terça-feira, 22 de julho de 2008

Os americanos infiltrados


Em 2002, o presidente da Venezuela Hugo Chávez, sofreu um golpe de setores militares e de parte da classe média rica. Esse golpe tirou o presidente eleito constitucionalmente por dois dias. Nessas 48 horas Chávez ficou sumido, e o "novo presidente" foi à farra da grande imprensa (especialmente a televisiva) que apoiou o golpe de Estado.

Nesse pequeno espaço de tempo, em que parecia que os golpistas haviam de fato conquistado o que queriam, todas as cartas do jogo foram mostradas: quem arquitetou e apoio festejava; quem sofreu e discordava; ia às ruas.

A Secretaria de Estado dos EUA, através da outrora superpoderosa Condolezza Rice, declarava apoio ao "novo presidente". O IRI soltou comunicado em que comemorava a vitória da democracia naquele país.
O que é IRI, e o que isso tudo tem a ver com o Brasil?

O Instituto Republicano Internacional (IRI), foi criado por Ronald Reagan quando este era presidente dos Estados Unidos. Mais especificamente, foi criado no meio do primeiro mandato de Reagan, em 1983, com sede em Washington. Se trata de um grupo sem fins lucrativos que recebe fundos federais para ajudar países a desenvolver mecanismos democráticos. O objetivo inicial era "plantar as sementes da democracia na América Latina".

Com o desmantelamento do regime soviético entre 1989 e 1991, a missão do IRI foi expandida para "apoiar a democracia e a liberdade ao redor do mundo", por meio do desenvolvimento de partidos e instituições civis. Desde 1993, o atual candidato dos republicanos à presidência dos EUA, John McCain ocupa um cargo no instituto. Hoje é diretor do conselho.

E o Brasil com isso?

O leitor atencioso pode notar a logomarca do IRI na ponta esquerda do cartaz que ilustra este texto. A Usaid, agência americana ligada ao Departamento de Estado, gastou 95 mil dólares para promover este debate sobre reforma política no Congresso Nacional. Detalhe: o seminário ocorreu dias antes do projeto de reforma política entrar na pauta da Câmara dos Deputados, no bojo das denúncias e investigações do mensalão. Foram três organizações sem fins lucrativos que colocaram o capital na Usaid para promover o debate. Uma delas foi o IRI.

Segundo matéria do repórter Sérgio D'ávilla na Folha de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2207200820.htm - para assinantes), que obteve documentos através da Lei de Liberdade de Informação norte-americana, a intenção era essa mesmo, qual seja, influir na definição do projeto que entraria em pauta.

Segundo o documento obtido, o interesse era de buscar "a cobertura máxima da imprensa", de forma a "tanto instruir a imprensa política sobre as questões como estimular o debate nacional". O sucesso do programa seria avaliado conforme seis critérios, informa o documento, entre eles a "influência da conferência no debate nacional (incluindo a cobertura da mídia)" e a ""nacionalização" da conferência, de maneira que essa não seja vista como divulgadora da perspectiva dos EUA".

O plano pede que todo o espectro político brasileiro seja contemplado entre os palestrantes convidados e é assinado pelo Consórcio para Fortalecimento dos Processos Políticos e Eleitorais (Cepps, na sigla em inglês), que reúne três grupos norte-americanos sem fins lucrativos (entre eles o IRI).

Partciparam das mesas o deputados Ney Lopes (PFL-RN), Vilmar Rocha (PFL-GO), João Almeida (PSDB-SP), Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Ronaldo Caiado (PFL-GO), Julio Lopes (PP-RJ), Roberto Freire (PPS-PE), Alexandre Cardoso (PSB-RJ), Rubens Otoni (PT-GO), Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) e Luiza Erundina (PSB-SP). Os acadêmicos foram Octávio Amorim (FGV), Fátima Anastasia (UFMG), Maria Hermínia Tavares (USP) e Lucia Avelar (UnB). Participaram ainda convidados internacionais (da Argentina, Colômbia, México, EUA, Guatemala e Alemanha) e os jornalistas Franklin Martins, Teresa Cruvinel, Merval Pereira e Belisa Ribeiro.

Nada foi falado, à época, de qualquer ligação do seminário com órgãos internacionais, nada que indicasse que o evento foi proposto por institutos americanos e todo articulado para estimular um processo "americanizado" de democracia. Escolheram o lugar adequado (o próprio Congresso), convidados de toda a ordem e a data adequada. Na discussão em si, dois pontos preocupavam os idealizadores americanos: a profusão de partidos pequenos no Brasil e a infidelidade partidária -e como isso parecia ocorrer com mais freqüência na direita do que na esquerda.

Serve para refletir sobre o grau de inserção da cultura (política no caso, mas de toda a ordem) americana (externa como um todo) no debate nacional. Para se perguntar até que ponto o que ocorre aqui é conveniente para países estrangeiros ou para o desenvolvimento interno.

Aliás, o projeto de reforma política está parado até hoje no Congresso.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

18 anos depois, Plano Collor assusta


A Justiça do Rio determinou nesta quarta-feira à noite o bloqueio de dinheiro, ativos financeiros e de todos os bens dos ex-governadores fluminenses Anthony e Rosinha Garotinho. Além do casal, os ex-secretários Marco Antonio Lucidi (Trabalho e Renda) e Gilson Cantarino (Saúde), e mais 30 réus (entre pessoas físicas e jurídicas) também foram alvo da determinação da Justiça.
Todos foram acusados pela Operação Pecado Capital, deflagrada na terça (um dia antes, portanto), que apura o desvio de R$ 70 milhões dos cofres da secretaria de Saúde. Repito: desvio de 70 (setenta) milhões de reais de dinheiro público. A liminar foi determinada pela juíza Maria Paula Gouveia Galhardo, da 4ª Vara de Fazenda Pública.
Os dois secretários, Lucidi e Cantarino, foram presos na noite de terça-feira. No mesmo dia seus advogados entraram com pedido de habeas corpus, que foi negado pelo desembargador Leandro Ribeiro da Silva. Os advogados então passaram o pedido à outra esfera, a 2ª Camara Criminal da Capital, onde o desembargador relator Antônio José Carvalho.
Alguém tem de avisar a defesa dos secretários que é mais ágil mandar o habeas corpus direto ao personagem máximo do desenho jurídico nacional: o ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Como diz o ditado: "resta, aos pobres, algemar; aos ricos, Gilmar".
As suspeitas, e mais sério, as acusações de improbidade administrativa são coisa antiga para o casal Garotinho. O fato novo está em investigar a fundo e formalizar isso em uma acusação à Justiça. Com isso, são três grandes operações investigativas contra crimes financeiros que explodem em menos de uma semana: Operação Satiagraha, contra Naji Nahas, Daniel Dantas e a turma do Opportunity; Operação Toque de Midas, contra licitação pública fraudulenta no estado do Amapá à favor do empresário Eike Batista; e Operação Pecado Capital, contra desvio de dinheiro público nos governos do casal Garotinho no Rio de Janeiro.
A primeira está sendo acompanhanda de perto por este blogueiro. Oportunamente (um doce para quem pegou a brincadeira) publicarei um resumo no Blog. A operação que investiga as relações de Eike Batista e o governo do Amapá já recebeu os panos quentes de Lula.

E a operação contra Garotinho está aí. Depois de 18 anos o confisco está de volta!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Colômbia e a Guerra Civil no século XXI













Na quarta-feira, Ingrid Betancourt e mais 14 pessoas foram resgatadas após serem mantidas como reféns pelas Farc. Muito se falou mas pouco se informou nesses dias. Afinal, você sabe o que são as Farc? Por que elas existem? Por que agem dessa maneira?



Comecemos pelo final. Betancourt tem a história mais comovente e famosa. De origem franco-colombiana, Ingrid ingressou na vida política no final dos anos 90. Em 2002 se lançava candidata à presidência da Colômbia e fazia campanha no sul do país. Seu discurso era de centro-direita, mas conciliador, baseado na conversa com opositores e traficantes de entorpecentes. Tinha 2% dos votos, segundo pesquisas de opinião da época. Seu rival direto, Álvaro Uribe, de direita, apoiado pelos Estados Unidos e defensor da política de tolerância zero com traficantes.



Ingrid foi sequestrada pelas Farc. Uribe foi eleito, e no seu primeiro ano (2003) colocou em prática uma política bi-nacional de combate militar ao narcotrafico. Foi assinado em conjunto com os EUA e chamado de Plano Colômbia. Os americanos entraram nessa por serem os maiores compradores das drogas produzidas e traficadas na Colômbia. Além do interesse político em dominar o país sul-americano, tinha (e tem) interesse direto na resolução dessa questão. Os EUA entraram com o dinheiro e com os militares. A estratégia foi fechada por Bush e Uribe.



Iniciou-se um período negro para as Farc e para a população pobre (a grande maioria) colombiana. Enquanto o poderio militar oficial colombiano crescia aos poucos, os "para-militares" viram seu poder aumentar significativamente, indiretamente, uma vez que a política oficial dos dois países se tratava do Exército "oficial". Mas a real estratégia do Plano Colômbia era essa: intensificar os para-militares. Estes não tem vínculo com a Constituição, não respondem ao presidente, não são guiados pela Declaração dos Direitos Humanos. Nada. São liderados por ex-militares experientes, guiados pelo dinheiro para fazer aquilo que as forças armadas oficiais não podem por lei e moral.



O que ocorreu na Colômbia a partir de então é um processo monstruoso de "higienização social". O povo foi encurralado para os grandes centros, causando inchaços nas cidades. O contato com drogas e criminalidade se torna recorrente, junto com pobreza e mal-trato. Os para-militares entram aí.



As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) nasceram no final dos anos 60, num contexto de ditaturas militares na América Latina. A desigualdade social, antes ignorada pelos governantes ligados à burguesia da agricultura se intensificou financeira-moralmente pela repressão política. A idéia das Farc era combater a repressão e o autoritarismo pela luta armada, seguindo os passos dos guerrilheiros cubanos de 1959 e dos outros tantos exemplos espalhados pela região. O conteúdo ideológico sempre foi o socialismo, mas suas bases eram menos sólidas. O grande ponto das Farc sempre foi o de priorizar a organização.



Por diferentes razões, que não cabe a este texto discutir, o movimento perdeu força nos anos 80. A falta da base financeira foi trocada pela iniciação com o narcotráfico. Toda a organização militar foi colocada para dar sustentação à isso. O lado político do movimento foi deixado, cada vez mais, de lado, priorizando a luta. Do envolvimento com o tráfico de entorpecentes as Farc passaram a sequestrar pessoas "influentes" como forma de manejo político, chantagem mesmo. Os alvos foram jornalistas, políticos, policiais, militares.



A ação do Plano Colômbia foi aos poucos mudando o jogo de chantagem. As Farc alcançaram seu auge em 2002, quando contava com 16 mil guerrilheiros. Após a ofensiva de Uribe esse número foi caindo e hoje são menos de 8 mil. Apenas em 2007 foram 2.400 mortos em operações federais. No início de 2008, os três principais líderes foram assassinados.



As Farc se perderam com o narco-tráfico e esses sequestros ridículos. Mas a questão não está aí. Está em perceber o ambiente histórico que criou a organização. É o mesmo que permanece até hoje. Gritante desigualdade social, militarismo exacerbado. Poucos com muito e muitos com nada. E o apoio dos americanos no meio disso tudo.



Entre ser morto por um para-militar ou sequestrado por um guerrilheiro não há muita diferença. A Colômbia sangra, porque faz tudo menos o necessário. Terrorismo de direita ou de esquerda, tanto faz. Aliás, nas fotos acima, os para-militares são os da esquerda, em cima. As Farc na foto abaixo, à direita.

Pensata da semana


Tem horas em que, não importa o que se pensa, um sentimento insiste em rebater na cabeça. Não sei se vou ou não vou. Não sei se ouço ou ignoro. Não importa quanto já tenha vivido, a experiência nunca é tanta. Justamente porque não se trata, nessas horas, de revirar a memória para ver como agir. Não adianta olhar para o lado e ver o exemplo à seguir. Quando as dúvidas (pessoais, não profissionais, porque essas a gente sofre, mas resolve) rebatem na cabeça, o problema é o sentimento.


Quando esse sentimento bate, minha vontade é de largar tudo. É viver o que nunca vivi. É ver o que nunca vi. É fazer o que nunca fiz. Não é rebeldia, é liberdade.


Se sinto o que estou sentindo agora é pelos caminhos que optei. E olha que sou de bancar minhas escolhas. Mas quando vejo que as coisas que fiz estão me sufocando, não sei o que fazer. Porque tem coisas que simplesmente você não tem o que fazer. Você só torce para sua cabeça mudar de ventos para as coisas se acertarem sozinhas.


Quero ir ver o sertão. Quero ir para a mata, ver o diferente, entender o diferente. Quero andar sem um rumo específico. Quero ter um amigo igual. Alguém que entenda. Quero gente ao meu redor sem medo do coletivo. Basta do individualismo e do ego. Ego é coisa de gente rica, de gente das cidades, de gente de poder. Porque quem não tem nada não se orgulha da influência nos que não conhece, ou dos objetos que têm. Quem não tem nada se orgulha de ser exemplo pro vizinho, que igual à ele. Se orgulha de ter o que precisa.


Não é utopia o que escrevo. Não é imaturidade pensar assim. A vontade de poder e a fome por riqueza não é tendência do ser humano. O sistema ainda não está impregnado em todos. E é bom que assim seja. Somos animais na essência, precisamos uns aos outros. Canibalismo financeiro e social é palhaçada de capitalista. E por favor, não estou generalizando. Tem capitalistas e capitalistas.


A verdade é que quando esse sentimento toma conta, a vontade que dá é de fazer tudo diferente. Fugir do que está segurando, mantendo, rotineiramente sufocando. Quando tudo está bem, cabeça em ordem, escolhas certas, a vontade de fazer o novo fica guardada, sempre esperando as férias, o final de semana, o futuro. Mas quando bate esse sentimento, a vontade é de fazer tudo isso agora. Sertão, praia, floresta, Brasil, Brasil, Brasil.


Mas isso é só escapismo inconsequente. É fugir dos problemas. E eu odeio escapismo. Como odeio melancolia.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A mídia e os bancos


Quando o Banco Central (BC), através de seu Comitê de Política Monetária (Copom) decide aumentar os juros - como vem fazendo desde abril - qualquer teórico ou ativista que vá contra o pensamento hegemônico é tido como "atrasado", "contra a modernidade", enfim. Inicia-se uma campanha aberta, entre os operadores do mercado financeiro mundial, dos banqueiros, do grande capital transnacional (o maior beneficiado através de especulação cruzada com títulos públicos e mercado futuro) e da mídia.
Pode ver. Sempre que há ameaça de inflação alta e o BC começa a elevar os juros, o que não falta é defesa dos juros altos na mídia tradicional.
A teoria hegemônica preconiza apenas uma fórmula para o combate da inflação: o aumento de juros. Estes inibem o consumo, aumentando o "encalhe" e ajustando a produção, de qualquer maneira, diminuindo os preços. No meio do caminho, o crescimento do país vai para o lixo. Mas e daí, certo?
Estamos reclamando de barriga cheia. Ruim é o Equador. Lá, dos sete canais de televisão, cinco pertencem à bancos e empresas do sistema financeiro. Qualquer palavrinha em regular os juros da economia, ou em diminuir as taxas dos serviços bancários é rebatida por uma maciça campanha contrária da mídia.
No Brasil nenhum banco é dono de canal de televisão. Estes são ou de famílias tradicionais, ou de políticos (alguns também de famílias tradicionais, right?). Estamos reclamando de barriga cheia. Que venham os juros! A mídia está certa em defender essa política!
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