Parte 2: O fenômeno dos blogs e a imprensa marrom
"O que a democracia realmente precisa é de debate público, não de informação. À não ser que a informação seja acompanhada por debate público sustentado, a maior parte é irrelevante na melhor das hipóteses, e passível de manipulação na pior das hipóteses”.
A frase acima é do crítico de mídia Christopher Lasch, recentemente se especializando em blogs e novas tecnologias da informação. Para David Kline, veterano jornalista do The New York Times e entusiasta dos blogs, o que os blogs políticos fazem melhor é combinar informação com debate. Isso vai, inevitavelmente, levar para um estreitamento da consciência civil da sociedade.
Kline vê um retorno para os níveis extraordinários de participação política presentes na mídia partidária do século XIX.
Para os críticos dos blogs como forma substitutiva da imprensa tradicional, são justamente essas características que devem ser combatidas, e que servem de foco de ataque. Os defensores da “profissionalização” não vêm como evolução um retorno à imprensa marrom (à que Kline denominou mídia partidária) de séculos passados.
Os blogs surgiram no final dos anos 1990, com nome oficial de “weblog”. A inovação desse software era de tornar a criação de páginas pessoais de internet algo simples e acessível à base crescente de usuários. A idéia era simples, e se baseava no sucesso dos sites de “chat”, em que as pessoas gastavam horas e horas conversando. Os blogs instituíam páginas para quem se interessasse, e havia ainda um sistema de comentários, permitindo a interação entre o autor do blog (o blogueiro) e seu público leitor.
De início, os blogueiros eram adolescentes escrevendo para adolescentes. Apenas depois de alguns anos a coisa começou a tomar proporções maiores, quando pessoas de diferentes atividades e setores passaram à manter seus blogs, dando opinião sobre aspectos gerais, que implicam com a vida de todos – como a política. O olhar desses blogueiros era o mesmo de seu público leitor, qual seja, distante do mundo dos políticos e da imprensa profissional.
Cada vez mais blogs começavam à receber acessos e comentários. Estes comentaristas por sua vez criavam seus próprios blogs, puxando outros leitores, que depois se tornavam comentaristas e blogueiros. O ciclo foi se estendendo, e alguns blogueiros começavam à acumular audiências enormes, “roubando” o público consumidor dos meios de comunicação tradicionais.
A primeira vez que os blogs políticos chamaram à atenção da grande imprensa foi no final de 2002. No dia 5 de dezembro daquele ano o senador Trent Lott deu um discurso com fortes visões segregacionistas, na festa de aniversário do colega senador Strom Thurmond. A mídia tradicional ignorou o discurso. Os blogs não. Josh Marshall (dono do blog Talking Points Memo) e Glenn Reynolds (do blog Instapundit, até hoje dos mais acessados dos Estados Unidos) divulgaram incessantemente as opiniões de Lott. A história foi crescendo no mundo virtual, alcançando um público maior, fazendo a imprensa ceder, com o televisivo Meet the Press finalmente dando conta do discurso.
Lott, que caminhava isolado para assumir a liderança da maioria do Senado em 2003 teve de desistir de suas pretensões.
Mas o divisor de águas ocorreu durante as eleições presidenciais dos EUA em 2004. Coordenador da campanha do pré-candidato democrata Howard Dean (que disputava com John Kerry a nomeação do partido), Joe Trippi lançou a idéia pioneira de produzir um blog da campanha. O blog de Howard Dean surgiu no final de 2003, alcançando público galopante, discutindo não apenas as idéias do candidato como também os rumos do país.
Conquistando o eleitorado, Trippi teve outra idéia inovadora. Decidiu arrecadar dinheiro, através de doações (algo comum nas eleições estadunidenses) pelo blog. A campanha de Dean arrecadou mais US$ 45 milhões apenas em doações online, com média de menos de cem dólares por doador – mais do que qualquer candidato democrata em toda a história.
O eventual escolhido pelos democratas, John Kerry, adotaria estratégia semelhante, após a desistência de Dean. Através do blog da campanha de Kerry, o candidato arrecadou mais de US$ 60 milhões online, estabelecendo novo recorde.
Para Roger L. Simon, escritor com indicação ao Oscar por roteiro adaptado, e autor de blog com mais vinte mil acessos/mês, o ponto mais importante sobre a ascensão dos blogs é a crítica que estes fazem às instituições de imprensa tradicionais. “O The New York Times em alguns pontos tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos, e não é alvo de impeachment, ou de eleições. É muito saudável que a grande mídia seja criticada pelos blogs”.
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Este artigo foi originalmente publicado em meu blog antigo, que estava em um provedor diferente. Por sorte guardava cópia dos textos e pude ter acesso à eles depois que o blog antigo simplesmente saiu do ar. Passei todo o material do blog anterior para arquivos do Google Docs e coloquei na internet, com links neste Blog, que está num provedor infinitamente mais seguro, o Blogspot (ou Blogger). Os textos referentes ao blog antigo, que se extendem de dezembro de 2006 a junho de 2008 estão na seção "Arquivos antigos", à esquerda desta página. Quando algum artigo serve à uma tese atual, tendo passar para este Blog atual, como faço com este que você acabou de ler.
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
A internet e a democratização da informação
Parte 1: A Internet e a mídia tradicional
A internet é o veículo de comunicação com maior potencial de democracia já inventado pelo homem. Em tese, é possível colocar a disposição de todos todo o tipo de informação e opinião. Além de sofisticado sistema de comunicação e softwares cada vez mais desenvolvidos para facilitar essa relação, os custos de disponibilização e acesso são enormemente menores.
O modelo tradicional de disponibilização de informação é da tríplice rádio-televisão-imprensa escrita. Nestes, é preciso um dono (ou uma família, ou sócios) com elevado capital inicial, para dar o pontapé no negócio. Cada um desses sistemas têm seus custos fixos, não necessariamente financeiros: equipamentos próprios, matéria prima, concessão pública (no caso das rádios e tevês), jornalistas, equipes de marketing, entre outros.
Como qualquer negócio capitalista, espera-se um retorno financeiro. Há um limite para trabalhar no vermelho, seja ele os juros do dinheiro emprestado (no caso de empréstimos), ou a falência.
E há claro, o desejo político, de interferir no sistema social posto. Existem dois casos de exemplos claros do poder exercido pela imprensa (fenômeno largamente estudado por este Blog): A imprensa nos Estados Unidos e na antiga URSS.
A imprensa estadunidense foi das primeiras à se profissionalizar, em processo iniciado no inicío do século XX, intensificado após o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Queria-se regularizar a imprensa marrom, altamente pulverizada, que defendia os interesses de setores distintos. Havia pouca informação verídica publicada. Tudo tinha interesse político ou econômico.
A profissionalização veio para regularizar e tornar a imprensa e a disseminação da informnação algo democrático e público. Ainda assim, a imprensa profissional nasceu privada. Com critérios cada vez mais rígidos de trabalho, o jogo ficou restrito à quem mais dinheiro tinha.
Nascia o "quarto poder", a imprensa como Poder tão necessária à República como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O mesmo ocorreu com o rádio e a televisão.
Na URSS a imprensa (jornal, rádio e tv) funcionava como órgão de informações oficiais, isto é, só se falava do que o governo permitia. A censura era regra, e não havia separação entre Estado e imprensa.
O surgimento da internet é a derrubada da antiga barreira de poder político e econômico. Com custos infinitamente mais baixos é possível, através de um computador com acesso à internet, ter acesso à todo o tipo de opiniões. A disseminação é instantânea.
O modelo de disponibilização de informação/opinião mais recente são os blogs. Criados no final dos anos 1990, esses softwares permitem à qualquer pessoa criar sua página (seu blog), e nela escrever livremente sobre o que pensa. Não há barreira.
O primeiro grande sinal de poder dos blogs na cultura mundial foi nas eleições presidenciais norte-americanas de 2004. Mesmo antes, em 2002 e 2003, muitos blogueiros se tornaram conhecidos por expressarem suas opiniões políticas com clareza e eficiência, conquistando audiências enormes para seus blogs, roubando leitores e telespectadores da imprensa tradicional.
Mas nas eleições de 2004 a coisa tomou proporções gigantescas. O pré-candidato democrata, Howard Dean, através de seu chefe de comitê eleitoral Joe Trippi. Trippi montou um blog para a campanha e começou à aglutinar pessoas nas discussões. Depois passou à arrecadar fundos. Foi o primeiro candidato democrata à arrecadar mais de US$ 40 milhões. Tudo com dinheiro de pessoa física, através de seu blog.
A discussão é das mais importantes. Os críticos dos blogs afirmam que a "democratização" da net vai contra a "profissionalização" da imprensa tradicional, e temos então um quadro de retrocesso à imprensa marrom de séculos passados.
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Este artigo foi originalmente publicado em meu blog antigo, que estava em um provedor diferente. Por sorte guardava cópia dos textos e pude ter acesso à eles depois que o blog antigo simplesmente saiu do ar. Passei todo o material do blog anterior para arquivos do Google Docs e coloquei na internet, com links neste Blog, que está num provedor infinitamente mais seguro, o Blogspot (ou Blogger). Os textos referentes ao blog antigo, que se extendem de dezembro de 2006 a junho de 2008 estão na seção "Arquivos antigos", à esquerda desta página. Quando algum artigo serve à uma tese atual, tendo passar para este Blog atual, como faço com este que você acabou de ler.
A internet é o veículo de comunicação com maior potencial de democracia já inventado pelo homem. Em tese, é possível colocar a disposição de todos todo o tipo de informação e opinião. Além de sofisticado sistema de comunicação e softwares cada vez mais desenvolvidos para facilitar essa relação, os custos de disponibilização e acesso são enormemente menores.
O modelo tradicional de disponibilização de informação é da tríplice rádio-televisão-imprensa escrita. Nestes, é preciso um dono (ou uma família, ou sócios) com elevado capital inicial, para dar o pontapé no negócio. Cada um desses sistemas têm seus custos fixos, não necessariamente financeiros: equipamentos próprios, matéria prima, concessão pública (no caso das rádios e tevês), jornalistas, equipes de marketing, entre outros.
Como qualquer negócio capitalista, espera-se um retorno financeiro. Há um limite para trabalhar no vermelho, seja ele os juros do dinheiro emprestado (no caso de empréstimos), ou a falência.
E há claro, o desejo político, de interferir no sistema social posto. Existem dois casos de exemplos claros do poder exercido pela imprensa (fenômeno largamente estudado por este Blog): A imprensa nos Estados Unidos e na antiga URSS.
A imprensa estadunidense foi das primeiras à se profissionalizar, em processo iniciado no inicío do século XX, intensificado após o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Queria-se regularizar a imprensa marrom, altamente pulverizada, que defendia os interesses de setores distintos. Havia pouca informação verídica publicada. Tudo tinha interesse político ou econômico.
A profissionalização veio para regularizar e tornar a imprensa e a disseminação da informnação algo democrático e público. Ainda assim, a imprensa profissional nasceu privada. Com critérios cada vez mais rígidos de trabalho, o jogo ficou restrito à quem mais dinheiro tinha.
Nascia o "quarto poder", a imprensa como Poder tão necessária à República como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O mesmo ocorreu com o rádio e a televisão.
Na URSS a imprensa (jornal, rádio e tv) funcionava como órgão de informações oficiais, isto é, só se falava do que o governo permitia. A censura era regra, e não havia separação entre Estado e imprensa.
O surgimento da internet é a derrubada da antiga barreira de poder político e econômico. Com custos infinitamente mais baixos é possível, através de um computador com acesso à internet, ter acesso à todo o tipo de opiniões. A disseminação é instantânea.
O modelo de disponibilização de informação/opinião mais recente são os blogs. Criados no final dos anos 1990, esses softwares permitem à qualquer pessoa criar sua página (seu blog), e nela escrever livremente sobre o que pensa. Não há barreira.
O primeiro grande sinal de poder dos blogs na cultura mundial foi nas eleições presidenciais norte-americanas de 2004. Mesmo antes, em 2002 e 2003, muitos blogueiros se tornaram conhecidos por expressarem suas opiniões políticas com clareza e eficiência, conquistando audiências enormes para seus blogs, roubando leitores e telespectadores da imprensa tradicional.
Mas nas eleições de 2004 a coisa tomou proporções gigantescas. O pré-candidato democrata, Howard Dean, através de seu chefe de comitê eleitoral Joe Trippi. Trippi montou um blog para a campanha e começou à aglutinar pessoas nas discussões. Depois passou à arrecadar fundos. Foi o primeiro candidato democrata à arrecadar mais de US$ 40 milhões. Tudo com dinheiro de pessoa física, através de seu blog.
A discussão é das mais importantes. Os críticos dos blogs afirmam que a "democratização" da net vai contra a "profissionalização" da imprensa tradicional, e temos então um quadro de retrocesso à imprensa marrom de séculos passados.
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Este artigo foi originalmente publicado em meu blog antigo, que estava em um provedor diferente. Por sorte guardava cópia dos textos e pude ter acesso à eles depois que o blog antigo simplesmente saiu do ar. Passei todo o material do blog anterior para arquivos do Google Docs e coloquei na internet, com links neste Blog, que está num provedor infinitamente mais seguro, o Blogspot (ou Blogger). Os textos referentes ao blog antigo, que se extendem de dezembro de 2006 a junho de 2008 estão na seção "Arquivos antigos", à esquerda desta página. Quando algum artigo serve à uma tese atual, tendo passar para este Blog atual, como faço com este que você acabou de ler.
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