique Mendes disse...

João, só um cuidado. O revisionismo histórico feito pela Folha S. Paulo sobre a ditaduda (ditabranda para ela), não é bem-vindo.
Alás, ele reflete uma posição ideológica assaz perigosa.

Abs,
Luiz H. Mendes

João Villaverde disse...

É verdade, Luiz. Escrevi sobre esse revisionismo imbecil do jornal naquela época.
Não era meu intuito generalizar. Quis dizer que o revisionismo acerca das ideias e políticas, quando honesto, é bem vindo. O revisionismo da Folha, naquele caso, foi interesseiro e bisonho. Esse tipo de revisionismo é totalmente desnecessário.
Um abraço

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