Rio de Janeiro:
A disputa no Rio de Janeiro foi das mais conservadoras e perigosas do país. Aliás, o conservadorismo é uma tendência alarmante nas três capitais de sempre: Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
Um candidato aparecia desde sempre muito forte: Marcelo Crivella, candidato do PRB (minúsculo, que conta com o vice federal José Alencar) e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A IURD, como se sabe, é a dona da Rede Record de televisão. A Record, como se sabe, é rival comercial da Rede Globo. A Rede Globo, como se sabe, é um dos braços das Organizações Globo. As Organizações Globo, como se sabe, começaram com um jornal, O Globo.
Ou seja: campanha maciça do jornal O Globo contra Marcelo Crivella desde o início. Trata-se do segundo maior jornal do Brasil (em tiragem de exemplares) e é hegemônico no Rio de Janeiro. Forma um consórcio dominante junto à Rádio Globo e à CBN e aos canais Globo na televisão (aberta e com a Globonews na TV a cabo). Do lado de Crivella, a rede Record, a Universal e seus fiéis, e uma aprovação muito boa, no início.
A Globo também movia (continua movendo) campanha com o "blogueiro que se diz prefeito do Rio", César Maia (DEM). César Maia, como se sabe, fez duas grandes realizações como prefeito: superfaturou todas as obras necessárias e desnecessárias para o Pan Americano de 2007, e criou um blog (chamado de "Ex-Blog"), que dispara e-mails diários. Um emprego muito conveniente, diga-se. Ganha dinheiro e não precisa tirar o pijama.
O quadro então era: o atual prefeito agonizava no cargo, esperando a hora de cair fora. O preferido nas pesquisas gerava uma guerra na mídia. E do outro lado tínhamos dois "portos seguros": Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV).
Foram eles os escolhidos pelos cariocas para disputarem o segundo turno.
Eduardo Paes chegou na frente. Tem uma história interessantíssima. Surgiu junto à César Maia, no primeiro mandato de César no Rio. Foi duas vezes secretário e se lançou à deputado federal. Foi bancado por ele e acabou sendo eleito. Depois passou ao PSDB e rompeu com César. Os holofotes vieram durante à CPI dos Correios entre 2005 e 2006. Era o mais assanhado dos deputados e senadores. Enquanto o pessoal mais sério investigava e inqueria, Paes lançava frases de efeito contra os petistas e especialmente contra Lula. Seu partido, o PSDB, dava base para tudo, claro.
Com a vitória de Sérgio Cabral (PMDB) ao governo do estado em 2006, Paes fez o que? Migrou para o PMDB. Mas o PMDB não é aliado do Lula?
Eduardo Paes passou então para sua terceira mudança. Acompanhem: de César Maia do DEM (ex-PFL) para o PSDB; de crítico do Lula e do PT, para PMDB, agora amigo de Lula e do PT.
E pode sair dessa como prefeito do Rio de Janeiro. *Dá até vontade de se candidatar e conseguir também, não dá?*
Contra ele está Fernando Gabeira. Mas o Gabeira de 2008 é uma versão diferente do famoso Gabeira pré-redemocratização. Aquele Gabeira era guerrilheiro. Este é corneteiro. Aquele sequestrou o embaixador dos Estados Unidos em 1969, em pleno governo Médici. Este esperneia no Congresso para chamar a atenção.
É filiado ao Partido Verde. Mas isso não importa para quem discute política. Talvez para o eleitor pequeno burguês da zona sul (que foi quem o colocou no segundo turno) isso importe. Este eleitor adora as aparências, adora saber que vota num candidato que é a favor das bicicletas, ligado ao meio ambiente, a favor da legalização das drogas (pero no mucho), etc.
Mas o que importa é que a coligação de Gabeira demonstra a que veio: PSDB e DEM. O PSDB de Arthur Virgílio, de FHC, de Serra e Alckmin. O DEM de Kassab e do clã dos Maia: César (prefeito do RJ) e seu filho Rodrigo (presidente do partido). César Maia, inclusive, anunciou hoje apoio a Gabeira.
Quer decisão mais conservadora que essa?
De um lado o ex-DEM, PSDB, atual PMDB Eduardo Paes. E do outro o atual DEM, PSDB, filiado ao PV Fernando Gabeira.
E qual era a alternativa? Marcelo Crivella e a Igreja Universal?
Triste.

Um comentário:
Análise perfeita.
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