Os 13 leitores deste Blog estão acompanhando os últimos acontecimentos do nosso Senado? Não bastasse os R$ 6,2 milhões pagos em horas extras de janeiro (quando a Casa está em recesso), descobre-se (!) essa semana que o Senado conta com 181 diretorias. Marquem, são 81 senadores. A conta dá mais de duas diretorias por senador. Diretoria do quê? De check-in, para facilitar o embarque dos senadores nos aeroportos, diretoria de visitação, para acompanhar a visita de turistas ao Senado, diretoria das rádios de ondas curtas, etc.
A situação das 181 diretorias do Senado é bisonha. Aliás, se fossem minimamente investigadas, as relações de poder e troca entre os diferentes cargos (comissões, diretorias, secretariais, assessorias, etc.) trariam para a luz um esgoto político enorme.
Isso tem de ser feito. Se será feito é outra história.
O que não deve ser feito é entrar na ladainha de sempre, qual seja, aproveitar os escândalos políticos para criticar a política e o Estado. Isso é oportunismo e deve ser evitado.
Invariavelmente, sempre que surge algum escândalo - como esse bisonho das 181 diretorias do Senado - algumas vozes se levantam para criticar os políticos, criticar o Congresso, o governo, o Brasil e tudo o mais.
Não se deve entrar nessa onda.
Foi esse criticismo vazio e alienante que reinou no Brasil dos anos 80. Criticava-se o Estado inchado legado pelos militares e usado por José Sarney (o primeiro presidente do período da redemocratização) para distribuir favores. Mas era uma crítica pesada, que ia contra qualquer interesse nacional e coletivo. A crítica tinha um interesse: derrubar o Estado.
Esse projeto - que era martelado dia-a-dia - visava passar o Estado (que tinha enormes problemas, isso é inegável) para mãos privadas, tidas como mais eficientes e edificantes. Era um escapismo atroz, misturado com interesses financeiros. A lógica da crítica era: "O Estado é ruim portanto deve ser esvaziado e passado à mãos privadas."
Isso foi feito especialmente nos países pobres, que aceitaram esse criticismo e promoveram medidas de esvaziamento estatal ao longo dos anos 90. O que aconteceu com eles? O México foi o primeiro, mais ligado aos EUA. Quebrou em 1994. Depois os asiáticos, em 1997. Os russos, em 1998. O Brasil em 1999. E finalmente, a enorme quebra da Argentina, em 2001.
O que quero dizer é o seguinte: é preciso evitar essa crítica fácil do Estado brasileiro. Afinal, os políticos são marcianos? Eles não são parte integrante da sociedade brasileira? Se eles têm problemas, nós temos também, é evidente.
Ficamos parecendo adolescentes vazios. Diante de um problema familiar, preferímos fugir de casa à resolver as coisas. Ou ainda aquele analista chato que vive criticando o país e o mundo, como se não fizesse parte dele. Está na hora de agir cara pálida!
A questão não está em atacar ou fugir, mas em construir.

5 comentários:
João, o problema é seríssimo. Sabemos que a censura atua de forma avassaladora em todos os espectros da mídia, internet inclusa. A INTERNET É CENSURADA!
Compartilho da sua crítica quanto ao comportamento de desmantelar o Estado. Digo mais: a tentativa é desmoralizar nossa democracia. Se o Congresso não serve, vamos destituí-lo, é o raciocínio torpe. Temo presenciar, em breve, uma "ditabranda". Talvez seja esta razão de a Folha ter usado o termo. Ela aceita mais uma "ditabranda". Fidel, esse para ela é ditarura.
O Brasil caminha para o neo-fascimo.
Querem nos fazer acreditar que a democracia não vale à pena, mas, como bem me disse a jornalista Maria Inês Nassif, em entrevista para a Rádio da PUC, a "a democracia vale à pena, sob quaisquer circunstâncias".
Um abraço,
Luiz H. Mendes
Belíssimo post, João. Nunca vi texto mais lúcido. Mostra como grande parte da população pensa como os "adolescentes" que você descreveu. Ora, os políticos são um reflexo do povo que os elege. Para mudar os políticos, não é necessários mudar a política. É necessário mudar as pessoas. E acho que essa questão passa também pela educação política da população. Há ainda muita gente boa, que foi (des)educada durante 20 anos de ditadura achando que tudo era "normal", e que agora a democracia talvez não sirva pra nada, é tudo igual, só corrupção... É por isso que o alerta do amigo Luiz Henrique Mendes está mais vivo do que nunca. Abraços.
Complementando meu comentário - Brecht:
"O pior analfabeto é o analfabeto politico. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, (...) do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Olá Luiz,
A Maria Inês disse bem e disse certo. A censura é o sintoma mais rápido da assimilação de poder por parte do fraco. Dê poder ao despreparado e logo surgem episódios de censura do pensamento divergente.
Um abraço
Olá Fernando,
Seu comentário é certeiro: a saída para esse criticismo ilógico dos outros - que é escapismo puro, uma vez que ignora a parcela de responsabilidade inerente à todos os participantes do sistema - passa pela educação política da sociedade. Vivemos numa democracia. Temos uma história riquíssima. Isso tudo deve ser evidenciado, explicado e mudado. Quem constrói o sistema, quem constrói as coisas todas são pessoas. Nada é imudável. Se algo está ruim, ao invés de jogarmos fora - algo que interessa aos grupos de sempre - precisamos abraçar novos caminhos.
E as frases de Brecht são ótimas. Melhoram muito nosso sábado.
Um abraço
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