Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, 1965.
Blog do João Villaverde
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Na Globo News
Hoje gravo o programa "Fatos e Versões", na Globo News, comandado pela Cris Lôbo, a jornalista mais bem informada de Brasília.
O programa será exibido amanhã, sábado, no fim da tarde, com reprise no domingo.
Os leitores cá do Blog estão convidadíssimos a assistir.
***
O programa vai ao ar neste sábado, às 19h30min, e também no domingo, às 10h30min.
(O amigo Paulo da Luz Moreira, nos comentários, lembrou este blogueiro relapso que faltou dizer o horário...)
O programa será exibido amanhã, sábado, no fim da tarde, com reprise no domingo.
Os leitores cá do Blog estão convidadíssimos a assistir.
***
O programa vai ao ar neste sábado, às 19h30min, e também no domingo, às 10h30min.
(O amigo Paulo da Luz Moreira, nos comentários, lembrou este blogueiro relapso que faltou dizer o horário...)
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
As mudanças na caderneta de poupança
O governo Dilma Rousseff está com uma proposta de alteração do rendimento da tradicional caderneta de poupança. Cantei essa bola ainda em outubro do ano passado, com manchete no Valor, e voltei ao tema quinze dias atrás, quando uma pessoa influente do governo, no Palácio do Planalto, me disse que os planos estavam "muito avançados".
Dilma entende que os juros precisam cair, e, para isso, a poupança precisa "permitir". Isto é, como os rendimentos são fixos (0,5% ao mês + TR, algo como 7,4% de rendimento ao ano, livre do Imposto de Renda), uma queda mais forte na taxa básica de juros, a Selic, faria com que os investimentos em títulos do governo (seja em fundos de renda fixa seja via Tesouro Direto) migrassem para a poupança.
Isso travaria o Banco Central (BC), como já travara em 2009, quando a Selic chegou na mínima histórica de 8,75% ao ano. Hoje está em 10,5% ao ano e em duas semanas o BC se reúne de novo para cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, muito provavelmente. Quer dizer, em março a Selic estará em 10% ao ano, se aproximando perigosamente do patamar de 8,5% ao ano, a partir do qual a poupança fica mais atraente que um título público.
Dilma quer que os juros caiam e vai mexer na poupança. Pode não mexer em 2012, mas mexerá neste primeiro mandato.
Nesta semana, duas figuras eminentes do noticiário econômico falaram deste tema.
Na terça-feira, o colunista de economia do Estadão, Celso Ming, utilizou toda sua coluna para falar desta lógica por trás da Selic e da caderneta de poupança.
Ontem foi a vez do economista Mário Mesquita, ex-diretor do Banco Central, discutir essa mesma questão em sua coluna na Folha de S. Paulo, "Travas para a redução da Selic".
Fiquem de olho.
***
Atualização das 19h28min
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou hoje com o The Wall Street Journal, antes de embarcar, amanhã, para a Cidade do México, onde participa da reunião entre os ministros das finanças das 20 maiores economias do mundo.
E qual foi o grande assunto que Mantega quis tratar?
Da caderneta de poupança, é claro.
Negou que o governo estuda mudanças nas regras da poupança, porque os juros podem nem chegar em 8,5% ao ano.
Cumpriu seu papel: evitar, até o limite, que haverá mudanças na poupança, para não gerar um alarmismo político desnecessário ao governo.
Dilma entende que os juros precisam cair, e, para isso, a poupança precisa "permitir". Isto é, como os rendimentos são fixos (0,5% ao mês + TR, algo como 7,4% de rendimento ao ano, livre do Imposto de Renda), uma queda mais forte na taxa básica de juros, a Selic, faria com que os investimentos em títulos do governo (seja em fundos de renda fixa seja via Tesouro Direto) migrassem para a poupança.
Isso travaria o Banco Central (BC), como já travara em 2009, quando a Selic chegou na mínima histórica de 8,75% ao ano. Hoje está em 10,5% ao ano e em duas semanas o BC se reúne de novo para cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, muito provavelmente. Quer dizer, em março a Selic estará em 10% ao ano, se aproximando perigosamente do patamar de 8,5% ao ano, a partir do qual a poupança fica mais atraente que um título público.
Dilma quer que os juros caiam e vai mexer na poupança. Pode não mexer em 2012, mas mexerá neste primeiro mandato.
Nesta semana, duas figuras eminentes do noticiário econômico falaram deste tema.
Na terça-feira, o colunista de economia do Estadão, Celso Ming, utilizou toda sua coluna para falar desta lógica por trás da Selic e da caderneta de poupança.
Ontem foi a vez do economista Mário Mesquita, ex-diretor do Banco Central, discutir essa mesma questão em sua coluna na Folha de S. Paulo, "Travas para a redução da Selic".
Fiquem de olho.
***
Atualização das 19h28min
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou hoje com o The Wall Street Journal, antes de embarcar, amanhã, para a Cidade do México, onde participa da reunião entre os ministros das finanças das 20 maiores economias do mundo.
E qual foi o grande assunto que Mantega quis tratar?
Da caderneta de poupança, é claro.
Negou que o governo estuda mudanças nas regras da poupança, porque os juros podem nem chegar em 8,5% ao ano.
Cumpriu seu papel: evitar, até o limite, que haverá mudanças na poupança, para não gerar um alarmismo político desnecessário ao governo.
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Interlúdio
A ciência, enfim, caminha para uma vacina que impede a contaminação por HIV e, consequentemente, a manifestação da AIDS, o mais destrutivo vírus do século XX. Ainda não há cura para quem tem a doença, mas os principais especialistas do mundo dizem que também não estão longe de desenvolver uma fórmula.
O avanço dos coqueteis de medicamentos que aliviam a destruição das células humanas, e principalmente as várias campanhas públicas, ao redor do mundo, sobre como evitar a doença tem feito com que, cada vez mais, doenças como essas fiquem no passado.
Não, é claro, para a Igreja Católica, que continua contra a camisinha -- a mais eficiente e barata arma anti-AIDS.
Os católicos ainda querem ver homens como esse, em 1985...
ficar assim, cinco anos mais tarde, devido aos efeitos da AIDS.
Ou este, em 1987, poucos meses antes de contrair AIDS.
Ficar assim, em 1991, esquelético e com a maquiagem para esconder os sarcomas de Kaposi no rosto, em decorrência da AIDS, que o mataria em novembro daquele ano.
Pensar que ídolos nacionais como Cazuza, morto em 07 de julho de 1990, e Freddie Mercury, em 24 de novembro de 1991, morreriam em questão de anos por causa de uma doença que hoje é facílima de ser evitada é curioso.
Não mais, é claro, que a campanha anti-camisinha da Igreja.
O avanço dos coqueteis de medicamentos que aliviam a destruição das células humanas, e principalmente as várias campanhas públicas, ao redor do mundo, sobre como evitar a doença tem feito com que, cada vez mais, doenças como essas fiquem no passado.
Não, é claro, para a Igreja Católica, que continua contra a camisinha -- a mais eficiente e barata arma anti-AIDS.
Os católicos ainda querem ver homens como esse, em 1985...
ficar assim, cinco anos mais tarde, devido aos efeitos da AIDS.
Ou este, em 1987, poucos meses antes de contrair AIDS.
Ficar assim, em 1991, esquelético e com a maquiagem para esconder os sarcomas de Kaposi no rosto, em decorrência da AIDS, que o mataria em novembro daquele ano.
Pensar que ídolos nacionais como Cazuza, morto em 07 de julho de 1990, e Freddie Mercury, em 24 de novembro de 1991, morreriam em questão de anos por causa de uma doença que hoje é facílima de ser evitada é curioso.
Não mais, é claro, que a campanha anti-camisinha da Igreja.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Burocracia no Brasil
Moro em Brasília desde 18 de junho de 2011. Mas até agora não troquei a placa do meu carro, que continua sendo São Paulo. Resolvi, depois deste tempo, que era hora de trocar a placa para Brasília.
A burocracia para um procedimento tão simples é tamanha que, hoje, estou entre pagar qualquer soma que um despachante pedir para fazer o serviço ou simplesmente deixar de fazer a troca de placa.
Preciso dar baixa no carro em SP, primeiro. Ir a um cartório e registrar, em SP, num tabelião, que tudo com o carro está OK. Isso está feito.
Agora preciso ir num tabelião em Brasília apenas para carimbar com o cartório daqui o mesmo documento.
Não me pergunte por que, afinal, estamos no mesmo país. Mas todo brasileiro sabe que os cartórios são poços de esquemas e pequenos banditismos. Não à toa, ninguém gosta de assumir que trabalha em cartório. Ou você, leitor, já viu alguém se orgulhar de trabalhar em um lugar tão degradante?
Enfim.
Feito isso, preciso ir à Policia Civil de Brasília para fazer uma "vistoria" do meu carro. Mas, para fazer a vistoria, preciso pagar uma taxa (tudo no Brasil tem taxa, né?) de R$ 81,00 no BRB, o banco de Brasília.
Então poderei fazer a tal "vistoria".
Em seguida é hora de ir ao DETRAN-DF e de posse de todos os documentos registrar meu carro aqui. Isso, é claro, vai depender de hora marcada.
A burocracia estatal no Brasil é tão grande, e tudo é tão aberto à esquemas, que é quase impossível ser honesto num país como esse.
Mas, do que eu estou reclamando, né? O mundo inteiro nos adora!
A burocracia para um procedimento tão simples é tamanha que, hoje, estou entre pagar qualquer soma que um despachante pedir para fazer o serviço ou simplesmente deixar de fazer a troca de placa.
Preciso dar baixa no carro em SP, primeiro. Ir a um cartório e registrar, em SP, num tabelião, que tudo com o carro está OK. Isso está feito.
Agora preciso ir num tabelião em Brasília apenas para carimbar com o cartório daqui o mesmo documento.
Não me pergunte por que, afinal, estamos no mesmo país. Mas todo brasileiro sabe que os cartórios são poços de esquemas e pequenos banditismos. Não à toa, ninguém gosta de assumir que trabalha em cartório. Ou você, leitor, já viu alguém se orgulhar de trabalhar em um lugar tão degradante?
Enfim.
Feito isso, preciso ir à Policia Civil de Brasília para fazer uma "vistoria" do meu carro. Mas, para fazer a vistoria, preciso pagar uma taxa (tudo no Brasil tem taxa, né?) de R$ 81,00 no BRB, o banco de Brasília.
Então poderei fazer a tal "vistoria".
Em seguida é hora de ir ao DETRAN-DF e de posse de todos os documentos registrar meu carro aqui. Isso, é claro, vai depender de hora marcada.
A burocracia estatal no Brasil é tão grande, e tudo é tão aberto à esquemas, que é quase impossível ser honesto num país como esse.
Mas, do que eu estou reclamando, né? O mundo inteiro nos adora!
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Domingo
Bem-aventurados os apaixonados, que deitam-se no piso de tábuas de uma casa modesta e se esquecem dos magistrados, dos burocratas, das chuvas destruidoras, dos políticos inativos, dos impostores e dos pássaros agourentos. Já não se lembram da segunda-feira árdua e rotineira, do chefe ranzinza ou do subalterno distraído, do trânsito e seus motoristas alucinados, nem daquele casamento que se reduziu a bocas engessadas e momentos de silêncio que insinuam sentenças hostis.
Milton Hatoum, escritor brasileiro.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
1922-2012 - Semana de Arte Moderna
A única coisa realmente moderna naqueles três dias (13, 15 e 17 de fevereiro) no Theatro Municipal de São Paulo, noventa anos atrás, era Heitor Villa-Lobos. Todo o resto era o contrário do que queria ser: a importação do que estava acontecendo na Rússia (com o concretismo), na França (da Bellé Époque) e na Itália (com o futurismo).
A opinião é do compositor Arrigo Barnabé, ícone da geração Lira Paulistana, que revolucionou a arte brasileira nos anos 1970.
Diz Arrigo: "Aquele pessoal", se referindo aos fundadores da Semana de Arte Moderna de 22, "aquele pessoal era a elite da época, e nós, do Lira Paulistana, pés-rapados, estudantes 'durangos', vivendo em uma ditadura". Para ele, Villa-Lobos foi o mais modernista. "O programa apresentado por Villa é ousado ainda hoje. Pensando em 1922, não dá para imaginar coisa melhor do que isso, ainda mais que, a partir daí, Villa-Lobos vai gradativamente se afirmando como um dos grandes compositores do século XX, com reconhecimento mundial", disse ao repórter Eduardo Simões, na semana passada.
E arrematou: "As outras apresentações na Semana de 22, a meu ver, foram eclipsadas por Villa-Lobos".
Quem escreve este post é fã de Villa-Lobos (os colegas da redação do Valor que me ouvem assobiar as Bachianas sabem bem disso) e igualmente fã de Arrigo Barnabé, de quem assisti uma apresentação seminal no Casa de Francisca, em São Paulo, no fim de 2010.
Mas Villa-Lobos não foi o mais modernista de 1922.
Bom lembrar que o movimento Lira Paulistana, do qual Arrigo surgiu como ícone e grande líder, nos anos 1970, tem seu nome derivado da obra do escritor Mário de Andrade.
Mário estava lá com Villa, com o pintor Di Cavalcanti e com o poeta-polemista-escritor-boquirroto-agitador Oswald de Andrade.
Foram eles os mais modernos dentre os modernos de 1922.
Di Cavalcanti, junto a Anita Malfatti e Minotti Del Picchia, revolucionaram a pintura brasileira, ao introduzirem a imagem não-figurativa, rompendo com o que até então era visto como "Arte". Mas diferente de Anita, que já surgira na famigerada exposição de 1917, destruída publicamente pela crítica de Monteiro Lobato, e de Del Picchia, que depois se uniria aos integralistas de Plínio Salgado, o grande nome, no campo da pintura, a surgir e sobreviver de 22 foi Di Cavalcanti.
A semana foi elitista.
Como nota o jornalista e agora historiador da Semana, Marcos Augusto Gonçalves, aqueles três dias não ficaram conhecidos na época -- nem em São Paulo, cidade que os modernistas ambicionavam tornar o centro da cultura à época.
O Brasil em 1922 era o Rio de Janeiro, capital da República, ainda que os presidentes desde a instauração da República, em 1889, se revezassem entre paulistas e mineiros, na política do café com leite. Do Rio saíram Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos e Manuel Bandeira. Eram do Rio também os nomes da cultura "do passado", como Joaquim Maria Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac.
O Brasil era também baiano, de Castro Alves, e pernambucano.
Mas não era São Paulo.
Era isso que mecenas como Paulo Prado, que viria a se imortalizar com seu belícissimo e hoje esquecido "Retrato do Brasil - Ensaio sobre a Tristeza Brasileira", de 1928, e por ser tio do historiador marxista Caio Prado Jr., muito mais estudado nas universidades brasileiras. Foi de Paulo Prado que muito do dinheiro que permitiu o aluguel do Theatro Municipal saiu.
A ideia era dos Andrade, Mário e Oswald, que não eram parentes, de classe média e média-alta, respectivamente. E o dinheiro saia principalmente da elite cafeeira, que significava o atraso, depois rompido a partir de 1930, quando o então governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, sobe ao poder.
São Paulo perderia em 1932, ao se rebelar contra Getúlio e contra o Rio, mas depois teria Sérgio Buarque de Hollanda, o próprio Caio Prado Jr., e, afinal, a maior parte da indústria nacional, impulsionado por Getúlio.
Mas em 1922 os paulistas queriam liderar e queriam trazer a cultura brasileira para o que era moderno. Queriam fazer o Brasil virar país: ser reconhecido por sua música, sua literatura, sua poesia, seu cinema, seu futebol, sua moda, sua língua, seus costumes. Como disse Oswald de Andrade, eram jovens que não sabiam ao certo o que queriam: permanecer atrelados, só para dar dois exemplos, à literatura parnasiana e à pintura figurativa, estilos que, depois de seus contatos com os diversos "ismos" da vanguarda artística europeia, consideravam passadistas.
Como bem percebeu Simões, que produziu impecável análise sobre a Semana (Eu&FimdeSemana, 10 de fevereiro, 2012), há uma grande ambiguidade naquele evento: o mesmo Brasil rico, que exportava seus filhos para a Europa para se ilustrar, não queria, em sua maioria, importar da França ou Alemanha os novos valores artísticos estéticos que por lá florejavam.
A grande originalidade da Semana de 22, e aí sou eu quem diz, está em inaugurar um processo que hoje se confunde com a arte brasileira: a necessidade, quase mortal, de romper com as correntes artísticas hegemônicas, a vontade de andar com as próprias pernas, de ser seguido pelos outros, e de não ser liderados, de nos entendermos, nós mesmos, para em seguida explicarmos aos outros.
Foi assim com a Semana de Arte Moderna de 1922, com a arquitetura moderna de Niemeyer, Villa-Nova Artigas e Lúcio Costa, no paisagismo de Roberto Burle-Marx, a Bossa Nova de 1958, com o Movimento Neo-Concreto na poesia de 1959, o Cinema Novo de 1962, nas artes plásticas de Lygia Clark e Helio Oiticica dos anos 50 e 60, os Tropicalistas de 68, a Lira Paulistana dos anos 70, a energia sexual e adolescente da Blitz e do Barão Vermelho, nos anos 1980, o Mangue Town dos pernambucanos Chico Science e Nação Zumbi e o rock pesado de Minas Gerais, do Sepultura.
Todos esses movimentos saíram de Oswald de Andrade e seu antropofagismo: é preciso engolir o melhor da cultura externa hegemônica e regurgitar aquilo que é nacional.
Isso já estava lá, em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, noventa anos atrás.
A opinião é do compositor Arrigo Barnabé, ícone da geração Lira Paulistana, que revolucionou a arte brasileira nos anos 1970.
Diz Arrigo: "Aquele pessoal", se referindo aos fundadores da Semana de Arte Moderna de 22, "aquele pessoal era a elite da época, e nós, do Lira Paulistana, pés-rapados, estudantes 'durangos', vivendo em uma ditadura". Para ele, Villa-Lobos foi o mais modernista. "O programa apresentado por Villa é ousado ainda hoje. Pensando em 1922, não dá para imaginar coisa melhor do que isso, ainda mais que, a partir daí, Villa-Lobos vai gradativamente se afirmando como um dos grandes compositores do século XX, com reconhecimento mundial", disse ao repórter Eduardo Simões, na semana passada.
E arrematou: "As outras apresentações na Semana de 22, a meu ver, foram eclipsadas por Villa-Lobos".
Quem escreve este post é fã de Villa-Lobos (os colegas da redação do Valor que me ouvem assobiar as Bachianas sabem bem disso) e igualmente fã de Arrigo Barnabé, de quem assisti uma apresentação seminal no Casa de Francisca, em São Paulo, no fim de 2010.
Mas Villa-Lobos não foi o mais modernista de 1922.
Bom lembrar que o movimento Lira Paulistana, do qual Arrigo surgiu como ícone e grande líder, nos anos 1970, tem seu nome derivado da obra do escritor Mário de Andrade.
Mário estava lá com Villa, com o pintor Di Cavalcanti e com o poeta-polemista-escritor-boquirroto-agitador Oswald de Andrade.
Foram eles os mais modernos dentre os modernos de 1922.
Di Cavalcanti, junto a Anita Malfatti e Minotti Del Picchia, revolucionaram a pintura brasileira, ao introduzirem a imagem não-figurativa, rompendo com o que até então era visto como "Arte". Mas diferente de Anita, que já surgira na famigerada exposição de 1917, destruída publicamente pela crítica de Monteiro Lobato, e de Del Picchia, que depois se uniria aos integralistas de Plínio Salgado, o grande nome, no campo da pintura, a surgir e sobreviver de 22 foi Di Cavalcanti.
A semana foi elitista.
Como nota o jornalista e agora historiador da Semana, Marcos Augusto Gonçalves, aqueles três dias não ficaram conhecidos na época -- nem em São Paulo, cidade que os modernistas ambicionavam tornar o centro da cultura à época.
O Brasil em 1922 era o Rio de Janeiro, capital da República, ainda que os presidentes desde a instauração da República, em 1889, se revezassem entre paulistas e mineiros, na política do café com leite. Do Rio saíram Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos e Manuel Bandeira. Eram do Rio também os nomes da cultura "do passado", como Joaquim Maria Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac.
O Brasil era também baiano, de Castro Alves, e pernambucano.
Mas não era São Paulo.
Era isso que mecenas como Paulo Prado, que viria a se imortalizar com seu belícissimo e hoje esquecido "Retrato do Brasil - Ensaio sobre a Tristeza Brasileira", de 1928, e por ser tio do historiador marxista Caio Prado Jr., muito mais estudado nas universidades brasileiras. Foi de Paulo Prado que muito do dinheiro que permitiu o aluguel do Theatro Municipal saiu.
A ideia era dos Andrade, Mário e Oswald, que não eram parentes, de classe média e média-alta, respectivamente. E o dinheiro saia principalmente da elite cafeeira, que significava o atraso, depois rompido a partir de 1930, quando o então governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, sobe ao poder.
São Paulo perderia em 1932, ao se rebelar contra Getúlio e contra o Rio, mas depois teria Sérgio Buarque de Hollanda, o próprio Caio Prado Jr., e, afinal, a maior parte da indústria nacional, impulsionado por Getúlio.
Mas em 1922 os paulistas queriam liderar e queriam trazer a cultura brasileira para o que era moderno. Queriam fazer o Brasil virar país: ser reconhecido por sua música, sua literatura, sua poesia, seu cinema, seu futebol, sua moda, sua língua, seus costumes. Como disse Oswald de Andrade, eram jovens que não sabiam ao certo o que queriam: permanecer atrelados, só para dar dois exemplos, à literatura parnasiana e à pintura figurativa, estilos que, depois de seus contatos com os diversos "ismos" da vanguarda artística europeia, consideravam passadistas.
Como bem percebeu Simões, que produziu impecável análise sobre a Semana (Eu&FimdeSemana, 10 de fevereiro, 2012), há uma grande ambiguidade naquele evento: o mesmo Brasil rico, que exportava seus filhos para a Europa para se ilustrar, não queria, em sua maioria, importar da França ou Alemanha os novos valores artísticos estéticos que por lá florejavam.
A grande originalidade da Semana de 22, e aí sou eu quem diz, está em inaugurar um processo que hoje se confunde com a arte brasileira: a necessidade, quase mortal, de romper com as correntes artísticas hegemônicas, a vontade de andar com as próprias pernas, de ser seguido pelos outros, e de não ser liderados, de nos entendermos, nós mesmos, para em seguida explicarmos aos outros.
Foi assim com a Semana de Arte Moderna de 1922, com a arquitetura moderna de Niemeyer, Villa-Nova Artigas e Lúcio Costa, no paisagismo de Roberto Burle-Marx, a Bossa Nova de 1958, com o Movimento Neo-Concreto na poesia de 1959, o Cinema Novo de 1962, nas artes plásticas de Lygia Clark e Helio Oiticica dos anos 50 e 60, os Tropicalistas de 68, a Lira Paulistana dos anos 70, a energia sexual e adolescente da Blitz e do Barão Vermelho, nos anos 1980, o Mangue Town dos pernambucanos Chico Science e Nação Zumbi e o rock pesado de Minas Gerais, do Sepultura.
Todos esses movimentos saíram de Oswald de Andrade e seu antropofagismo: é preciso engolir o melhor da cultura externa hegemônica e regurgitar aquilo que é nacional.
Isso já estava lá, em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, noventa anos atrás.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Congresso parado
Os trabalhos de deputados e senadores já recomeçou, depois do recesso de fim de ano, mas, para quem está aqui em Brasília parece que não.
Todos os principais projetos em análise no Congresso no fim de 2011 foram empurrados para o início de 2012.
Agora, os parlamentares já empurram os projetos para depois do Carnaval.
Então a Lei Geral da Copa, que altera as regras para licitações de empresas para obras envolvendo projetos para a Copa do Mundo e também o regime de contratação de funcionários, está parado.
O projeto que cria os fundos de previdência complementar para os servidores dos três Poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo), que tramita na Câmara desde 2007 e têm caráter de urgência constitucional (ou seja, tranca a pauta de votações dos deputados) também ficou para depois do Carnaval.
O novo Código Florestal, tema urgente para o agronegócio brasileiro e para qualquer família rural brasileira, também ficou para ser votado depois do Carnaval.
Ou seja, para o Legislativo o ano só começa depois do Carnaval.
Se começar, é claro.
Todos os principais projetos em análise no Congresso no fim de 2011 foram empurrados para o início de 2012.
Agora, os parlamentares já empurram os projetos para depois do Carnaval.
Então a Lei Geral da Copa, que altera as regras para licitações de empresas para obras envolvendo projetos para a Copa do Mundo e também o regime de contratação de funcionários, está parado.
O projeto que cria os fundos de previdência complementar para os servidores dos três Poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo), que tramita na Câmara desde 2007 e têm caráter de urgência constitucional (ou seja, tranca a pauta de votações dos deputados) também ficou para depois do Carnaval.
O novo Código Florestal, tema urgente para o agronegócio brasileiro e para qualquer família rural brasileira, também ficou para ser votado depois do Carnaval.
Ou seja, para o Legislativo o ano só começa depois do Carnaval.
Se começar, é claro.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O estilo Dilma
Fernando Collor era autocrático, Itamar Franco adorava um confronto com integrantes de seu governo, Fernando Henrique Cardoso era cordial e afável com todos, mas definia os caminhos do governo por detrás dos holofotes. Luiz Inácio Lula da Silva era populista, elogiando todos em igual medida, e definindo o rumo por meio da disputa interna em seu governo (entre Banco Central e Fazenda, entre correntes do PT, entre centrais sindicais, entre partidos da base, etc.).
Dilma Rousseff é pragmática e irredutível.
Tal como Collor, Dilma é centralizadora, uma vez que concentra em si todas as principais decisões de governo. Cobra que os ministros e principais secretários perguntem a ela se podem conceder entrevistas — negadas, via de regra. É por isso que nomes fortes do governo Lula estão mais discretos sob Dilma (caso de José Sérgio Gabrielli, na Petrobras, Luciano Coutinho, no BNDES, e dos ministros Edison Lobão, Paulo Bernardo e outros). Dilma, no entanto, não é autocrática. Exige muito dos ministros e ouve atentamente ao que cada um tem a dizer. Mas perde a paciência com facilidade — no primeiro sinal de enrolação ou de desconhecimento, a presidente logo começa a desviar o olhar e perder a calma. Detalhista e workaholic, Dilma lê muito e cobra muito de si — e, por extensão, de seu grupo de ministros.
A presidente não entra em conflito público com ninguém, como fazia Itamar, e também não permite que os ministros e secretários tenham a falsa ideia de que a convenceram — o que a distancia do estilo FHC. Ela também não permite distúrbios na comunicação, como gostava de ver Lula, que agia como maestro de Brasília. Dilma gosta de sintonia, de governo unido, com discurso único. O pulso de Dilma mantém o mesmo ritmo.
É uma mulher pragmática, e detesta política partidária. Ainda na Casa Civil de Lula, em 2007, Dilma percebeu que os aeroportos brasileiros eram uma zona: a CPI do Caos Aéreo, naquele ano, elencara uma série de problemas estruturais. A demanda aumentara muito e continuaria aumentando, e a péssima gestão da Infraero não seria capaz de reverter o quadro de aeroportos de quarto mundo. Pragmática, Dilma entendeu, naquele momento, que era preciso passar a gestão dos aeroportos à gestão privada: não a privatização, mas a concessão de longo prazo dos aeroportos. Lula barrou os planos. Não queria nada que associasse privatização ao PT ou a seu governo. Quem me relatou isso foi um confidente privilegiado de Lula e Dilma, que já estava no Palácio do Planalto em 2007 e que continua em 2012.
Tão logo tomou posse, em janeiro de 2011, Dilma mandou que os técnicos de seu governo estudassem a concessão dos aeroportos. Numa decisão corajosa (goste ou não da medida, não há dúvida quanto à coragem da presidente em enfrentar o PT, a CUT e outros movimentos da esquerda anti-privatização), a presidente levou a cabo a concessão de três aeroportos, na última segunda-feira.
Três grupos arrebataram os aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas-SP) e JK (Brasília), ao preço total de R$ 24,5 bilhões. Eles tem a obrigação de melhorar a gestão e ampliar a capacidade dos aeroportos, e as primeiras metas devem ser cumpridas em até 18 meses. Os grupos terão polpuda ajuda do BNDES, algo que turva o capitalismo brasileiro, e que a presidente ainda não conseguiu solucionar. Mas ela quer, e provavelmente vai, reduzir a participação do BNDES no total de crédito na economia. Já cobrou isso do presidente do banco, Luciano Coutinho, na reunião com oito ministros da área econômica que realizou no sábado 20 de janeiro no Palácio do Planalto. O BNDES recebeu do Tesouro Nacional o equivalente a R$ 100 bilhões em títulos públicos em 2009, R$ 80 bilhões em 2010, e R$ 55 bilhões em 2011. Deve ser menor neste ano, e menor ainda em 2013, por determinação de Dilma.
O BNDES é importante, mas mesmo antes de se tornar presidente, durante a campanha no segundo semestre de 2010, Dilma já sugeria à equipe econômica que encontrasse formas de estimular o mercado de crédito privado a ocupar o espaço do BNDES. Uma vez eleita, passou a exigir. Ainda em dezembro de 2010 o Ministério da Fazenda esquematizou o projeto que viabilizaria as debêntures para projetos de infraestrutura e também o crédito privado de longo prazo. Isso está saindo do papel agora, no primeiro trimestre de 2012, já que a regulamentação só veio no Diário Oficial da União (DOU) um ano depois do projeto, em dezembro do ano passado.
Outra briga que a pragmática ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto comprou é a reforma da previdência do setor público federal. Dilma deu prioridade, em 2011, ao Projeto de Lei (PL) 1.992/07, que altera o regime de previdência pública. O projeto foi todo modelado sob Lula, que, tal qual com os aeroportos, recuou na hora da negociação no Congresso. Lula não quis se indispor com a CUT e o sindicalismo de servidores, categoria que o presidente ampliou muito, e também muito aumentou os salários.
Hoje, o equivalente a 953 mil servidores federais aposentados e pensionistas consomem um déficit de R$ 56 bilhões — já os 28,1 milhões de aposentados pelo setor privado (INSS), consomem déficit de R$ 36,5 bilhões. Esta bisonha diferença começará a mudar quando o PL 1.992 for aprovado no Congresso. O projeto prevê a criação de um fundo de previdência complementar para os servidores. A aposentadoria daqueles que ingressarem no serviço público estará limitada pelo teto do INSS, hoje em R$ 3.691,00 por mês, como ocorre com todos os demais trabalhadores brasileiros. Se quiserem ganhar mais na aposentadoria, os servidores deverão contribuir para o fundo de pensão que será criado — e ainda terão o aporte do Tesouro Nacional, que vai entrar com até 8,5% do que o servidor contribuir com seu salário que superar o teto do INSS. O projeto tem regime de emergência constitucional e trava a pauta de votações na Câmara dos Deputados, onde o governo já costurou acordo pela aprovação. Dali vai ao Senado, onde terá 45 dias para ser votado. Dilma segurou as contratações de servidores públicos em 2011 e neste começo de 2012 justamente para evitar um rombo maior das contas públicas na Previdência — os concursos só serão retomados quando entrar em vigor o novo regime previdenciário.
Dilma é pragmática, e exige um crescimento mínimo de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB). Sabe que a economia não deve ter crescido isso em 2011 e sabe que será muito difícil bater em 4,5% ou 5% em 2012, como gostaria. Mas não aceita que 2012 seja mais fraco que 2011, e por isso cobra da equipe econômica medidas de estímulos. Ao mesmo tempo, não aceita negociar sobre o aperto nas despesas, e quer fazer um superávit primário forte em 2012 — como fez em 2011. Promete poupar R$ 139,8 bilhões neste ano para pagar os juros devidos por sua dívida — ela provavelmente vai entregar.
O que a equipe econômica ainda não sabe como fazer é compatibilizar mais estímulos à economia, para fazer o PIB crescer forte em 2012, com a exigência de poupar quase R$ 140 bilhões em gastos. Mas isso é problema dos economistas, pensa Dilma, que diz a pessoas próximas a ela que sim, é possível. Hoje, a Junta Orçamentária (criada pela presidente e formada pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil) discute duas possibilidades para amarrar as contas: um corte de R$ 61 bilhões em despesas do orçamento deste ano, de forma a guardar recursos para o superávit primário; ou um corte próximo a R$ 40 bilhões, inferior aos R$ 50,6 bilhões retidos do orçamento de 2011 em fevereiro do ano passado, que abririam caminho para mais investimentos públicos. A decisão sai na semana que vem, e será toda de Dilma.
Os juros vão cair. Dilma vê os juros brasileiros como uma anomalia, e sente que a sintonia recente do Ministério da Fazenda com o Banco Central é crucial para abrir espaço para novas reduções nos juros. Hoje, a taxa básica de juros é de 10,5% ao ano, mas o BC deve cortar os juros em mais 0,5 ponto percentual nas duas próximas reuniões, de março e abril, deixando o juro em 9,5% ao ano em maio. Deve chegar a 9% ou até menos, no final do ano. A mínima histórica foi 8,75% ao ano, entre o fim de 2009 e abril de 2010, quando a economia brasileira se recuperou fortemente da crise econômica mundial desencadeada pela falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.
Aí está, pensa Dilma, um dos principais caminhos para estimular a economia. Com juros menores, os recursos disponíveis para aplicações mais arriscadas, como ações, são maiores, o que vai estimular o caixa das empresas. Ao mesmo tempo, os bancos estarão mais dispostos a emprestar e as empresas, por verem juros menores, a investir.
Se os juros chegarem em 8,5% ao ano, algo que Dilma deseja, a caderneta de poupança terá de mudar. Ela sabe disso, e já cobrou o Ministério da Fazenda por uma reforma que torne a poupança menos rígida (desde 1940, quando foi criada, a caderneta de poupança, a mais popular modalidade de aplicação financeira dos brasileiros, paga 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial). A Fazenda estuda uma medida que extinguiria o rendimento de 0,5% ao mês (6,2% ao ano), substituindo pela Selic com um redutor de 20%.
Quando foi colocado diante dessa encruzilhada — da Selic em 8,75%, próximo ao limite — o então presidente Lula estudou introduzir o Imposto de Renda (IR) sobre as aplicações mais altas, mas não foi à frente porque não queria comprar uma briga impopular — mexer na caderneta de poupança, onde estão 106 milhões de brasileiros, é sempre sensível. Dilma já descartou o IR, mas vai reformar a poupança. Sabe que é o único jeito de abrir espaço para novas reduções da Selic.
O segundo semestre será melhor que o primeiro, fala-se muito aqui em Brasília. E 2013 será melhor que 2012, por sua vez superior a 2011. A única política a que se dá direito é esta: o Brasil precisa entregar uma boa Copa do Mundo em 2014 e, assim, abrir espaço para uma reeleição. Dilma é pragmática e sabe que quatro anos é muito pouco.
***
Este texto foi anunciado aqui no Blog na quinta-feira, e foi publicado no Amálgama.
Dilma Rousseff é pragmática e irredutível.
Tal como Collor, Dilma é centralizadora, uma vez que concentra em si todas as principais decisões de governo. Cobra que os ministros e principais secretários perguntem a ela se podem conceder entrevistas — negadas, via de regra. É por isso que nomes fortes do governo Lula estão mais discretos sob Dilma (caso de José Sérgio Gabrielli, na Petrobras, Luciano Coutinho, no BNDES, e dos ministros Edison Lobão, Paulo Bernardo e outros). Dilma, no entanto, não é autocrática. Exige muito dos ministros e ouve atentamente ao que cada um tem a dizer. Mas perde a paciência com facilidade — no primeiro sinal de enrolação ou de desconhecimento, a presidente logo começa a desviar o olhar e perder a calma. Detalhista e workaholic, Dilma lê muito e cobra muito de si — e, por extensão, de seu grupo de ministros.
A presidente não entra em conflito público com ninguém, como fazia Itamar, e também não permite que os ministros e secretários tenham a falsa ideia de que a convenceram — o que a distancia do estilo FHC. Ela também não permite distúrbios na comunicação, como gostava de ver Lula, que agia como maestro de Brasília. Dilma gosta de sintonia, de governo unido, com discurso único. O pulso de Dilma mantém o mesmo ritmo.
É uma mulher pragmática, e detesta política partidária. Ainda na Casa Civil de Lula, em 2007, Dilma percebeu que os aeroportos brasileiros eram uma zona: a CPI do Caos Aéreo, naquele ano, elencara uma série de problemas estruturais. A demanda aumentara muito e continuaria aumentando, e a péssima gestão da Infraero não seria capaz de reverter o quadro de aeroportos de quarto mundo. Pragmática, Dilma entendeu, naquele momento, que era preciso passar a gestão dos aeroportos à gestão privada: não a privatização, mas a concessão de longo prazo dos aeroportos. Lula barrou os planos. Não queria nada que associasse privatização ao PT ou a seu governo. Quem me relatou isso foi um confidente privilegiado de Lula e Dilma, que já estava no Palácio do Planalto em 2007 e que continua em 2012.
Tão logo tomou posse, em janeiro de 2011, Dilma mandou que os técnicos de seu governo estudassem a concessão dos aeroportos. Numa decisão corajosa (goste ou não da medida, não há dúvida quanto à coragem da presidente em enfrentar o PT, a CUT e outros movimentos da esquerda anti-privatização), a presidente levou a cabo a concessão de três aeroportos, na última segunda-feira.
Três grupos arrebataram os aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas-SP) e JK (Brasília), ao preço total de R$ 24,5 bilhões. Eles tem a obrigação de melhorar a gestão e ampliar a capacidade dos aeroportos, e as primeiras metas devem ser cumpridas em até 18 meses. Os grupos terão polpuda ajuda do BNDES, algo que turva o capitalismo brasileiro, e que a presidente ainda não conseguiu solucionar. Mas ela quer, e provavelmente vai, reduzir a participação do BNDES no total de crédito na economia. Já cobrou isso do presidente do banco, Luciano Coutinho, na reunião com oito ministros da área econômica que realizou no sábado 20 de janeiro no Palácio do Planalto. O BNDES recebeu do Tesouro Nacional o equivalente a R$ 100 bilhões em títulos públicos em 2009, R$ 80 bilhões em 2010, e R$ 55 bilhões em 2011. Deve ser menor neste ano, e menor ainda em 2013, por determinação de Dilma.
O BNDES é importante, mas mesmo antes de se tornar presidente, durante a campanha no segundo semestre de 2010, Dilma já sugeria à equipe econômica que encontrasse formas de estimular o mercado de crédito privado a ocupar o espaço do BNDES. Uma vez eleita, passou a exigir. Ainda em dezembro de 2010 o Ministério da Fazenda esquematizou o projeto que viabilizaria as debêntures para projetos de infraestrutura e também o crédito privado de longo prazo. Isso está saindo do papel agora, no primeiro trimestre de 2012, já que a regulamentação só veio no Diário Oficial da União (DOU) um ano depois do projeto, em dezembro do ano passado.
Outra briga que a pragmática ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto comprou é a reforma da previdência do setor público federal. Dilma deu prioridade, em 2011, ao Projeto de Lei (PL) 1.992/07, que altera o regime de previdência pública. O projeto foi todo modelado sob Lula, que, tal qual com os aeroportos, recuou na hora da negociação no Congresso. Lula não quis se indispor com a CUT e o sindicalismo de servidores, categoria que o presidente ampliou muito, e também muito aumentou os salários.
Hoje, o equivalente a 953 mil servidores federais aposentados e pensionistas consomem um déficit de R$ 56 bilhões — já os 28,1 milhões de aposentados pelo setor privado (INSS), consomem déficit de R$ 36,5 bilhões. Esta bisonha diferença começará a mudar quando o PL 1.992 for aprovado no Congresso. O projeto prevê a criação de um fundo de previdência complementar para os servidores. A aposentadoria daqueles que ingressarem no serviço público estará limitada pelo teto do INSS, hoje em R$ 3.691,00 por mês, como ocorre com todos os demais trabalhadores brasileiros. Se quiserem ganhar mais na aposentadoria, os servidores deverão contribuir para o fundo de pensão que será criado — e ainda terão o aporte do Tesouro Nacional, que vai entrar com até 8,5% do que o servidor contribuir com seu salário que superar o teto do INSS. O projeto tem regime de emergência constitucional e trava a pauta de votações na Câmara dos Deputados, onde o governo já costurou acordo pela aprovação. Dali vai ao Senado, onde terá 45 dias para ser votado. Dilma segurou as contratações de servidores públicos em 2011 e neste começo de 2012 justamente para evitar um rombo maior das contas públicas na Previdência — os concursos só serão retomados quando entrar em vigor o novo regime previdenciário.
Dilma é pragmática, e exige um crescimento mínimo de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB). Sabe que a economia não deve ter crescido isso em 2011 e sabe que será muito difícil bater em 4,5% ou 5% em 2012, como gostaria. Mas não aceita que 2012 seja mais fraco que 2011, e por isso cobra da equipe econômica medidas de estímulos. Ao mesmo tempo, não aceita negociar sobre o aperto nas despesas, e quer fazer um superávit primário forte em 2012 — como fez em 2011. Promete poupar R$ 139,8 bilhões neste ano para pagar os juros devidos por sua dívida — ela provavelmente vai entregar.
O que a equipe econômica ainda não sabe como fazer é compatibilizar mais estímulos à economia, para fazer o PIB crescer forte em 2012, com a exigência de poupar quase R$ 140 bilhões em gastos. Mas isso é problema dos economistas, pensa Dilma, que diz a pessoas próximas a ela que sim, é possível. Hoje, a Junta Orçamentária (criada pela presidente e formada pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil) discute duas possibilidades para amarrar as contas: um corte de R$ 61 bilhões em despesas do orçamento deste ano, de forma a guardar recursos para o superávit primário; ou um corte próximo a R$ 40 bilhões, inferior aos R$ 50,6 bilhões retidos do orçamento de 2011 em fevereiro do ano passado, que abririam caminho para mais investimentos públicos. A decisão sai na semana que vem, e será toda de Dilma.
Os juros vão cair. Dilma vê os juros brasileiros como uma anomalia, e sente que a sintonia recente do Ministério da Fazenda com o Banco Central é crucial para abrir espaço para novas reduções nos juros. Hoje, a taxa básica de juros é de 10,5% ao ano, mas o BC deve cortar os juros em mais 0,5 ponto percentual nas duas próximas reuniões, de março e abril, deixando o juro em 9,5% ao ano em maio. Deve chegar a 9% ou até menos, no final do ano. A mínima histórica foi 8,75% ao ano, entre o fim de 2009 e abril de 2010, quando a economia brasileira se recuperou fortemente da crise econômica mundial desencadeada pela falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.
Aí está, pensa Dilma, um dos principais caminhos para estimular a economia. Com juros menores, os recursos disponíveis para aplicações mais arriscadas, como ações, são maiores, o que vai estimular o caixa das empresas. Ao mesmo tempo, os bancos estarão mais dispostos a emprestar e as empresas, por verem juros menores, a investir.
Se os juros chegarem em 8,5% ao ano, algo que Dilma deseja, a caderneta de poupança terá de mudar. Ela sabe disso, e já cobrou o Ministério da Fazenda por uma reforma que torne a poupança menos rígida (desde 1940, quando foi criada, a caderneta de poupança, a mais popular modalidade de aplicação financeira dos brasileiros, paga 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial). A Fazenda estuda uma medida que extinguiria o rendimento de 0,5% ao mês (6,2% ao ano), substituindo pela Selic com um redutor de 20%.
Quando foi colocado diante dessa encruzilhada — da Selic em 8,75%, próximo ao limite — o então presidente Lula estudou introduzir o Imposto de Renda (IR) sobre as aplicações mais altas, mas não foi à frente porque não queria comprar uma briga impopular — mexer na caderneta de poupança, onde estão 106 milhões de brasileiros, é sempre sensível. Dilma já descartou o IR, mas vai reformar a poupança. Sabe que é o único jeito de abrir espaço para novas reduções da Selic.
O segundo semestre será melhor que o primeiro, fala-se muito aqui em Brasília. E 2013 será melhor que 2012, por sua vez superior a 2011. A única política a que se dá direito é esta: o Brasil precisa entregar uma boa Copa do Mundo em 2014 e, assim, abrir espaço para uma reeleição. Dilma é pragmática e sabe que quatro anos é muito pouco.
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Este texto foi anunciado aqui no Blog na quinta-feira, e foi publicado no Amálgama.
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