Vamos montar um pequeno roteiro de informações e dados que ajudam a entender a crise financeira que estamos passando. Servirá para compreender que essa é uma das maiores crises do capitalismo, a maior crise do modelo neoliberal.
1) A explosão da bolha "ponto.com" no ano 2000 desencadeou uma queda no crescimento. Para combater uma possível recessão, o Fed (banco central americano), liderado por seu presidente Alan Greenspan, começou a cortar as taxas de juros, para movimentar o crédito e o consumo. As taxas eram de 6,5% ao ano.
2) Quando as taxas já valiam 3,5%, houve o ataque terrorista contra as torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. O consumo automaticamente caiu. Alan Greenspan então, insistiu em novos cortes.
3) Em julho de 2003 as taxas alcançaram 1% ao ano. Ficaram assim por um ano.
4) Ao todo, foram 31 meses consecutivos de taxa de juros real de curto prazo negativa, ou seja, valendo menos que a inflação.
O efeito das baixas taxas de juros em um modelo totalmente desregulamentado, sem regras mínimas, todo privatizado e sem controle do Estado foi a esbórnia dos últimos anos.
1) As financeiras especializadas em crédito imobiliário reduziram suas exigências mínimas ao mínimo possível. Para contratar um enorme empréstimo (coisa de centenas de milhares de dólares) era preciso apenas um documento de identidade. E as taxas de juros? 1% ao ano.
2) Entre 2000 e meados de 2005, o valor de mercado das casas cresceu 50%, e houve um boom de novas construções. A Merril Lynch (terceiro maior banco de investimento dos EUA) calculou que metade de todo o crescimento do PIB americano no primeiro semestre de 2005 estava ligada ao setor imobiliário, fosse diretamente, por meio de construção de casas e consumo relacionado, como as compras de mobília nova, ou indiretamente, pelo consumo com o dinheiro obtido com o refinanciamento das hipotecas.
3) A valorização de dois dígitos nos preços das casas gerou especulação. Bancos de investimento desenvolveram uma série de "inovações". Criaram títulos lastreados nas hipotecas vendidas pelas imobiliárias e venderam para fundos de pensão, hedge funds, outros bancos e financeiras. Ao mesmo tempo, criaram instrumentos "estruturados" para manter esses títulos fora de seus balanços. Ou seja, não eram interceptados pelo mercado. E como não havia fiscalização, ficava por isso mesmo.
4) Quando se espera que o valor de uma propriedade cresça mais que o custo dos empréstimos, faz sentido ter mais propriedades do que se pretende ocupar.
5) Segundo estudo apresentado no Hudson Institute em Washington em 15/02 de 2007 por Joseph Mason e Joshua Rosner, em 2005, 40% de todas as compras do setor imobiliário eram feitas como investimento ou segundo imóvel, e não como moradia.
6) Como não houve aumento salarial nos anos 2000 - vale aí estudar as políticas implementadas por Bush - era necessário apelar de alguma forma para incentivar os consumidores a fazerem tudo isso que fizeram. O que as financeiras especializadas em crédito imobiliário fizeram? Além de rebaixar o nível de exigência na concessão de empréstimos como já se viu, criaram os contratos com taxas reajustáveis. Nos primeiros dois anos os contratos tinham taxas de juros de 1%. Depois saltavam para 3%, 5%, 9%, etc.
7) George Soros explica um pouco o jogo financeiro que se seguiu: "Em vez de os bancos e instituições de poupança de crédito aprovarem um empréstimo e mantê-los em seus livros, os empréstimos eram passados a corretoras, temporariamente armazenados, por banqueiros de hipotecas pouco capitalizados e a seguir vendidos em bloco a bancos de investimento que criaram as CDOs, classificados por agências de risco e vendidos a investidores institucionais". As CDOs são instrumentos de securitização chamados obrigações de dívidas garantidas.
Quando lá na ponta aqueles consumidores de alto risco, que não precisaram apresentar nenhuma comprovação de renda - apenas o documento de identidade -, deixaram de pagar suas hipotecas quando os juros dos contratos reajustáveis subiram, toda essa pirâmide financeira veio abaixo. Os tão falados CDOs, obrigações de dívidas garantidas, micaram. Não eram obrigações de nada, porque não havia dinheiro. Não eram garantidas de nada, porque, novamente, não havia dinheiro. Eram apenas dívida.
E essa dívida estava espalhada por todo o lado. Por todo o mundo desenvolvido. Estados Unidos (mamãe dessa história toda), Inglaterra (meninas dos olhos da mamãe americana), União Européia, Japão, Austrália, etc. etc.
- O que dizer das imobiliárias, que não tiveram nenhum rigor na concessão dos empréstimos?
- O que dizer dos bancos de investimentos que não tiveram nenhum escrúpulo em vender títulos "securitizados" sem transparência?
- O que dizer das agências de avaliação de risco que deram nota AAA (a maior possível) para todos os papéis criados pelo mercado?
- O que dizer dos CDOs e CDS criados pelos bancos para manter essas operações todas na sombra, fora dos balanços?
- O que dizer do Fed, banco central americano, que deixou os juros negativos por anos, incentivando a especulação, lucrando na popularidade da casa própria, da riqueza fácil, mas que agora lida com inadimplência, famílias sem teto, desemprego e recessão?
- O que dizer dos outros países "civilizados" que compraram (literalmente) a idéia, vendendo que o sistema neoliberal era a melhor coisa do mundo?
E aí? O que dizer disso tudo?
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Para ficar de olho
Para reagir da recessão de 2001, quando a bolha retrasada, chamada de "bolha ponto.com" explodiu, o Banco Central dos EUA cortou suas taxas de juros à 1% ao ano. Segurou assim por três anos. Depois começou a subir lentamente.
Foi esse crédito baratíssimo, aliado à total desregulamentação e terceirização da fiscalização do Estado para o mercado, que geraram a bolha imobiliária, que explodiu no ano passado.
Pouco antes da explosão da bolha atual, os juros americanos estavam em 5,25% ao ano.
Pois bem.
O Fed (Federal Reserve, banco central americano) anunciou hoje o corte de meio ponto percentual em sua taxa básica de juros. Caiu de 1,5% para 1% ao ano.
As circusntâncias são diferentes, é claro. Os bancos, antes liberalizados, agora estão ou nacionalizados ou falidos.
Mas a fiscalização ainda é incipiente. Não há leis suficientes nos Estados Unidos para prevenir que uma nova bolha se forme no bojo da explosão da atual.
Tal qual em 2001, podemos estar formando uma nova bolha.
Viva o capitalismo.
Foi esse crédito baratíssimo, aliado à total desregulamentação e terceirização da fiscalização do Estado para o mercado, que geraram a bolha imobiliária, que explodiu no ano passado.
Pouco antes da explosão da bolha atual, os juros americanos estavam em 5,25% ao ano.
Pois bem.
O Fed (Federal Reserve, banco central americano) anunciou hoje o corte de meio ponto percentual em sua taxa básica de juros. Caiu de 1,5% para 1% ao ano.
As circusntâncias são diferentes, é claro. Os bancos, antes liberalizados, agora estão ou nacionalizados ou falidos.
Mas a fiscalização ainda é incipiente. Não há leis suficientes nos Estados Unidos para prevenir que uma nova bolha se forme no bojo da explosão da atual.
Tal qual em 2001, podemos estar formando uma nova bolha.
Viva o capitalismo.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Dica da semana
"O setor público está atuando como garantidor de interesses privados"
"Não se está estatizando nada, o que ocorre é a privatização da riqueza pública em favor da especulação financeira"
"A clássica socialização dos prejuízos, que está se repetindo nessa crise, é uma marca histórica do capitalismo"
"Dessa vez não se perguntou de onde viria o dinheiro e se a ajuda dos governos não gerará inflação, como normalmente se questiona acerca de políticas sociais"
"Seria precipitado falar em fim do neoliberalismo"
"O fim do neoliberalismo não se dará na economia, mas na luta política"
Os trechos foram retirados do excelente artigo de Denise Lobato Gentil e Gilberto Maringoni, que o Valor publica hoje.
A questão discussão do momento está aí. É o fim de um modelo de capitalismo, o neoliberalismo, ou apenas um processo de adequação?
"Não se está estatizando nada, o que ocorre é a privatização da riqueza pública em favor da especulação financeira"
"A clássica socialização dos prejuízos, que está se repetindo nessa crise, é uma marca histórica do capitalismo"
"Dessa vez não se perguntou de onde viria o dinheiro e se a ajuda dos governos não gerará inflação, como normalmente se questiona acerca de políticas sociais"
"Seria precipitado falar em fim do neoliberalismo"
"O fim do neoliberalismo não se dará na economia, mas na luta política"
Os trechos foram retirados do excelente artigo de Denise Lobato Gentil e Gilberto Maringoni, que o Valor publica hoje.
A questão discussão do momento está aí. É o fim de um modelo de capitalismo, o neoliberalismo, ou apenas um processo de adequação?
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Dependência externa
Os jornais de hoje dão conta dos balanços negativos na conta corrente do Brasil. Os números, como já se previa, são alarmantes.
O mês de setembro foi terrível para o saque de dólares que estavam no país. É compreensível, foi a partir da metade do mês passado que a crise financeira nos Estados Unidos ganhou contornos mundiais.
O saldo de transações correntes (que registra operações de comércio exterior, serviços e rendas) teve déficit de US$ 2,77 bilhões em setembro, mais que o dobro do saldo negativo de US$ 1,09 bilhão de agosto. E um bilhão de dólares acima da previsão do Banco Central, que era de US$ 1,7 bi negativos.
No ano, o rombo já soma US$ 23,26 bilhões. Isso equivale a 1,95% do PIB brasileiro. A tendência é crescer mais nos próximos três meses, e essa relação entre déficit em conta corrente e PIB ultrapassará 2%. Isso é péssimo para o país.
Mas isso não tem tanto a ver com a crise. O saldo de setembro com certeza, veio pior devido à crise. Mas viria um déficit maior que agosto de qualquer maneira. Se o rombo no ano inteiro já passou de US$ 23 bilhões, isso não tem a ver com a crise. Tem a ver com o câmbio, mantido em constante supervalorização desde 2005. O resultado está aí.
Qual foi o discurso oficial para valorizar a nossa moeda frente ao dólar? Tornar as importações mais baratas, assim diminuindo a inflação. Ao mesmo tempo, a exportação de produtos não-primários caem. Defende-se a entrada de multinacionais em solo brasileiro, uma vez que a remessa de lucros é um ótimo negócio com câmbio valorizado.
A conta financeira também foi aberta. Em fevereiro de 2006 foi eliminada a cobrança de Imposto de Renda para investidor estrangeiro que aplicasse em títulos públicos. Depois se diminuiu o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de estrangeiros. Os grandes fundos vinham, aplicavam em títulos públicos, montavam posições especulativas em câmbio futuro e depois remetiam de volta ao país de origem. Embolsava-se os maiores juros do mundo e ainda ganhava com a valorização cambial (mesma quantidade de reais compram mais dólares).
E qual foi o principal motivo do grande rombo de setembro? A retirada de dinheiro do mercado para cobrir posições nos Estados Unidos? Não. Foi a remessa de lucros de empresas estrangeiras com operações no Brasil. Ao todo, US$ 3,44 bilhões só em setembro.
Na conta financeira, contando o mês de setembro e os 23 dias de outubro (os dados são de ontem), saíram US$ 6,5 bilhões de aplicações financeiras (renda fixa e ações).
****
Passou quase desapercebida a informação sobre nova medida do governo de apoio ao capital especulativo estrangeiro. O Estadão, por exemplo, deu uma notinha no meio do noticiário econômico (caderno Economia, página B6).
O governo decidiu zerar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para os "investimentos" estrangeiros em aplicações de renda fixa. O que é renda fixa? Tìtulos públicos, principalmente. E qual é a remuneração de um título do Tesouro nacional? A taxa Selic, a maior taxa de juros do mundo (hoje em 13% ao ano).
A medida beneficiará a entrada de capital especulativo de curto prazo. Segundo o secretário Bernard Appy, da Fazenda, "nesse momento de crise, o Brasil não pode discriminar qualquer tipo de capital".
Fica claro aí, qual é o modelo que tem sido defendido nos últimos anos. A dependência dos "investimentos" externos. E quando explode uma crise e esses "investimentos" somem, é preciso fazer de tudo para atraí-los e manter as contas do país em dia.
Mesmo que essas contas estejam num rombo gigante de 23 bilhões de dólares. E crescendo.
O mês de setembro foi terrível para o saque de dólares que estavam no país. É compreensível, foi a partir da metade do mês passado que a crise financeira nos Estados Unidos ganhou contornos mundiais.
O saldo de transações correntes (que registra operações de comércio exterior, serviços e rendas) teve déficit de US$ 2,77 bilhões em setembro, mais que o dobro do saldo negativo de US$ 1,09 bilhão de agosto. E um bilhão de dólares acima da previsão do Banco Central, que era de US$ 1,7 bi negativos.
No ano, o rombo já soma US$ 23,26 bilhões. Isso equivale a 1,95% do PIB brasileiro. A tendência é crescer mais nos próximos três meses, e essa relação entre déficit em conta corrente e PIB ultrapassará 2%. Isso é péssimo para o país.
Mas isso não tem tanto a ver com a crise. O saldo de setembro com certeza, veio pior devido à crise. Mas viria um déficit maior que agosto de qualquer maneira. Se o rombo no ano inteiro já passou de US$ 23 bilhões, isso não tem a ver com a crise. Tem a ver com o câmbio, mantido em constante supervalorização desde 2005. O resultado está aí.
Qual foi o discurso oficial para valorizar a nossa moeda frente ao dólar? Tornar as importações mais baratas, assim diminuindo a inflação. Ao mesmo tempo, a exportação de produtos não-primários caem. Defende-se a entrada de multinacionais em solo brasileiro, uma vez que a remessa de lucros é um ótimo negócio com câmbio valorizado.
A conta financeira também foi aberta. Em fevereiro de 2006 foi eliminada a cobrança de Imposto de Renda para investidor estrangeiro que aplicasse em títulos públicos. Depois se diminuiu o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de estrangeiros. Os grandes fundos vinham, aplicavam em títulos públicos, montavam posições especulativas em câmbio futuro e depois remetiam de volta ao país de origem. Embolsava-se os maiores juros do mundo e ainda ganhava com a valorização cambial (mesma quantidade de reais compram mais dólares).
E qual foi o principal motivo do grande rombo de setembro? A retirada de dinheiro do mercado para cobrir posições nos Estados Unidos? Não. Foi a remessa de lucros de empresas estrangeiras com operações no Brasil. Ao todo, US$ 3,44 bilhões só em setembro.
Na conta financeira, contando o mês de setembro e os 23 dias de outubro (os dados são de ontem), saíram US$ 6,5 bilhões de aplicações financeiras (renda fixa e ações).
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Passou quase desapercebida a informação sobre nova medida do governo de apoio ao capital especulativo estrangeiro. O Estadão, por exemplo, deu uma notinha no meio do noticiário econômico (caderno Economia, página B6).
O governo decidiu zerar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para os "investimentos" estrangeiros em aplicações de renda fixa. O que é renda fixa? Tìtulos públicos, principalmente. E qual é a remuneração de um título do Tesouro nacional? A taxa Selic, a maior taxa de juros do mundo (hoje em 13% ao ano).
A medida beneficiará a entrada de capital especulativo de curto prazo. Segundo o secretário Bernard Appy, da Fazenda, "nesse momento de crise, o Brasil não pode discriminar qualquer tipo de capital".
Fica claro aí, qual é o modelo que tem sido defendido nos últimos anos. A dependência dos "investimentos" externos. E quando explode uma crise e esses "investimentos" somem, é preciso fazer de tudo para atraí-los e manter as contas do país em dia.
Mesmo que essas contas estejam num rombo gigante de 23 bilhões de dólares. E crescendo.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Mercado parado
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou hoje pela manhã a Medida Provisória 443, que permite ao Banco do Brasil (BB) e à Caixa Econômica Federal (CEF) adquirirem participações em instituições financeiras em dificuldades. O zelo ao anunciar a medida foi tanto, que Mantega já avisou que pretende revender ao mercado tudo o que for comprado quando os tempos mudarem.
Uma parte dos analistas - aqueles de sempre - já entrou em campo esperneando que isso é interferência do Estado em assuntos privados. Que a participação de bancos públicos em instituições financeiras privadas vai contra direitos privados. Dizem que em tempos de crise mundial, o momento é de o governo cortar gastos, não aumentar.
Pois bem.
A situação que temos é a seguinte. Com a explosão mais recente da crise em 15 de setembro, com a falência do quarto maior banco de investimentos americano (o Lehman Brothers) todo o sistema bancário entrou em ponto morto. O mercado interbancário travou. E o crédito secou no mundo rico e no mundo pobre. Isto é, os bancos estão sofrendo aumentos de custos para se financiarem (taxas interbancárias, como a Libor, referência internacional, estão lá em cima) e aumentam a rigidez para emprestarem dinheiro.
Aqui no Brasil isso fica óbvio quando se analisa o mercado de financiamento às exportações. Os contratos mais tradicionais, os ACCs, de adiantamento de câmbio, estão travados. O Banco Central entrou vendendo dólares das nossas reservas para exportadores. O Valor de hoje trouxe a situação na capa: "Apesar dos esforços do governo para aumentar a liquidez, o crédito está escasso e caro, reclamam as empresas. O crédito em dólares tem o mesmo problema, apesar dos leilões de linha do Banco Central (BC). Segundo o diretor financeiro do grupo Cosipar, o custo do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) dobrou nos últimos dois meses, saltando de 7% ao ano para 15% nos bancos brasileiros em operações de 60 dias".
Muitas empresas estão segurando seus planos de investimentos porque não conseguem crédito barato - nem aqui, nem no exterior - e porque estão esperando para ver o que acontecerá. Outras suspenderam seus processos de abertura de capital. As que estão na Bolsa perdem dinheiro com a desvalorização dos índices, devido às desmontagem das operações dos estrangeiros com títulos e ações de emergentes. Os bancos vêem seus custos de captação aumentar, o interbancário subir, e cortam os empréstimos.
E o que os analistas dizem?
Que o governo deve aproveitar a crise para cortar os gastos públicos.
Agora que o o mercado privado está parado, é a hora de cortar gastos públicos? Como já se viu, se o governo não investir, quem investirá? Se o Estado não se mexer, quem se mexerá? Defender que, além de tudo isso, o Estado também páre de gastar é torcer muito pela crise econômica geral.
Mas defender a atuação do governo, ser à favor da intervenção do Estado é atacado, por esses mesmos analistas de mercado, da academia e da mídia, como defender o keynesianismo. Ou ainda, o marxismo.
Parece muito mais uma questão de lógica que de ideologia.
Uma parte dos analistas - aqueles de sempre - já entrou em campo esperneando que isso é interferência do Estado em assuntos privados. Que a participação de bancos públicos em instituições financeiras privadas vai contra direitos privados. Dizem que em tempos de crise mundial, o momento é de o governo cortar gastos, não aumentar.
Pois bem.
A situação que temos é a seguinte. Com a explosão mais recente da crise em 15 de setembro, com a falência do quarto maior banco de investimentos americano (o Lehman Brothers) todo o sistema bancário entrou em ponto morto. O mercado interbancário travou. E o crédito secou no mundo rico e no mundo pobre. Isto é, os bancos estão sofrendo aumentos de custos para se financiarem (taxas interbancárias, como a Libor, referência internacional, estão lá em cima) e aumentam a rigidez para emprestarem dinheiro.
Aqui no Brasil isso fica óbvio quando se analisa o mercado de financiamento às exportações. Os contratos mais tradicionais, os ACCs, de adiantamento de câmbio, estão travados. O Banco Central entrou vendendo dólares das nossas reservas para exportadores. O Valor de hoje trouxe a situação na capa: "Apesar dos esforços do governo para aumentar a liquidez, o crédito está escasso e caro, reclamam as empresas. O crédito em dólares tem o mesmo problema, apesar dos leilões de linha do Banco Central (BC). Segundo o diretor financeiro do grupo Cosipar, o custo do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) dobrou nos últimos dois meses, saltando de 7% ao ano para 15% nos bancos brasileiros em operações de 60 dias".
Muitas empresas estão segurando seus planos de investimentos porque não conseguem crédito barato - nem aqui, nem no exterior - e porque estão esperando para ver o que acontecerá. Outras suspenderam seus processos de abertura de capital. As que estão na Bolsa perdem dinheiro com a desvalorização dos índices, devido às desmontagem das operações dos estrangeiros com títulos e ações de emergentes. Os bancos vêem seus custos de captação aumentar, o interbancário subir, e cortam os empréstimos.
E o que os analistas dizem?
Que o governo deve aproveitar a crise para cortar os gastos públicos.
Agora que o o mercado privado está parado, é a hora de cortar gastos públicos? Como já se viu, se o governo não investir, quem investirá? Se o Estado não se mexer, quem se mexerá? Defender que, além de tudo isso, o Estado também páre de gastar é torcer muito pela crise econômica geral.
Mas defender a atuação do governo, ser à favor da intervenção do Estado é atacado, por esses mesmos analistas de mercado, da academia e da mídia, como defender o keynesianismo. Ou ainda, o marxismo.
Parece muito mais uma questão de lógica que de ideologia.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008
Convite
Para os que estiverem dispostos, na quinta-feira 23, pela manhã, estarei debatendo jornalismo econômico com Alcides Leite da escola Trevisan numa mesa mediada por Rodolfo Amstalden, pela Semana de Jornalismo da universidade Casper Líbero, em São Paulo. Antes, o grande Rolf Kuntz fará uma palestra, às 8 hrs.
Deixo o link para a página oficial da Semana e as informações da mesa econômica.
http://www.facasper.com.br/jo/notas.php?id_nota=786
Dia 23
Manhã – Jornalismo econômico
8h Palestra
Rolf Kuntz – colunista do Estadão
9h30 Debate
João Villaverde – repórter do jornal Valor Econômico
Alcides Leite – professor de Mercado financeiro da Trevisan Escola de Negócios
Mediada pelo Prof. Rodolfo Amstalden – economista do portal de notícias Infomoney
Endereço: Avenida Paulista, 900 - no prédio da Gazeta.
*E quem puder esticar, fica a dica de acompanhar a 32ª Mostra Internacional de Cinema. A Reserva Cultural, que fica logo ao lado da Casper, está na programação*
Deixo o link para a página oficial da Semana e as informações da mesa econômica.
http://www.facasper.com.br/jo/notas.php?id_nota=786
Dia 23
Manhã – Jornalismo econômico
8h Palestra
Rolf Kuntz – colunista do Estadão
9h30 Debate
João Villaverde – repórter do jornal Valor Econômico
Alcides Leite – professor de Mercado financeiro da Trevisan Escola de Negócios
Mediada pelo Prof. Rodolfo Amstalden – economista do portal de notícias Infomoney
Endereço: Avenida Paulista, 900 - no prédio da Gazeta.
*E quem puder esticar, fica a dica de acompanhar a 32ª Mostra Internacional de Cinema. A Reserva Cultural, que fica logo ao lado da Casper, está na programação*
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domingo, 19 de outubro de 2008
Poesia de outubro
Ando pelas ruas e vejo o povomagro, apático, abatido
Este povo não pode acreditar
em nenhum partido
Este povo alquebrado
cujo sangue sem vigor...
Este povo precisa da morte
mais do que possa supor
O sangue que estimula
meu irmão à dor
o sentimento do nada
que gera o amor
A morte como fé,
não como temor
Paulo Martins
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Política e mercados
A edição de quarta-feira do The New York Times trouxe dois gráficos do Tommy McCall (famoso pelos gráficos da revista Money Magazine) que diz que os governos democratas são melhores para a Bolsa que os republicanos.
De 1929 até sexta-feira passada, um investimento de 10 mil dólares em ações presentes no índice S&P (o equivalente ao nosso Ibovespa), teria alcançado 11.733 se investido apenas em anos governados por presidentes republicanos. A conta é injusta. Um deles, Herbert Hoover era o presidente durante a depressão pós-29, quando tudo caiu. McCall fez as contas excluindo o governo Hoover: de 10 mil seriam hoje US$ 51.211.
Ainda assim são batidos de longe pelos democratas. Se os mesmos dez mil dólares tivessem sido investidos nas mesmas ações, mas durante períodos governados por presidentes do partido Democrata, hoje seria US$ 300.671. Pois é, 300 mil dólares.
O que isso quer dizer?
Que há 20 dias das eleições mais conturbadas desde 1929, vale tudo para influenciar voto. Como pano de fundo um sadio retorno da discussão Política (escrita com "p" maíusculo) frente à falência dos mercados descontrolados.
De 1929 até sexta-feira passada, um investimento de 10 mil dólares em ações presentes no índice S&P (o equivalente ao nosso Ibovespa), teria alcançado 11.733 se investido apenas em anos governados por presidentes republicanos. A conta é injusta. Um deles, Herbert Hoover era o presidente durante a depressão pós-29, quando tudo caiu. McCall fez as contas excluindo o governo Hoover: de 10 mil seriam hoje US$ 51.211.
Ainda assim são batidos de longe pelos democratas. Se os mesmos dez mil dólares tivessem sido investidos nas mesmas ações, mas durante períodos governados por presidentes do partido Democrata, hoje seria US$ 300.671. Pois é, 300 mil dólares.
O que isso quer dizer?
Que há 20 dias das eleições mais conturbadas desde 1929, vale tudo para influenciar voto. Como pano de fundo um sadio retorno da discussão Política (escrita com "p" maíusculo) frente à falência dos mercados descontrolados.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Polícia X Polícia
Quando se pensa que se viu tudo, acontece o impensável. Polícia civil troca tiros (ainda que de fumaça) com Polícia Militar, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo.
Eu tenho certeza que, de todas, Polícia X Polícia, era a alternativa menos votada na eleição: "Coisas impossíveis de acontecer".
Eu tenho certeza que, de todas, Polícia X Polícia, era a alternativa menos votada na eleição: "Coisas impossíveis de acontecer".
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Pânico financeiro se alastra
A crise financeira iniciada pelos excessos americanos explodiu em julho do ano passado, após repetidos sinais (maio/2006, dez./2006 e março/2007). Desde então, ondas de pânico tem alcançado cada vez mais países. A partir de setembro a coisa degringolou.
Chegou na Rússia também.
Hoje, o Globex, banco médio russo, proibiu seus correntistas de retirarem seus depósitos e poupanças do banco. É uma resposta à crise que de pânico que chega.
O medo das pessoas de uma crise bancária generalizada chega primeiro nos bancos pequenos e médios. As pessoas correm para sacar seu dinheiro para depositar em bancos maiores. Mas mesmo estes estão sofrendo. A preferência das pessoas são os bancos públicos, pertencentes ao Estado. Este garante todos os depósitos.
Esse pânico alcançou a Alemanha há duas semanas. Depois a França, a Irlanda, a Espanha, a Inglaterra. Os 15 países da União Européia então se uniram e na segunda-feira passada lançaram um pacote que garante os depósitos dos bancos e se for necessário, serve também para adquirir ações desses bancos. Os mercados viveram dia de euforia na segunda por causa disso. Logo, os Estados Unidos seguiram, na terça. Comentei a medida americana no Blog ("Socializando as dívidas").
Notícias ruins - de recessão nos Estados Unidos - derrubaram os mercados hoje, no mundo inteiro.
O fato do medo de falência de bancos alcançar, ainda que de maneira inicial, a Rússia é maior do que a crise se alastrar. Ao chegar na Rússia, a crise alcança um dos quatro países emergentes da famosa sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) - que denomina as "potências do futuro".
O Globex tem ativos avaliados em US$ 4 bilhões. Perdeu 13% de seus depósitos em setembro e já perdeu 15% em 15 dias de outubro. Os russos estão migrando para os dois bancos estatais, o VTB e o Sberbank. O governo já disponibilizou US$ 200 bilhões para manter o interbancário funcionando. Nos últimos dois meses, ao menos três bancos médios ou pequenos participaram de processos de fusões para poderem se manter.
Como destaca o Financial Times, "por enquanto o aperto no crédito mundial (credit crunch) ainda não afetou o patamar de vida dos russos, mas uma leva de bancos falindo afetará".
Chegou na Rússia também.
Hoje, o Globex, banco médio russo, proibiu seus correntistas de retirarem seus depósitos e poupanças do banco. É uma resposta à crise que de pânico que chega.
O medo das pessoas de uma crise bancária generalizada chega primeiro nos bancos pequenos e médios. As pessoas correm para sacar seu dinheiro para depositar em bancos maiores. Mas mesmo estes estão sofrendo. A preferência das pessoas são os bancos públicos, pertencentes ao Estado. Este garante todos os depósitos.
Esse pânico alcançou a Alemanha há duas semanas. Depois a França, a Irlanda, a Espanha, a Inglaterra. Os 15 países da União Européia então se uniram e na segunda-feira passada lançaram um pacote que garante os depósitos dos bancos e se for necessário, serve também para adquirir ações desses bancos. Os mercados viveram dia de euforia na segunda por causa disso. Logo, os Estados Unidos seguiram, na terça. Comentei a medida americana no Blog ("Socializando as dívidas").
Notícias ruins - de recessão nos Estados Unidos - derrubaram os mercados hoje, no mundo inteiro.
O fato do medo de falência de bancos alcançar, ainda que de maneira inicial, a Rússia é maior do que a crise se alastrar. Ao chegar na Rússia, a crise alcança um dos quatro países emergentes da famosa sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) - que denomina as "potências do futuro".
O Globex tem ativos avaliados em US$ 4 bilhões. Perdeu 13% de seus depósitos em setembro e já perdeu 15% em 15 dias de outubro. Os russos estão migrando para os dois bancos estatais, o VTB e o Sberbank. O governo já disponibilizou US$ 200 bilhões para manter o interbancário funcionando. Nos últimos dois meses, ao menos três bancos médios ou pequenos participaram de processos de fusões para poderem se manter.
Como destaca o Financial Times, "por enquanto o aperto no crédito mundial (credit crunch) ainda não afetou o patamar de vida dos russos, mas uma leva de bancos falindo afetará".
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São Paulo de hipócritas
Caro leitor, estamos vivendo períodos difíceis aqui em São Paulo. De um lado, a candidata da esquerda, Marta Suplicy (PT) lança uma propaganda de rádio e televisão preconceituosa contra seu adversário Gilberto Kassab (DEM). Do outro, a imprensa cai matando de maneira desleal.
Marta é uma histórica defensora dos direitos dos homossexuais. É dela a Parada Gay, que paralisa a principal avenida de São Paulo uma vez ao ano. É uma manifestação popular, com apoio municipal, que tem caráter inclusivo, de inserir na sociedade uma cultura mais humana, de conviver com diferenças.
Marta lançou no domingo passado uma campanha que pergunta aos eleitores de Gilberto Kassab se ele é casado ou tem filhos. Kassab é solteiro e não tem filhos.
Qual é o interesse nisso? Seja ele o que for, isso fará dele um melhor ou pior administrador? Muda alguma coisa na vida de alguém saber a opção sexual de A ou B?
Marta deve ser criticada pela decisão ridícula de levar isso à frente. Não apenas seu marqueteiro, que bolou a campanha pensando em pegar os votos dos religiosos e conservadores que votaram em Alckmin (PSDB) no primeiro turno. Aqueles eleitores que se preocupam com a vida íntima dos outros.
Marta foi hipócrita. A imprensa não pode ser também.
Sabem quem está soltando os cachorros para cima de Marta? O blogueiro da revista Veja. Entre os jornalistas mais sérios, o sujeito, Reinaldo Azevedo, é conhecido como "pitbull" da Veja. Quando a direção da revista define um nome ou uma figura pública a ser assassinada, é Reinaldo quem pula primeiro, com ataques desqualificadores.
Porque digo que há hipocrisia por parte da imprensa?
Vejam o que o homem que critica o preconceito de Marta Suplicy já escreveu no passado:
Em 28 de maio do ano passado, Reinaldo aprovou comentário do leitor que assinou como "Krystlonc". O leitor chamava atenção para nota do site da BBC sobre bar australiano que ganhou direito na Justiça local de barrar a entrada de heterossexuais. O leitor reproduziu a nota e escreveu no final: "Fico me perguntando: falta muito para o homosexualismo se tornar obrigatório?". O dono do blog aceitou e publicou o comentário.
Link: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/05/daqui-pouco-renan.html
Em seguida Reinaldo escreveu um texto sobre a notícia. Soltou todo seu preconceito contra homossexuais na nota. O texto foi repercutido pela internet, alcançado grupos organizados da sociedade, que criticaram. Reinaldo voltou ao tema, se defendendo. No link seguinte, está a "defesa" dele, quando ele reproduz o que escreveu: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/05/gays-contestam.html
Não é preciso checar textos pontuais. Uma pesquisa ampla, com os termos "gay" e "homossexual" ligados ao "blog do Reinaldo Azevedo" e "revista Veja" e o leitor pode ver o que estou querendo dizer.
Link: http://www.google.com/search?hl=en&lr=&as_qdr=all&q=gay+OR+homossexual+site%3Ahttp%3A%2F%2Fveja.abril.com.br%2Fblogs%2Freinaldo&btnG=Search
Pois bem. Esse homem está criticando a campanha de Marta Suplicy.
Hipocrisia na política, hipocrisia na mídia. Hipocrisia em tudo quanto é lugar. Dá nojo.
****
Em tempo. Idelber Avelar escreveu um artigo excelente sobre a hipocrisia dos dois lados no seu blog "O Biscoito Fino e a Massa". Para quem interessar, segue o link: http://www.idelberavelar.com/archives/2008/10/homofobia_e_falsa_indignacao.php
Marta é uma histórica defensora dos direitos dos homossexuais. É dela a Parada Gay, que paralisa a principal avenida de São Paulo uma vez ao ano. É uma manifestação popular, com apoio municipal, que tem caráter inclusivo, de inserir na sociedade uma cultura mais humana, de conviver com diferenças.
Marta lançou no domingo passado uma campanha que pergunta aos eleitores de Gilberto Kassab se ele é casado ou tem filhos. Kassab é solteiro e não tem filhos.
Qual é o interesse nisso? Seja ele o que for, isso fará dele um melhor ou pior administrador? Muda alguma coisa na vida de alguém saber a opção sexual de A ou B?
Marta deve ser criticada pela decisão ridícula de levar isso à frente. Não apenas seu marqueteiro, que bolou a campanha pensando em pegar os votos dos religiosos e conservadores que votaram em Alckmin (PSDB) no primeiro turno. Aqueles eleitores que se preocupam com a vida íntima dos outros.
Marta foi hipócrita. A imprensa não pode ser também.
Sabem quem está soltando os cachorros para cima de Marta? O blogueiro da revista Veja. Entre os jornalistas mais sérios, o sujeito, Reinaldo Azevedo, é conhecido como "pitbull" da Veja. Quando a direção da revista define um nome ou uma figura pública a ser assassinada, é Reinaldo quem pula primeiro, com ataques desqualificadores.
Porque digo que há hipocrisia por parte da imprensa?
Vejam o que o homem que critica o preconceito de Marta Suplicy já escreveu no passado:
Em 28 de maio do ano passado, Reinaldo aprovou comentário do leitor que assinou como "Krystlonc". O leitor chamava atenção para nota do site da BBC sobre bar australiano que ganhou direito na Justiça local de barrar a entrada de heterossexuais. O leitor reproduziu a nota e escreveu no final: "Fico me perguntando: falta muito para o homosexualismo se tornar obrigatório?". O dono do blog aceitou e publicou o comentário.
Link: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/05/daqui-pouco-renan.html
Em seguida Reinaldo escreveu um texto sobre a notícia. Soltou todo seu preconceito contra homossexuais na nota. O texto foi repercutido pela internet, alcançado grupos organizados da sociedade, que criticaram. Reinaldo voltou ao tema, se defendendo. No link seguinte, está a "defesa" dele, quando ele reproduz o que escreveu: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/05/gays-contestam.html
Não é preciso checar textos pontuais. Uma pesquisa ampla, com os termos "gay" e "homossexual" ligados ao "blog do Reinaldo Azevedo" e "revista Veja" e o leitor pode ver o que estou querendo dizer.
Link: http://www.google.com/search?hl=en&lr=&as_qdr=all&q=gay+OR+homossexual+site%3Ahttp%3A%2F%2Fveja.abril.com.br%2Fblogs%2Freinaldo&btnG=Search
Pois bem. Esse homem está criticando a campanha de Marta Suplicy.
Hipocrisia na política, hipocrisia na mídia. Hipocrisia em tudo quanto é lugar. Dá nojo.
****
Em tempo. Idelber Avelar escreveu um artigo excelente sobre a hipocrisia dos dois lados no seu blog "O Biscoito Fino e a Massa". Para quem interessar, segue o link: http://www.idelberavelar.com/archives/2008/10/homofobia_e_falsa_indignacao.php
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Socializando as dívidas
Hoje pela manhã, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou que o Tesouro americano terá liberdade para comprar ações de bancos e instituições financeiras que estejam precisando de dinheiro. Logo em seguida, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ao lado do presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, explicou melhor as medidas.
Dos US$ 700 bilhões aprovados pelo Congresso americano há duas semanas para salvar o sistema financeiro, o equivalente a US$ 250 bilhões poderão ser usados livremente pelo Tesouro para comprar ações.
Ao comprar ações, o governo passa a ser sócio da empresa - no caso, dos bancos e instituições financeiras ajudadas. Quanto mais perto da falência estiver um banco, mais ações o governo vai comprar. Quanto mais ações o governo comprar, mais o governo vai mandar nesses bancos.
É a mesma coisa que o conjunto de 15 países da União Européia anunciaram ontem, que gerou um dia de euforia no mercado. Começou com a Alemanha, anunciando que garantiria todos os depósitos de cidadãos em bancos nacionais. Isso pressionou outros países. A Irlanda fez o mesmo. Depois a França, Inglaterra, Espanha e até Portugal, que tem pouco a ver. O pânico tomou todos. E todos os governos tiveram de agir. Vão garantir os depósitos e comprar ações de bancos deficitários.
Os Estados Unidos ainda não assumiram os depósitos - seria pedir demais. Mas deram hoje o primeiro passo, ao anunciar o pacote de compra de ações privadas.
O secretário do Tesouro, Henry Paulson, disse o seguinte sobre as medidas:
"Hoje estamos tomando ações decisivas para proteger a economia dos EUA. Lamentamos ter de tomar essas ações. As medidas de hoje são o que jamais quisemos fazer - mas elas são o que precisamos fazer para restaurar a confiança em nosso sistema financeiro".
O lucro era privado. E agora com a crise, divide-se a dívida com toda a sociedade. Antes se apregoava o Estado mínimo. Hoje se faz lobby para que o Estado se torne sócio de instituições privadas.
O dia 14 de outubro de 2008 fica marcado como o dia em que todo um discurso foi colocado por terra.
Viva a República dos Estados Socialistas Unidos.
Dos US$ 700 bilhões aprovados pelo Congresso americano há duas semanas para salvar o sistema financeiro, o equivalente a US$ 250 bilhões poderão ser usados livremente pelo Tesouro para comprar ações.
Ao comprar ações, o governo passa a ser sócio da empresa - no caso, dos bancos e instituições financeiras ajudadas. Quanto mais perto da falência estiver um banco, mais ações o governo vai comprar. Quanto mais ações o governo comprar, mais o governo vai mandar nesses bancos.
É a mesma coisa que o conjunto de 15 países da União Européia anunciaram ontem, que gerou um dia de euforia no mercado. Começou com a Alemanha, anunciando que garantiria todos os depósitos de cidadãos em bancos nacionais. Isso pressionou outros países. A Irlanda fez o mesmo. Depois a França, Inglaterra, Espanha e até Portugal, que tem pouco a ver. O pânico tomou todos. E todos os governos tiveram de agir. Vão garantir os depósitos e comprar ações de bancos deficitários.
Os Estados Unidos ainda não assumiram os depósitos - seria pedir demais. Mas deram hoje o primeiro passo, ao anunciar o pacote de compra de ações privadas.
O secretário do Tesouro, Henry Paulson, disse o seguinte sobre as medidas:
"Hoje estamos tomando ações decisivas para proteger a economia dos EUA. Lamentamos ter de tomar essas ações. As medidas de hoje são o que jamais quisemos fazer - mas elas são o que precisamos fazer para restaurar a confiança em nosso sistema financeiro".
O lucro era privado. E agora com a crise, divide-se a dívida com toda a sociedade. Antes se apregoava o Estado mínimo. Hoje se faz lobby para que o Estado se torne sócio de instituições privadas.
O dia 14 de outubro de 2008 fica marcado como o dia em que todo um discurso foi colocado por terra.
Viva a República dos Estados Socialistas Unidos.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Mentiras de mercado
No dia 11 de julho passado o preço de um barril de petróleo alcançou US$ 147,27, pico histórico. Poucos dias depois, no 1º de agosto, o dólar chegou a valer R$ 1,55, a menor cotação aqui no Brasil.
Ontem, o petróleo fechou valendo US$ 86,60. E o dólar valendo R$ 2,20.
Quanto caiu o petróleo? Resposta: 41,2%.
Quanto subiu o real? Resposta: 41%.
Portanto, esqueça os "arautos da inflação". Eles dizem que a desvalorização recente do real já está sendo incorporada nos preços dos produtos importados pelo Brasil.
Como se viu, é mentira. A queda do preço do petróleo - que o Brasil mesmo produzindo muito, ainda importa bastante - foi exatamente o mesmo valor de subida do real.
Ou seja, estamos pagando rigorosamente a mesma coisa que pagávamos antes. E para o petróleo exportado - produzido no Brasil e vendido para outros países - a conta é a mesma. O preço do produto caiu, mas a taxa de câmbio acompanhou.
Inflação de preços, por enquanto, é terrorismo barato.
Ontem, o petróleo fechou valendo US$ 86,60. E o dólar valendo R$ 2,20.
Quanto caiu o petróleo? Resposta: 41,2%.
Quanto subiu o real? Resposta: 41%.
Portanto, esqueça os "arautos da inflação". Eles dizem que a desvalorização recente do real já está sendo incorporada nos preços dos produtos importados pelo Brasil.
Como se viu, é mentira. A queda do preço do petróleo - que o Brasil mesmo produzindo muito, ainda importa bastante - foi exatamente o mesmo valor de subida do real.
Ou seja, estamos pagando rigorosamente a mesma coisa que pagávamos antes. E para o petróleo exportado - produzido no Brasil e vendido para outros países - a conta é a mesma. O preço do produto caiu, mas a taxa de câmbio acompanhou.
Inflação de preços, por enquanto, é terrorismo barato.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Repique cambial
O dólar fechou ontem valendo R$ 2,31. O problema não está na cotação. Em 2006 estava a R$ 2,31, e ninguém reclamava de inflação. A questão está no repique do câmbio. Desde agosto o real sofreu uma maxidesvalorização de 29%.
Esse salto é que quebrou as pernas da Sadia e da Aracruz, que já cieram ao mercado demonstrar perdas milionárias - no caso da Sadia - e bilionárias - no caso da Aracruz - por operações de venda de dólar futuro. Em 1º de agosto o dólar valia R$ 1,55. Hoje vale R$ 2,31.
Mais empresas virão a campo anunciar perdas com contratos futuros de câmbio. Apostando que o real continuaria caindo no fosso, os diretores financeiros de companhias exportadoras fecharam contratos de venda de dólares futuros em faixas baixas (entre R$ 1,60 e R$ 1,70) e acusaram a perda quando tiveram de honrar esses contratos em tempos de repique. O hedge, nesse caso, teve efeito reverso.
Reverso também é a palavra de ordem do Banco Central há anos. O BC intervem no mercado apenas por meio da negociação de contratos de swap cambial reverso, quando vende dólares caso o real caia e pague o diferencial de juros em determinado período.
O imobilismo do BC foi quebrado com as medidas anunciadas na noite da segunda-feira pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central. O comunicado em conjunto foi um sinal positivo ao mercado de que o governo está atento e agindo conforme a maré. Isso é importante. O país é movido pelos ânimos do mercado. Quem acompanhou as eleições presidenciais de 2002 sabe do que o mercado é capaz de fazer com um país.
O governo entrou em campo atuando na ponta que interessa. De fato, esse repique no câmbio não é inflacionário. Será se o repique se prolongar no tempo, durando meses. Mas ainda assim será uma inflação controlável por medidas de controle de crédito, sem elevação substancial de juros.
A questão é que investidores, especuladores e participantes do mercado globalizado estão todos morrendo de medo de um monte de coisas. Que o pacote de US$ 700 bilhões dos EUA não seja suficiente, que as novas medidas do Fed (de US$ 900 bilhões...e a dívida americana aumentando...) não seja suficiente, que a União Européia entre em crise, etc. etc.
Então estão todos desmontando posições arriscadas e migrando para o bom e velho título do Tesouro americano. Essa retirada de dólares do mercado é que está fazendo o câmbio de países de moedas não conversíveis - como o nosso real - subirem.
A ação integrada entre Fazenda e BC anunciada na noite de segunda é interessante. A idéia é o governo brasileiro intervir no mercado entrando com dólares, segurando a subida do câmbio. Não se trata de uma venda pura de dólares, mas de usar as reservas com o objetivo de ampliá-las porque o juro cobrado no crédito externo será maior que o rendimento dos papéis do Tesouro americano, mesmo que a operação seja triangular, por meio da aquisição de títulos emitidos por bancos nacionais.
A medida alcançará apenas as empresas exportadoras, que necessitam de moeda, e que não estão encontrando porque os bancos brasileiros estão com medo (!!) de emprestar. O governo entra comprando títulos dos bancos, que ficam com dinheiro em caixa e emprestam para as empresas. Ao mesmo tempo, remuneram os títulos que ficarem nas mãos do governo. A remuneração acertada provavelmente seguirá as taxas de redesconto praticadas no Brasil, algo em torno de 10% acima da remuneração obtida pelos tradicionais títulos do Tesouro dos EUA.
Se tudo der certo, uma operação pontual, que visa interesse nacional e amplia a remuneração de nossas reservas. Na ponta, pode surgir uma operação mais interessante que financiar o consumo americano por meio das reservas.
Esse salto é que quebrou as pernas da Sadia e da Aracruz, que já cieram ao mercado demonstrar perdas milionárias - no caso da Sadia - e bilionárias - no caso da Aracruz - por operações de venda de dólar futuro. Em 1º de agosto o dólar valia R$ 1,55. Hoje vale R$ 2,31.
Mais empresas virão a campo anunciar perdas com contratos futuros de câmbio. Apostando que o real continuaria caindo no fosso, os diretores financeiros de companhias exportadoras fecharam contratos de venda de dólares futuros em faixas baixas (entre R$ 1,60 e R$ 1,70) e acusaram a perda quando tiveram de honrar esses contratos em tempos de repique. O hedge, nesse caso, teve efeito reverso.
Reverso também é a palavra de ordem do Banco Central há anos. O BC intervem no mercado apenas por meio da negociação de contratos de swap cambial reverso, quando vende dólares caso o real caia e pague o diferencial de juros em determinado período.
O imobilismo do BC foi quebrado com as medidas anunciadas na noite da segunda-feira pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central. O comunicado em conjunto foi um sinal positivo ao mercado de que o governo está atento e agindo conforme a maré. Isso é importante. O país é movido pelos ânimos do mercado. Quem acompanhou as eleições presidenciais de 2002 sabe do que o mercado é capaz de fazer com um país.
O governo entrou em campo atuando na ponta que interessa. De fato, esse repique no câmbio não é inflacionário. Será se o repique se prolongar no tempo, durando meses. Mas ainda assim será uma inflação controlável por medidas de controle de crédito, sem elevação substancial de juros.
A questão é que investidores, especuladores e participantes do mercado globalizado estão todos morrendo de medo de um monte de coisas. Que o pacote de US$ 700 bilhões dos EUA não seja suficiente, que as novas medidas do Fed (de US$ 900 bilhões...e a dívida americana aumentando...) não seja suficiente, que a União Européia entre em crise, etc. etc.
Então estão todos desmontando posições arriscadas e migrando para o bom e velho título do Tesouro americano. Essa retirada de dólares do mercado é que está fazendo o câmbio de países de moedas não conversíveis - como o nosso real - subirem.
A ação integrada entre Fazenda e BC anunciada na noite de segunda é interessante. A idéia é o governo brasileiro intervir no mercado entrando com dólares, segurando a subida do câmbio. Não se trata de uma venda pura de dólares, mas de usar as reservas com o objetivo de ampliá-las porque o juro cobrado no crédito externo será maior que o rendimento dos papéis do Tesouro americano, mesmo que a operação seja triangular, por meio da aquisição de títulos emitidos por bancos nacionais.
A medida alcançará apenas as empresas exportadoras, que necessitam de moeda, e que não estão encontrando porque os bancos brasileiros estão com medo (!!) de emprestar. O governo entra comprando títulos dos bancos, que ficam com dinheiro em caixa e emprestam para as empresas. Ao mesmo tempo, remuneram os títulos que ficarem nas mãos do governo. A remuneração acertada provavelmente seguirá as taxas de redesconto praticadas no Brasil, algo em torno de 10% acima da remuneração obtida pelos tradicionais títulos do Tesouro dos EUA.
Se tudo der certo, uma operação pontual, que visa interesse nacional e amplia a remuneração de nossas reservas. Na ponta, pode surgir uma operação mais interessante que financiar o consumo americano por meio das reservas.
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terça-feira, 7 de outubro de 2008
Anotações sobre as eleições municipais
Rio de Janeiro:
A disputa no Rio de Janeiro foi das mais conservadoras e perigosas do país. Aliás, o conservadorismo é uma tendência alarmante nas três capitais de sempre: Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
Um candidato aparecia desde sempre muito forte: Marcelo Crivella, candidato do PRB (minúsculo, que conta com o vice federal José Alencar) e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A IURD, como se sabe, é a dona da Rede Record de televisão. A Record, como se sabe, é rival comercial da Rede Globo. A Rede Globo, como se sabe, é um dos braços das Organizações Globo. As Organizações Globo, como se sabe, começaram com um jornal, O Globo.
Ou seja: campanha maciça do jornal O Globo contra Marcelo Crivella desde o início. Trata-se do segundo maior jornal do Brasil (em tiragem de exemplares) e é hegemônico no Rio de Janeiro. Forma um consórcio dominante junto à Rádio Globo e à CBN e aos canais Globo na televisão (aberta e com a Globonews na TV a cabo). Do lado de Crivella, a rede Record, a Universal e seus fiéis, e uma aprovação muito boa, no início.
A Globo também movia (continua movendo) campanha com o "blogueiro que se diz prefeito do Rio", César Maia (DEM). César Maia, como se sabe, fez duas grandes realizações como prefeito: superfaturou todas as obras necessárias e desnecessárias para o Pan Americano de 2007, e criou um blog (chamado de "Ex-Blog"), que dispara e-mails diários. Um emprego muito conveniente, diga-se. Ganha dinheiro e não precisa tirar o pijama.
O quadro então era: o atual prefeito agonizava no cargo, esperando a hora de cair fora. O preferido nas pesquisas gerava uma guerra na mídia. E do outro lado tínhamos dois "portos seguros": Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV).
Foram eles os escolhidos pelos cariocas para disputarem o segundo turno.
Eduardo Paes chegou na frente. Tem uma história interessantíssima. Surgiu junto à César Maia, no primeiro mandato de César no Rio. Foi duas vezes secretário e se lançou à deputado federal. Foi bancado por ele e acabou sendo eleito. Depois passou ao PSDB e rompeu com César. Os holofotes vieram durante à CPI dos Correios entre 2005 e 2006. Era o mais assanhado dos deputados e senadores. Enquanto o pessoal mais sério investigava e inqueria, Paes lançava frases de efeito contra os petistas e especialmente contra Lula. Seu partido, o PSDB, dava base para tudo, claro.
Com a vitória de Sérgio Cabral (PMDB) ao governo do estado em 2006, Paes fez o que? Migrou para o PMDB. Mas o PMDB não é aliado do Lula?
Eduardo Paes passou então para sua terceira mudança. Acompanhem: de César Maia do DEM (ex-PFL) para o PSDB; de crítico do Lula e do PT, para PMDB, agora amigo de Lula e do PT.
E pode sair dessa como prefeito do Rio de Janeiro. *Dá até vontade de se candidatar e conseguir também, não dá?*
Contra ele está Fernando Gabeira. Mas o Gabeira de 2008 é uma versão diferente do famoso Gabeira pré-redemocratização. Aquele Gabeira era guerrilheiro. Este é corneteiro. Aquele sequestrou o embaixador dos Estados Unidos em 1969, em pleno governo Médici. Este esperneia no Congresso para chamar a atenção.
É filiado ao Partido Verde. Mas isso não importa para quem discute política. Talvez para o eleitor pequeno burguês da zona sul (que foi quem o colocou no segundo turno) isso importe. Este eleitor adora as aparências, adora saber que vota num candidato que é a favor das bicicletas, ligado ao meio ambiente, a favor da legalização das drogas (pero no mucho), etc.
Mas o que importa é que a coligação de Gabeira demonstra a que veio: PSDB e DEM. O PSDB de Arthur Virgílio, de FHC, de Serra e Alckmin. O DEM de Kassab e do clã dos Maia: César (prefeito do RJ) e seu filho Rodrigo (presidente do partido). César Maia, inclusive, anunciou hoje apoio a Gabeira.
Quer decisão mais conservadora que essa?
De um lado o ex-DEM, PSDB, atual PMDB Eduardo Paes. E do outro o atual DEM, PSDB, filiado ao PV Fernando Gabeira.
E qual era a alternativa? Marcelo Crivella e a Igreja Universal?
Triste.
A disputa no Rio de Janeiro foi das mais conservadoras e perigosas do país. Aliás, o conservadorismo é uma tendência alarmante nas três capitais de sempre: Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
Um candidato aparecia desde sempre muito forte: Marcelo Crivella, candidato do PRB (minúsculo, que conta com o vice federal José Alencar) e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A IURD, como se sabe, é a dona da Rede Record de televisão. A Record, como se sabe, é rival comercial da Rede Globo. A Rede Globo, como se sabe, é um dos braços das Organizações Globo. As Organizações Globo, como se sabe, começaram com um jornal, O Globo.
Ou seja: campanha maciça do jornal O Globo contra Marcelo Crivella desde o início. Trata-se do segundo maior jornal do Brasil (em tiragem de exemplares) e é hegemônico no Rio de Janeiro. Forma um consórcio dominante junto à Rádio Globo e à CBN e aos canais Globo na televisão (aberta e com a Globonews na TV a cabo). Do lado de Crivella, a rede Record, a Universal e seus fiéis, e uma aprovação muito boa, no início.
A Globo também movia (continua movendo) campanha com o "blogueiro que se diz prefeito do Rio", César Maia (DEM). César Maia, como se sabe, fez duas grandes realizações como prefeito: superfaturou todas as obras necessárias e desnecessárias para o Pan Americano de 2007, e criou um blog (chamado de "Ex-Blog"), que dispara e-mails diários. Um emprego muito conveniente, diga-se. Ganha dinheiro e não precisa tirar o pijama.
O quadro então era: o atual prefeito agonizava no cargo, esperando a hora de cair fora. O preferido nas pesquisas gerava uma guerra na mídia. E do outro lado tínhamos dois "portos seguros": Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV).
Foram eles os escolhidos pelos cariocas para disputarem o segundo turno.
Eduardo Paes chegou na frente. Tem uma história interessantíssima. Surgiu junto à César Maia, no primeiro mandato de César no Rio. Foi duas vezes secretário e se lançou à deputado federal. Foi bancado por ele e acabou sendo eleito. Depois passou ao PSDB e rompeu com César. Os holofotes vieram durante à CPI dos Correios entre 2005 e 2006. Era o mais assanhado dos deputados e senadores. Enquanto o pessoal mais sério investigava e inqueria, Paes lançava frases de efeito contra os petistas e especialmente contra Lula. Seu partido, o PSDB, dava base para tudo, claro.
Com a vitória de Sérgio Cabral (PMDB) ao governo do estado em 2006, Paes fez o que? Migrou para o PMDB. Mas o PMDB não é aliado do Lula?
Eduardo Paes passou então para sua terceira mudança. Acompanhem: de César Maia do DEM (ex-PFL) para o PSDB; de crítico do Lula e do PT, para PMDB, agora amigo de Lula e do PT.
E pode sair dessa como prefeito do Rio de Janeiro. *Dá até vontade de se candidatar e conseguir também, não dá?*
Contra ele está Fernando Gabeira. Mas o Gabeira de 2008 é uma versão diferente do famoso Gabeira pré-redemocratização. Aquele Gabeira era guerrilheiro. Este é corneteiro. Aquele sequestrou o embaixador dos Estados Unidos em 1969, em pleno governo Médici. Este esperneia no Congresso para chamar a atenção.
É filiado ao Partido Verde. Mas isso não importa para quem discute política. Talvez para o eleitor pequeno burguês da zona sul (que foi quem o colocou no segundo turno) isso importe. Este eleitor adora as aparências, adora saber que vota num candidato que é a favor das bicicletas, ligado ao meio ambiente, a favor da legalização das drogas (pero no mucho), etc.
Mas o que importa é que a coligação de Gabeira demonstra a que veio: PSDB e DEM. O PSDB de Arthur Virgílio, de FHC, de Serra e Alckmin. O DEM de Kassab e do clã dos Maia: César (prefeito do RJ) e seu filho Rodrigo (presidente do partido). César Maia, inclusive, anunciou hoje apoio a Gabeira.
Quer decisão mais conservadora que essa?
De um lado o ex-DEM, PSDB, atual PMDB Eduardo Paes. E do outro o atual DEM, PSDB, filiado ao PV Fernando Gabeira.
E qual era a alternativa? Marcelo Crivella e a Igreja Universal?
Triste.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Diálogo da crise
Entre todas maluquices promovidas pelos integrantes do capitalismo financeiro americano que geraram a atual crise nos mercados, um dos fatores mais chamativos foram os enormes bônus distribuídos aos presidentes e diretores de bancos e instituições financeiras.
Foi uma esbórnia.
Distribuíu-se dinheiro, muito dinheiro, como "bônus por resultado". Isto é, pegaram as teorias desenvolvidas no mundo da administração - de presentear ganhos de gestão e cumprimento de metas com dinheiro - e levaram às últimas consequências. Como nos Estados Unidos tudo é uma questão de remunerar os acionistas - que passam a investir mais conforme ganham mais e a empresa melhora - esses presidentes e diretores passaram a liberar todo tipo de operação para que a empresa desse muito dinheiro e para que assim eles embolsassem os lucros.
Deu no que deu. Bancos falindo, outros sendo resgatados por rivais com ajuda do governo - porque os rivais também estão mal - e uns sendo literalmente nacionalizados. O lucro foi privado e o prejuízo é de todos.
Pois bem.
Hoje, em sessão do Comitê de Supervisão e Reforma do Governo, instaladoa na Câmara dos Representantes (deputados) americana, ocorreu o diálogo que resume bem o que foram esses anos de excessos, que decambaram na crise atual.
Foi convocado o presidente do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. O Lehman deixou de existir da noite para o dia na manhã da segunda-feira 15 de setembro. Faliu. Seu (ex)presidente, Richard Fuld, responde as perguntas do presidente do Comitê no Congresso americano, Henry Waxman. Vejam.
Henry Waxman - É verdade que o senhor recebeu 480 milhões de dólares em salários e bônus entre os anos de 2000 e 2008?
Richard Fuld - Não, senhor.
Henry Waxman - Quanto foi então?
Richard Fuld - 300 milhões de dólares.
Henry Waxman - Você acha isso justo?
Richard Fuld - Minha conduta foi prudente e apropriada.
No diálogo fica claro como se deu a transferência de recursos ("bônus") para presidentes de bancos nos tempos do "vale tudo". E percebam vocês. Apenas o salário de um presidente de banco de investimento (o quarto entre tantas outras instituições financeiras) equivale a 43% de todo o dinheiro que o governo americano penou para aprovar no Congresso na semana passada, que irá irrigar todo o mercado financeiro.
Viva o capitalismo.
Foi uma esbórnia.
Distribuíu-se dinheiro, muito dinheiro, como "bônus por resultado". Isto é, pegaram as teorias desenvolvidas no mundo da administração - de presentear ganhos de gestão e cumprimento de metas com dinheiro - e levaram às últimas consequências. Como nos Estados Unidos tudo é uma questão de remunerar os acionistas - que passam a investir mais conforme ganham mais e a empresa melhora - esses presidentes e diretores passaram a liberar todo tipo de operação para que a empresa desse muito dinheiro e para que assim eles embolsassem os lucros.
Deu no que deu. Bancos falindo, outros sendo resgatados por rivais com ajuda do governo - porque os rivais também estão mal - e uns sendo literalmente nacionalizados. O lucro foi privado e o prejuízo é de todos.
Pois bem.
Hoje, em sessão do Comitê de Supervisão e Reforma do Governo, instaladoa na Câmara dos Representantes (deputados) americana, ocorreu o diálogo que resume bem o que foram esses anos de excessos, que decambaram na crise atual.
Foi convocado o presidente do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. O Lehman deixou de existir da noite para o dia na manhã da segunda-feira 15 de setembro. Faliu. Seu (ex)presidente, Richard Fuld, responde as perguntas do presidente do Comitê no Congresso americano, Henry Waxman. Vejam.
Henry Waxman - É verdade que o senhor recebeu 480 milhões de dólares em salários e bônus entre os anos de 2000 e 2008?
Richard Fuld - Não, senhor.
Henry Waxman - Quanto foi então?
Richard Fuld - 300 milhões de dólares.
Henry Waxman - Você acha isso justo?
Richard Fuld - Minha conduta foi prudente e apropriada.
No diálogo fica claro como se deu a transferência de recursos ("bônus") para presidentes de bancos nos tempos do "vale tudo". E percebam vocês. Apenas o salário de um presidente de banco de investimento (o quarto entre tantas outras instituições financeiras) equivale a 43% de todo o dinheiro que o governo americano penou para aprovar no Congresso na semana passada, que irá irrigar todo o mercado financeiro.
Viva o capitalismo.
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domingo, 5 de outubro de 2008
Anotações sobre as eleições municipais
São Paulo:
Incrível a queda de Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno em Sâo Paulo. Ele ficou de fora e terá por volta de 20% dos votos. Incrível também a subida de Gilberto Kassab (DEM) - vice em exercício, uma vez que o prefeito eleito em 2004 José "Jânio Quadros" Serra pulou para o governo do estado. Kassab estava atrás de Alckmin nas primeiras pesquisas de voto (tanto Datafolha quanto Ibope). Acabou subindo e encostou em Marta Suplicy (PT). Ambos disputarão o segundo turno.
Alckmin saiu candidato pelo PSDB. Foi um ato impensado. No jogo partidário, tucanos (PSDB) e demos (DEM, ex-PFL) sempre estiveram no mesmo barco. Os DEM sempre foram vices dos tucanos. Aliás, quando Alckmin era candidato à presidência da República em 2006, seu vice, José Jorge, era do DEM. Como o prefeito eleito em 2004, José Serra ("Eu prometo não sair da prefeitura") saiu da prefeitura em 2006 para disputar o governo - acabou eleito - deixou seu vice, Gilberto Kassab no posto. Nada mais natural, tendo experiência nesses jogos, que o PSDB dessa vez indicasse o vice de Kassab.
Alckmin não quis. Depois da derrota nas eleições presidenciais de 2006, Alckmin se viu sem palanque e sem espaço. Julgou, junto a seu grupo no PSDB, que deveria apostar tudo na prefeitura, para manter a visibilidade.
Num primeiro momento foi muito hábil. Como havia sido em 2006. Contra a vontade partidária (entenda-se, Serra e FHC) se lançou candidato. Mas a partir daí, foi peremptoriamente esquecido e atacado. Aos poucos Kassab foi subindo e a turma dos indecisos do PSDB - que não estavam nem com Serra nem com Alckmin - foram pendendo para Kassab.
Bom dizer que Kassab contou com dois apoios inestimáveis para crescer tanto assim em tão pouco tempo: de José Serra e da mídia.
Ao mesmo tempo, Marta não conseguiu mexer em nada na sua aprovação ou rejeição. Ficou por cinco meses estacionada na faixa dos 30-35% de votos nas pesquisas, com uma taxa alta de reprovação. Seu maior problema no eleitorado é justamente onde Kassab e Alckmin vão bem: na classe média e nos religiosos.
Gilberto "outdoor comigo não" Kassab e Geraldo "Opus Dei, amém" Alckmin tem duas trincheiras bem definidas. Marta se sustenta com as classes mais baixas, especialmente com a ligação com Lula.
Falando nisso, o ponto mais engraçado de toda a campanha foi a relação dos candidatos com Lula. Como se sabe, Lula alcançou 80% de aprovação nas pesquisas Datafolha realizadas em setembro último.
*Aliás, um parêntesis. Para que valeu toda aquela massiva campanha de difamação de Lula e dos petistas movida pela mídia em 2006? O cara foi reeleito com 62% e hoje tem aprovação de 80%. Bom...deixa para lá. Fecha parêntesis*
Com a aprovação gigantesca do presidente, todos querem se colar nele. É óbvio. É política. Marta Suplicy, por ser do mesmo partido, teve todas as regalias para aproveitar. Não soube. Ficou estacionada nos 30-35%.
O engraçado, como ia dizendo, estava no comportamento dos outros dois. Gilberto Kassab chegou a ser condenado pela Justiça eleitoral à pagar determinada quantia por ter colado a imagem de Lula à dele em santinhos distribuídos pela cidade. Nenhum respeito a lógica de que o DEM é o principal partido de oposição ao Lula. Quem liga para isso, não é?
E Geraldo Alckmin, que acusou Lula de ladrão, de chefe de quadrilha, de ignorante por não saber de esquemas, etc. e tal na campanha de 2006, afirmou, no debate promovido pela Rede Bandeirantes, que "Lula tudo bem, o problema é o PT". Queria dizer que a questão era vencer Marta, era vencer o PT em São Paulo. Mas daí a dizer, "Lula tudo bem" é brincadeira não acha? Se Lula estivesse com 26% de aprovação, será que Alckmin diria num debate televisivo que "Lula tudo bem"?
*Aliás, 26% de aprovação era quanto nosso Líder Fernando "se bobear eu vendo" Henrique "esqueçam o que eu disse" Cardoso, o FHC, tinha em seu segundo ano no segundo mandato (2000). FHC, como se sabe, é do mesmo partido de Alckmin.*
A questão maior, agora que o segundo turno está entre Marta e Kassab, será em como um aproveitará a imagem de Lula (Marta) e como se darão as alianças (Kassab).
Isso porque o PSDB agora irá sem medo de ser feliz embarcar com tudo no Kassab; a Soninha já declarou que apoiará Kassab; Maluf é apadrinhado político de Kassab. Ou seja, à Marta restará usar bem a ligação com Lula contra essa turma toda.
Incrível a queda de Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno em Sâo Paulo. Ele ficou de fora e terá por volta de 20% dos votos. Incrível também a subida de Gilberto Kassab (DEM) - vice em exercício, uma vez que o prefeito eleito em 2004 José "Jânio Quadros" Serra pulou para o governo do estado. Kassab estava atrás de Alckmin nas primeiras pesquisas de voto (tanto Datafolha quanto Ibope). Acabou subindo e encostou em Marta Suplicy (PT). Ambos disputarão o segundo turno.
Alckmin saiu candidato pelo PSDB. Foi um ato impensado. No jogo partidário, tucanos (PSDB) e demos (DEM, ex-PFL) sempre estiveram no mesmo barco. Os DEM sempre foram vices dos tucanos. Aliás, quando Alckmin era candidato à presidência da República em 2006, seu vice, José Jorge, era do DEM. Como o prefeito eleito em 2004, José Serra ("Eu prometo não sair da prefeitura") saiu da prefeitura em 2006 para disputar o governo - acabou eleito - deixou seu vice, Gilberto Kassab no posto. Nada mais natural, tendo experiência nesses jogos, que o PSDB dessa vez indicasse o vice de Kassab.
Alckmin não quis. Depois da derrota nas eleições presidenciais de 2006, Alckmin se viu sem palanque e sem espaço. Julgou, junto a seu grupo no PSDB, que deveria apostar tudo na prefeitura, para manter a visibilidade.
Num primeiro momento foi muito hábil. Como havia sido em 2006. Contra a vontade partidária (entenda-se, Serra e FHC) se lançou candidato. Mas a partir daí, foi peremptoriamente esquecido e atacado. Aos poucos Kassab foi subindo e a turma dos indecisos do PSDB - que não estavam nem com Serra nem com Alckmin - foram pendendo para Kassab.
Bom dizer que Kassab contou com dois apoios inestimáveis para crescer tanto assim em tão pouco tempo: de José Serra e da mídia.
Ao mesmo tempo, Marta não conseguiu mexer em nada na sua aprovação ou rejeição. Ficou por cinco meses estacionada na faixa dos 30-35% de votos nas pesquisas, com uma taxa alta de reprovação. Seu maior problema no eleitorado é justamente onde Kassab e Alckmin vão bem: na classe média e nos religiosos.
Gilberto "outdoor comigo não" Kassab e Geraldo "Opus Dei, amém" Alckmin tem duas trincheiras bem definidas. Marta se sustenta com as classes mais baixas, especialmente com a ligação com Lula.
Falando nisso, o ponto mais engraçado de toda a campanha foi a relação dos candidatos com Lula. Como se sabe, Lula alcançou 80% de aprovação nas pesquisas Datafolha realizadas em setembro último.
*Aliás, um parêntesis. Para que valeu toda aquela massiva campanha de difamação de Lula e dos petistas movida pela mídia em 2006? O cara foi reeleito com 62% e hoje tem aprovação de 80%. Bom...deixa para lá. Fecha parêntesis*
Com a aprovação gigantesca do presidente, todos querem se colar nele. É óbvio. É política. Marta Suplicy, por ser do mesmo partido, teve todas as regalias para aproveitar. Não soube. Ficou estacionada nos 30-35%.
O engraçado, como ia dizendo, estava no comportamento dos outros dois. Gilberto Kassab chegou a ser condenado pela Justiça eleitoral à pagar determinada quantia por ter colado a imagem de Lula à dele em santinhos distribuídos pela cidade. Nenhum respeito a lógica de que o DEM é o principal partido de oposição ao Lula. Quem liga para isso, não é?
E Geraldo Alckmin, que acusou Lula de ladrão, de chefe de quadrilha, de ignorante por não saber de esquemas, etc. e tal na campanha de 2006, afirmou, no debate promovido pela Rede Bandeirantes, que "Lula tudo bem, o problema é o PT". Queria dizer que a questão era vencer Marta, era vencer o PT em São Paulo. Mas daí a dizer, "Lula tudo bem" é brincadeira não acha? Se Lula estivesse com 26% de aprovação, será que Alckmin diria num debate televisivo que "Lula tudo bem"?
*Aliás, 26% de aprovação era quanto nosso Líder Fernando "se bobear eu vendo" Henrique "esqueçam o que eu disse" Cardoso, o FHC, tinha em seu segundo ano no segundo mandato (2000). FHC, como se sabe, é do mesmo partido de Alckmin.*
A questão maior, agora que o segundo turno está entre Marta e Kassab, será em como um aproveitará a imagem de Lula (Marta) e como se darão as alianças (Kassab).
Isso porque o PSDB agora irá sem medo de ser feliz embarcar com tudo no Kassab; a Soninha já declarou que apoiará Kassab; Maluf é apadrinhado político de Kassab. Ou seja, à Marta restará usar bem a ligação com Lula contra essa turma toda.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Congresso americano acertou
A crise financeira americana agora caminha para passos mais lógicos. Menos irracionais seria mais apropriado. Mas à frente continua uma enorme sombra. O que virá? O que pode acontecer?
O Congresso americano agiu certo ao não aprovar o pacote de salvamento do sistema financeiro na segunda-feira. Toda a queda dos mercados, os anúncios de crise sistêmica, de falta de sensibilidade que se fizeram ouvir pelos quatro cantos na segunda à tarde e nos dias seguintes não tinham sentido. Faltou análise.
Explico.
Com a crise explodindo (com as falências de bancos de investimentos e bancos tradicionais) o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, criou um projeto que solicitava a liberação de 700 bilhões de dólares para que ele, Paulson, distribuisse aos bancos em falência.
Primeiro que não era um projeto propriamente dito. Eram três páginas curtas e grossas. Segundo que o secretário pedia 700 bilhões e não previa a prerrogativa de dizer onde iria aplicar e quais os critérios. Literalmente pediu um cheque em branco.
É bom lembrar que antes de assumir a secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson era o presidente mundial do Goldman Sachs, o maior banco de investimentos dos EUA. O Goldman Sachs e o Morgan Stanley são os dois únicos bancos de investimentos que permanecem vivos. Ainda.
Era mais uma ordem inconsequente de um governo inconsequente e falido. George W. Bush deixa a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2009 como um dos piores presidentes da história do país. Cortou impostos dos ricos, entrou em duas guerras malucas (sem motivo, iniciando uma carnificina desnecessária e criminosa em todos os sentidos), aumentou gastos com armas e petróleo, e finalmente colheu uma bolha imobiliária que está jogando seu país em recessão. Deixará um déficit impagável no Orçamento americano. Bom lembrar que ele pegou o orçamento equilibrado, depois que Bill Clinton arrumou a casa, que estava arrombada pelo antecessor.
Abre parêntesis. O antecessor de Bill Clinton é George Bush. Papai do atual presidente. Fecha parêntesis.
Em todos esses fatores a posição inicial de Bush sempre foi de arrogância. Combinou seu despreparo para liderar com uma equipe de lobbistas no poder e passou por cima de instituições inteiras (como a ONU), pouco se lixando para a sociedade.
Novo parêntesis. A sociedade americana tem culpa no cartório. Apoiou de olhos fechados as duas guerras que o chefão entrou de cabeça. Agora tem de pagar o pato. Fecha parêntesis.
E como último ato, permitiu que seu secretário enviasse um "projeto" de três páginas para que o Congresso aprovasse sem perguntar para onde iriam mais 700 bilhões de dólares.
O que fez o Congresso? Rejeitou, fazendo retornar a idéia ao Senado, que discutiu amplamente, colocou uma série de prerrogativas, aumentou o colchão para 850 bilhões, instituiu controle na liberação de recursos, no pagamento de bônus aos diretores dos bancos em dificuldades, cortou impostos da classe média e insentou tributos de empresas. O projeto - agora com 450 páginas - foi aprovado hoje pelos deputados (Câmara dos Representantes, como chamam por lá).
Claro, há um monte de implicações eleitorais nessa atitude do Congresso. As eleições de novembro não são apenas para presidente, mas também renovarão dois terços dos deputados e um terço dos senadores. Estão todos de olho na reeleição - portanto, preocupados pela primeira vez na vida em fazer algo bom à sociedade.
Mas isso é análise partidária. A questão é outra. O projeto não passou da maneira inicial. O mundo não acabou por conta disso (embora mais especuladores tenham perdido dinheiro nas Bolsas). O secretário Paulson agora tem toda a sociedade olhando seus atos. E Bush sofre mais uma chamuscada na presidência.
Agora é aguardar sua saída para que seja processado criminalmente por crimes contra a humanidade. Por autoridade ou leniência quanto à práticas de torturas em prisões de inimigos em solo americano. Não foi por essas razões que os Estados Unidos entraram no Iraque para tirar o Saddam Hussein? Não foi por essas razões que Saddam Hussein foi preso e processado?
E o que aconteceu com Saddam Hussein depois disso?
O Congresso americano agiu certo ao não aprovar o pacote de salvamento do sistema financeiro na segunda-feira. Toda a queda dos mercados, os anúncios de crise sistêmica, de falta de sensibilidade que se fizeram ouvir pelos quatro cantos na segunda à tarde e nos dias seguintes não tinham sentido. Faltou análise.
Explico.
Com a crise explodindo (com as falências de bancos de investimentos e bancos tradicionais) o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, criou um projeto que solicitava a liberação de 700 bilhões de dólares para que ele, Paulson, distribuisse aos bancos em falência.
Primeiro que não era um projeto propriamente dito. Eram três páginas curtas e grossas. Segundo que o secretário pedia 700 bilhões e não previa a prerrogativa de dizer onde iria aplicar e quais os critérios. Literalmente pediu um cheque em branco.
É bom lembrar que antes de assumir a secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson era o presidente mundial do Goldman Sachs, o maior banco de investimentos dos EUA. O Goldman Sachs e o Morgan Stanley são os dois únicos bancos de investimentos que permanecem vivos. Ainda.
Era mais uma ordem inconsequente de um governo inconsequente e falido. George W. Bush deixa a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2009 como um dos piores presidentes da história do país. Cortou impostos dos ricos, entrou em duas guerras malucas (sem motivo, iniciando uma carnificina desnecessária e criminosa em todos os sentidos), aumentou gastos com armas e petróleo, e finalmente colheu uma bolha imobiliária que está jogando seu país em recessão. Deixará um déficit impagável no Orçamento americano. Bom lembrar que ele pegou o orçamento equilibrado, depois que Bill Clinton arrumou a casa, que estava arrombada pelo antecessor.
Abre parêntesis. O antecessor de Bill Clinton é George Bush. Papai do atual presidente. Fecha parêntesis.
Em todos esses fatores a posição inicial de Bush sempre foi de arrogância. Combinou seu despreparo para liderar com uma equipe de lobbistas no poder e passou por cima de instituições inteiras (como a ONU), pouco se lixando para a sociedade.
Novo parêntesis. A sociedade americana tem culpa no cartório. Apoiou de olhos fechados as duas guerras que o chefão entrou de cabeça. Agora tem de pagar o pato. Fecha parêntesis.
E como último ato, permitiu que seu secretário enviasse um "projeto" de três páginas para que o Congresso aprovasse sem perguntar para onde iriam mais 700 bilhões de dólares.
O que fez o Congresso? Rejeitou, fazendo retornar a idéia ao Senado, que discutiu amplamente, colocou uma série de prerrogativas, aumentou o colchão para 850 bilhões, instituiu controle na liberação de recursos, no pagamento de bônus aos diretores dos bancos em dificuldades, cortou impostos da classe média e insentou tributos de empresas. O projeto - agora com 450 páginas - foi aprovado hoje pelos deputados (Câmara dos Representantes, como chamam por lá).
Claro, há um monte de implicações eleitorais nessa atitude do Congresso. As eleições de novembro não são apenas para presidente, mas também renovarão dois terços dos deputados e um terço dos senadores. Estão todos de olho na reeleição - portanto, preocupados pela primeira vez na vida em fazer algo bom à sociedade.
Mas isso é análise partidária. A questão é outra. O projeto não passou da maneira inicial. O mundo não acabou por conta disso (embora mais especuladores tenham perdido dinheiro nas Bolsas). O secretário Paulson agora tem toda a sociedade olhando seus atos. E Bush sofre mais uma chamuscada na presidência.
Agora é aguardar sua saída para que seja processado criminalmente por crimes contra a humanidade. Por autoridade ou leniência quanto à práticas de torturas em prisões de inimigos em solo americano. Não foi por essas razões que os Estados Unidos entraram no Iraque para tirar o Saddam Hussein? Não foi por essas razões que Saddam Hussein foi preso e processado?
E o que aconteceu com Saddam Hussein depois disso?
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