Temos duas grandes questões envolvendo as fabricantes de bebidas (cervejas e refrigerantes) e o governo federal. A mais recente, e que está causando mais alvoroço por atingir as pessoas-consumidores de forma mais direta, é a lei de tolerância zero com os motoristas alcoolizados. Operando, por enquanto apenas em São Paulo, batidas policiais noturnas estão colocando os novos critérios em prática: quem for pego dirigindo, com 0,10mg e 0,29mg de álcool no sangue paga R$ 955, perde a carteira de motorista por 1 ano e tem o carro apreendido. Quem estiver dirigindo com mais de 0,30mg, além de tudo isso, é preso.
A lei não é contra a bebida, os bares, os bêbados, ou quem quer que seja. É contra misturar álcool e volante. Quem quiser ir ao bar, encher a cara e depois voltar para casa (de táxi, transporte público, carona) continua fazendo.
Ainda assim, já começam a surgir as primeiras manifestações, de todos os lados. Os consumidores acham que a lei é rígida demais. Afinal, 0,10mg é o equivalente à um chope ou à uma taça de vinho. Os bares, através de suas associações profissionais, dizem que o movimento caiu 30% (o que pode ser terrorismo, ou verdade mesmo) no último final de semana, e que cairá ainda mais. E o setor produtor de bebidas começa a se mexer, com seus canais em Brasília.
O lobby das cervejas é dos mais fortes no Congresso (Senado e Camara dos Deputados) e no Executivo. Abaixo apenas das empresas de telecomunicações, que tem até um enviado especial fazendo as vezes de ministro. (Proposta de enquete: Qual foi a grande obra do atual ministro das Comunicações, Helio Costa?). Vejamos um rápido exercício de memória:
Governo FHC - 1999 - Antártica e Brahma se unem, após aval do governo federal, para criar a super empresa brasileira de cervejas, a Ambev. O Cade (órgão de defesa da concorrência no Brasil) permitiu essa operação patrocinada pelo governo. Dois anos depois uma empresa belga comprou a Ambev, que hoje atende pelo nome de Inbev.
Governo Lula - 2008 - Oi (antiga Telemar) e Brasil Telecom se unem, após aval do governo federal, para criar a super empresa brasileira de telecomunicações. Dessa vez, foi a Anatel (agência reguladora do mercado de telecomunicações no Brasil) quem permitiu essa operação patrocinada pelo governo.
Um ponto que passou desapercebido da discussão sobre o lobby das cervejas foi a mudança no modelo de tributação do setor. Essa discussão é muito importante para todos os personagens citados lá em cima (consumidores, bares, transporte, empresas de bebidas), mas é mais técnica, por isso a maioria não dá atenção, não entende, ou simplesmente quer ignorar mesmo. Justamente pelo caráter técnico da questão, o jornal Valor foi o único a dar atenção para isso.
Na quarta-feira passada, o presidente Lula sancionou a Lei 11.727 que alterava o modelo de cobrança de impostos das empresas produtoras de bebidas no Brasil. Dois dias depois, na sexta-feira, Lula assinou outra Medida Provisória, a 436, mudando a tributação do setor de bebidas que constavam da lei e adiando sua entrada em vigor para 2009. Ou seja, a partir da última quarta, as empresas passaram a pagar segundo regras das Lei 11.727. Quando a MP de sexta-feira for aprovada pelo Congresso, a Lei 11.727 deixa de existir, elas voltam ao modelo antigo, e o novo modelo só passa a valer em 2009.
Citar Millor Fernandes agora seria clichê. Não vou, prometo.
O impacto da MP 436 pode ser entendido dessa forma: Os preços das garrafas retornáveis de 600 ml (que correspondem a quase 70% do mercado) vão de R$ 1,76 a R$ 2,40, o que dá uma média de R$ 2,08. Segundo essas normas, a empresa que consegue oferecer preço mais baixo que a média pagará tributos federais como se cobrasse R$ 2,08 pela garrafa. Quem tem preços mais altos que os R$ 2,08 tem vantagem, porque a margem de lucro das bebidas é muito pequena. Nesse exemplo, a cervejaria que pode trabalhar com preço de R$ 1,76 teria uma carga 18% maior. Do outro lado, os que têm preço de R$ 2,40 ficariam com carga 15% menor.
A Lei 11.727 foi aprovada na Câmara com os seguintes números: 277 deputados a favor e 73 contra. Alguns parlamentares têm interesse direto no assunto porque também são empresários do setor. Um dos vice-líderes do PMDB, Tadeu Filipelli (DF), é dono da pequena Refrigerantes Cerradinho. Seu colega de bancada do DF, Osório Adriano (DEM) é fabricante de Coca-Cola. Nelson Marquezelli (PTB-SP) é distribuidor de produtos Ambev no interior paulista. No Senado, Tasso Jereissati (PSDB-CE) é dono da Norsa, fabricante da Coca-Cola para quatro estados: Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia. César Borges (DEM-BA) é distribuidor Coca-Cola.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Coca-Cola e Ambev são tradicionais financiadoras de campanhas no Congresso.


