
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Viver em sociedade pode ser bom
Em artigo publicado n'O Globo de hoje, Respício Espírito Santo defende a privatização dos aeroportos. O título de seu artigo é claro: "Privatizar pode ser bom". O autor é presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo.
Eu nem sabia da existência desse órgão. Não sou tão bem informado assim, portanto. Mas se o sujeito que preside um instituto para pensar a estratégia de políticas públicas defende a privatização, é porque a coisa é séria.
"Vejamos quais as vantagens de uma concessão à iniciativa privada", escreve ele: "Maior rapidez e menor custo na captação de recursos financeiros; maior velocidade na contratação de profissionais e empresas; maior interesse em melhorar os serviços prestados; e uma grande oportunidade de concorrência entre os principais aeroportos".
No miolo dessas razões expostas pelo autor de "Privatizar pode ser bom", está uma que é crucial para entender toda e qualquer defesa de privatização em qualquer setor da economia.
"maior interesse em melhorar os serviços prestados". Aí está!
A questão de privatizar não está na ideologia (ser de direita ou de esquerda, ortodoxo ou heterodoxo, são paulino ou flamenguista). Está na sociedade em si.
O interesse maior em melhor os serviços prestados está no dinheiro. No valor de troca. Na clássica lei de dar alguma coisa para receber algo em troca. Da diferenciação monetária aqueles melhores posicionados. Na disputa por mais dinheiro.
O interesse não está no coletivo. Não está em prestar um serviço para o bem público. Isso é balela. O interesse está fazer algo para receber o din-din. Vivemos numa sociedade de indivíduos, em que o interesse privado, do ser como isolado e autosuficiente, domina o interesse da maioria. A pessoa hoje não precisa dos outros. Aliás, se pudesse, não teria qualquer contato com outros seres.
Mas do que eu entendo? Sou apenas um sonhador de 21 anos recém completados.
Eu nem sabia da existência desse órgão. Não sou tão bem informado assim, portanto. Mas se o sujeito que preside um instituto para pensar a estratégia de políticas públicas defende a privatização, é porque a coisa é séria.
"Vejamos quais as vantagens de uma concessão à iniciativa privada", escreve ele: "Maior rapidez e menor custo na captação de recursos financeiros; maior velocidade na contratação de profissionais e empresas; maior interesse em melhorar os serviços prestados; e uma grande oportunidade de concorrência entre os principais aeroportos".
No miolo dessas razões expostas pelo autor de "Privatizar pode ser bom", está uma que é crucial para entender toda e qualquer defesa de privatização em qualquer setor da economia.
"maior interesse em melhorar os serviços prestados". Aí está!
A questão de privatizar não está na ideologia (ser de direita ou de esquerda, ortodoxo ou heterodoxo, são paulino ou flamenguista). Está na sociedade em si.
O interesse maior em melhor os serviços prestados está no dinheiro. No valor de troca. Na clássica lei de dar alguma coisa para receber algo em troca. Da diferenciação monetária aqueles melhores posicionados. Na disputa por mais dinheiro.
O interesse não está no coletivo. Não está em prestar um serviço para o bem público. Isso é balela. O interesse está fazer algo para receber o din-din. Vivemos numa sociedade de indivíduos, em que o interesse privado, do ser como isolado e autosuficiente, domina o interesse da maioria. A pessoa hoje não precisa dos outros. Aliás, se pudesse, não teria qualquer contato com outros seres.
Mas do que eu entendo? Sou apenas um sonhador de 21 anos recém completados.
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sábado, 20 de setembro de 2008
Enquanto a tristeza não vem
Comprei no início do mês o disco do Sérgio Ricardo, em edição da gravadora Biscoito Fino. Fiquei praticamente todo esse tempo ouvindo e cantando as 15 músicas do cd, lançado no início do ano com patrocínio da Petrobras.
O que faz um disco incrível é uma rara combinação entre letra e melodia, músicos de ponta e uma vontade danada dos participantes. Mas isso não pode estar em apenas uma canção. Tem de estar em todas. São poucos os discos que carregam tudo isso em todas as faixas.
Soa cliché dizer que o alvo dessa resenha é um disco incrível. Mas é. Incrível também é esse pensamento consensual de que elogiar um trabalho cultural ou social é atestado de burrice. Intelectual é aquele que critica malhando. Isso, como se sabe, é uma bobagem.
Sérgio Ricardo, oriundo do Nordeste brasileiro veio para o Rio dos anos 50 e viveu toda aquela efervescência cultural e política que a então capital federal passava. Era sambista, daquele samba baiano bonito, que fala dos jangadeiros, da mulher que requebra quando anda, do menino que cresce vendo o pai ir para o mar. No Rio incorporou a figura do malandro carioca, esperto e místico. Depois passeou pela Bossa Nova, e era dos maiores compositores de samba e bossa nova do início dos anos 60.
E então veio Glauber Rocha. Filmando Deus e o Diabo na Terra do Sol, Glauber escalou Sérgio Ricardo para cantar as músicas que ele (Glauber) havia escrito. Eram músicas do sertão, cantadas com sotaque nordestino puxado. Falava dos cangaceiros, beatos e jagunços à serviço de coronéis. Sérgio Ricardo gravou toda a trilha sonora do filme, que seria lançado 13 dias antes do golpe de Estado dado pelos militares em 31 de março de 1964.
A parceria estava instalada. O compositor continuava carreira como sambista no Rio, mas ganhava uma veia política. O acirramento político e a crescente censura e repressão que os militares implantavam fizeram crescer no cantor a vontade de gritar. Faria a trilha de outros dois filmes de Glauber: Terra em Transe (1967, marco do pensamento revolucionário, antecipando as manifestações de 68) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969, vencedor de melhor direção no Festival de Cannes daquele ano).
Pouco antes, no entanto, aconteceu o episódio que marcaria a vida do cantor. Se apresentando em auditório para um dos festivais da TV Record em 67, Sérgio era vaiado ininterruptamente pelo auditório. Tentou controlar os ânimos através da conversa, depois por meio da música. Não conseguiu. No final esbravejou: "Vocês ganharam!" E destruiu seu violão em um amplificador.
Esse episódio fechou as portas do cantor nos auditórios de TV. Seu contrato fonográfico também não seria renovado e com o exílio de Glauber em 1970, Sérgio Ricardo ficara sem trabalho.
Sumiu.
É por isso que esse disco, Ponto de Partida (2008) é tão especial. Por si só, por sua história de vida, já é um marco. Mas, como disse acima, o cd é incrível.
Sérgio Ricardo revive canções do passado com nova roupagem. A voz está mais grave, mais vagarosa que então. Canções novas, como "Fantasma" (samba de raiz) e "Barravento" (com excelente coro feminino) entusiasmam pela leveza.
O grupo não poderia ser melhor. São três filhos no meio: Adriana e Marina Lutfi (que são excelentes cantoras - exemplo maior é a faixa 3, "Cacumbu") e João Gurgel (violão). Hamilton de Holanda, craque do bandolim, dá as caras em algumas músicas. Com eles, Ignez Perdigão no cavaquinho, Naife Simões na percussão e outros trazem um frescor para algumas melodias que não podiam ficar esquecidas.
O retorno é comemorado na beira do cais.
O que faz um disco incrível é uma rara combinação entre letra e melodia, músicos de ponta e uma vontade danada dos participantes. Mas isso não pode estar em apenas uma canção. Tem de estar em todas. São poucos os discos que carregam tudo isso em todas as faixas.
Soa cliché dizer que o alvo dessa resenha é um disco incrível. Mas é. Incrível também é esse pensamento consensual de que elogiar um trabalho cultural ou social é atestado de burrice. Intelectual é aquele que critica malhando. Isso, como se sabe, é uma bobagem.
Sérgio Ricardo, oriundo do Nordeste brasileiro veio para o Rio dos anos 50 e viveu toda aquela efervescência cultural e política que a então capital federal passava. Era sambista, daquele samba baiano bonito, que fala dos jangadeiros, da mulher que requebra quando anda, do menino que cresce vendo o pai ir para o mar. No Rio incorporou a figura do malandro carioca, esperto e místico. Depois passeou pela Bossa Nova, e era dos maiores compositores de samba e bossa nova do início dos anos 60.
E então veio Glauber Rocha. Filmando Deus e o Diabo na Terra do Sol, Glauber escalou Sérgio Ricardo para cantar as músicas que ele (Glauber) havia escrito. Eram músicas do sertão, cantadas com sotaque nordestino puxado. Falava dos cangaceiros, beatos e jagunços à serviço de coronéis. Sérgio Ricardo gravou toda a trilha sonora do filme, que seria lançado 13 dias antes do golpe de Estado dado pelos militares em 31 de março de 1964.
A parceria estava instalada. O compositor continuava carreira como sambista no Rio, mas ganhava uma veia política. O acirramento político e a crescente censura e repressão que os militares implantavam fizeram crescer no cantor a vontade de gritar. Faria a trilha de outros dois filmes de Glauber: Terra em Transe (1967, marco do pensamento revolucionário, antecipando as manifestações de 68) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969, vencedor de melhor direção no Festival de Cannes daquele ano).
Pouco antes, no entanto, aconteceu o episódio que marcaria a vida do cantor. Se apresentando em auditório para um dos festivais da TV Record em 67, Sérgio era vaiado ininterruptamente pelo auditório. Tentou controlar os ânimos através da conversa, depois por meio da música. Não conseguiu. No final esbravejou: "Vocês ganharam!" E destruiu seu violão em um amplificador.
Esse episódio fechou as portas do cantor nos auditórios de TV. Seu contrato fonográfico também não seria renovado e com o exílio de Glauber em 1970, Sérgio Ricardo ficara sem trabalho.
Sumiu.
É por isso que esse disco, Ponto de Partida (2008) é tão especial. Por si só, por sua história de vida, já é um marco. Mas, como disse acima, o cd é incrível.
Sérgio Ricardo revive canções do passado com nova roupagem. A voz está mais grave, mais vagarosa que então. Canções novas, como "Fantasma" (samba de raiz) e "Barravento" (com excelente coro feminino) entusiasmam pela leveza.
O grupo não poderia ser melhor. São três filhos no meio: Adriana e Marina Lutfi (que são excelentes cantoras - exemplo maior é a faixa 3, "Cacumbu") e João Gurgel (violão). Hamilton de Holanda, craque do bandolim, dá as caras em algumas músicas. Com eles, Ignez Perdigão no cavaquinho, Naife Simões na percussão e outros trazem um frescor para algumas melodias que não podiam ficar esquecidas.
O retorno é comemorado na beira do cais.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
De cronistas e furos
Morreu hoje pela manhã o grande cronista de São Paulo, Lourenço Diaféria. Ao lado de Rubem Braga e Fernando Sabino foi um dos maiores cronistas da cidade. Diaféria era dos poucos jornalistas tornados cronistas (por opção, diga-se) que manteve a unha afiada nos anos da ditadura militar. Nascido em 1933 e jornalista desde os anos 50, passou a escrever crônicas, se tornando conhecido como "o" cronista da Folha de S.Paulo numa época em que os jornais eram lidos por todo o tipo de gente, de apoiadores a radicais.
Foi na Folha que Lourenço Diaféria escreveu uma das mais famosas crônicas do cotidiano nacional: "Herói. Morto. Nós.", publicada na edição de 1º de setembro de 1977. Recebeu nota na capa, como era usual para seus textos. Com seu estilo pausado, mas cortante ao mesmo tempo, Diaféria narra a história de um sargento herói.
Pela crônica foi preso e processado pela Lei de Segurança Nacional. Leia "Herói. Morto. Nós." em: www1.folha.uol.com.br/folha/80anos/tempos_cruciais-02a.shtml
Cronista vai, cronista vem
A boa notícia da semana é que José Saramago criou um blog (http://caderno.josesaramago.org/). E nos primeiros posts já trata de temas para muita discussão: Igreja, Bush e Berlusconi. Sobre religião aliás, Saramago deu um furo: o reverendo Malcom Brown, diretor de relações públicas da Igreja Anglicana, pediu oficialmente perdão à Charles Darwin > descobridor da evolução das espécies por meio do processo de seleção natural <. Brown foi enfático: a Igreja Anglicana estava errada ao repudiar Darwin no século XIX.
Que seja assim então. Na fase em que se encontra o jornalismo em língua portuguesa (agora sem Diaféria), não há melhor notícia que ler furos de reportagem escritos por José Saramago.
Foi na Folha que Lourenço Diaféria escreveu uma das mais famosas crônicas do cotidiano nacional: "Herói. Morto. Nós.", publicada na edição de 1º de setembro de 1977. Recebeu nota na capa, como era usual para seus textos. Com seu estilo pausado, mas cortante ao mesmo tempo, Diaféria narra a história de um sargento herói.
Pela crônica foi preso e processado pela Lei de Segurança Nacional. Leia "Herói. Morto. Nós." em: www1.folha.uol.com.br/folha/80anos/tempos_cruciais-02a.shtml
Cronista vai, cronista vem
A boa notícia da semana é que José Saramago criou um blog (http://caderno.josesaramago.org/). E nos primeiros posts já trata de temas para muita discussão: Igreja, Bush e Berlusconi. Sobre religião aliás, Saramago deu um furo: o reverendo Malcom Brown, diretor de relações públicas da Igreja Anglicana, pediu oficialmente perdão à Charles Darwin > descobridor da evolução das espécies por meio do processo de seleção natural <. Brown foi enfático: a Igreja Anglicana estava errada ao repudiar Darwin no século XIX.
Que seja assim então. Na fase em que se encontra o jornalismo em língua portuguesa (agora sem Diaféria), não há melhor notícia que ler furos de reportagem escritos por José Saramago.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Lá vamos nós
"Se formos capazes de pagar a folha de pagamento dos funcionários no fim desta semana, conseguiremos mantê-los até o fim do mês".
De quem é essa frase?
- Poderia ser de um governo latino-americano em crise da dívida, sem dinheiro para honrar os salários de seus funcionários públicos.
- Poderia ser de uma empresa estatal russa, após o fim da União Soviética, quando o choque de capitalismo matou as empresas do Estado.
- Poderia ser de uma empresa asiática, após as crises de meados dos anos 1990, quando as bolsas despencaram.
Mas não é.
Quem disse foi de Tony Lomas, da PricewaterhouseCoopers, maior empresa de consultoria do mundo, que está coordenando o salvamento (a mando e com dinheiro do governo americano) do banco Lehman Brothers. Vamos aos detalhes.
O Lehman Brothers era, até outro dia, o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos. Bancos de investimento são uma invenção anglo-saxônica de meados do século XVIII. Aproveitavam toda a liquidez dos grandes capitalistas que se formavam no bojo das industrializações para aplicar os recursos em títulos de dívida dos países coloniais (ou "independentes pero no mucho").
Criou-se, nos anos 1870-1920, toda uma engenharia financeira para dar renda às aplicações. Os bancos de investimento viraram a coqueluche dos mercados. Bancos comerciais - as instituições tradicionais de depósitos e poupança nacional - começaram a criar braços para investimentos. As bolsas de Nova York, Londres e praças européias se tornaram espaços para todo o tipo de estripulia financeira. Várias bolhas foram se sucedendo: em 1907, em 1913, e, finalmente, em outubro de 1929.
As pessoas se deram conta que negociavam papéis fictícios, "fantasmas", que não tinham lastro. Não havia transparência, regulação ou qualquer tipo de controle. Se dizia, naqueles tempos, que as empresas e bancos se "autoregulavam". Deu no que deu.
Não bastassem as coincidências financeiras e sociais, há também as coincidências de datas. A partir dos anos 1970 (um século depois do início da primeira bola-de-neve financeira) iniciou-se novo período de liberalização com desregulamentação. As empresas e bancos se "autoregulariam".
E no que deu isso tudo?
"Se formos capazes de pagar a folha de pagamento dos funcionários no fim desta semana, conseguiremos mantê-los até o fim do mês".
De quem é essa frase?
- Poderia ser de um governo latino-americano em crise da dívida, sem dinheiro para honrar os salários de seus funcionários públicos.
- Poderia ser de uma empresa estatal russa, após o fim da União Soviética, quando o choque de capitalismo matou as empresas do Estado.
- Poderia ser de uma empresa asiática, após as crises de meados dos anos 1990, quando as bolsas despencaram.
Mas não é.
Quem disse foi de Tony Lomas, da PricewaterhouseCoopers, maior empresa de consultoria do mundo, que está coordenando o salvamento (a mando e com dinheiro do governo americano) do banco Lehman Brothers. Vamos aos detalhes.
O Lehman Brothers era, até outro dia, o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos. Bancos de investimento são uma invenção anglo-saxônica de meados do século XVIII. Aproveitavam toda a liquidez dos grandes capitalistas que se formavam no bojo das industrializações para aplicar os recursos em títulos de dívida dos países coloniais (ou "independentes pero no mucho").
Criou-se, nos anos 1870-1920, toda uma engenharia financeira para dar renda às aplicações. Os bancos de investimento viraram a coqueluche dos mercados. Bancos comerciais - as instituições tradicionais de depósitos e poupança nacional - começaram a criar braços para investimentos. As bolsas de Nova York, Londres e praças européias se tornaram espaços para todo o tipo de estripulia financeira. Várias bolhas foram se sucedendo: em 1907, em 1913, e, finalmente, em outubro de 1929.
As pessoas se deram conta que negociavam papéis fictícios, "fantasmas", que não tinham lastro. Não havia transparência, regulação ou qualquer tipo de controle. Se dizia, naqueles tempos, que as empresas e bancos se "autoregulavam". Deu no que deu.
Não bastassem as coincidências financeiras e sociais, há também as coincidências de datas. A partir dos anos 1970 (um século depois do início da primeira bola-de-neve financeira) iniciou-se novo período de liberalização com desregulamentação. As empresas e bancos se "autoregulariam".
E no que deu isso tudo?
"Se formos capazes de pagar a folha de pagamento dos funcionários no fim desta semana, conseguiremos mantê-los até o fim do mês".
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sábado, 13 de setembro de 2008
A cultura do cangaço e o Brasil moderno
Getúlio é o sertão. O sertão de Lampião e seus cabras, da disputa de cangaceiros e dos macacos, dos beatos e da fome. O cangaço do sertão, com famílias pobres sobrevivendo em torno da igreja e do coronel, onde não há Estado nem Lei dos Direitos Humanos (1948). Não há guerras mundiais ou acordos bilaterais para diminuição de subsídios agrícolas. Tudo isso, aliás, é complexo. E o sertão não gosta de coisas complexas. Getúlio é o sertão.
A história do policial militar que atravessa a Bahia para chegar ao Sergipe, ao lado do colega motorista e do prisioneiro – a razão dessa história toda – não é complexa. O sargento Getúlio é jagunço de Acrísio Antunes. Acrísio manda que Getúlio vá até Paulo Afonso (BA), e traga o adversário político até Barra dos Coqueiros, região metropolitana de Aracaju, capital do Sergipe. E Getúlio tem de cumprir essa ordem, porque é isso o que os homens do sertão fazem. A exceção são os cangaceiros, estes fazem o que querem, são os donos do cangaço e afrontam os coronéis e seus jagunços. Mas até outro dia, Getúlio não gostava de cangaceiro também.
A história que João Ubaldo Ribeiro conta não deixa de ser pessoal. O pai do escritor era oficial de um destacamento da Polícia Militar (PM) de Aracaju, quando resgatou com vida um homem conhecido por sargento Cavalcanti, gravemente ferido a tiros num atentado em Paulo Afonso. O filho escritor surgiu cedo, ainda estudante, como editor de jornais e revistas culturais ao lado do amigo Glauber Rocha, na Universidade Federal da Bahia. Com prefácio de Glauber e empurrão comercial de Jorge Amado, publicou primeiro livro (Setembro não tem sentido) em 1968, três anos antes do segundo, Sargento Getúlio.
Sargento Getúlio é a história de três homens, o narrador-personagem, seu motorista e colega Amaro e o prisioneiro. A narração é longo monólogo do sargento Getúlio Santos Bezerra e se dá numa apropriação de palavras da norma culta do português pelo linguajar caboclo-sertanejo, semelhante, mas apenas semelhante, ao das personagens de Guimarães Rosa.
João Ubaldo foi ligado a dois históricos comunistas da cultura nacional, Jorge Amado e Glauber Rocha. Quando estudante, na UFBA, participou do movimento estudantil. Ainda assim, no golpe de Estado de 31 de março de 1964, quando os militares tomaram o poder do presidente eleito João Goulart, o escritor estava nos Estados Unidos, estudando Administração Pública e tendo as despesas pagas pela embaixada americana. Recentemente, em 2006, a abertura (obrigatória nos EUA) dos documentos de Estado americano permitiu conhecer a participação e incentivo dos americanos, por meio do papel crucial de sua embaixada no Rio de Janeiro, no golpe militar brasileiro. Tratava-se de uma contra-ofensiva ideológica movida subterraneamente pelos americanos nos países latino-americanos, de forma a esmagar os ideais coletivistas e subversivos do comunismo da União Soviética.
Sargento Getúlio foi escrito após o AI-5 (editado a 13 de dezembro de 1968, que determinou o fechamento do Congresso e a ampliação do poder ao presidente militar) e lançado em 1971, durante o período mais violento da ditadura – a presidência de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Mas toda essa ebulição política do país e o engajamento de João Ubaldo não chega diretamente à obra. A política está lá, mas sob outras formas.
O pano de fundo da história do sargento é a mudança cultural, política e social que vivia o Brasil dos anos 1950. Mais especificamente o governo democrático (depois da ditadura do Estado Novo) de Getúlio Vargas (1951-1954). Não se pode dizer que é apenas coincidência que João Ubaldo tenha alterado o nome do sargento Cavalcanti que seu pai ajudara para Getúlio.
A longa viagem do sertão da Bahia para o litoral urbano do Sergipe é a transposição do brasileiro brutalizado pelas condições isoladas para o país moderno das cidades e do comércio exterior. Uma emigração não intencional de um homem de uma realidade para outra que ele não pode ou quer entender. E o Brasil moderno não pode ou quer um homem como Getúlio. Getúlio é passado.
Ele não consegue entender como a política muda os homens. É incapaz de entender que, em Aracaju, seu chefe Acrísio Antunes, pressionado pela imprensa e por autoridades superiores, resolvera emitir contra-ordem mandando libertar o preso udenista (filiado à UDN, União Democrática Nacional, criada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial e a redemocratização do Brasil) que antes mandara trazer à cidade. Getúlio não consegue entender como seu chefe, pouco depois, senta à mesa com udenistas. Em outra passagem, o sargento conta que uma vez alguns “baderneiros comunistas”, liderados por Luiz Carlos Prestes (líder do PCB, citado nominalmente) faziam mitigue numa praça, perturbando a rua. Seu chefe, então, manda “descer o pau nessa corja”. O sargento-narrador não consegue entender essas mudanças políticas.
Getúlio é o homem conservador do sertão. Não faz arruaça como os cangaceiros e não gosta de política. Tudo que exige reflexão e pensamento ele renega. É contra udenistas (direita) e comunistas (esquerda), mas não se prende a hierarquias. Respeita apenas as palavras dos homens, pouco interessa saber se deve continência e atenção a um posto superior. Quando mata um superior militar (degola um tenente) o faz apenas porque o homem, não o tenente, havia injuriado sua pessoa.
O que permeia a história é o debate filosófico da inserção de um país e sua sociedade nos ditames da “modernidade”. As relações humanas, calcadas historicamente na disputa entre classes por poder, ganha a importância da ascensão financeira e dos interesses em jogo para a conquista. Surge a iniciativa privada transnacional, atravessando realidades regionais em busca de menores custos de mão-de-obra. Surge a política moderna, de democracia representativa com cabos eleitorais, que usa os problemas sociais como margem de manobra para eleições. Cria-se a relação entre os dois entes, o lobby do empresário por melhores oportunidades junto ao político. A imprensa entra como fiscalizadora de uma teoria única, de inserção na modernidade, barrando qualquer diversidade ideológica ou cultural. Surge a moda e os seguidores de tendências. A auto-ajuda e os conselhos terceirizados. Na ponta, toda a relação social é esmagada pela nova lógica de costumes, a lógica do dinheiro e os costumes da maioria.
O sertão não faz mais parte do Brasil. E Getúlio é o sertão.
A história do policial militar que atravessa a Bahia para chegar ao Sergipe, ao lado do colega motorista e do prisioneiro – a razão dessa história toda – não é complexa. O sargento Getúlio é jagunço de Acrísio Antunes. Acrísio manda que Getúlio vá até Paulo Afonso (BA), e traga o adversário político até Barra dos Coqueiros, região metropolitana de Aracaju, capital do Sergipe. E Getúlio tem de cumprir essa ordem, porque é isso o que os homens do sertão fazem. A exceção são os cangaceiros, estes fazem o que querem, são os donos do cangaço e afrontam os coronéis e seus jagunços. Mas até outro dia, Getúlio não gostava de cangaceiro também.
A história que João Ubaldo Ribeiro conta não deixa de ser pessoal. O pai do escritor era oficial de um destacamento da Polícia Militar (PM) de Aracaju, quando resgatou com vida um homem conhecido por sargento Cavalcanti, gravemente ferido a tiros num atentado em Paulo Afonso. O filho escritor surgiu cedo, ainda estudante, como editor de jornais e revistas culturais ao lado do amigo Glauber Rocha, na Universidade Federal da Bahia. Com prefácio de Glauber e empurrão comercial de Jorge Amado, publicou primeiro livro (Setembro não tem sentido) em 1968, três anos antes do segundo, Sargento Getúlio.
Sargento Getúlio é a história de três homens, o narrador-personagem, seu motorista e colega Amaro e o prisioneiro. A narração é longo monólogo do sargento Getúlio Santos Bezerra e se dá numa apropriação de palavras da norma culta do português pelo linguajar caboclo-sertanejo, semelhante, mas apenas semelhante, ao das personagens de Guimarães Rosa.
João Ubaldo foi ligado a dois históricos comunistas da cultura nacional, Jorge Amado e Glauber Rocha. Quando estudante, na UFBA, participou do movimento estudantil. Ainda assim, no golpe de Estado de 31 de março de 1964, quando os militares tomaram o poder do presidente eleito João Goulart, o escritor estava nos Estados Unidos, estudando Administração Pública e tendo as despesas pagas pela embaixada americana. Recentemente, em 2006, a abertura (obrigatória nos EUA) dos documentos de Estado americano permitiu conhecer a participação e incentivo dos americanos, por meio do papel crucial de sua embaixada no Rio de Janeiro, no golpe militar brasileiro. Tratava-se de uma contra-ofensiva ideológica movida subterraneamente pelos americanos nos países latino-americanos, de forma a esmagar os ideais coletivistas e subversivos do comunismo da União Soviética.
Sargento Getúlio foi escrito após o AI-5 (editado a 13 de dezembro de 1968, que determinou o fechamento do Congresso e a ampliação do poder ao presidente militar) e lançado em 1971, durante o período mais violento da ditadura – a presidência de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Mas toda essa ebulição política do país e o engajamento de João Ubaldo não chega diretamente à obra. A política está lá, mas sob outras formas.
O pano de fundo da história do sargento é a mudança cultural, política e social que vivia o Brasil dos anos 1950. Mais especificamente o governo democrático (depois da ditadura do Estado Novo) de Getúlio Vargas (1951-1954). Não se pode dizer que é apenas coincidência que João Ubaldo tenha alterado o nome do sargento Cavalcanti que seu pai ajudara para Getúlio.
A longa viagem do sertão da Bahia para o litoral urbano do Sergipe é a transposição do brasileiro brutalizado pelas condições isoladas para o país moderno das cidades e do comércio exterior. Uma emigração não intencional de um homem de uma realidade para outra que ele não pode ou quer entender. E o Brasil moderno não pode ou quer um homem como Getúlio. Getúlio é passado.
Ele não consegue entender como a política muda os homens. É incapaz de entender que, em Aracaju, seu chefe Acrísio Antunes, pressionado pela imprensa e por autoridades superiores, resolvera emitir contra-ordem mandando libertar o preso udenista (filiado à UDN, União Democrática Nacional, criada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial e a redemocratização do Brasil) que antes mandara trazer à cidade. Getúlio não consegue entender como seu chefe, pouco depois, senta à mesa com udenistas. Em outra passagem, o sargento conta que uma vez alguns “baderneiros comunistas”, liderados por Luiz Carlos Prestes (líder do PCB, citado nominalmente) faziam mitigue numa praça, perturbando a rua. Seu chefe, então, manda “descer o pau nessa corja”. O sargento-narrador não consegue entender essas mudanças políticas.
Getúlio é o homem conservador do sertão. Não faz arruaça como os cangaceiros e não gosta de política. Tudo que exige reflexão e pensamento ele renega. É contra udenistas (direita) e comunistas (esquerda), mas não se prende a hierarquias. Respeita apenas as palavras dos homens, pouco interessa saber se deve continência e atenção a um posto superior. Quando mata um superior militar (degola um tenente) o faz apenas porque o homem, não o tenente, havia injuriado sua pessoa.
O que permeia a história é o debate filosófico da inserção de um país e sua sociedade nos ditames da “modernidade”. As relações humanas, calcadas historicamente na disputa entre classes por poder, ganha a importância da ascensão financeira e dos interesses em jogo para a conquista. Surge a iniciativa privada transnacional, atravessando realidades regionais em busca de menores custos de mão-de-obra. Surge a política moderna, de democracia representativa com cabos eleitorais, que usa os problemas sociais como margem de manobra para eleições. Cria-se a relação entre os dois entes, o lobby do empresário por melhores oportunidades junto ao político. A imprensa entra como fiscalizadora de uma teoria única, de inserção na modernidade, barrando qualquer diversidade ideológica ou cultural. Surge a moda e os seguidores de tendências. A auto-ajuda e os conselhos terceirizados. Na ponta, toda a relação social é esmagada pela nova lógica de costumes, a lógica do dinheiro e os costumes da maioria.
O sertão não faz mais parte do Brasil. E Getúlio é o sertão.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Avisem o doutor Gilmar
Segundo informa a Folha de hoje, em reportagem de capa, a Justiça Federal de São Paulo ordenou bloqueio de fundo de investimento de 535,8 milhões de reais de Daniel Dantas e outras quatro pessoas. O Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, considerou operações do Grupo Opportunity, de Dantas, "irregulares no mercado financeiro".
A pergunta que fica é: Gilmar Mendes sabe dessa? Vai deixar assim?
A pergunta que fica é: Gilmar Mendes sabe dessa? Vai deixar assim?
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008
O problema dos estudantes
Um dia desses estava tendo uma troca de idéias sobre estudantes de Jornalismo. Como sou estudante da carreira, minha análise é sobre estes, porque não posso falar dos outros.
O ser humano é complexo, especialmente aos 20 anos de idade. Mas vejo os estudantes de Jornalismo dividos em dois grupos (com as exceções que comprovam a regra).
O grupo 1) é formado por idealistas extremos. São aqueles que criticam a grande imprensa, que criticam os jornalistas por achar que estes deveriam correr atrás das notícias sem a ajuda de ninguém, seja de editores, de assessorias de imprensa ou de quem quer que seja.
O grupo 2) é daqueles estudantes que estão pouco se lixando para tudo. Para estes, tudo o que sai no jornal é verdade. E se não for também, qual é o problema? São alienados para problemas nacionais, a questão maior aqui é saber se determinada banda de rock indie virá tocar num clube na rua Augusta.
No fundo, as pessoas são iguais. Não estou me excluindo dessa não. Os estudantes, todos, dividimos semelhanças. A questão aqui é que, no fundo, os jovens dos dois grupos tem a mesma motivação para serem como são.
São motivados pela aparência. Pela aceitação que terão do outro. Isso é humano e histórico. E ainda mais sério aos 20 anos de idade. Não pertencer a grupo algum com essa idade é um negócio muito difícil. É a fase áurea da troca de experiências, do sentimento de pertencer à um nicho, de ser visto. Isso tudo é muito importante.
Veja, não estou defendendo o isolacionismo. Isso é tudo o que mais critico. Isolacionismo e apatia, quando temos iguais em condições de vida tão díspares é de um escapismo que beira o crime. Acho que todos, um dia, poderemos nos desligar dos outros. Mas apenas quando não dependermos mais um do outro. Enquanto houver fome, falta de moradia, de saneamento básico, de condições morais de acesso a lazer e cultura, não podemos ser isolados um do outro.
É muito fácil sentar no sofá (quando se pode pagar um) em frente a televisão (quando se pode pagar uma), na sua casa (quando se tem uma propriedade sua) e pensar que quem não têm é porque é vagabundo. É muito fácil sair da barriga da mamãe e se deparar com pais ricos. Estudar numa escola de ponta, fazer uma boa faculdade, se preocupar com emprego (garantido, por sinal) lá na frente, e ter segurança de uma boa previdência quando envelhecer.
Agora é muito difícil ver que a grande maioria não tem essa chance. E por que? Tem culpa pertencer a uma família que não tem oportunidade e ainda por cima é mal vista se fizer qualquer coisa para chamar a atenção da sociedade para sua sangria? Pois é isso que acontece quando ocorre uma manifestação popular. Antes de se discutir porque está acontecendo aquilo, porque aquelas pessoas estão juntas e o que elas estão dizendo, se pensa que elas estão "perturbando a ordem".
A ordem é bacana quando você está do lado bom.
O problema é que, cada vez mais, os jovens estão parecendo com seus pais. O pessoal da classe abastada (rica ou média alta), que é quem tem a possibilidade de pensar o país estratégicamente, não está se rebelando contra a disparidade que existe no país. O sonho dessa massa é em parecer legal frente aos amigos (seja sendo revolucionário, seja sendo "cult") e enriquecer num negócio próprio. Danem-se os outros.
A universidade, que nasceu para contestar e estudar os problemas da nação, da família, da religião e do mundo, está perpetuando um conservadorismo pueril, cada vez mais jovem. Hoje praticamente não se estuda. O grupo 1) apenas contesta, sem saber o quê e por quê. O grupo 2) nem contesta nem estuda.
Por "estudo" estou me referindo a análise das questões que afligem uma determinada sociedade. Não aquele estudo enburrecido de saber quanto vale o "x" de uma questão de matemática para passar no vestibular. Estou me referindo a um problema tangível.
Um exemplo: o trânsito de veículos nas grandes capitais brasileiras. Estamos em plena campanha eleitoral para municípios. Os candidatos à prefeitura de São Paulo, todos, dizem que vão resolver o problema do trânsito com aumento de investimentos em transportes coletivos. Investimento em transporte público é palanque desde JK, quando se incentivou a produção de automóveis em território tupiniquim.
Ninguém pára para estudar o problema do trânsito. De agrupar idéias de diferentes frentes, de engenheiros urbanos, de economistas, de planejadores. Ou de enfrentar os interesses das montadoras. Ou de se produzir uma competição justa entre empresas fornecedoras de veículos para transporte público. Nada. Não se estuda nada. Fica-se só nas aparências do "eu vou consertar o trânsito". Ou no engodo de criar rodízio para caminhões.
Isso tudo têm de ser enfrentado. As Universidades, todas elas, estão aí para isso. Para estudar os problemas. Aprender com os erros do passado. Ver que antes de hoje, já existiam homens com problemas e sociedades com questões à resolver. A partir do estudo têm-se um plano de batalha muito claro. Lutar contra o status quo nessas condições é a história da humanidade.
E na boa, é ridículo ser conservador num país como o nosso.
O ser humano é complexo, especialmente aos 20 anos de idade. Mas vejo os estudantes de Jornalismo dividos em dois grupos (com as exceções que comprovam a regra).
O grupo 1) é formado por idealistas extremos. São aqueles que criticam a grande imprensa, que criticam os jornalistas por achar que estes deveriam correr atrás das notícias sem a ajuda de ninguém, seja de editores, de assessorias de imprensa ou de quem quer que seja.
O grupo 2) é daqueles estudantes que estão pouco se lixando para tudo. Para estes, tudo o que sai no jornal é verdade. E se não for também, qual é o problema? São alienados para problemas nacionais, a questão maior aqui é saber se determinada banda de rock indie virá tocar num clube na rua Augusta.
No fundo, as pessoas são iguais. Não estou me excluindo dessa não. Os estudantes, todos, dividimos semelhanças. A questão aqui é que, no fundo, os jovens dos dois grupos tem a mesma motivação para serem como são.
São motivados pela aparência. Pela aceitação que terão do outro. Isso é humano e histórico. E ainda mais sério aos 20 anos de idade. Não pertencer a grupo algum com essa idade é um negócio muito difícil. É a fase áurea da troca de experiências, do sentimento de pertencer à um nicho, de ser visto. Isso tudo é muito importante.
Veja, não estou defendendo o isolacionismo. Isso é tudo o que mais critico. Isolacionismo e apatia, quando temos iguais em condições de vida tão díspares é de um escapismo que beira o crime. Acho que todos, um dia, poderemos nos desligar dos outros. Mas apenas quando não dependermos mais um do outro. Enquanto houver fome, falta de moradia, de saneamento básico, de condições morais de acesso a lazer e cultura, não podemos ser isolados um do outro.
É muito fácil sentar no sofá (quando se pode pagar um) em frente a televisão (quando se pode pagar uma), na sua casa (quando se tem uma propriedade sua) e pensar que quem não têm é porque é vagabundo. É muito fácil sair da barriga da mamãe e se deparar com pais ricos. Estudar numa escola de ponta, fazer uma boa faculdade, se preocupar com emprego (garantido, por sinal) lá na frente, e ter segurança de uma boa previdência quando envelhecer.
Agora é muito difícil ver que a grande maioria não tem essa chance. E por que? Tem culpa pertencer a uma família que não tem oportunidade e ainda por cima é mal vista se fizer qualquer coisa para chamar a atenção da sociedade para sua sangria? Pois é isso que acontece quando ocorre uma manifestação popular. Antes de se discutir porque está acontecendo aquilo, porque aquelas pessoas estão juntas e o que elas estão dizendo, se pensa que elas estão "perturbando a ordem".
A ordem é bacana quando você está do lado bom.
O problema é que, cada vez mais, os jovens estão parecendo com seus pais. O pessoal da classe abastada (rica ou média alta), que é quem tem a possibilidade de pensar o país estratégicamente, não está se rebelando contra a disparidade que existe no país. O sonho dessa massa é em parecer legal frente aos amigos (seja sendo revolucionário, seja sendo "cult") e enriquecer num negócio próprio. Danem-se os outros.
A universidade, que nasceu para contestar e estudar os problemas da nação, da família, da religião e do mundo, está perpetuando um conservadorismo pueril, cada vez mais jovem. Hoje praticamente não se estuda. O grupo 1) apenas contesta, sem saber o quê e por quê. O grupo 2) nem contesta nem estuda.
Por "estudo" estou me referindo a análise das questões que afligem uma determinada sociedade. Não aquele estudo enburrecido de saber quanto vale o "x" de uma questão de matemática para passar no vestibular. Estou me referindo a um problema tangível.
Um exemplo: o trânsito de veículos nas grandes capitais brasileiras. Estamos em plena campanha eleitoral para municípios. Os candidatos à prefeitura de São Paulo, todos, dizem que vão resolver o problema do trânsito com aumento de investimentos em transportes coletivos. Investimento em transporte público é palanque desde JK, quando se incentivou a produção de automóveis em território tupiniquim.
Ninguém pára para estudar o problema do trânsito. De agrupar idéias de diferentes frentes, de engenheiros urbanos, de economistas, de planejadores. Ou de enfrentar os interesses das montadoras. Ou de se produzir uma competição justa entre empresas fornecedoras de veículos para transporte público. Nada. Não se estuda nada. Fica-se só nas aparências do "eu vou consertar o trânsito". Ou no engodo de criar rodízio para caminhões.
Isso tudo têm de ser enfrentado. As Universidades, todas elas, estão aí para isso. Para estudar os problemas. Aprender com os erros do passado. Ver que antes de hoje, já existiam homens com problemas e sociedades com questões à resolver. A partir do estudo têm-se um plano de batalha muito claro. Lutar contra o status quo nessas condições é a história da humanidade.
E na boa, é ridículo ser conservador num país como o nosso.
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sábado, 6 de setembro de 2008
Frase do fim de semana
Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas, nas profundezas, são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.
Guimarães Rosa
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Nelson Jobim está de volta
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, voltou com tudo aos holofotes midiáticos nesta semana que se encerra. Primeiro, ao embarcar nessa história toda de que o ministro-presidente do Supremo Gilmar Mendes foi grampeado por algum servidor da Abin. Numa reunião fechada com Lula - que já sofria pressão de todo lado para afastar a cúpula da Abin - Jobim apresentou um "documento" com lista de equipamentos adquiridos recentemente pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Entre eles estava um equipamento que, segundo Jobim, grampeava ligações telefônicas.
A reunião ocorreu na terça. No final do dia, Lula afastou a cúpula da Abin, entre eles, o diretor-geral, Paulo Lacerda, alvo direto desse história mal contada. O "documento" que Jobim apresentou vazou. Precisou o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, entrar em campo e dizer que o equipamento foi, na realidade, adquirido pelo Exército, a mando do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) para uso da Abin. Esse equipamento não é de grampo, mas de varredura. Ou seja, ele serve para traçar grampos que estejam sendo feitos, não grampear ele mesmo.
O papelão do ministro da Defesa está em apresentar um documento, que não é falso bom esclarecer, sem antes checar se não estava falando bobagem. Embarcou sem pestanejar numa história - divulgada na edição de Veja de sábado passado - que apresentava grampo de conversa entre Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres acusando a Abin de ter realizado. Acusou assim mesmo: "foi a Abin". E não apresentou nenhuma prova com isso.
Mais sobre essa história, clique aqui: http://joaovillaverde.blogspot.com/2008/09/denncia-dos-grampos.html
E agora, no fim da semana, Nelson Jobim anuncia intenção do governo federal de privatizar os aeroportos brasileiros. Essa é uma grande discussão.
Segundo reportagem do jornal Valor de hoje, a idéia é instituir regime de concessão para iniciativa privada dos principais aeroportos, começando pelo Galeão, no Rio, e Viracopos, em Campinas. Também será alvo de concessão o maior aeroporto do país: o de Cumbica, em Guarulhos. Lula tem tratado desse assunto pessoalmente com os governadores de São Paulo (José Serra) e Rio de Janeiro (Sérgio Cabral).
A primeira discussão: é realmente melhor privatizar os aeroportos, algo tão crucial, do ponto de vista estratégico para um país?
O BNDES já está cuidando da modelagem do edital, que segundo Jobim, é o ponto mais importante da privatização. Para ele, o edital deve cobrir todas as necessidades de investimentos e desvios no processo ao longo dos anos.
Segunda discussão: já foi amplamente testado que, por melhor que seja um edital (e não estou aqui defendendo um edital mal feito, muito pelo contrário) ele não consegue captar todas as mudanças que deverão ocorrer ao longo do processo. Se se definir um regime de concessão, porque não repetir o processo das usinas hidrelétricas do Madeira? Lá o edital cobria todos os tipos de estudos, mas deixava um flanco aberto para desvios de rotas. É normal. Nada na vida, econômica, social, amorosa, que seja, permanece constante.
Por último, uma das propostas em análise prevê a realização de leilões de aeroportos em blocos, como foi feito na venda do Sistema Telebrás, em que as empresas foram agrupadas em três regiões antes de serem leiloadas. Por esse sistema, os blocos teriam um aeroporto-âncora, já lucrativo hoje, ao lado de três ou quatro menos lucrativos.
Terceiro ponto para discussão: essa é a melhor forma de se realizar a concessão?
De qualquer maneira, e antes de mais nada, é preferível que o ministro da Defesa, agora de volta à mídia, analise bem toda esse processo e conduza o debate de maneira saudável. Se for para privatizar, que se justifique de toda a maneira, quer dizer, estude-se o Orçamento e o investimento público antes.
A reunião ocorreu na terça. No final do dia, Lula afastou a cúpula da Abin, entre eles, o diretor-geral, Paulo Lacerda, alvo direto desse história mal contada. O "documento" que Jobim apresentou vazou. Precisou o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, entrar em campo e dizer que o equipamento foi, na realidade, adquirido pelo Exército, a mando do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) para uso da Abin. Esse equipamento não é de grampo, mas de varredura. Ou seja, ele serve para traçar grampos que estejam sendo feitos, não grampear ele mesmo.
O papelão do ministro da Defesa está em apresentar um documento, que não é falso bom esclarecer, sem antes checar se não estava falando bobagem. Embarcou sem pestanejar numa história - divulgada na edição de Veja de sábado passado - que apresentava grampo de conversa entre Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres acusando a Abin de ter realizado. Acusou assim mesmo: "foi a Abin". E não apresentou nenhuma prova com isso.
Mais sobre essa história, clique aqui: http://joaovillaverde.blogspot.com/2008/09/denncia-dos-grampos.html
E agora, no fim da semana, Nelson Jobim anuncia intenção do governo federal de privatizar os aeroportos brasileiros. Essa é uma grande discussão.
Segundo reportagem do jornal Valor de hoje, a idéia é instituir regime de concessão para iniciativa privada dos principais aeroportos, começando pelo Galeão, no Rio, e Viracopos, em Campinas. Também será alvo de concessão o maior aeroporto do país: o de Cumbica, em Guarulhos. Lula tem tratado desse assunto pessoalmente com os governadores de São Paulo (José Serra) e Rio de Janeiro (Sérgio Cabral).
A primeira discussão: é realmente melhor privatizar os aeroportos, algo tão crucial, do ponto de vista estratégico para um país?
O BNDES já está cuidando da modelagem do edital, que segundo Jobim, é o ponto mais importante da privatização. Para ele, o edital deve cobrir todas as necessidades de investimentos e desvios no processo ao longo dos anos.
Segunda discussão: já foi amplamente testado que, por melhor que seja um edital (e não estou aqui defendendo um edital mal feito, muito pelo contrário) ele não consegue captar todas as mudanças que deverão ocorrer ao longo do processo. Se se definir um regime de concessão, porque não repetir o processo das usinas hidrelétricas do Madeira? Lá o edital cobria todos os tipos de estudos, mas deixava um flanco aberto para desvios de rotas. É normal. Nada na vida, econômica, social, amorosa, que seja, permanece constante.
Por último, uma das propostas em análise prevê a realização de leilões de aeroportos em blocos, como foi feito na venda do Sistema Telebrás, em que as empresas foram agrupadas em três regiões antes de serem leiloadas. Por esse sistema, os blocos teriam um aeroporto-âncora, já lucrativo hoje, ao lado de três ou quatro menos lucrativos.
Terceiro ponto para discussão: essa é a melhor forma de se realizar a concessão?
De qualquer maneira, e antes de mais nada, é preferível que o ministro da Defesa, agora de volta à mídia, analise bem toda esse processo e conduza o debate de maneira saudável. Se for para privatizar, que se justifique de toda a maneira, quer dizer, estude-se o Orçamento e o investimento público antes.
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008
40 anos do estopim para AI-5
O deputado Márcio Moreira Alves (MDB), autor do livro "Torturas e Torturados", foi à tribuna da Câmara dos Deputados e fez um discurso contundente, protestando contra a invasão da UNB pelas tropas da PM e lançou um apelo ao povo para que não comparecesse ao desfile militar de 7 de setembro, que tradicionalmente comemora o Dia da Independência. Seu pronunciamento foi considerado pelos ministros militares como ofensivo à dignidade das Forças Armadas. Estava aberta a crise entre o Congresso e o regime militar.Era o dia 02 de setembro de 1968. Assim como o golpe de Estado de 31 de março de 1964 começara a ser arquitetado ainda no final de 1963, o AI-5 também não surgiu em 13 de dezembro de 1968. Começou ser pensado antes, a partir daquele 02 de setembro.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Denúncia dos Grampos
É incrível como se dá a sucessão de fatos e histórias na mídia nacional. Não é preciso ser um estudioso da imprensa ou um cientista político. Basta acompanhar o desenrolar de denúncias, reportagens e estar equipado com um mínimo de critério.
Vejamos.
No dia 08 de julho, Daniel Dantas e outros 14 membros do banco Opportunity foram presos. Com eles, Celso Pitta e Naji Nahas também foram presos. Era a Operação Satiagraha da Polícia Federal. Quem é Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas? O que fez o Opportunity? Porque foram presos e depois soltos?
Não se discutiu, em momento algum, nada disso. Ao inverso. Abriu-se investigação contra o policial que liderou a Satiagraha, Protógenes Queiróz, e contra o juiz que acatou a denúncia, Fausto De Sanctis. O que foi falado naqueles dias? Do abuso da Polícia Federal, de ter algemado os presos.
O Congresso criou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar.... as algemas. Convocaram Daniel Dantas e Protógenes Queiróz. O policial deixou um relatório, com mais de 300 páginas, sobre as investigações. Ao invés de lerem, tomaram o relatório por burro - cobravam acerto gramatical de um policial, inviabilizando o seu trabalho, qual seja, de investigar e prender - e convocaram-no para se explicar.
Daniel Dantas foi acusado por duas operações da Polícia Federal - Chacal em 2004 e Satiagraha em 2008 - e é famoso do noticiário político e policial desde 1998. O homem foi considerado culpado em dezembro de 2007 no inquérito do delegado Rosseti da PF em dezembro de 2007 de ter espionado jornalistas e concorrentes de mercado. Pois Daniel Dantas foi ao Congresso. E tudo que Daniel Dantas disse foi tido como verdade inconteste.
A falta de critério não acaba aí.
O caso Satiagraha sumiu do noticiário brasileiro. Por que? Porque a revista Veja, após duas tentativas, conseguiu pautar nova discussão. Na edição desse fim de semana revelou conversas grampeadas entre o ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM).
Abre parêntesis. Gilmar Mendes é o homem que soltou Daniel Dantas duas vezes em quatro dias (09 e 11 de julho, após duas prisões pela Satiagraha). Fecha parêntesis.
A reportagem da Veja divulgou a conversa entre os dois. Não apontou provas (se há um documento oficial, um arquivo de som, etc.). Também não disse quem passou a conversa à revista. Mas foi taxativa. Cravou que foi alguém da Abin ou da Polícia Federal. No meio disso tudo ainda bateu nos termos tradicionais da revista, de que há um Estado policial instalado no Brasil, etc. e tal.
Primeiro. É grave sim que uma conversa entre um ministro do Supremo e um senador tenha sido gravado. É grave que qualquer conversa telefônica seja grampeada. Tem de se descobrir quem foi e qual motivo.
Segundo. A conversa em si não tem nada de mais. Ao contrário até. Trata-se de um diálogo sobre o interesse público, em que o senador Demóstenes Torres pede ajuda do presidente do Supremo para chamar uma pessoa molestada à CPI presidida pelo senador. Foi aliás, a primeira vez que uma revelação de grampo é boa para os dois grampeados. Isso é estranho. Os dois saem "bonito na fita". Mais do que nunca é preciso saber quem passou a conversa à revista.
Terceiro. Qual é a prova do grampo? A revista crava que quem grampeou era da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ou da Polícia Federal. Como tem tanta certeza? Qual é a prova?
Quarto. A CPI do Grampo - aquela instalada depois das prisões promovidas pela Satiagraha - convocou gente da Abin, da PF e Jorge Félix, ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), órgão ao qual a Abin está subordinada. O presidente da CPI, Marcelo Itagija (PMDB), também chamou Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. Como eles não tem nada a dizer - são as "vítimas", certo? - eles vão aproveitar o espaço e a cobertura da imprensa para deitar e rolar.
Conclusões
Um grampo foi revelado por uma revista que adora denuncia grampos e que há tempos está falando que o Brasil vive um Estado policial. A conversa grampeada não diz nada de mais. O crime está no grampo em si. Portanto, uma prova se faz necessária. Junto à prova, é preciso a fonte. Para se caracterizar o crime é preciso dizer quem tinha acesso à essa prova, depois passada à revista. Feito isso, todo o trabalho passa a ser feito sob fatos e provas. Não é preciso esse show que os depoimentos de Jorge Félix, Gilmar Mendes e Demóstenes Torres farão à CPI do Grampo.
E só lembrando. Daniel Dantas foi acusado por duas operações diferentes da Polícia Federal de ter grampeado rivais. É também acusado de se utilizar do banco Opportunity para lavar dinheiro. Com o Opportunity ele também praticou crimes contra o sistema financeiro nacional, ao aplicar dinheiro de residentes brasileiros em títulos nacionais como se fossem estrangeiros (não pagando imposto de renda, portanto). É acusado de formação de quadrilha. Esse homem está solto.
Vejamos.
No dia 08 de julho, Daniel Dantas e outros 14 membros do banco Opportunity foram presos. Com eles, Celso Pitta e Naji Nahas também foram presos. Era a Operação Satiagraha da Polícia Federal. Quem é Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas? O que fez o Opportunity? Porque foram presos e depois soltos?
Não se discutiu, em momento algum, nada disso. Ao inverso. Abriu-se investigação contra o policial que liderou a Satiagraha, Protógenes Queiróz, e contra o juiz que acatou a denúncia, Fausto De Sanctis. O que foi falado naqueles dias? Do abuso da Polícia Federal, de ter algemado os presos.
O Congresso criou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar.... as algemas. Convocaram Daniel Dantas e Protógenes Queiróz. O policial deixou um relatório, com mais de 300 páginas, sobre as investigações. Ao invés de lerem, tomaram o relatório por burro - cobravam acerto gramatical de um policial, inviabilizando o seu trabalho, qual seja, de investigar e prender - e convocaram-no para se explicar.
Daniel Dantas foi acusado por duas operações da Polícia Federal - Chacal em 2004 e Satiagraha em 2008 - e é famoso do noticiário político e policial desde 1998. O homem foi considerado culpado em dezembro de 2007 no inquérito do delegado Rosseti da PF em dezembro de 2007 de ter espionado jornalistas e concorrentes de mercado. Pois Daniel Dantas foi ao Congresso. E tudo que Daniel Dantas disse foi tido como verdade inconteste.
A falta de critério não acaba aí.
O caso Satiagraha sumiu do noticiário brasileiro. Por que? Porque a revista Veja, após duas tentativas, conseguiu pautar nova discussão. Na edição desse fim de semana revelou conversas grampeadas entre o ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM).
Abre parêntesis. Gilmar Mendes é o homem que soltou Daniel Dantas duas vezes em quatro dias (09 e 11 de julho, após duas prisões pela Satiagraha). Fecha parêntesis.
A reportagem da Veja divulgou a conversa entre os dois. Não apontou provas (se há um documento oficial, um arquivo de som, etc.). Também não disse quem passou a conversa à revista. Mas foi taxativa. Cravou que foi alguém da Abin ou da Polícia Federal. No meio disso tudo ainda bateu nos termos tradicionais da revista, de que há um Estado policial instalado no Brasil, etc. e tal.
Primeiro. É grave sim que uma conversa entre um ministro do Supremo e um senador tenha sido gravado. É grave que qualquer conversa telefônica seja grampeada. Tem de se descobrir quem foi e qual motivo.
Segundo. A conversa em si não tem nada de mais. Ao contrário até. Trata-se de um diálogo sobre o interesse público, em que o senador Demóstenes Torres pede ajuda do presidente do Supremo para chamar uma pessoa molestada à CPI presidida pelo senador. Foi aliás, a primeira vez que uma revelação de grampo é boa para os dois grampeados. Isso é estranho. Os dois saem "bonito na fita". Mais do que nunca é preciso saber quem passou a conversa à revista.
Terceiro. Qual é a prova do grampo? A revista crava que quem grampeou era da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ou da Polícia Federal. Como tem tanta certeza? Qual é a prova?
Quarto. A CPI do Grampo - aquela instalada depois das prisões promovidas pela Satiagraha - convocou gente da Abin, da PF e Jorge Félix, ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), órgão ao qual a Abin está subordinada. O presidente da CPI, Marcelo Itagija (PMDB), também chamou Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. Como eles não tem nada a dizer - são as "vítimas", certo? - eles vão aproveitar o espaço e a cobertura da imprensa para deitar e rolar.
Conclusões
Um grampo foi revelado por uma revista que adora denuncia grampos e que há tempos está falando que o Brasil vive um Estado policial. A conversa grampeada não diz nada de mais. O crime está no grampo em si. Portanto, uma prova se faz necessária. Junto à prova, é preciso a fonte. Para se caracterizar o crime é preciso dizer quem tinha acesso à essa prova, depois passada à revista. Feito isso, todo o trabalho passa a ser feito sob fatos e provas. Não é preciso esse show que os depoimentos de Jorge Félix, Gilmar Mendes e Demóstenes Torres farão à CPI do Grampo.
E só lembrando. Daniel Dantas foi acusado por duas operações diferentes da Polícia Federal de ter grampeado rivais. É também acusado de se utilizar do banco Opportunity para lavar dinheiro. Com o Opportunity ele também praticou crimes contra o sistema financeiro nacional, ao aplicar dinheiro de residentes brasileiros em títulos nacionais como se fossem estrangeiros (não pagando imposto de renda, portanto). É acusado de formação de quadrilha. Esse homem está solto.
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