segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O muro deve ser derrubado - 20 anos depois


Nos últimos dias, o noticiário tem sido eficiente em nos fazer recordar a lástima que foi o muro que dividia Berlim, símbolo máximo do acirramento ideológico entre EUA e URSS durante o período da Guerra Fria. O auge se deu nos anos 50 e 60 e o muro, levantado em 1961, representava, ao mesmo tempo em que John Kennedy, o presidente mais carismático dos Estados Unidos no pós-guerra, era eleito.

O simbolismo foi latente na subida e na derrocada. Durante os anos 80, quando Gorbatchev relaxava os controles e costumes de um país a beira da falência e, ao mesmo tempo, Ronald Reagan liderava o novo mundo neoliberal, o muro de Berlim era o símbolo do esgotamento, do atraso e sua derrubada, em novembro de 1989 sinalizou o fim de uma era.

Era o nascimento de mundo bonitinho, sem muros, sem divergências, sem guerras e unido. Todo aquele blablabla neoliberal, de que a globalização era o caminho para a modernidade, estava no auge. Era o pensamento hegemônico na política, na economia, na diplomacia, na cultura. O símbolo da união foi o acordo fechado por líderes palestinos e israelenses em 1993 e 1994, que legou o prêmio Nobel da Paz aos negociadores Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Ao lado deles, Bill Clinton, o presidente americano nos anos 90, era o signo do sucesso, do mundo moderno.

Como todos sabemos, foi tudo por terra. A "paz mundial" durou bem pouco. Os próprios americanos entraram numa guerra -- no Golfo, em 1991 -- além dos massacres na Sérvia, em 95 e outros conflitos, que permearam toda a década de 1990 e 2000. Rabin seria assassinado por um israelense ortodoxo, em 1995, jogando o país num turbilhão irracional, a partir de 1996. Não havia mais volta para os palestinos, os afegãos, os iraquianos, africanos e outros tantos.

Na economia, todas as "grandes ideias" neoliberais também, como o sofismo "paz mundial", duraram bem pouco. O México quebrou em dezembro de 1994 exatamente por praticar, uma a uma, as sugestões do FMI e dos neoliberais anglo-saxões, que se uniram sob o Consenso de Washington. Além dos mexicanos, também os países asiáticos (em 1997), a Rússia (1998), o Brasil (1999) e a Argentina (2001) sofreram graves crises. Os asiáticos ficaram tão traumatizados que, a partir de 98, passaram a ignorar as teorias "modernas" do FMI e perseguiram políticas próprias. Foram essas políticas asiáticas que fizeram com que, dez anos mais tarde, a região passasse praticamente intacta pela crise norte-americana.

Nós não aprendemos porcaria alguma com os eventos de 1989.

Em 2004, o premiê israelense Ariel Sharon determinou a construção de um muro que separaria a Cisjordânia do território de Israel. O muro foi levantado e está de pé até hoje. Trata-se de um crime, tão passível de punição internacional quanto o absurdo feito em Berlim em 1961. A Cisjordânia não é um país: ele é um espaço, um corte na Jordânia, feito por Israel para agrupar os palestinos expulsos de sua terra. Israel vem aumentando de tamanho, vagarosamente, desde 1948, quando foi criado. É o único país em expansão num mundo "globalizado".

O muro que vemos na imagem acima não é Berlim, não é Guerra Fria, não é a separação entre capitalismo e socialismo no mundo em preto e branco dos anos 60. É o muro dos tempos pós-modernos, colorido e globalizado.

Tal qual como fizeram os alemães, o muro deve ser derrubado.

domingo, 8 de novembro de 2009

Domingo

O fato moderno é que já não acreditamos neste mundo. Nem mesmo nos acontecimentos que nos acontecem -- o amor, a morte --, como se nos dissessem respeito apenas pela metade.


Gilles Deleuze, pensador francês.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Divagações de uma mente cansada

A consciência é uma coisa engraçada. Por vezes somos lançados em jogos mentais que não controlamos, como os sonhos, e que, ainda assim, representam boa parte de nosso cotidiano. Temos rotinas aceleradas -- pela manhã fazemos algo, à tarde já é outra história e à noite nem lembramos o que ocorria antes. Entramos numa dinâmica tão voraz que, muitas vezes, não conseguimos controlar o que pensamos.


Isso é curioso, afinal, o que nos diferencia (olha o clichê) é justamente a capacidade de organizar tarefas, cruzar informações e raciocinar. Quando, ao longo dos dias, semanas e meses, nos deparamos com uma rotina que nos impulsiona sem pensar, fica até esquisito admitir que, no fundo, não pensamos nada.


O sonho faz parte da consciência? É claro que faz. Só entra ali quem você quer, por mais que você não queira. É como um amigo indesejado. Podemos ambicionar um distanciamento, por uma razão ou outra, mas, no fim das contas, trata-se de um amigo.


A consciência não é nada além de um amigo indesejado, portanto.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A revanche do blogueiro

Quando comecei a pesquisa para meu livro, entre novembro e dezembro do ano passado, apresentar o tema de meu trabalho a colegas era sempre um desgaste. Falar em "americanização" da cultura brasileira soava, aos ouvidos do adulto jovem do século XXI, como "aquela velha história do imperialismo ianque dos anos 60". Empolgado com o tema, sempre tratei de defende-lo -- num ótimo exercício para a banca, diga-se -- mas, invariavelmente, cansava.

As reações eram, via de regra, as mesmas. A percepção era de que o trabalho repetiria as teses de "dependência econômica e cultural dos países de Terceiro Mundo com o eixo rico", de "hegemonia norte-americana no campo das ideias" etc.

O livro está escrito, diagramado, com capa e tudo. São quase 200 páginas (197, mais especificamente) e será levado à gráfica ainda nesta semana.

Sem entrar nos méritos do meu trabalho em si, destaco apenas três matérias, publicadas hoje no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo. São três matérias distintas -- uma de cinema, outra de televisão e a última de música -- publicadas no mesmo dia. Repito: publicadas hoje, início de novembro de 2009. Vejamos o quão "velho" é o tema de "americanização":


Capa da Ilustrada. Manchete: "Triste cinema brasileiro". O que é: o grande Jean-Michel Frodon, um dos maiores pensadores de cinema -- que dirigiu recentemente a Cahiérs du Cinemá -- fala, em entrevista, sobre cinema contemporâneo e, mais especificamente, sobre cinema brasileiro. Vejamos dois trechos:

FOLHA - Como vai o cinema brasileiro?
JEAN-MICHEL FRODON -
É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria. O último filme brasileiro do qual eu gostei foi "Mutum".

FOLHA - Por o cinema brasileiro era visto como promessa?
FRODON -
Porque o Brasil parece um país obviamente feito para o cinema. As paisagens, a riqueza cultural, a genialidade de um diretor como Mário Peixoto... Alguém poderia até questionar o seguinte: os mesmos ingredientes que fazem o futebol brasileiro ser único não poderiam ser também utilizados no cinema? O Brasil vem ganhando visibilidade internacional e poderia traduzir esse movimento histórico em filmes, mas, ao contrário da China e de outros países asiáticos, não tem feito isso.

FOLHA - O senhor vê algo de brasileiro em filmes como "Ensaio sobre a
Cegueira" ou "O Jardineiro Fiel", de Fernando Meirelles?

FRODON - Eu os vejo como filmes internacionais. E ruins.



Matéria dois. Abre de página da coluna "Outro canal", que cobre televisão brasileira. Título: SBT dobra audiências com enlatados americanos". O que é: depois de meses com o telejornal da emissora no horário das 21h15 às 22h batendo abaixo dos 4 pontos de audiência, o SBT conseguiu emplacar 8 pontos com a transmissão de duas séries de TV dos EUA: "Harper's Island" e "Supernatural".
Vejamos um trecho da matéria:
Com a exibição de séries consagradas nos EUA em seu horário nobre, estratégia iniciada no meio de setembro, o SBT dobrou a audiência que tinha das 21 h 15 às 22 h. Pelo Twitter, Daniele Beyruti, diretora geral da emissora, anunciou a seus seguidores que tenta a liberação de "The Vampire Diaries", série sobre vampiros que estreou nos EUA em setembro, para o início de 2010.

Matéria três. Título: "Sambista faz disco enquanto é tempo". O que é: Edu Krieger, sambista da nova geração carioca, acaba de lançar seu segundo disco e, em entrevista, avisa que é preciso aproveitar o momento de "nacionalismo" porque, após os Jogos Olímpicos de 2016, haverá um desgaste e o campo vai ficar aberto para o pop americano.
Vejamos o que diz o Edu:
O tempo está se esgotando. Dentro de seis ou sete anos, a Lapa carioca, hoje efervescente reduto sambista, estará às moscas. O cavaco, o pandeiro e o tamborim serão instrumentos fora de moda. As rádios segmentadas de música brasileira terão enfraquecido e mudado desse para algum outro nicho -o rock, possivelmente. "A euforia nacionalista que a gente vive deve chegar ao auge nas Olimpíadas de 2016. Em seguida, virá a sensação de desgaste", aposta. "O sucesso da Mallu Magalhães, que é uma artista que não tem nada de Brasil, já é o começo disso. Quando esse ufanismo olímpico passar, muitas outras Mallus vão tomar conta do espaço -e com todo o direito."
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O que depreendemos disso tudo?
A avaliação é individual do leitor, e a caixa de comentários está aberta, como sempre.
A banca do livro que discute a mercantilização da cultura brasileira nos anos 90, oriunda de um intenso processo de americanização dos costumes, ocorre dia 23 de novembro. Espero ver os colegas que acreditam que "americanização" é discussão do passado por lá :-)

domingo, 1 de novembro de 2009

Domingo

Durante os trinta anos de governo dos Bórgias na Itália, eles tiveram guerras, terror, assassinatos e derramamento de sangue, mas eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suiça, eles tiveram amor fraternal; eles tiveram quinhentos anos de democracia e paz e o que eles produziram? O relógio de cuco.

Orson Welles, cineasta, em frase cunhada para seu personagem Harry Lime, 1949.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fim de expediente

Para fechar a semana, o mês e entrar de cabeça no feriado e nos últimos dias deste 2009, separei uma joia do Eduardo Gudin. Gudin é dos maiores sambistas do Brasil, craque do samba quietinho, educado e nobre, que tem em Paulinho da Viola outro belo nome.

Este samba de Gudin, "Praça 14 bis" já foi eternizado em diferentes vozes e versões. Na toada Gudin, acho a versão de Leila Pinheiro imbatível: emula o jeito do compositor, numa calma só.

Mas a versão que aqui está para fechar o expediente é um pouco diferente: Dona Inah mandando bala no tradicional Samba da Vela, aqui em SP. A versão de Dona Inah é altiva, cantanda com elegância, mas leva o samba de Gudin para o sambão, distanciando do jeito pé de ouvido que o caracteriza. Não preciso dizer, uma maravilha.



video

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Bolsa Família e o jornalismo

Um dos melhores textos que li na blogosfera nos últimos dias: a inteligente análise que o Na Prática a Teoria é Outra faz de uma manchete do jornal O Globo sobre o Bolsa Família.

Para ler, clique aqui.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A incerteza do dólar


O dólar derrete frente a maior parte das moedas do mundo. Nosso real, uma "moeda commodity", é das que mais ganhou valor em relação às verdinhas americanas desde o início do ano. Em 1º de janeiro deste ano, o dólar valia R$ 2,33. Hoje, já bate nos R$ 1,70. Antes da crise, estava em R$ 1,56. Há muita oscilação -- e isso é péssimo -- mas um movimento é inevitável: o real tende à apreciação. Não tem jeito.

A entrada cavalar de capital estrangeiro, conforme já tratava aqui, vai ampliar nosso endividamento em contas correntes, trazendo o câmbio para baixo. Com PIB a 5%, Copa do Mundo, pré-sal, Olimpíada, e tudo o mais, a entrada de investimento estrangeiro em larga escala é algo contratado, com ou sem barbeiragem política.

Uma parcela dos economistas prefere olhar isso de outra maneira. Segundo eles, o que há é uma perda de força do dólar -- diante das pequenas dificuldades que o Tio Sam vem passando -- e, assim, o real fica mais forte do que ficaria.

Afora a batalha pela interpretação correta sobre a valorização do real, fato é que o dólar está, de fato, derretendo nos mercados cambiais e financeiros. A China, o maior detentor de títulos do tesouro americano, morre de medo, claro. A queda do dólar não é de hoje: há tempos surgiram os fundos soberanos, que, ao invés de aplicar no de sempre (títulos dos EUA), passaram a ousar em investimentos em diferentes moedas e países. A China faz isso. Muitos países ricos em petróleo também. O Brasil, no ano passado, chegou a montar um fundo soberano.

Os Estados Unidos, por enquanto, não estão muito preocupados. Eles tem problemas mais sérios, como uma grave recessão econômica para contornar. Mas, passado o momento de crise pesada, eles vão ter um enorme déficit público, um grande déficit externo e uma moeda ainda mais fraca.

Tempos incertos pela frente.

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P.S. Desenho retirado daqui.

domingo, 25 de outubro de 2009

Domingo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, poeta, 1935.

sábado, 24 de outubro de 2009

350

Hoje é dia internacional da ação climática em quase 180 países. A ideia do dia é chamar a atenção para o aquecimento global, provocado pela crescente emissão de gases que aceleram o efeito estufa, como gás carbônico e metano.

A situação mundial, nesta rota à Cúpula de Copenhague (CoP-15), é alarmante. A concentração atual de carbono é por volta de 390 partes por milhão (p.p.m.). Há uma aceleração absurda, visto que, no período pré-revolução industrial era de 270 p.p.m. Essas informações foram conquistadas pelo avanço da ciência que, além de mapear as emissões de hoje e do passado, consegue prever o limite até o aquecimento sem saída: 440 p.p.m.

A ideia é trazer de volta aos patamares de 350 p.p.m., número que conseguiria equilibrar um volume tal de emissões com segurança climática, quer dizer, sem aquecer o mundo.

Por isso, o número chave de 350 para o dia.

No Brasil, teremos ações em Brasília -- ativistas compõe o número 350 em frente ao Congresso Nacional -- em Belo Horizonte -- no Mineirão antes do jogo entre Atlético e Vitória -- e em São Paulo. No exterior, teremos (e já tivemos) manifestações de alpinistas no alto do Himalaia e de mergulhadores na Grande Barreira de Corais da Austrália. Na Hungria, banhistas vão saltar nos banhos públicos em Budapeste para uma performance sincronizada. No Nepal, jovens e monges vão marchar até o templo de Swayambhunath e formar o número 350 com lanternas tradicionais.

A atenção mundial começa aos poucos a sintonizar o CoP-15.