quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma análise do Plano Obama

Desde que a equipe do governo Barack Obama anunciou o primeiro grande plano de ataque às causas da crise econômica, os mercados - leia-se, as bolsas - melhoraram de humor. O líder do plano é seu secretario do Tesouro, Timothy Geithner, que apostou todas suas fichas no programa.

Qual foi a principal causa da crise, lá trás? Os papéis negociados por preços exorbitantes baseados em empréstimos hipotecários nos EUA. Quando o mercado de casas veio abaixo, o mico ficou na mão de todos os agentes financeiros: 1) aqueles que tinham os títulos perderam muito dinheiro - muitos faliram, outros se fundiram, boa parte foi ajudada pelo governo. 2) Os bancos e imobiliárias, verdadeiros donos das casas, ficaram com milhares de imóveis desvalorizados nas mãos, e nenhum comprador à vista. 3) As seguradoras não deram conta do recado, e mais: a maior delas, a AIG, também havia negociado esses títulos malucos. 4) As agências de classificação de risco, que davam nota 10 para todo esse casino de falsidades.

Depois da explosão do mercado financeiro americano, um a um, os mercados internacionais foram quebrando. Bem vindos à globalização.

O que era crise financeira se tornou econômica e o primeiro passo de Obama foi um (acertado) orçamento preocupado com gastos sociais e obras públicas. Ao mesmo tempo, dava bilhões aos bancos e instituições financeiras que sofriam. O ato de dar (muito) dinheiro a bancos semi-falidos por erros deles mesmos tem um limite óbvio: até onde a sociedade aguenta.

Obama então anunciou o Plano Geithner, duas semana atrás. O plano se trata de uma enorme engenharia financeira para evitar o praticamente inevitável: é preciso nacionalizar o sistema financeiro americano.

O que diz o Plano Geithner? Ao todo, são US$ 1 trilhão que serão empenhados para retirar dos balanços dos bancos semi-falidos os papéis podres, ligados à títulos hipotecários. O governo tentou agradar os democratas (partido de Obama) e os republicanos ao mesmo tempo. A ideia é que o governo entrará com um dólar para cada dólar oriundo da iniciativa privada. Ou seja, se trata de uma Parceria Público Privada, com o governo fazendo o papel benevolente de cobrir qualquer rombo que os agentes privados venham a ter com esses títulos.

O mercado, claro, recebeu essa ideia com uma alegria incrível.

Aos poucos, a ficha foi caindo para o resto do sistema: o plano é benevolente demais com a banca privada. Não só o governo entra como agente facilitador, mas também como garantidor e segurador do lucro dos grandes fundos que adquirirem títulos podres dos bancos semi-falidos. Ao mesmo tempo, os bancos semi-falidos são ajudados pelo governo e por seus pares a retirar tudo que é ruim de seus balanços.

O fato de isso ter ficado claro para os demais personagens do jogo - a imprensa, os políticos e os demais operadores financeiros - não foi o suficiente para desanuviar os mercados: os grandes fundos adoraram tanto que continuavam mantendo o clima bom.

Nesse sentido, Obama anunciou uma pequena mudança, nessa semana, em seu plano. O Tesouro americano fez uma pequena alteração. Agora, fundos de hegde e pequenos fundos poderão conseguir empréstimos relativos aos US$ 1 trilhão do Plano Geithner para comprar ativos podres dos bancos. A mudança responde ao lobby dos fundos de hegde e dos pequenos investidores, que afirmavam que os grandes fundos - que ajudaram Geithner a formular o Plano - eram os maiores beneficiários do programa de Obama para resgatar o sistema financeiro. Entre esses grandes fundos, estão o BlackRock e o Pimco.

Essa mudança, embora importantíssima por ampliar o acesso dos pequenos investidores ao Plano de Obama, não é suficiente para mudar o cerne do Plano.

Pode ser que dê certo, tamanha a vontade que os grandes fundos estão de ganhar dinheiro (e, se por ventura perderem algo, o governo cobre) e os bancos estão de se livrarem dos papéis podres. Pode ser que dê errado, com a dificuldade de se encontrar um preço para cada tipo de papel - ninguém, até agora, sabe ao certo quantos e como são todos os títulos criados - fazendo o governo gastar ainda mais dinheiro que os US$ 1 trilhão inicialmente projetados.

A solução mais imediata e firme, além de mais justa com a sociedade como um todo, é a nacionalização geral do sistema financeiro americano.

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