segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Denúncia dos Grampos

É incrível como se dá a sucessão de fatos e histórias na mídia nacional. Não é preciso ser um estudioso da imprensa ou um cientista político. Basta acompanhar o desenrolar de denúncias, reportagens e estar equipado com um mínimo de critério.

Vejamos.

No dia 08 de julho, Daniel Dantas e outros 14 membros do banco Opportunity foram presos. Com eles, Celso Pitta e Naji Nahas também foram presos. Era a Operação Satiagraha da Polícia Federal. Quem é Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas? O que fez o Opportunity? Porque foram presos e depois soltos?

Não se discutiu, em momento algum, nada disso. Ao inverso. Abriu-se investigação contra o policial que liderou a Satiagraha, Protógenes Queiróz, e contra o juiz que acatou a denúncia, Fausto De Sanctis. O que foi falado naqueles dias? Do abuso da Polícia Federal, de ter algemado os presos.

O Congresso criou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar.... as algemas. Convocaram Daniel Dantas e Protógenes Queiróz. O policial deixou um relatório, com mais de 300 páginas, sobre as investigações. Ao invés de lerem, tomaram o relatório por burro - cobravam acerto gramatical de um policial, inviabilizando o seu trabalho, qual seja, de investigar e prender - e convocaram-no para se explicar.

Daniel Dantas foi acusado por duas operações da Polícia Federal - Chacal em 2004 e Satiagraha em 2008 - e é famoso do noticiário político e policial desde 1998. O homem foi considerado culpado em dezembro de 2007 no inquérito do delegado Rosseti da PF em dezembro de 2007 de ter espionado jornalistas e concorrentes de mercado. Pois Daniel Dantas foi ao Congresso. E tudo que Daniel Dantas disse foi tido como verdade inconteste.

A falta de critério não acaba aí.

O caso Satiagraha sumiu do noticiário brasileiro. Por que? Porque a revista Veja, após duas tentativas, conseguiu pautar nova discussão. Na edição desse fim de semana revelou conversas grampeadas entre o ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM).

Abre parêntesis. Gilmar Mendes é o homem que soltou Daniel Dantas duas vezes em quatro dias (09 e 11 de julho, após duas prisões pela Satiagraha). Fecha parêntesis.

A reportagem da Veja divulgou a conversa entre os dois. Não apontou provas (se há um documento oficial, um arquivo de som, etc.). Também não disse quem passou a conversa à revista. Mas foi taxativa. Cravou que foi alguém da Abin ou da Polícia Federal. No meio disso tudo ainda bateu nos termos tradicionais da revista, de que há um Estado policial instalado no Brasil, etc. e tal.

Primeiro. É grave sim que uma conversa entre um ministro do Supremo e um senador tenha sido gravado. É grave que qualquer conversa telefônica seja grampeada. Tem de se descobrir quem foi e qual motivo.

Segundo. A conversa em si não tem nada de mais. Ao contrário até. Trata-se de um diálogo sobre o interesse público, em que o senador Demóstenes Torres pede ajuda do presidente do Supremo para chamar uma pessoa molestada à CPI presidida pelo senador. Foi aliás, a primeira vez que uma revelação de grampo é boa para os dois grampeados. Isso é estranho. Os dois saem "bonito na fita". Mais do que nunca é preciso saber quem passou a conversa à revista.

Terceiro. Qual é a prova do grampo? A revista crava que quem grampeou era da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ou da Polícia Federal. Como tem tanta certeza? Qual é a prova?

Quarto. A CPI do Grampo - aquela instalada depois das prisões promovidas pela Satiagraha - convocou gente da Abin, da PF e Jorge Félix, ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), órgão ao qual a Abin está subordinada. O presidente da CPI, Marcelo Itagija (PMDB), também chamou Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. Como eles não tem nada a dizer - são as "vítimas", certo? - eles vão aproveitar o espaço e a cobertura da imprensa para deitar e rolar.

Conclusões
Um grampo foi revelado por uma revista que adora denuncia grampos e que há tempos está falando que o Brasil vive um Estado policial. A conversa grampeada não diz nada de mais. O crime está no grampo em si. Portanto, uma prova se faz necessária. Junto à prova, é preciso a fonte. Para se caracterizar o crime é preciso dizer quem tinha acesso à essa prova, depois passada à revista. Feito isso, todo o trabalho passa a ser feito sob fatos e provas. Não é preciso esse show que os depoimentos de Jorge Félix, Gilmar Mendes e Demóstenes Torres farão à CPI do Grampo.

E só lembrando. Daniel Dantas foi acusado por duas operações diferentes da Polícia Federal de ter grampeado rivais. É também acusado de se utilizar do banco Opportunity para lavar dinheiro. Com o Opportunity ele também praticou crimes contra o sistema financeiro nacional, ao aplicar dinheiro de residentes brasileiros em títulos nacionais como se fossem estrangeiros (não pagando imposto de renda, portanto). É acusado de formação de quadrilha. Esse homem está solto.

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