
Em 2002, o presidente da Venezuela Hugo Chávez, sofreu um golpe de setores militares e de parte da classe média rica. Esse golpe tirou o presidente eleito constitucionalmente por dois dias. Nessas 48 horas Chávez ficou sumido, e o "novo presidente" foi à farra da grande imprensa (especialmente a televisiva) que apoiou o golpe de Estado.
Nesse pequeno espaço de tempo, em que parecia que os golpistas haviam de fato conquistado o que queriam, todas as cartas do jogo foram mostradas: quem arquitetou e apoio festejava; quem sofreu e discordava; ia às ruas.
A Secretaria de Estado dos EUA, através da outrora superpoderosa Condolezza Rice, declarava apoio ao "novo presidente". O IRI soltou comunicado em que comemorava a vitória da democracia naquele país.
O que é IRI, e o que isso tudo tem a ver com o Brasil?
O Instituto Republicano Internacional (IRI), foi criado por Ronald Reagan quando este era presidente dos Estados Unidos. Mais especificamente, foi criado no meio do primeiro mandato de Reagan, em 1983, com sede em Washington. Se trata de um grupo sem fins lucrativos que recebe fundos federais para ajudar países a desenvolver mecanismos democráticos. O objetivo inicial era "plantar as sementes da democracia na América Latina".
Com o desmantelamento do regime soviético entre 1989 e 1991, a missão do IRI foi expandida para "apoiar a democracia e a liberdade ao redor do mundo", por meio do desenvolvimento de partidos e instituições civis. Desde 1993, o atual candidato dos republicanos à presidência dos EUA, John McCain ocupa um cargo no instituto. Hoje é diretor do conselho.
E o Brasil com isso?
O leitor atencioso pode notar a logomarca do IRI na ponta esquerda do cartaz que ilustra este texto. A Usaid, agência americana ligada ao Departamento de Estado, gastou 95 mil dólares para promover este debate sobre reforma política no Congresso Nacional. Detalhe: o seminário ocorreu dias antes do projeto de reforma política entrar na pauta da Câmara dos Deputados, no bojo das denúncias e investigações do mensalão. Foram três organizações sem fins lucrativos que colocaram o capital na Usaid para promover o debate. Uma delas foi o IRI.
Segundo matéria do repórter Sérgio D'ávilla na Folha de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2207200820.htm - para assinantes), que obteve documentos através da Lei de Liberdade de Informação norte-americana, a intenção era essa mesmo, qual seja, influir na definição do projeto que entraria em pauta.
Segundo o documento obtido, o interesse era de buscar "a cobertura máxima da imprensa", de forma a "tanto instruir a imprensa política sobre as questões como estimular o debate nacional". O sucesso do programa seria avaliado conforme seis critérios, informa o documento, entre eles a "influência da conferência no debate nacional (incluindo a cobertura da mídia)" e a ""nacionalização" da conferência, de maneira que essa não seja vista como divulgadora da perspectiva dos EUA".
O plano pede que todo o espectro político brasileiro seja contemplado entre os palestrantes convidados e é assinado pelo Consórcio para Fortalecimento dos Processos Políticos e Eleitorais (Cepps, na sigla em inglês), que reúne três grupos norte-americanos sem fins lucrativos (entre eles o IRI).
Partciparam das mesas o deputados Ney Lopes (PFL-RN), Vilmar Rocha (PFL-GO), João Almeida (PSDB-SP), Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Ronaldo Caiado (PFL-GO), Julio Lopes (PP-RJ), Roberto Freire (PPS-PE), Alexandre Cardoso (PSB-RJ), Rubens Otoni (PT-GO), Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) e Luiza Erundina (PSB-SP). Os acadêmicos foram Octávio Amorim (FGV), Fátima Anastasia (UFMG), Maria Hermínia Tavares (USP) e Lucia Avelar (UnB). Participaram ainda convidados internacionais (da Argentina, Colômbia, México, EUA, Guatemala e Alemanha) e os jornalistas Franklin Martins, Teresa Cruvinel, Merval Pereira e Belisa Ribeiro.
Nada foi falado, à época, de qualquer ligação do seminário com órgãos internacionais, nada que indicasse que o evento foi proposto por institutos americanos e todo articulado para estimular um processo "americanizado" de democracia. Escolheram o lugar adequado (o próprio Congresso), convidados de toda a ordem e a data adequada. Na discussão em si, dois pontos preocupavam os idealizadores americanos: a profusão de partidos pequenos no Brasil e a infidelidade partidária -e como isso parecia ocorrer com mais freqüência na direita do que na esquerda.
Serve para refletir sobre o grau de inserção da cultura (política no caso, mas de toda a ordem) americana (externa como um todo) no debate nacional. Para se perguntar até que ponto o que ocorre aqui é conveniente para países estrangeiros ou para o desenvolvimento interno.
Aliás, o projeto de reforma política está parado até hoje no Congresso.





