
Nos últimos dias, o noticiário tem sido eficiente em nos fazer recordar a lástima que foi o muro que dividia Berlim, símbolo máximo do acirramento ideológico entre EUA e URSS durante o período da Guerra Fria. O auge se deu nos anos 50 e 60 e o muro, levantado em 1961, representava, ao mesmo tempo em que John Kennedy, o presidente mais carismático dos Estados Unidos no pós-guerra, era eleito.
O simbolismo foi latente na subida e na derrocada. Durante os anos 80, quando Gorbatchev relaxava os controles e costumes de um país a beira da falência e, ao mesmo tempo, Ronald Reagan liderava o novo mundo neoliberal, o muro de Berlim era o símbolo do esgotamento, do atraso e sua derrubada, em novembro de 1989 sinalizou o fim de uma era.
Era o nascimento de mundo bonitinho, sem muros, sem divergências, sem guerras e unido. Todo aquele blablabla neoliberal, de que a globalização era o caminho para a modernidade, estava no auge. Era o pensamento hegemônico na política, na economia, na diplomacia, na cultura. O símbolo da união foi o acordo fechado por líderes palestinos e israelenses em 1993 e 1994, que legou o prêmio Nobel da Paz aos negociadores Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Ao lado deles, Bill Clinton, o presidente americano nos anos 90, era o signo do sucesso, do mundo moderno.
Como todos sabemos, foi tudo por terra. A "paz mundial" durou bem pouco. Os próprios americanos entraram numa guerra -- no Golfo, em 1991 -- além dos massacres na Sérvia, em 95 e outros conflitos, que permearam toda a década de 1990 e 2000. Rabin seria assassinado por um israelense ortodoxo, em 1995, jogando o país num turbilhão irracional, a partir de 1996. Não havia mais volta para os palestinos, os afegãos, os iraquianos, africanos e outros tantos.
Na economia, todas as "grandes ideias" neoliberais também, como o sofismo "paz mundial", duraram bem pouco. O México quebrou em dezembro de 1994 exatamente por praticar, uma a uma, as sugestões do FMI e dos neoliberais anglo-saxões, que se uniram sob o Consenso de Washington. Além dos mexicanos, também os países asiáticos (em 1997), a Rússia (1998), o Brasil (1999) e a Argentina (2001) sofreram graves crises. Os asiáticos ficaram tão traumatizados que, a partir de 98, passaram a ignorar as teorias "modernas" do FMI e perseguiram políticas próprias. Foram essas políticas asiáticas que fizeram com que, dez anos mais tarde, a região passasse praticamente intacta pela crise norte-americana.
Nós não aprendemos porcaria alguma com os eventos de 1989.
Em 2004, o premiê israelense Ariel Sharon determinou a construção de um muro que separaria a Cisjordânia do território de Israel. O muro foi levantado e está de pé até hoje. Trata-se de um crime, tão passível de punição internacional quanto o absurdo feito em Berlim em 1961. A Cisjordânia não é um país: ele é um espaço, um corte na Jordânia, feito por Israel para agrupar os palestinos expulsos de sua terra. Israel vem aumentando de tamanho, vagarosamente, desde 1948, quando foi criado. É o único país em expansão num mundo "globalizado".
O muro que vemos na imagem acima não é Berlim, não é Guerra Fria, não é a separação entre capitalismo e socialismo no mundo em preto e branco dos anos 60. É o muro dos tempos pós-modernos, colorido e globalizado.
Tal qual como fizeram os alemães, o muro deve ser derrubado.
