Grita
Que você não tem nada
Quem passa e vê,
acha que as coisas são como são
(e porque não deveriam ser?)
não há uma contradição
a melancolia do outro
é um fato sem por quê
A diferença é a base do que está posto
discutir é tido por baderna
Você que me vê
não sabe que somos iguais
(ignora)
mas a mudana há de vir
quem espera continua esperando
quem ri continua rindo
a fome há de se representar
se não me vê, olhará
E quem está de olhos fechados
Quando abre pela primeira vez
não entende
E quem acha que o sol é para todos
não sabe
que ele não é
E quem come por que já comeu e ainda comerá
Quando senta o esfomeado
não percebe
O grito é a primeira chama
que se alastra pelo gesto
a alegoria do eterno derrotado
se volta
Porque somos iguais, temos medo
(agora você terá também)
Depois da fogueira vem o carnaval
e com ele a violência
Quem não sabe viola aquele que consente
E ignora saber o que o outro sente
O outro por ser resto, mente
Os homens se fazem na hipocrisia
De repente, como quem sente o que a mente consente
surge o grito!
Que você não tem nada.

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